ONE SHORT - O último adeus
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Uma semana atrás…
—Querida, pode entrar. -A enfermeira sorri triste para mim.
Ergo-me da cadeira, sentindo as minhas pernas bambas e o meu coração pulsar como se estivesse cantando a sua própria canção de adeus para o coração de Tobias.
Os meus pais estavam abraçados apertados em volta de Tobias, dando o seu último adeus.
Eu não estava preparada para abraçá-lo pela última vez, não estava preparada para despentear o seu topete pela última vez, não estava preparada para rir das suas piadas idiotas pela última vez, e não estava preparada para o meu adeus.
Eu só queria me envolver ao seu redor e me afundar em um casulo quentinho onde ninguém poderia tirá-lo de mim. Mas, a vida era mais do que nossos desejos, ela era os nossos pesadelos também.
Deus em sua infinita sabedoria nos deu Tobias por algum tempo. Nós o amamos a cada segundos de nossas vidas, porque ele era o nosso anjo particular. Enviado para nos consertar das nossas loucuras infinitas. E, agora, ele estava partindo. Para sempre.
Tobias sorri o mais largo que os cantos da sua boca conseguiam alcançar. Por mais que eu quisesse odiá-lo por seu maldito coração ser grande demais para o seu pequeno corpo, ainda assim sorri de volta.
—Ah, qual é! Você não pode me odiar pra sempre.
—Cala a boca, idiota. Eu tô tentando não chorar. -Resmungo, sentando na cama.
Ele enrolou a sua mão na minha. Nós nunca fomos irmãos muito afeiçoados um pelo outro, ou que conversam sobre os nossos sentimentos. Mas, a nossa conversa era melhor do que a de qualquer irmão. Nós simplesmente sabíamos quando o outro estava mal. Não era preciso palavras, nem troca de olhares. E, no final, sempre fazíamos algo para o outro rir.
—Eu não estou pronta. -Confesso em voz baixa.
—Você disse que estaria.
—Eu menti. -Ergui o olhar e quase desmoronei quando vi lágrimas grossas se acumularem nos cantos dos seus olhos verdes.
—Eu nunca vou te deixar.
—Mas, você está nos deixando pra sempre -afirmo, negando com a cabeça suavemente quando ele abriu a boca para contestar. -Mas, tudo bem. Porque, você sempre vai estar bem aqui, e por isso eu sei que nunca uma parte sua vai partir.
Aponto para o meu coração e um soluço seco escapa dos seus lábios.
Era a primeira vez que eu via Tobias chorar.
—Cassie?
—O que?
—Eu te amo.
Aceno bobamente, sem conseguir pronunciar que também o amava.
—Cassie?
—O que?-Falei soando grossa, porque ele sempre me fazia perguntas bobas me chamando pelo nome.
Ele rir levemente. Mas, depois sua expressão se torna serena.
—Canta pra mim.
E, então, eu cantei como nunca havia cantado antes.
Eu cantei a canção de Tobias. “
—Você não precisa fazer isso se não quiser.
Lucca aperta forte o meu pulso me detendo antes de subir na escadinha que levava até o palco improvisado no meio da quadra.
—É o meu último adeus para o Tobias.
Ele exala uma respiração profunda e afrouxa o aperto de ferro em meu pulso.
—Até mesmo depois de partir, Tobias consegue ser um mandão -brinca, inclinando-se para depositar um beijo casto na minha bochecha corada. -Ele vai sentir orgulho de você.
—Obrigado.
Subo em direção ao microfone onde a diretora me esperava. Ela sorri reconfortante para mim, quando me posiciono, segurando o violão como um escudo.
Levanto o olhar em direção às arquibancadas lotadas. Tobias sempre foi muito querido entre todos da nossa escola, aquela era a sua última homenagem para um último adeus.
Ele dizia brincando que o dia em que eu superasse a minha timidez seria o dia em que ele realmente poderia partir em paz. Eu não estava pronta para deixá-lo partir dos meus pensamentos tristes. Mas, eu precisava.
—Tobias nunca quis que houvesse choros e tristeza quando morresse. Na verdade, ele sempre quis que tocasse We are the champions no seu enterro porque ele dizia que era uma boa música para se dançar -alguns riem e outros choram um pouco mais. -Ele também sempre quis que a sua irmã cantasse a sua música preferida porque ele dizia que essa música o fazia se sentir vivo e capaz de ser mais do que a cadeira de rodas dele o permitia. Mas, na época eu não acreditava em um Deus, porque eu não conseguia acreditar que ele tiraria de mim a única pessoa que realmente me completava.
Deixo minha respiração sair aos poucos, contendo as lágrimas.
—Mas, agora, eu entendo que não devemos chorar por sua partida. Mas, sim agradecer porque Deus nos permitiu que Tobias entrasse em nossas vidas e nos fizesse mais felizes a cada dia. Ou mais azarados -comento no final, ouvindo as risadas de alguns. -Então, essa é pra você Tobias.
Toquei os acordes suaves da música Simple Gospel, fechando os olhos. Sentindo a suavidade da canção penetrar em minha alma. E, quando cantei a primeira frase, eu senti que derramava todas as minhas emoções em cada palavra. A minha essência era aquela música. Eu podia senti-lo comigo, cantando junto comigo a sua última música.
Então, eu entendi pela primeira vez Tobias. Olhando além daquele palco, olhando para aquelas pessoas cantando junto, eu podia me sentir viva e livre das amarras que eu havia colocado a mim mesma. A beleza de tudo era que no final, eu podia ir além do que eu impunha a mim durante a minha vida toda.
Eu podia sentir a dor da perda suavizar e se transformar em algo leve, quase em um sussurro contra a minha pele. E, quando a canção chegou ao final, e eu olhei para frente. Eu podia vê-lo sorrindo para mim em toda a plenitude do seu sorriso, acenando seu último adeus.
E, eu sorri de volta, porque aquele foi o momento em que a minha vida realmente havia começado.
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