OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.

11 "Nós que vivemos aqui não somos mais do que fantasmas ou ligeiras sombras". Sófocles.


Muriel testemunhou o drama de Karin sem poder interferir. Obediente, só pôde olhar seus gestos trêmulos, ouvir as palavras sussurradas e rezar enquanto ela parecia sufocar. Ao menos conseguira curar a estranha queimadura da perna, mas ficou inerte ao ver o corpo suspender com a face retorcida e os olhos revirados. Quando Karin cerrou os dentes, enrijeceu e gritou, Muriel correu até a porta, mas deu meia-volta para não deixá-la sozinha. Então foi acompanhando sua fisionomia abrandar, a respiração normalizar e o corpo relaxar...

Karin Krause saiu do transe e sorrindo estendeu a mão. “Graças a Deus”, Muriel suspirou e foi levantá-la quando viu seu braço dobrar com fraturas expostas. A arcana gritou, despedaçando o silêncio no casarão. “Karin, o que eu faço? O que eu faço?” Muriel perguntou aflita. “Senhora Claire!”.

A governanta entrou assustada e vendo a situação correu ao quarto de Akila. Bateu à porta e alertou que Karin precisava de ajuda. Carter saltou desajeitado para se vestir e Akila disparou ao toalete.

Do corredor já se ouvia o choro desesperado. O médico entrou e puxando um cartão mandou Muriel chamar a ambulância. Sra. Claire apareceu nervosa com o estojo de primeiros socorros. Muriel encontrou Akila e pediu um telefone enquanto Karin berrava até a rouquidão.

Agindo com frieza e perícia, o médico conteve a hemorragia e cobriu o membro destroçado com um pano limpo. Deitado, Cesar Dominavit observava a situação. “O que aconteceu?”, Carter perguntou ao notá-lo, mas ele, sério, não respondeu.

A ambulância chegou com rapidez, apesar da chuva. Akila e Samuel esperavam na entrada para levar os paramédicos ao quarto. A pálida Karin foi imobilizada na maca e Carter avisou que seguiriam para o “Vivien”, hospital do centro.

– Eu vou com você. – Muriel falou ao médico.

– Não, Muriel, precisamos esperar os outros. – Akila objetou.

– Você e Cailin podem ficar. Vou ao hospital.

– Agora é com os médicos! Cailin sumiu e outros podem precisar de você. Aqui será mais útil.

Muriel deu razão, por mais que desejasse seguir. Ela só acompanhou os paramédicos até a saída e fez uma oração.

Pela janela do quarto Akila viu a ambulância partir. Havia sangue no chão. A Sra. Claire tentava se acalmar e tranquilizar Samuel cada vez mais agitado chamando Karin. Quando ele afundou a parede com um soco, a rainha apareceu no quarto e pediu que se comportasse, pois logo voltaria. Samuel choramingou e ficou abraçado a Sra. Claire até se acalmar. Então Akila fez a ilusão desaparecer.

– Você está bem, Cesar? – Ela perguntou levantando a cadeira. O mago demorou a responder.

– Sim... Ela me salvou. Karin me libertou da prisão.

– Do que está falando?

Muriel voltou ao quarto e sentiu mal-estar com o sangue no chão.

– Não esconderei mais esse fardo... Explicarei quando estiverem reunidos e se possível com o retorno de Karin. Ela examinou minha mente e poderá comprovar o que eu disser para desfazer qualquer desconfiança.

– Nós não perdemos a confiança em você. – Muriel falou. – Mas o incidente no labirinto, a preocupação de Karin e o que aconteceu agora, tudo isso causa apreensão. Precisamos saber como agir numa situação como essa.

– Você tem razão... – Ele levantou devagar e começou a recolher os objetos do ritual. – Mas, pelo sacrifício de Karin, saibam que o perigo passou. Não estou mais afetado. Quem me atormenta não voltará...

“Vou buscar panos para limpar o chão, com licença”, Claire saiu ressentida, levando Samuel. Guardando as peças no baú, Cesar perguntou onde estavam os outros e Akila explicou que os meninos saíram para atender um pedido de ajuda depois da iniciação. O mago parabenizou-as e se desculpou por não participar da solenidade. “A iniciação não foi nada monótona”, Muriel acrescentou. Tentando esboçar um sorriso, Cesar pediu para contarem mais quando a confusão passar.

