OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.

1 "Onde quer que esteja, este é o ponto de partida". Kabir.


Apoiando os cotovelos na mesa rústica, Muriel cobria o rosto com as mãos. Sua respiração era suave, mas os suspiros denunciavam a angústia dos conflitos radicados. Ergueu o rosto e mirou o pêndulo do antigo relógio carrilhão entre as estantes da velha biblioteca. O local não era acolhedor, mas a umidade, a poeira e a pouca iluminação não incomodavam, pelo contrário, este era seu lugar preferido no mosteiro, um refúgio para ouvir sua voz interior e talvez falar com seu demônio pessoal.

— Demônio pessoal... Deus o conhece? – Pensou baixando o olhar. – Seria pecado conversar com o Mal? Mas o que é o Mal? E se ele está em mim, como a alma pode ser o templo de Deus? Não... ELE não ficaria numa casa imunda. Talvez Sua reprovação explique esse abismo na minha vida, essa “mudança”... Não pode ser um milagre, a vida ao meu redor definhando, morrendo... Não posso mais ficar aqui...

De repente Muriel notou alguém se aproximar. Agitou a cabeça tentando dissipar a angústia e viu sua melhor amiga, Giordana, a única interna que sabia desse refúgio.

— Muriel, – ela falou num tom maternal recostando à mesa rústica – pode tentar esconder o que sente, mas seu rosto não disfarça tão rápido. É por causa do que me contou, do seu passado? Ainda sem lembrança? Ou aconteceu aquilo outra vez?

— Acho que não tenho um passado, Giordana. – Muriel encarou a amiga com um olhar pesaroso. – Na minha memória só há escuridão, uma nevoa sombria tão densa como a treva da Criação. – A amiga fez uma careta preocupada com o drama. – Aconteceu mais uma vez, sim. – Suspirou e uma lágrima solitária rolou pela face de ébano.

— Quer me contar? Talvez seu mal-estar diminua.

— Obrigada por ouvir, mas este fardo continuará enquanto eu não tiver respostas. Aconteceu outra vez, na estufa. Estava tão bem, me sentia em paz com as flores, pensando na Imaculada coberta com um manto de lírios... Então elas escureceram e as pétalas caíram, apodrecidas! – Outra lágrima escorreu seguindo o caminho da primeira.

— Muriel, é natural que as flores murchem nessa época do ano. Acho que você...

— A estufa, Giordana! A estufa inteira! As flores morreram por minha causa, pela minha presença! Muriel começou a chorar liberando o sofrimento contido em seu equilíbrio. Seu corpo foi descendo lentamente sobre a mesa enquanto Giordana escorava seus ombros. Desta vez a amiga preferiu apenas o silêncio e o conforto da sua companhia...

O tempo passou e quando Muriel se recompôs, percebeu que Giordana saíra da biblioteca. Respeitando o horário do almoço, ela também deixou o retiro. Comeu pouco; não percebia, mas sua fome diminuía a cada dia.

Voltando ao quarto não viu Giordana. Olhou o próprio leito e lembrou o sonho que tivera há algum tempo: seu corpo insólito sendo tragado pela cama enquanto tentava agarrar-se desesperadamente à cabeceira com as mãos incapazes de tocá-la; atravessava o chão e imergia num horror turvo; nada podia aparar seu corpo afundando na terra; tentava gritar temendo chegar ao inferno, então acordava. Muriel segurou forte seu terço e rezou antes de deitar. Adormeceu rápido, um sono de fuga, pesado, sem quimeras.

Acordou percebendo o atraso para o trabalho na horta. Boa parte do alimento era cultivada pelos próprios residentes do mosteiro. Chegando com pá, ancinho e avental, sua empatia foi aguçada pela hostilidade das internas que de vez em quando a perseguiam. Sabia que sua estadia no mosteiro, sua negritude e a predileção de madre Helga provocava a intolerância de Úrsula e seu grupo.

