A grama ali nunca estivera tão seca. As folhas das árvores ficaram amarelas ao ponto de se esfarelarem com a menor brisa. Um tronco inclinado foi perdendo sua vitalidade até quebrar no meio como um graveto, derrubando sua copa esquelética contra o chão num grave ruído. Um pássaro passou voando por ali e foi perdendo altura até cair inerte na terra árida.

Kevin tentava se desvencilhar do aperto de Gwen. Tentou manter olhos e boca fechados, mas no desespero de obter ar acabou abrindo-os e, desde então, sentia que algo escapava de si como num suspiro. Sua visão estava enevoada e sem cor, mas era capaz de perceber o brilho intenso que emanava dos olhos de sua algoz.

Ouviu então por dentre as árvores uma voz que entoou:

― Vürkthera!

Um grosso feixe de luz violeta atravessou de um lado a outro seu campo de visão, envolvendo sua amiga. Kevin caiu sentado no chão assim que se libertou da mão de Gwen.

A garota anodita fora arremessada em direção às árvores sem vida, atravessando troncos como se fossem colunas de papelão, até que finalmente suas costas bateram contra uma rocha fincada num barranco de terra. Ela caiu no chão inerte.

Kevin olhou para sua esquerda e viu uma pequena nuvem roxa flutuar parada por entre as árvores. A nuvem começou a se esticar para cima e em direção ao solo, até adquirir o comprimento de um adulto médio. De dentro da nuvem surgiu a figura prepotente de Encantriz, em posse de sua bolsa e o cajado de seu tio Hex.

― Eu interrompi a conversa de vocês? – perguntou a feiticeira.

― O qu- ― Kevin tossiu e massageou a garganta, então continuou numa voz ligeiramente rouca – O que você está fazendo aqui?

― Parece que salvando você... – Encantriz encarou Kevin de cima – Embora eu já esteja me arrependendo.

Kevin levantou-se cambaleante e apoiou-se numa árvore seca. Olhou para a trilha de destruição que o corpo arremessado de Gwen fez na floresta, em seguida, encarou Encantriz e disse:

― Se acha que vou deixar você fazer algo contra a Gwen voc-

― Ai, para de ser enjoado, moleque! – Encantriz balançou a mão no ar como que se rebatesse algo com o dorso de sua mão – Você não está em condição de proteger nem a você mesmo.

Kevin franziu o cenho e fez um som de estalo com a língua nos dentes.

― Vamos, me fala, quem foi o responsável pelas explosões? – disse Encantriz. – Foi a Gwen?

― Não, foi o Albedo.

Encantriz encarou o fundo da trilha, Gwen começava a se levantar. Então, perguntou:

― E o que houve com ela?

― Ela protegeu a cidade da segunda explosão, mas parece que perdeu o controle depois disso.

― Entendi. Tem certeza que ainda precisamos dela para resolver o problema do Albedo?

― Não vou nem te responder.

Um som agudo cortou o ar, fazendo Kevin e Encantriz olhar para o céu por entre os galhos. Três naves encanadoras passaram veloz em direção ao centro da explosão.

De repente, um toque de celular veio de dentro da bolsa de Encantriz.

― Mas que droga! ― Ela abre a bolsa, pega o celular e olha o número na tela.

― Como você tem sinal? ― perguntou Kevin.

― Isso importa?

― Mas é claro! Se tivéssemos sinal já teríamos pedido reforços há tempos!

Encantriz olhou Kevin de canto com indiferença, voltou a encarar seu celular e então disse:

― Esse rato miserável, eu mato quem passou meu número para ele! Aí, moleque!

Kevin é surpreendido com o celular sendo arremessado em sua direção. Por muito pouco ele não o deixa cair.

― Atende aí e explica pra eles o que está acontecendo. ― Encantriz começou a se afastar de Kevin, rumo à Gwen que tinha se levantado e agora vinha na direção oposta. Um sorriso cresceu os lábios da feiticeira ― Eu seguro ela.

Kevin não reconheceu o número, colocou o celular no ouvido e disse um alô desconfiado. Escutou uma voz malandra responder:

― Essa voz... Kevin, meu chapa, há quanto tempo!?

◇───────◇───────◇

O som da primeira explosão havia chegado até a biblioteca mágica de Hex.

Encantriz levantou-se assustada de sua cadeira e olhou para os arredores.

― Mas o que foi isso!?

