ONESHOT — Color of the moon
1 All about us
Houve um tempo em que as pessoas evitavam sentir. Ao invés de se doarem ao amor, doavam-se à solidão do vale sombrio. Mesmo o sol com a sua grandeza precisava diminuir-se para deixar a lua surgir, por que as pessoas não conseguiam fazer o mesmo? Abandonar a infelicidade e saber o valor de dar-se à alguém?
O mundo tornou-se um lugar frio e cruel. A dor mandou as cores embora. Todos tinham que lidar com a discórdia eminente.
Alheios tentavam mandar o bem que restava nos seres humanos para longe. Somente o amor verdadeiro entre duas almas seria capaz de restaurar a paz do mundo destruído. Afinal poderia ser uma regeneração da vida.
Tendo isso em mente, irei lhe contar uma história. Foi o amor que salvou o mundo.
As pessoas duvidavam até da sua própria sombra. E as cores do sol, das estrelas pareciam cada vez mais ofuscadas pela tristeza dentro dos corações angustiados que possuíam.
Entretanto, ainda existia aquele que ousava quebrar as regras, com um coração indomável e sangue fervente passeando pelas veias ressaltadas de fé. Morava em uma província distante e não era nada nobre. Muito pelo contrário, filho de um camponês que servia ao rei para manter suas terras, trabalho bruto e escravo, em outras palavras. Seu nome? James. Dono de cabelos castanhos enrolados. Olhos claros esverdeados e a pele tão pálida quanto as nuvens.
Seu pai havia ficado doente uma semana antes dos trabalhos na lavoura retornarem. Mas junto à isso o caos estava mais perto do que imaginavam, talvez fosse o fim, dessa vez. Guerra próxima, e graças à uma ameaça do Rei John II, um membro de cada família da província deveria se alistar como soldado. E caso nenhum representante aparecesse, ele mataria toda a linhagem do mesmo.
James estava perplexo ao saber da notícia. Conversava entrelinhas com a mãe que por algum motivo não aparente demonstrava calma mesmo sabendo que o filho poderia ser morto. — Vá ao quarto de seu pai e informe-o da notícia. — Ela disse em tom autoritário enquanto corria para o quintal na esperança de recolher as roupas antes que a chuva encharcasse. O rapaz se retirou do recinto e caminhou pelo corredor estreito que levava à última porta: o quarto do casal. Sem maiores delongas, bateu de leve e escutou a voz do pai assentindo sua entrada. — James. — O velhote disse quase sem forças.
— Pai, eu sinto muito. — Disse ofegante sem ter muitas palavras para prosseguir, mas mesmo assim continuou: — John anunciou que a guerra está próxima. E um membro de cada família deve se alistar para treinamento. Sei que já lutaste em outras guerras e que seria à ti uma ofensa não estar nessa... peço perdão. Mas o senhor não está em boas condições para ir desta vez. — O tom melodramático tomou conta de cada palavra e o pesar de James parecia imenso à cada suspiro que dava em meio as pausas de suas frases. — Jay, eu posso ir. — Ele reclamou se esforçando para levantar-se, mas em um baque caiu novamente na cama. Riu da situação deplorável que se encontrava e balançou com a cabeça positivamente. — Boa sorte, meu filho. Dê um beijo no teu velho. Pode ser que ele não esteja mais aqui quando voltar. — Ao pensar nisso, o estômago de James embrulhou. Perder seu pai lhe parecia a pior coisa do mundo, afinal, era. Aproximou-se do homenzinho de cabelos grisalhos e deixou um beijo carinhoso no rosto do mesmo. — Vejo o senhor em breve. Com a vitória nas mãos, assim como conquistaste por nosso povo. — Retribuiu ao sorriso calmo que o pai lhe dera.