A Sra. Claire reapareceu com o material de limpeza. Cesar se ofereceu para ajudar, mas a governanta insistiu que era seu dever. “Preparei chá para vocês, na sala de música. Podem ir”. O mago reparou o sangue, o círculo corrompido no chão e rogou que os Mestres Ascencionados protegessem Karin.

AARON VAGOU PELO ERMO DE SAN THOMAS. O último combate ecoava em sua mente instigando seus reflexos. Depois de resistir há tantas batalhas, a violência estava tão presente que causava um estado de alerta constante prejudicando seu foco. Só não conseguia esquecer Cailin, das suas palavras e seu olhar de reprovação. Queria fazê-la compreender sua emoção, que não suportaria se lhe ocorresse o pior, por isso empunhou Megido. Mas afinal, o que estava sentido por essa menina? Ela só inspirava seu lado protetor? Certamente, de forma intensa... E diferente. Lembrou-se do sorriso e da voz que abrandava sua raiva. Ela o tocava com palavras e olhares ao ponto de deixá-lo vulnerável. Mas como alguém, em tão pouco tempo, conseguia influenciar tanto seu humor? Como podia lhe causar sujeição e sofrimento? Aaron balançou a cabeça dissipando o devaneio. Cailin era uma adolescente e ele não seria imoral, não. Seguiu solitário pela noite desolada e a chuva emprestou as lágrimas que não poderia deitar.

CAILIN, NICHOLAS E VACHAN RETORNARAM À MANSÃO. Algumas portas estavam fechadas, mas as passagens abertas conduziam à sala de música. Todos os semblantes refletiam cansaço e preocupação. Akila indagou onde estava Aaron e Nic respondeu que ele se afastou. Desanimado Vachan pediu para ver Karin e Muriel avisou que ela foi hospitalizada, depois de cuidar de Cesar.

– Vocês estão bem? Precisam ir ao hospital? – Claire perguntou aos recém-chegados.

– Que nada! Estamos ótimos! – Nic assegurou, com o rosto esfolado e as roupas rasgadas.

– Têm certeza? – Claire insistiu.

– Tudo bem, tia. Com este cinturão eu poderia cair de um prédio e não me machucar!

– Mas você ficou desacordado, Nicholas. É melhor ser examinado. – Cailin aconselhou.

– Ah, não. Não quero fazer isso, nem tomar injeção.

– Está com medo da agulha, é? Mas você tem o corpo de espinhos, como pode? – Akila brincou.

– Mesmo assim, eu não gosto de hospital. Se eu surtar Muriel me ajuda, ok?

– O que aconteceu? – Muriel perguntou. Cailin olhou para Vachan.

– Fomos enganados por um sujeito, Kamus Khan. Ele nos manipulou para enfrentarmos uma criatura que não era ameaça, mas sim o vigia de um artefato. Nós o derrubamos, Aaron, aliás. Depois esse Kamus apareceu com seus capangas e roubou o Orbe Guia.

– Nossa, entregamos o breguete assim, de mão beijada?

– Nós te contamos. Kamus ia matar Aaron. – Cailin lembrou.

– E outra criatura te pegou como refém. Ela tinha o corpo de espinhos, como o seu. – Vachan revelou.

– Uau, pensei que fosse único... – Nicholas sorriu e ficou pensativo.

– Esse orbe, o que é? – Muriel perguntou e Vachan limitou-se a descrever a esfera.

– Há muitas eras... – Cesar falou de olhos fechados. – Os Atlantes, prevendo a destruição do seu país, construíram um cubo para armazenar e transportar seu poder. Mas quando o cataclismo destruiu sua terra, o cubo foi perdido. O Orbe Guia é uma espécie de bússola astronômica capaz de conduzir às peças do cubo.

– E esse Kamus pode reuni-las? – Akila perguntou.

– Espero que não. Ele foi iniciado em nossa Ordem. Deve ter pesquisado a origem do cubo, mas acredito que não conheça a funcionalidade do Orbe Guia. Vamos esperar que ele não ative a bússola, até a rainha voltar.

– Então... Se o orbe é uma bússola, pode nos levar aos pergaminhos perdidos?