A feiticeira caminhou a passos acelerados por entre as estantes, com o objetivo de chegar ao seu quarto. Ali poderia ter acesso a fontes de informação que pudessem explicar o que fora o som: sua bola de cristal, que permitia ver qualquer lugar do mundo ao simples ecoar de seu comando, e sua televisão, que também tinha comando de voz.

Abriu a porta do quarto e aproximava-se do pedestal com a esfera quando novamente o som atingiu a biblioteca, só que dessa vez, um poderoso tremor o acompanhou, fazendo livros caírem de suas prateleiras e o enorme lustre balançar em pleno ar. A feiticeira até tentou, mas a bola de cristal rodou de cima de sua base, escapou-lhe por entre os dedos e estilhaçou-se sobre o piso frio.

― Mas que droga!

As luzes piscaram duas vezes até que por fim se apagaram, deixando a biblioteca numa profunda escuridão.

― O que raios está acontecendo!?

Encantriz saiu de seu aposento e virou-se em direção a um candelabro fixado na parede ao lado da porta de seu quarto. Lambeu as pontas de seu polegar e indicador e fechou-os por sobre o pavio apagado de uma das velas do candelabro.

Lux esparsa.

O pavio se acendeu, em seguida, as demais velas do candelabro iluminaram-se, sendo então acompanhadas por todos os candelabros da biblioteca que passaram a irradiar suas tremeluzentes luzes.

E então veio um novo som. Não foi uma explosão, nem ruído, nem tremor. Seu tio Hex havia contado sobre a existência dele. Um som metálico e musical da inexistente torre da biblioteca. Seu soar significava apenas uma coisa: a biblioteca corre o risco de perecer para um perigo eminente. Talvez por isso que seu som lembre tanto um presságio de desgraça:

Nadabom... Nadabom...

Encantriz estava com medo.

Nadabom...

A biblioteca de seu tio era o lugar mais seguro que conhecia.

Nadabom...

Se até aquele lugar ruísse, não haveria chance alguma de sobrevivência.

Nadabom...

Mas o que ela poderia fazer?

Nadabom...

O toque de seu celular quase foi suprimido pelo soar do sino. Pegou-o de dentro de sua bolsa. Encarou a tela com o número desconhecido. No canto superior direito, notou a total falta de sinal de celular.

Nadabom...

Levou o celular ao ouvido e disse:

― A-alô?

― Encantriz, minha chapa, há quanto tempo!?

◇───────◇───────◇

Encantriz e Gwen iam se aproximando uma da outra ao melhor estilo duelo de faroeste.

A anodita respirava de forma rápida; sua musculatura tensa inclinando-a para a frente; seus passos começaram a acelerar até estar correndo.

A feiticeira abriu sua bolsa e tirou de lá duas pequenas esferas. Lançou-as contra o chão à sua frente e entoou:

Silicus Milez Sasitatio!

Dois enormes golens de pedra cresceram a partir das esferas e posicionaram-se em defesa contra o avanço de Gwen.

A garota encontrava-se a cerca de três metros das criaturas, quando saltou, colocou uma de suas mãos por sobre a cabeça do golem da direita e a puxou, fazendo-a cair de costas contra o chão.

Encantriz pulou para trás, seu cajado e seu braço esquerdo fazendo um xis em frente ao rosto para protegê-lo da poeira que se ergueu.

Gwen cravou os dedos na cabeça da criatura e em questão de instantes sugou toda a mana que mantinha a estrutura de pedra viva. A segunda criatura girou seu braço para trás, atingindo a garota em cheio no tórax e abdome, arremessando-a novamente em direção às árvores.

― Excelente! ― disse Encantriz ― Agora, vamos, antes que ela se levante!

Encantriz teve o súbito sentimento de algo vir em sua direção. Apontou seu cajado à frente de seu corpo e disse:

― Amplusmica!

O tronco de árvore arremessado transformou-se em inúmeras pétalas amarelas e espalhou-se pelo ar e no chão árido da floresta. Embora não tenha recebido dano, Encantriz sentiu sua visão bastante prejudicada pelas flores.

― Vai precisar de mais do que isso para me derrotar, Gwen...

Encantriz suspendeu sua provocação ao perceber que seu segundo golem começava a se desfazer, abrindo caminho para a figura de Gwen visível por entre os pedaços de rocha sem mana.

O olhar da garota era impiedoso. A natureza ao seu redor perdia cada vez mais sua essência, tornando-se acinzentada e árida.