A tarde passou rápido e quando o relógio mostrou 17:00 horas, sabia que era a hora de partir. Vestiu o antigo uniforme de guerra de seu pai e partiu deixando a mãe se afundando em poços de lágrimas na janela acenando. Tentando não ser sentimental, ele prosseguiu. Contudo, era quase impossível não se sentir abalado. Podia morrer. E aliás, com o pai doente em casa, sem prévia de melhora causava ainda mais angústia. Sem muita esperança em seus dias, adentrou o portão do majestoso castelo. Ao passar, percebeu que homens já estavam em fila única para agendar-se. Colocou-se ao final da mesma e aguardou. Uma jovem mulher, de cabelos muito lisos, longos, extremamente negros como o céu livre de estrelas, a pele pálida como a neve, os lábios vermelhos como o sangue, descia a escadaria e sem receio. Trajava um vestido preto com vários forros, rodado e cheio de rendas. Luvas de telinha cobriam seus braços esbranquiçados e quentes. Era Merliah, a filha do rei. Tão linda. Seu sorriso, para James, parecia o mais bonito de todos. Capaz de devastar mas também de curar as doenças mais profundas de uma infelicidade aparentemente eterna.
— Meu pai liberou a entrada dos senhores. — Anunciou abrindo a porta enorme, moldada à vidro e ouro. O alistamento ocorreu tranquilo e quartos foram concedidos para todos os presentes. No dia seguinte, os treinamentos começaram assim que o sol raiou. Ainda complexado com a beleza de Merliah, pedira durante a noite toda para vê-la novamente. Mas por que diabos uma princesa notaria a presença de um ingênuo filho de camponês? Eis aqui a questão.
— Formação, soldados. — Gritou o homem mais velho do local, oque assustou metade dos rapazes fazendo-os se prostrarem de forma rápida à sua frente. Todos pareciam ter encontrado rapidamente seu lugar, menos James, que agora estava extasiado com os passos da princesa na longinquidade. Ela estava mais bela do que na tarde anterior, mas ainda mantinha as vestes pretas. Parecia em luto pelas cores da vida. A guerra tinha acabado com tudo que se designe felicidade. — O senhor é? — Indagou ainda o homem baixinho que gritara anteriormente se dirigindo a James. — James Zirchen, meu senhor. — Respondeu em meio à uma gagueira sem fim. — Precisa de um mapa para se posicionar? Estava olhando Merliah, não? Muito bonita mesmo. — Ele continuou o questionário ao rapaz que logo se adiantou para o lado dos outros. "Então o nome dela é Merliah", pensou. Treinar nunca lhe pareceu tão duro mas a noite caía e com ela, o descanso de um dia infeliz. Sem notícias do pai, James caminhava para o castelo em prol de se deitar e descansar mas acabou se deparando com a princesa no meio do caminho.
— Perdoe-me, madame. — Desculpou-se um tanto quanto nervoso. — Eu deveria pedir desculpas. Estava muito distraída. — Ela sorriu e ele contemplou a beleza dos lábios vivos da mesma. — O que faz fora do castelo à essa hora, senhorita? — Perguntou de forma que não parecesse intrometido. Merliah riu do comentário de preocupação do rapaz. — Vim tomar um ar. Eu desejo para esta noite, tempo. — Respondeu em alto e bom tom. E esse pequeno diálogo foi o suficiente para que os dois continuassem conversando até as cinco horas da manhã observando as estrelas no gramado. O mais engraçado é que não havia lua nesse céu. Somente os pequenos astros luminosos. Falaram sobre os mais diversos assuntos. Os dias passavam voando, e a guerra cada vez mais próxima. Curiosamente, continuavam se encontrando durante as noites. Merliah via-se completamente apaixonada por James. E vice-versa. O problema é que jamais poderiam ficar juntos. Mesmo sabendo disso, durante as manhãs frias de inverno, a mulher derramava suas lágrimas no rio pedindo aos deuses que iluminassem esse amor.
Mais um mês se passou e por fim, a guerra chegou. Homens atacavam de um lado, e outros defendiam. As estratégias eram as piores. Os mais nobres estavam trancados no castelo, onde a princesa também deveria estar, mas felizmente (ou infelizmente) não estava. Sangue inocente derramado no chão e corpos imóveis sem vida também. Canhões para todos os lados e todo o tipo de equipamento para destruição. James carregava consigo espadas e adagas, pois se dava melhor corpo à corpo nesse quesito. — James... — Ele ouviu uma voz mas aparentava estar sonhando graças às noites em claro. Notou uma presença distinta atrás do arbusto. — Liah, o que faz aqui? — Indagou mas foi interrompido com uma cena traumatizante. Aos prantos James acolheu Merliah em um abraço forte o suficiente para sentir o calor de seu corpo e a ofegante respiração em meio as lágrimas que molhavam seu uniforme.