Seguiu para recolher as folhas secas e os detritos da colheita recente. Muriel não apreciava o trabalho braçal, o sol e o suor incomodavam. Preferia recolher-se no quarto ou na velha biblioteca para estudar, mas tentava cumprir suas tarefas com eficiência. Achegando-se à freira anciã de óculo sobre o nariz espaçoso e quadril avantajado, esperou madre Helga começar uma conversa como sempre acontecia.

— Boa tarde, Muriel. Percebo que meditou bastante enquanto dormia.

— Desculpe-me, madre. O cansaço me venceu. Não tenho dormido o suficiente.

— Ou você tem passado muito tempo com os livros ou aqueles pesadelos voltaram, não é? Do que se trata?

Muriel sorriu com sua perspicácia. A conversa chamou a atenção de Úrsula que lançava um olhar perverso enquanto cochichava malícias com as cúmplices.

— As duas coisas. Tenho estudado mais. Terminei “Confissões” de Santo Agostinho e vou examinar as obras de São Tomás de Aquino. Estou interessada nos seus apontamentos sobre metafísica.

— “Metafísica”, Muriel?! Não vejo razão para explorar esta – hesitou – ciência. A Palavra Sagrada pode fornecer respostas confiáveis para qualquer dúvida.

— Mas, madre, se Tomás de Aquino foi um santo, não deveríamos ao menos conhecer suas ideias sobre o assunto? O tratado de um santo não pode ser considerado heresia, pode?

— Ora, mocinha! – A freira atrapalhou-se com sua ferramenta deixando-a cair. – Não seja petulante comigo! Lembre-se da passagem na carta de São Paulo aos Coríntios: “O conhecimento enfuna, mas o amor edifica”.

— Na Primeira aos Coríntios, capítulo 08, versículo 01, eu sei. Gosto dessa passagem, mas prefiro os ensinamentos do Salvador: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, por São João, capítulo 08, versículo 12, ou “... persisti em buscar, e achareis...”, por São Lucas, capítulo 11, versículo 09. Não posso ignorar a amnésia, a falta do meu passado. Sinto que há tanta coisa envolvida! Preciso de respostas!

— Ah, Muriel, você tem a obstinação de São Pedro... Então, minha querida, peça sabedoria ao Espírito Santo e reflita sobre sua missão. Não vou interferir no seu caminho. Se for a vontade de Deus, você pode deixar o mosteiro do mesmo jeito que chegou, subitamente. E que o Senhor e todos os Santos abençoem você.

Muriel pensou no dia quando foi encontrada vagando pelo mosteiro. Há três anos era pouco mais que uma criança e estava completamente perdida. Sem nome, sem família, sem rumo... Olhando para a mulher que a acolheu, que escolheu chamá-la "Muriel", percebeu que ela era a figura mais parecida com sua mãe idealizada. – Mãe... Como seria ter o amor da minha mãe? É pecado, madre, desejar mais o amor de uma desconhecida que o amor da mãe de Deus?

A freira respirou fundo avaliando o momento inadiável... Deixou sua pá no carrinho e limpando a mão no avental pediu que Muriel a seguisse. Úrsula fitou-as com um sorriso maldoso e balançou a cabeça em reprovação. Muriel ignorou o gesto e acompanhou a madre até a capela remota com uma pequena torre sineira, erguida com blocos irregulares de pedra branca manchada. Lá jaziam Os Dois Forantos, os sacerdotes que, segundo a história, deixaram-se possuir para aprisionar os Demônios-Augúrios, eternamente. As duas fizeram o sinal da cruz e a reverência perante o altar sagrado. Então a freira retirou do hábito um pequeno camafeu adornado com lírios.

— O que é isso, madre? – Muriel perguntou surpresa.

— Isto veio com você, minha filha, enrolado à sua mão. Pegue e abra.

O corpo de Muriel estremeceu, misturando ansiedade e temor. O coração acelerado batia como os tambores de um antigo exército. Sua mão trêmula hesitou como se devesse pegar uma serpente. Então agarrou o objeto e ao abri-lo viu a face elegante de uma mulher negra, nem tão jovem, mas de pele irretocável. Sua fé sabia o que isto significava. Seus gestos tentavam exprimir em vão os sentimentos, seu rosto não conseguia expressar a legião de emoções.