― Sua garota miserável... ― Encantriz recuou um passo.

Como um predador, Gwen novamente avançou. Encantriz ergueu um escudo no último instante, fazendo a garota chocar-se contra a superfície semitransparente. Gwen sentiu o impacto e não mais avançou. Parou.

Encantriz mantinha o cajado erguido com sua mão esquerda, mantendo o escudo ao seu redor. Sua mão direita fora levada à bolsa e vasculhava seus pertences.

Gwen levantou seu braço esquerdo e apoiou a palma de sua mão na barreira. No mesmo instante, o escudo estilhaçou-se, seus pedaços paralisados em pleno ar. Aos poucos os pedaços de barreira foram se desfazendo numa névoa violeta e voaram rumo à palma erguida de Gwen.

Com o romper da barreira, Encantriz saltou para o lado e girou no solo numa cambalhota. Novamente levou a mão à bolsa e finalmente conseguiu encontrar o que desejava.

Multiplicet obiecti

A feiticeira lançou para o alto uma pequena estatueta que lembrava um cachorro com cabeça de formiga revestindo-se de uma luz alaranjada. O pequeno objeto vibrou em pleno ar e tornou-se dois, depois quatro, oito, dezesseis e assim foi, até atingir a marca de cerca de sessenta estatuetas espalhadas ao redor de Gwen e Encantriz.

A garota manteve-se impassível, como se nada houvera acontecido. A feiticeira por sua vez, não hesitou em continuar seu plano:

Silicus Milez Sasitatio!

Uma a uma as estatuetas foram se transformando um golens quadrúpedes do tamanho de lobos e avançando em direção à Gwen. Seus dentes de pedra não eram capazes de ferir a pele anodita da garota, mas suas cabeçadas a faziam desequilibrar-se.

Gwen tentava agarrar as criaturas. Quando conseguia, em segundos o golem era transformado em pedaços de rocha inútil, espalhando-se ao redor da garota.

Isso, garota idiota, continue... ― pensou Encantriz.

Um a um os golens eram agarrados e sugados de sua força vital, transformando-se em pedregulhos. Encantriz mantinha-se atenta às ações de Gwen. De repente, ouviu atrás de si sons de passos acompanhados de uma voz feminina dizer:

― O que você está fazendo!?

Encantriz encarou a jovem loira de mochila nas costas e estalou a língua nos dentes.

― Depende, se você gosta dela, estou tentando salvá-la. Se você assim como eu a detesta, estou tentando dar um fim nela...

A jovem jogou a mochila no chão e cerrou os punhos. Suas mãos trajavam luvas sem dedos. Por fim, ela disse:

― Não vou deixar você machucar a Gwen. Gorilla beringei.

Uma luz verde escapou por entre os dedos das mãos da garota e subitamente se apagaram. A jovem abriu a boca, mostrando perigosas presas, e então avançou a saltos rápidos, com seus braços erguidos por sobre a cabeça.

Encantriz tentou se virar mas a aproximação da jovem era rápida demais. Isso que dava tentar ajudar alguém, pensou.

Subitamente seu campo de visão foi invadido pelas costas de um jovem de braços abertos que gritava:

― Eunice, pare!

A jovem loira abaixou os braços e freou com dificuldade, tropeçando e sendo aparada por Kevin.

― Kevin? ― disse Eunice ― Por que me impediu? Ela está machucando a Gwen.

Kevin encarou Encantriz por sobre o ombro e disse:

― Eu realmente espero que não.

Encantriz ignorou a tentativa de intimidação e com um olhar de desprezo disse:

― Ah, não sejam ridículos! ― Encantriz voltou a atenção para Gwen. Agora apenas vinte e três golens mantinham-se vivos ― Fale isso para os meus golens destroçados pelo chão!

Kevin e Eunice encararam Gwen com espanto. A garota esmagava as criaturas como insetos, sugando sua energia e deixando um tapete de pedras ao seu redor.

― O Magistrado Tennyson me mandou aqui para tentar ajudar a Gwen ― disse Eunice.

― Mas como?

Eunice foi correndo em direção a sua mochila, apoiou-a por sobre um ombro e voltou remexendo os objetos dentro dela.

― Aqui, segure pra mim ― ela colocou algumas rochas brilhantes do tamanho de ovos nas mãos de Kevin ― Eu ia tentar dar um acabamento nelas, mas o Magistrado Tennyson disse que não era preciso...