– Provavelmente não, Muriel. O orbe tem uma conexão direta com o cubo. Se os pergaminhos pudessem ser rastreados, a Ordem já os teria encontrado e esta aliança seria desnecessária.

– Alguém está com fome? – Nicholas perguntou.

– A propósito, mantenham tudo isso em segredo. Kamus jamais deverá saber que o Orbe Guia é uma bússola astronômica.

– Cesar, você virá conosco? Para Zagra? – Akila indagou.

– Eu já estava decidido, antes mesmo de perder o controle que... Bem, por muitos anos fui atormentado por uma força sombria, um dominador que usou meu corpo para matar aqueles que vieram antes de vocês. – Todos ouviram atentos. – Por isso me afastarei da Ordem. No passado Sir Donovan prendeu o sombrio... E hoje Karin o baniu, definitivamente... – Cesar suspirou – Mas mesmo assim pretendo atuar apenas como conselheiro, se permitirem...

Silêncio... Olhando Samuel dormindo, encolhido no chão, Vachan pediu licença e saiu. Nicholas e Cailin, molhados, sujos e machucados, seguiram o companheiro. Muriel, que aprendeu primeiros socorros no mosteiro, ofereceu curativo para eles, mas antes de sair deu um abraço em Cesar. Akila avisou que iria descansar e desejou boa noite. “Amanhã será um dia cheio”, Cailin comentou enquanto seguiam para os quartos.

AARON CAMINHOU NA MADRUGADA. Queria achar um bar para beber, mas o lugar era deserto e inóspito. Percebeu que estava sendo seguido e parou olhando ao redor. “Covardes!”, gritou e continuou, aguçando os sentidos, mantendo o corpo alerta. Por meia-hora os vultos foram se esgueirando, tentando pressioná-lo. Ele detestava se sentir ameaçado, principalmente pelo desconhecido. Então perdeu a paciência, parou e esperou. Finalmente os Renegados apareceram, todos eles. O ciclope, com a grande marreta no ombro, advertiu que o forasteiro não tinha permissão para andar sozinho em Liberung. Irônico, Aaron perguntou ao feioso quanto era o pedágio. O ciclope avisou que seu nome era Guideon e que tinha ordem para eliminá-lo. O cavaleiro retrucou se eles vieram com um exército. Guideon lamentou que estivesse em desvantagem, mas sua intolerância era um ameaça ao povo de Liberung, por isso devia ser exterminado. “Então vamos ao bom combate”. Aaron estalou o pescoço. O ciclope bateu a marreta no chão e um tremor desequilibrou o alvo. Uma boa distração para Lanec arremessar bolas viscosas prendendo seus pés. Aaron reteve o calor para dissolver o grude, mas a anoréxica gritou emitindo um feixe sonoro atordoante. O cavaleiro tocou a coxa para invocar Megido, mas Ulrich, o homem de pele azulada, esticou seus membros elásticos para segurá-lo por trás. Letana beijou o prisioneiro enquanto Spinah foi se aproximando expondo os espinhos. Aaron tentou se libertar, mas perdeu a força...

– Quem diria... O Senhor de Megido totalmente submisso! – Os Renegados procuraram a voz e avistaram um homem alto e loiro, usando um velho sobretudo. Letana recuou atemorizada, mas Spinah correu para dilacerar a garganta de Aaron. – PARE! – O loiro ordenou e a besta encolheu com sua voz imperativa. Os renegados recuaram intimidados, à exceção de Guideon.

– Eu sou Thronus e tenho assuntos com este homem. Voltem agora... Em paz.

– Ele não é bem-vindo em Liberung. – Guideon respondeu. – Só estamos protegendo nossa gente. Esse legado é tudo que temos.

– Eu não vejo ameaça para vocês aqui. – Thronus parou ao lado de Aaron fitando-o de cima a baixo. – O que ele veio fazer aqui?

– Nosso mestre, Kamus Khan, o Senhor da Lua, pediu que viesse...

– Ora, se ele atendeu ao pedido do senhor, esse tratamento não é cordial.

– Mas ele ofendeu nosso mestre... – Guideon argumentou tranquilo.

– Uma falha perdoável considerando o serviço prestado. E este homem foi provocado. É razoável que reclame por respeito. Sim, eu assisti tudo e digo que sua execução sumária não é a melhor pena. Principalmente porque o próprio mestre permitiu vossa partida...