— Sim, minha filha, isso mesmo. Agora vá e reflita sobre o seu futuro.

Muriel deixou a Capela dos Forantos e continuou andando, tentando se acalmar e ordenar seus pensamentos. Observou Giordana à distância, mas só conseguiu sorrir nervosa para a amiga. Caminhou sozinha e parou no bosque centenário das faias, perto da capela. Olhou para o camafeu e uma sensação maravilhosa tomou seu espírito como se pudesse sentir a presença da mulher que usou o adereço por anos, sabia. Sua mãe! Aquele pequeno objeto era a providência divina para o seu dilema.

A jovem continuou andando, agora com passos bucólicos, vagarosos. Sua angústia virou excitação e depois alegria pura. Removendo o cabelo trançado, passou o camafeu pelo pescoço e sorriu agradecendo ao Senhor. A felicidade umedeceu sua face. À beira do antigo poço onde as freiras apanhavam água, pela primeira vez se permitiu imaginar o futuro com sua família. O tempo passou e o crepúsculo chegava...

O pensamento de Muriel foi cortado pelo pio de um pequeno corvo perto de um arbusto. Ela se aproximou e observou a cria indefesa. Colheu-a nas mãos e tocou sua cabeça com o nariz. – Você está sozinho, querido, como eu. Mas não tema a solidão porque Deus cuidará de você como cuidou de mim... O Senhor mostrará seu caminho e irá protegê-lo. – Ela sussurrou mantendo-o próximo à boca. Subitamente o pássaro começou a grasnar alardeando o perigo. Seus olhos eclodiram em duas feridas e o sangue espirrou contra o rosto de Muriel. A ave debateu-se frenética, jogada ao capim. – AMALDIÇOADA! – Ela pensou olhando o pássaro agonizante. E para sua surpresa uma voz fria e tenebrosa ecoou na sua mente em resposta: – Sssssiiiiiiim! – Muriel gritou, caiu de joelhos e rezou a oração do Arcanjo Miguel. Sentiu a cabeça pesar e as mãos formigarem. Risos. Úrsula e as amigas debochavam do seu sofrimento.

— Vão embora. Agora não é o momento – tentou ordenar com a voz trêmula.

— Ora, estranha, parece que você não está bem. Por acaso a velha gorda se cansou da sua ladainha? – As comparsas gargalharam.

— Basta! Vocês não sabem o que está acontecendo! – Muriel tentou gritar com a voz embargada pelo choro. – Saiam, por favor, me deixem sozinha. – Ouviu risinhos sádicos.

— Bem, você não parece tão confiante nesta posição. Agora está no seu lugar, de joelhos, como deveria passar o resto da vida!

— Úrsula, vá! Deixe-me em paz! – Muriel implorou com olhos sofridos, mas sua fragilidade só instigou a rival.

— Sua macaca! Ousa me dar uma ordem?! – Muriel ficou em silêncio com a cabeça abaixada.

Deleitando-se com a situação inesperada, Úrsula pegou uma pedra e se aproximou seguida pelas colegas. Frida, a mais jovem, nervosa tentava desencorajar a covardia.

— Meninas, nós precisamos voltar. Sentirão nossa falta...

— Cala a boca, Frida. Não precisamos conviver com esse tipo de gente. Não precisamos dividir o que é só nosso por direito.

Úrsula reclinou seu corpo e falou cerrando os dentes:

— Vê, garota, você é fraca e não pode fazer nada contra mim. Eu sou melhor! Está me ouvindo? Eu sou melhor e você vai dizer isso. Diga! Diga para mim!

— Nunca! – Súbito Muriel ergueu a cabeça revelando um olhar opaco e sem vida, morto e aterrorizante. Úrsula gritou jogando o corpo para trás. Sua pedra caiu no arbusto. As outras recuaram chocadas e Frida correu desesperadamente. Muriel ergueu-se mostrando o rosto ressecado, contraído e profundo marcando seu crânio. Em pânico, Úrsula só via sua face esquelética. – Superior?! Muriel perguntou com a voz estridente e cortante.