— Eu vou ganhar isso por nós. E por fim, fugiremos, Merliah, ouça. Não precisa chorar. Estarei aqui quando tudo acabar. Você pode contar comigo. Volte para o castelo. — James sussurrava ao acariciar os cabelos negros da mesma. Seria esse, um amor trágico com um fim doentio? Ou um conto de fadas que no fim tudo dá certo?
— Por favor, não vá! Eu não posso mais viver sem você, James. — Ele a olhou em seus olhos de mel. Infeliz, não sabia o que responder. Grudou os dedos gélidos no rosto de sua amada, puxando-a para um beijo lento e molhado graças à dor em líquido que se despejava involuntariamente dos olhos da mesma. — Eu te amo, Liah. — Murmurou em meio as pausas. — Mas volte para o castelo, por favor. É imprudente continuar aqui. — Pressentia o pior caso fossem pegos ali em um momento dramatizante. Ambos com os olhos fechados foram surpreendidos por uma terceira voz no local. — Ora, ora. Um casal apaixonado, não? — Indagou uma mulher com a aparência terrível ao lado de um homem muito forte e tórax machucado. — Veja, Emmanuel. Teremos um fim dramático para esses dois. — Riu irônica ao apanhar uma adaga média. — Peguem ela. — Gritou aos capangas que com dificuldade arrancaram-na dos braços de James que gritava enfurecido "solte-a, solte-a, levem à mim", ele dizia. — É ela que nós queremos. A filhinha do rei. — Respondeu Emmanuel com um sorrisinho drástico de canto nos lábios sujos de sangue. Amarraram James com o máximo de força que podiam.
— Veja sua amada morrer diante de seus olhos. — Anunciou Helena enquanto enfiava a adaga na perna de Merliah fazendo-a urrar de dor. A infelicidade, ódio, tristeza brotava no coração rancoroso de James que gritava acompanhando. Sua raiva era evidente na voz, que já rouca, vociferava coisas.
— Por favor, não... — Suplicou Merliah. Mas nesse instante, uma espada perfurou seu coração. O coração puro que foi capaz de amar em meio à tanta traição. Já James, perdera ali a melhor fragmentação de sua alma, porque a alma não poderia aguentar tanta dor. A dor de perder aquilo que demorara para construir. Mas dizem que o amor constrói pontes indestrutíveis. Entretanto, amar é isso. Dar direito à alguém de lhe ferir e pensar que jamais iria acontecer. Aconteceu. Uma luz brilhante começou a surgir. Todos pararam para assistir, todos mesmo. A guerra parou para ver a luzinha que pairava em cima do corpo de Merliah. Aparentemente, sua alma desprendendo de seu corpo e correndo como uma estrela cadente para o céu. Nesse momento, uma bolinha brilhante surgiu para completar as estrelas no céu. A lua. A lua era Merliah. Sua alma, seu espírito. Como resposta dos deuses às suas preces antes de morrer, tornara-a imortal para que observasse o triunfo de James. E quando este morresse, ambos poderiam reencarnar como astros no céu.
As luzes voltaram a dominar. O clarão. O barulho ensurdecedor cessou. A paz comoveu os corações revoltosos e todos largaram suas armas, caindo no chão em meio a choro forte. James, extasiado com o acontecimento, observou a lua. Linda como Merliah, pálida como era. Todos os dias, até o fim de sua vida trágica, James observava à lua em frente ao mesmo lago que sua amada derramara suas lágrimas na esperança de que os deuses o ouvissem também, e o levasse para junto dela.
E mais uma vez, o amor ganhou o jogo. Trouxe de volta a felicidade e restaurou aquilo que foi esmagado pela falta de esperança.
Até hoje, a lua ilumina os amantes. A estrela ao lado dela, James. E outros milhares de casais que foram anteriormente ouvidos por Zeus.
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