– Dos outros, mas ele se separou! – Lanec protestou.

– Eu não gosto de verdades distorcidas. – Thronus falou e Lanec abaixou a cabeça sem coragem de encará-lo. – Sejam sábios e voltem agora. Se tentarem matá-lo, perecerão.

– Muito bem... – Guideon piscou o único olho. – Então ele pode ir desde que você o escolte para fora de Liberung. E que não voltem mais.

– Aceitamos seus termos. Partiremos agora.

Guideon concordou e mandou os Renegados voltarem. Lanec fez uma careta desdenhosa. Spinah se moveu cautelosa e felina com o corpo perto do chão. Sonora também recuou enquanto Letana, a mulher de garras e asas courícias, já estava mais distante afugentada. “Desculpe-nos...”, o ciclope falou baixo para Aaron antes de partir...

NICHOLAS SUSPIROU OLHANDO O TETO. Depois desse dia fatídico, sentia o corpo exaurido na cama, tomado pelo cansaço que marcava a transformação da sua vida. Examinou o braço e não encontrou sinal da fera de espinhos, nenhuma cicatriz. Tinha a aparência intacta e estava contente com seu novo propósito, por fazer parte de um plano maior. Sorriu e virou apoiando a cabeça no braço. “Então eu não sou o único... O que ela pode me contar sobre a besta? Há mais de nós?”. Nic se sentia vívido, ansioso pelo dia seguinte, mas então pensou em Karin e a excitação foi diminuindo conforme percebia que sonhos heroicos não existem. Pegou o lençol e se cobriu virando para o outro lado. Ajeitou o travesseiro e fechou os olhos esperando o sono demorado. Pensou na sua irmã e desejou reencontrá-la para dizer que estava bem, que ela deveria esquecer o passado e achar um propósito para sua vida, procurar a felicidade...

No outro quarto Akila sentia o coração pesar. Sua garganta ardia com o choro preso. Estava tão solitária, infeliz. Apertou os olhos tentando minar a tristeza, mas as lágrimas não aliviaram sua dor. Irritada, esticou o braço para alcançar à cômoda e derrubou o copo d’água no chão. Xingou. Apalpou o frasco de comprimidos e engoliu algumas cápsulas a seco, forçando a passagem na garganta. Sentiu o linho roçar no corpo desnudo e veio um mal-estar, como se estivesse suja. Levantou, foi até a suíte e abriu o chuveiro. Apoiando os braços no azulejo, Akila ergueu a cabeça deixando a água tocar seu rosto, escorrer pelos seios e descer pelo ventre... Pensou na companhia ousada de Robert e nos carinhos românticos de Carter... Então se lembrou do único homem que amou, seu esposo; relembrou a última vez que o viu e quando lhe contaram que seu avião desapareceu no Atlântico... Agora ela sentia culpa e vergonha. A dor transbordou da garganta e o choro sofrido escapou. Akila abaixou e sentou com as pernas dobradas, balançando para frente e para trás. Seus lábios sussurravam um misterioso cântico egípcio... E o remédio fez efeito.

AARON REPAROU O HOMEM À SUA FRENTE. Seu rosto radiava carisma e seu porte era imponente, apesar das roupas velhas.

– Então você tem “assuntos” a tratar comigo... – Começou vendo os Renegados desaparecem. – Mas não te conheço e não te devo nada...

– Sim, você não tem dívida comigo, mas agora eu tenho uma obrigação. Concordei em acompanhá-lo para fora desse lugar. Então, já que foram razoáveis, que tal caminharmos? – Thronus fez um gesto cordial e andou, mas Aaron ficou parado. – Vamos, fique tranquilo. Hoje eu venho só com a Palavra.

– Você me conhece? Porque me ajudou? – Aaron perguntou desconfiado.

– Aaron Balaque: órfão, pária, mercenário, fugitivo, soldado... Sua vida contém uma grande história, meu amigo... Uma história de medo, solidão, ódio e remorso... Mas e agora, neste exato momento, como se sente?

– Irritado! – Aaron parou. – Você vasculhou minha vida ou alguém me delatou?

– Não, por favor, sem denúncias. Sua reputação o precede, meu amigo.

– Eu não sou seu amigo. E pare de rodeios, o que você quer?