— Não, por favor, me desculpe! – Úrsula histérica tentou implorar. Suas colegas estavam paralisadas.

— “Não sejas tão seguro do perdão para acumular pecado sobre pecado”. – Gargalhou.

Se o grito de Muriel incorporou a vingança em desespero, os outros gritos personificaram a dor, ferrenha e interminável. Centenas de furúnculos brotaram nos corpos das rivais fazendo o pus estourar e escorrer marcando a pele ariana com o vermelho coagulado e o amarelo doentio e malcheiroso... Os tumores foram cessando e na soturna noite se ouviu apenas o choro, débil e enfraquecido. Só o corpo de Úrsula estava enegrecido. Numa espécie de transe Muriel tocou o queixo da moribunda.

— Vê, menina, somos apenas barro, fôlego e pó. Somos todos iguais...

Ignorando o terror, Muriel caminhou até uma passagem discreta do mosteiro. Seus passos pareciam não tocar o chão. Só Giordana testemunhou sua forma espectral atravessar o enferrujado portão fechado... “Os males que foges estão em ti...”.

O MERCEDES PAROU DISCRETAMENTE, ENCOBERTO PELAS SOMBRAS DA NOITE SINISTRA. À distância, Sir Donovan Krause observou a Praça Le Monde e a grande catedral com suas torres erguidas como lanças apontadas para o céu. Imersa na escuridão, sua forma gótica insinuava antigos mistérios e retratava a magnitude da ocasião solene. Donovan abriu a porta e sorriu para o velho Dimitri que oferecia proteção contra a chuva melancólica da madrugada. Eles caminharam lentamente rumo à catedral, observando os quatro obeliscos que cingiam o altar de pedra erigido no centro da praça. Seguindo o costume, Sir Donovan deslizou os dedos sobre o livro esculpido no altar tateando o relevo do provérbio: “Lê tudo que encontrares, mas não creias em tudo que leres”.

Cruzando a praça erma, contornaram a catedral até chegarem à sexta porta do sul. Estrelas e serpentes entrelaçadas decoravam o umbral arqueado e no topo um rosto severo parecia interrogar os viajantes. Eram os símbolos que marcavam a passagem para o templo secreto da Ordem. Os companheiros acertaram suas joias iniciáticas. Donovan Krause usava um vultoso medalhão prateado, cravejado com uma pedra escura, ajustado com a lapela triangular do seu terno. Dimitri tinha um broche prateado, alfinetado em seu paletó, adornado com a mesma pedra estranha. Pontos brilhantes pulsavam nas joias delineando a constelação do serpentário, Ofiúco.

Os ferrolhos da porta estalaram e as dobradiças rangeram lamentando a ação do tempo. A passagem se abriu, mas como sempre não havia anfitrião para saudar os recém-chegados. Donovan Krause e Dimitri seguiram pelo corredor em arco iluminado por castiçais. As chamas das velas e as sombras refletidas nas paredes desgastadas evocavam a essência medieval da Cathédrale de Prophètes. Chegando ao salão principal com as magníficas abóbadas pintadas com as visões apocalípticas de São João, distinguiram os vultos contornados pelas luzes dos candelabros.

— Aqui estamos, velho amigo... – Donovan suspirou. – Pensei que não testemunharia mais esse conclave.

— Mas o senhor previu este momento. – Dimitri respondeu com a voz grave enquanto alisava a barba.

— Não exatamente. Entre todos os dons, a visão do futuro talvez seja o único que não dependa somente da vontade. Talvez a precognição se origine de um propósito maior. Talvez sejamos apenas ferramentas do destino.

— Propósito Maior? O senhor finalmente reconhece a providência divina? – Indagou num tom vitorioso.