Encantriz ficou impressionada ao ver as rochas trazidas por Eunice. Diamante Firrdene, Rubelita Bulvariano, Berilos Caland’ere, Âmbar de Turkninomer, entre outras que ela nem sabia dizer o nome. A capacidade energética desses minérios era algo fora do normal. Utilizá-las seria como ligar um microondas direto numa usina nuclear!

― Onde você conseguiu isso? ― perguntou Encantriz

Eunice encarou a feiticeira com desconfiança e colocou as mãos por sobre as rochas para impedi-la de vê-las.

― E o que a gente faz com isso? ― perguntou Kevin.

― O Magistrado disse para fazer a Gwen absorver a energia delas, mas... ― Eunice inclinou a cabeça para olhar a garota atrás de Kevin.

― Se você tentar se aproximar dela com isso ― disse Encantriz apontando para as pedras ― Você vai ser absorvida junta.

― O que a gente faz então? ― perguntou Kevin.

― Me dê esse diamante Firrdene.

― Sem chance! ― disse Kevin.

― Moleque, se eu quisesse eu já tinha roubado isso de vocês e sumido daqui, agora anda!

Kevin olhou para Eunice e acenou uma afirmativa com a cabeça. A garota loira pegou um dos diamantes e entregou à feiticeira.

― Viu, não foi difícil ― Encantriz sentiu uma onda de energia preencher seu corpo no instante que segurou o diamante firme em sua mão. ― Na hora que eu der o sinal, vocês se aproximam e colocam as pedras ao redor da adolescente rebelde ali.

Gwen acabara de destruir o último golem.

― Como é? E como a gente vai se aproxi-

Petrus movidius! ― Encantriz ignorou Kevin.

O tapete de pedras ao redor de Gwen começou a vibrar levemente, aos poucos as rochas começaram a levitar. Gwen ao perceber que algo ia acontecer partiu em direção à Encantriz por entre as rochas. Deu três passos antes que a pedras aglomerassem todas entre si, envolvendo a garota anodita numa esfera sólida.

― Agora! ― gritou Encantriz.

Kevin e Eunice partiram correndo e um a um foram fincando os minérios na superfície da esfera de pedra. Um som oco começou a ser ouvido de dentro do envoltório, como se alguém o estivesse socando. Mesmo assim, os dois jovens continuavam sua tarefa.

Assim que terminaram, foram se afastando de costas, observando o que iria acontecer. Os sons ocos ficavam cada vez mais intensos.

― Vamos, Gwen... ― disse Kevin.

Anda, garota idiota... ― pensou Encantriz.

Os minérios brilhavam à luz do sol. A esfera tremia a cada som oco. E então as rochas de energia foram perdendo seus brilhos. Os socos foram diminuindo a frequência, pouco a pouco, até restar apenas silêncio na floresta morta.

― E agora? ― perguntou Eunice.

― Se você quiser ir conferir, fique à vontade ― disse Encantriz.

Kevin caminhou a passos lentos rumo a esfera. De repente, uma pequena rachadura surgiu na superfície do invólucro de pedra. Outra rachadura, dessa vez acompanhada de uma luz rósea vindo de dentro da fissura. Outra ruptura, mais outra, mais outra, até que finalmente a esfera explodiu em mil pedacinhos, restando apenas uma bola de luz.

Os três levam a mão à frente do rosto para se protegerem da luminosidade. Kevin que estava mais próximo, viu um vulto presente no centro do brilho. A luz começou a enfraquecer e o jovem percebeu que a figura de Gwen tornava-se cada vez mais nítida. No entanto, sua pele ainda mantinha as máculas da existência anodita.

― Gwen? ― perguntou ele.

A garota estava sentada, com suas pernas dobradas de lado. Seu braço esquerdo apoiado no solo arenoso. Sua cabeça mantinha-se baixa.

Gwen percebeu a aproximação de alguém. Sua mente tentava processar as últimas memórias de quando perdeu o controle. Aos poucos, levantou a cabeça e olhou para o rosto do jovem que estava de pé à sua frente. Havia medo nos olhos dele.

― Me desculpe, Kevin ― disse Gwen, as lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto ― Eu juro que eu não queria...

Kevin ajoelhou-se, envolveu a garota num forte abraço e disse:

― Eu sou a última pessoa que pode te julgar, Gwen. Pois todos nós temos um lado que lutamos para manter sob controle.