– Muito bem, não me dá escolha. Eu preciso saber como a espada chegou a você.

– Como? – Aaron recuou lançando um olhar dardejante. – A espada é minha por direito e não lhe devo satisfação. Essa conversa acaba aqui.

– Espere, por favor. O que Barzilai propôs a você? Por acaso entrou na Forja de Nabuco para pegar a espada?– Thronus cerrou os olhos azuis.

– O mestre? Como o conhece? – Aaron rosnou impaciente.

– Simon Barzilai não é o homem que pensa...

– Pare! – Como ousa insultar sua honra? – Aaron gritou mostrando o punho flamejante. – Vá agora ou conhecerá a espada, como o meu último inimigo!

– A questão é: você conhece bem essa espada?

– Vá... – Aaron gritou cuspindo.

– Muito bem. Não faremos contenda. – Thronus se afastou sorrindo. – Mas estarei por perto, Balaque... Observando o que a sua natureza revelar...

Thronus sumiu num piscar de olhos. Aaron ficou perplexo tentando compreender a situação. Como saberia da provação na fornalha? E sobre Megido? Talvez seu mestre pudesse orientá-lo, mas Barzilai instruiu a contatá-lo apenas se os pergaminhos fossem descobertos... Aaron foi sentindo a força retornar. Então apressou o passo, de volta ao casarão.

A SENTINELA RUGIU SOBRE VACHAN E ELE ROLOU... Fora da cama. Quarto vazio. Mãos trêmulas e o coração acelerado, arrítmico. Seu corpo suado parecia mais encharcado que na tempestade. Confuso, Vachan tentou meditar, mas o mal-estar não cessou. O que estava acontecendo? Porque seu corpo reagia assim? Pela manipulação das funções vitais, no combate contra a sentinela, talvez. Mas depois de tantas vezes, sem nenhum efeito colateral? Veio a opressão, o aperto no externo, o calor se espalhando e subindo ao pescoço. Tentou uma técnica de respiração, tossiu e vomitou... Respirou diminuindo o tambor no seu peito, equilibrando suas funções vitais, evitando o colapso... Vivo.

Vachan respirou fundo e se levantou massageando o peito. Estava mais preocupado do que nunca. A telecinese já provocara tonteira, enxaqueca e outros incômodos suportáveis, mas nada parecido com isso. Pior que não podia contar com Karin. O que fazer então? Recorrer aos mentores? Arriscado. Voltar para a casa e procurar seu guru? Improvável. Julgou que seria melhor esperar amanhecer e pedir exames completos ao Dr. Carter...

“... livrai-nos do mal. Amém”. Muriel sentiu os joelhos formigando. Bocejou, extenuada com o labirinto, a iniciação... E o acidente de Karin... “Por favor, que o justo não seja condenado. Que a Tua misericórdia recaia sobre ela e a Tua mão curadora opere hoje um milagre, como no passado”.

– Estou aqui... – Alguém falou. – Aqui! – Uma lufada passou pela janela que deveria estar fechada. Muriel se achegou e reparou alguém parado perto do jardim. Giordana, a melhor amiga do mosteiro. Com os olhos brilhantes ela sorriu, envolvida por uma aura lunar. Muriel sorriu quase sem acreditar e acenou para ela esperar.

Giordana estava perto da roseira florida. Muriel se aproximou vestindo uma longa camisola. O vento e o frio incomodavam. Sua amiga usava um vestido bordado, de costura antiga. Ainda sorrindo ela acenou fazendo Muriel parar.

– Giordana?! Quando saiu do mosteiro? Como me achou?

– Eu vim trazer-lhe notícias, minha amiga. Sobre madre Helga...

– O que aconteceu? – Perguntou pressentindo o pior.

– Ela adoeceu depois que você foi embora. E está piorando...

– Deus! Como isso aconteceu? Ela está internada?

– Ela não quer ir ao hospital. As irmãs estão fazendo o possível para cuidá-la, mas seu corpo está perdendo peso, definhando... Não parece uma doença comum...

– Ela não pode morrer. – Muriel sussurrou tentando compreender a situação. Vou retornar.

– Isto seria bom. Mas a madre ficou satisfeita com a sua partida, ouvi-a comentar. Ficou feliz por você ter iniciado o próprio caminho. Ela disse que seria o melhor para você.