— Ainda não, meu caro. Minha opinião não mudou, apesar dos seus argumentos. – Respondeu com um leve sorriso retribuído pelo aceno do companheiro.

— Muito bem... Mas não abandonarei sua conversão. – Declarou solenemente.

— Eu sei que não desistirá...

Donovan concluiu enquanto duas pessoas se afastavam de um pequeno grupo e se achegavam. Embora não fosse necessário, Dimitri apresentou Eleonora Cadi e Simon Barzilai, os regentes dos círculos de Ofiúco na Irlanda e Israel, nesta ordem. Eleonora, uma renomada cantora, era considerada ao seu contragosto uma diva do “Movimento Nova-Era”. Barzilai, por sua vez, era um político reconhecido pelo temperamento implacável que estava em evidência no cenário internacional. Donovan Krause adiantou-se para saudá-los respeitosamente e a cortesia foi retribuída. Dimitri foi cumprimentado em seguida.

— Sir Donovan, – Eleonora falou com seu timbre melódico enquanto estendia a mão num gesto afável – sua presença conforta meu coração. Não sabia que todos foram convocados...

— Caríssima Imperatriz, – esta era a posição de Eleonora na tríade do Círculo da Harpa – sua presença é como um bálsamo angelical. Que prazer revê-la. – Beijou-lhe a mão delicadamente. – Quando poderei visitá-la?

— Cavalheiro... Isto eu não posso prever. Na próxima iniciação dos neófitos, talvez. Estamos formando o número adequado para o ritual. Mas se Dimitri preparar sua fondue de chocolate e cardamomo, talvez possamos antecipar esse reencontro. – Eleonora riu chamando a atenção dos presentes.

— Com respeito ao amigo, será uma honra servi-la novamente, minha senhora. Agora, se me permitem, preciso saber dos preparativos para a convocação. Com licença.

Concordaram com a cabeça. Donovan comentou que também ficou surpreso com este encontro, mas considerando a presença dos líderes de todos os círculos da Ordem, seria provável que se tratasse dos pergaminhos perdidos, afinal, os antigos calendários, profecias e outros estudos já alertavam para o evento mundial. Simon Barzilai arregalou os olhos parecendo surpreso com a suposição.

— Os pergaminhos perdidos? Sir Donovan, está se referindo aos Opúsculos Ophiuchus guardados pelo arauto Elijah Baruel?

— Exatamente, senhor Barzilai. – respondeu cordialmente.

— Interessante... – ponderou o homem corpulento – eu mesmo solicitei permissão ao Supremo Conselho para procurar o artefato e por duas vezes meus pedidos foram negados. Se estiver correto, será uma afronta que esta mobilização tenha como pretexto uma questão que eu julgava da maior urgência enquanto os outros círculos nem a consideravam.

— Mas Sr. Barzilai, não esqueça que perdemos o paradeiro do arauto. Até descobri-lo, não poderemos achar os pergaminhos. – Eleonora ajustou o refinado xale nos ombros. – E depois o Supremo Conselho determinou que esperássemos o cumprimento das sentenças proféticas para decidir...

— Este é o problema, senhora! – Simon se exaltou apontando o dedo indicador para o chão como se indicasse um obstáculo. – Esperar o cumprimento das profecias demonstra a falta de convicção do nosso Conselho. Estamos preparados para a escuridão? Temos poder para...

Donovan interrompeu com um gesto delicado e um sorriso samaritano. Simon Barzilai não gostava de contato físico, mas não se incomodou quando o outro tocou seu ombro. Ele parou retirando um lenço do paletó para secar o suor na testa.

— Amigo Simon... Acredito que reunir poder não seja o propósito da Ordem. Agora reflita, – posicionou as mãos espalmadas delimitando o cerne da questão – você relatou que por duas vezes pediu autorização ao Supremo Conselho para que o Círculo da Estrela procurasse os Opúsculos Ophiuchus. Sei que esta tarefa seria executada com a competência que lhe é peculiar, mas não conhecemos o desfecho da última profecia. Como poderíamos agir em seguida? E se os opositores descobrissem que a Ordem Ofiúco designou um círculo tão proeminente para tal missão? Esta busca seria comprometida e se tornaria uma caça ao tesouro. Não, meu caro, a prudência nos serve melhor e é por isso que estamos aqui para conhecer o manifesto do Conselho.