– Não sei o que fazer... – Muriel balançou a cabeça, triste.

– Continue buscando suas respostas. – Giordana voltou a sorrir. – A madre tem fibra e perseverança. Acho que ela vai resistir até você estar pronta para voltar.

– Em breve farei uma viagem... Mas conheci um bom médico. Talvez ele possa ajudá-la. E você pode ficar aqui. Esse casarão já foi um hotel.

– Não, minha amiga, não é necessário. – Giordana falou com brandura. – Você partirá e eu seguirei agora... Para algum lugar... – Seu olhar seu perdeu no vazio. – Por isso estou aqui, para trazer-lhe notícias e me despedir...

– Mas esta hora? Está frio. Você deve estar cansada e com fome. Porque não fica?

– Ficarei bem, Muriel. – A amiga respondeu afastando-se. – Espero reencontrá-la antes que caia o véu. Mantenha a fortaleza. O mundo oculta verdades que desprezam os sentidos.

Muriel observou Giordana se afastar e desaparecer nas sombras da noite. Ela sentiu um calafrio e deu meia-volta esfregando os braços. – Falando sozinha? – Muriel gritou e viu Aaron mancando, com hematomas, arranhões e pequenos cortes no corpo. Ele estava deplorável. Os dois entraram e trocaram poucas palavras. Aaron ficou sabendo do incidente de Karin. Depois ambos seguiram para os quartos.

Aaron acendeu a luz e mexeu no seu bornal camuflado buscando o celular. Sentou e encarou o aparelho, meditando nas palavras de Thronus. Deveria contatar seu mestre? Recostou na cômoda e teclou o número. Simon Barzilai atendeu, com sua voz grave, perguntando o que desejava. Aaron sabia que interferências lhe irritaram e supondo que estivesse ocupado, apenas citou o nome do seu inquiridor. Barzilai bufou, fez silêncio e perguntou o que aconteceu. Aaron relatou a aparição de Thronus, repetiu suas perguntas e, constrangido, a difamação. Simon Barzilai gargalhou, mas Aaron não distinguiu se havia impaciência ou zombaria nesse gesto. “Esse Thronus é um mercenário que vende armas antigas e artefatos para colecionadores. É um perigoso ladrão e mentiroso. Não permita sua aproximação. Ele tentará levar a espada usando os meios mais ardilosos”. Aaron compreendeu e garantiu que guardaria Megido. Barzilai aprovou sua iniciativa e pediu que fizesse contato caso reencontrasse o ladrão. A ligação foi encerrada.

“Desgraçado”, Aaron xingou o loiro trapaceiro e foi ao banheiro se lavar. Em seguida, sentindo o corpo latejando por causa dos combates, vestiu uma calça surrada e uma regata furada. Estalou o pescoço e decidiu fazer mais uma coisa...

Alguém bateu a porta. Cailin fechou a algibeira e vestiu o roupão para atender. Olhando pela fresta, surpreendeu-se vendo Aaron ainda mais despojado com o braço recostado na parede, coçando a barba. Ela ajeitou a borda do roupão, pigarreou e abriu a porta. “Pois não? O que o senhor deseja esta hora?”, perguntou reparando o braço bem torneado e as cicatrizes que escapavam à camiseta. “Quero me desculpar... E conversar...”. Cailin sentiu as pernas tremerem e desviando o olhar avisou que já estava desculpado. Ele agradeceu e avançou falando que agora poderiam conversar. Ela deu passagem para o quarto não conseguindo ignorar aquele peito musculoso à altura do seu rosto. Um calor abrasou seu corpo e Cailin fechou a porta tentando resfriar o coração.

Aaron examinou o quarto. Sobre a cômoda havia um cálice rústico, uma cuia de madeira com pétalas de rosas bicolores e duas sacolinhas aveludadas. Uma brisa soprou trazendo uma fragrância agradável e misteriosa pela janela aberta. Ele sentou-se na cadeira campesina e olhou Cailin se acomodar à beira da cama.

– Não queria incomodá-la... Mas não dormiria sem falar com você.

– Você não incomoda... – Cailin respondeu tentando fazer a voz não falhar.

– Então preciso dizer... Eu não ligo para o julgamento dos outros, mas percebi que sua opinião faz diferença... E não quero que pense coisas ruins ao meu respeito.

– E porque eu pensaria? – Falou com mais impostação.

– Porque sou impulsivo, violento... E não sou bom em tratar com as pessoas. Já deve ter percebido.

– Não se preocupe com isso. Estamos aprendendo a conviver e desavenças são naturais enquanto construímos afinidades.

– Não sou um homem mau, Cailin. E não quero me fazer de vítima, mas a vida nunca me ofereceu algo de bom grado. Não fui acostumado a pedir ou esperar bondade das pessoas. Desde cedo fui forçado a brigar para conseguir o que precisava. – Aaron abaixou a cabeça, o corpo curvado com o peso das lembranças.

– Eleonora contou que você tem um patrono...

– Ah, sim. – Levantou a cabeça, juntando as mãos entre as pernas. – Ele é mais que um mestre para mim. Acolheu-me há muito tempo e colocou um propósito em minha vida. Ele me deu sanidade.

– Então você não está sozinho. Tem o seu mestre, a Ordem...

– É verdade. Aceitei vir até aqui para tentar compensar alguns erros. Mas... – Aaron arrastou a cadeira para perto da cama.

– O quê? – Ela o encarou com os reluzentes olhos verdes.

– Há muito tempo minha única missão foi servir e lutar. Agora, porém, eu desejo mais...

– O que aconteceu?

– Eu te conheci... Mas você é uma menina... Eu não posso...

– Tem razão... – Cailin falou levantando. – Você é impulsivo, violento... E preconceituoso! Então tudo se resume à minha idade?

– Não, mas... Vivemos tempos diferentes... E não seria correto...

– Quantos anos você tem? – Cailin perguntou irritada.

– Bem mais que você...

– Quantos anos, Aaron Balaque?

– Trinta e dois...

– E eu tenho cento e doze...

– Como?

– Eu tenho cento e doze anos, essa é minha idade. Agora saia do meu quarto!

O vento soprou forte. Aaron levantou-se para sair, mas tomou Cailin nos braços e a suspendeu. A ruiva golpeou seu peito, tentou afastá-lo e o envolveu num abraço. Foi o seu primeiro beijo... Cailin sentiu a fraqueza consumi-la, o coração derreter e corpo flutuar sem vento. Era muito bom. Um trovão impactante. O casarão tremeu e o espelho caiu da parede. Os corpos se afastaram por reflexo.

– O que foi isso?

– Meu pai! – Cailin respondeu ofegante. – Você precisa ir agora.

– Seu pai fez isso? Ele está aqui?

– Por favor, faça o que peço. Vá! Ficarei bem!

Cailin abriu a porta e se afastou o suficiente para evitar outro beijo. Aaron ficou ainda mais confuso, porém acatou seu pedido. No corredor ele topou com Nic, Vachan, Muriel e Cesar, todos acordados pelo estrondo. “Ei, você saiu do quarto da ruivinha? Caraca, velho!”, Nic gesticulou zombeteiro e danou a rir. Absurdamente constrangido, Aaron passou mancando. “Foi um barulhinho, molengas, voltem a dormir”...

A Sra. Claire apareceu para verificar se estava tudo em ordem. Então os hóspedes voltaram aos quartos, à exceção de Nicholas que foi visitar a cozinha.

A hora passou e todos retomaram o descanso. Só Cailin permaneceu acordada sentindo um misto de alegria, ansiedade e apreensão. Porque o Pai do Vento lhe repreendeu? Ele não era tão ciumento como o Pai do Fogo... Porque reprovaria sua intimidade? O que fez para desagradá-lo? Chorou sem mesmo compreender a razão.

MURIEL ACORDOU PRIMEIRO, no horário do mosteiro, para as orações. Nas horas seguintes, Cesar terminou de arrumar seu quarto, Aaron completou a série de três mil abdominais e Vachan encerrou a meditação. Cailin já voltava do passeio pelo jardim, enquanto Nicholas continuava roncando e babando dormindo.

Pelos interfones a Sra. Claire avisou que o café estava servido. Samuel chamou Cailin e a governanta foi pessoalmente ao quarto Nicholas para retirá-lo da “hibernação”.