— Talvez... – Simon Barzilai ficou atenuado, mas agora sua fala tinha um tom sombrio. – Tenho outra suspeita, eu comentava. Ouvi rumores que a Ordem deixará o Manto Invisível e se revelará ao mundo. Então assumiremos o encargo de doutrinar os profanos em seus poderes... – Ele umedeceu os lábios e engoliu a saliva – Independente do seu livre-arbítrio, se necessário.

— Improvável! – Eleonora incomodou-se. – O mundo não está preparado para aceitar o que é sobrenatural. Seríamos zombados, desacreditados, difamados, como foram as irmãs esvaecidas. E as perseguições continuarão, o senhor sabe! São apenas veladas!

— A senhora subestima nossa força, Imperatriz... – Veios de suor já escorriam pela testa de Simon Barzilai enquanto ele represava a cólera. Os outros presentes reparavam intrigados e Donovan Krause continuava sereno conservando o olhar paciente e apaziguador.

— O senhor desdenha da nossa sabedoria. E jamais violaremos o livre-arbítrio, esta é a norma...

Barzilai estava prestes a explodir quando um sino ecoou no salão. Os presentes fizeram silêncio para aguardar o Zelador-Chefe levá-los ao grande templo. O conclave estava para começar.

Dimitri apareceu vestindo uma túnica cinza, com detalhes folheados em prata, que indicava sua classe. Nesta condição era sua responsabilidade e privilégio conduzir os dignitários ao grande templo da Ordem, no aposento secreto da catedral. Ele, como poucos, conhecia os corredores e salas ocultas daquele lugar. Muitos suspeitavam que Dimitri guardasse uma cópia da planta original que a própria Igreja Católica desconhecia, mas devido aos serviços prestados à Ordem e a sua postura irretocável, nenhum membro questionava sua posse. Para Dimitri, contribuir com a organização das convocações, rituais e iniciações representava, mais que um compromisso, um sacerdócio. Esta era a sua devoção e por isso era tão respeitado.

O Zelador-Chefe manifestou-se com a voz grave e altiva. – Grandes Mestres, sigam meus passos. Chegando ao átrio, vistam a indumentária para esta convocação solene. Em seguida, se apresentem ao Guardião e mostrem suas joias ritualísticas. Pronunciem a palavra-passe e adentrem ao grande templo para ocuparem seus lugares. Os Veneráveis aguardam. – E pela segunda vez o sino ressoou.

Os presentes acompanharam o Zelador-Chefe passando pelo longo corredor com janelas cumpridas e os belos vitrais da cristandade que ocultavam a simbologia da Ordem Ofiúco. Donovan Krause e Eleonora Cadi caminhavam juntos enquanto Simon Barzilai seguia mais a frente como se intimamente liderasse o cortejo. O protocolo foi cumprido.

No grande templo, os Veneráveis esperaram Sir Donovan se acomodar na cadeira com sua insígnia. Então o sino ecoou pela terceira vez e quando a última nota reverberou, o mais antigo levantou-se com um pequeno livro nas mãos.

— Círculos da Águia, da Estrela, da Harpa, de Jade, da Lua Crescente, de Marselha, de Marfim, do Sol e da Torre. Sir Donovan Krause. O Supremo Conselho agradece vossa presença nesta convocação extraordinária. Declaramos aberta a sessão...

Durante a reunião, o Supremo Conselho precisou se manifestar sobre vários assuntos. Pedidos de iniciações, notificações sobre a conduta de certos membros, relatórios sobre a aparição de pragas da espiral, resultados de pesquisas científicas e experimentos esotéricos. Excepcionalmente, os Veneráveis abreviaram essas questões reservando o tempo necessário para o exame do ponto crucial do conclave: a busca dos pergaminhos perdidos...