Os hóspedes foram chegando à mesa farta com pães, bolos, biscoitos, frutas, torradas, frios, doces e sucos. O lugar da cabeceira ficou vazio. Akila também não apareceu. “Cabeça de galinha”, Samuel apontou quando Nic apareceu com o cabelo desgrenhado. O gigante começou a cacarejar provocando risos e gargalhadas. Sra. Claire pediu que parasse enquanto Nicholas se encolhia tentando arrumar o cabelo. A brincadeira alegrou a manhã melancólica...

No quarto Akila tentava anotar o sonho perturbador: fugia esgueirando-se pelos corredores formados por casas antigas; um grande lobo vinha no encalço; ela saía num pátio e corria até o portão da muralha enquanto a fera rosnava atrás; despencava de uma ladeira e encontrava uma rua de pedras; corria, corria, até encontrar a torre de um grande sino que badalava deixando-a paralisada; o lobo voraz saltava para dilacerar seu corpo. Akila suspirou e fechou a caderneta. Ligou para o seu pai, verificou que todos estavam bem e avisou que viajaria para Zagra. Depois trocou de roupa e foi encontrar o grupo, cumprimentando a Sra. Claire no caminho.

Akila saudou os companheiros e sentou-se reabrindo a caderneta para analisar o pesadelo. Forçou a memória tentando localizar o sino, mas nunca vira aquela torre em Londres. Entrementes, Nic e Samuel exercitavam a criatividade inventando apelidos para o outro. Muriel não tinha apetite, mas Vachan comia bem e saboreava o suco de groselha indiana preparado especialmente para ele. De soslaio Cailin e Aaron se olhavam sem trocar palavras. Cesar elogiou os desenhos na caderneta e perguntou o que significavam. Akila balançou a cabeça e o professor, observando melhor, apontou para as figuras menores: uma coroa, um animal e uma lua minguante, que pareciam formar um brasão. Num insight ela relembrou os detalhes da torre do sino e sacou o celular para pesquisar na internet. Cesar estava correto! Era um brasão e investigando sua origem poderia confirmar o que já suspeitava.

Sra. Claire voltou à Sala de Maná para avisar que o Dr. Carter ligou... À pedido de Karin. “Como ela está?”, Muriel perguntou notando o pesar no seu rosto. “O doutor prefere explicar pessoalmente seu estado...”, a governanta respondeu, “... Mas a senhora deseja que sigam ao hospital, imediatamente. Providenciei um carro para vocês. Eu ficarei para cuidar de um assunto”...

Então, depois do café o grupo se preparou para a visita. Na entrada do casarão estava um veículo alugado para leva-los. Akila parou a pesquisa e adiantou-se para ocupar o lugar do motorista. A chave já estava na ignição. Acenou para entrarem esbanjando um charme teatral. Vachan sentou ao lado, incomodado com sua ousadia. Nic entrou atrás, espaçoso. Cesar, sereno como sempre, subiria quando Aaron tomou a frente para sentar ao lado de Cailin. “A preferência é dos aleijados”, ele disse. Muriel chegou por último, depois de tranquilizar Samuel (obrigado a ficar) e se despedir da Sra. Claire. Assim o carro deixou o casarão.

Akila acelerava seguindo o GPS enquanto Vachan, apreensivo, pedia cuidado. De esguelha Cailin olhava Aaron que parecia incomodado. Muriel conversava com Cesar e Nicholas, distraído, cantava batendo no vidro. “Ei, Nic, quem canta mesmo essa música? U2?”, Aaron perguntou olhando para trás. “Certo, deixe só o Bono cantar!”. Cailin riu.

Chegando ao hospital do centro, Vachan e Cesar foram à frente. Muriel reparou as crianças que brincavam no jardim e dois meninos afastados acenaram para ela. Nic veio atrás tentando segurar a mão de Akila enquanto ela xingava o idiota. “Estamos entrando no hospital”, Aaron reclamou. Só Cailin reparou que ele mancava mais que o habitual.

O Dr. Carter já esperava na entrada e se aproximou desligando o celular. Sua fisionomia denunciava poucas horas de sono e notícias ruins. “Conversaremos aqui, por precaução. Karin Krause está sedada, no quarto. Ela está fora de risco, mas o seu braço... Os ossos esfacelaram. Precisamos amputar”. Cesar fechou os olhos e chorou. Muriel o abraçou. Cailin também foi solidária. Nicholas, atordoado, sentou na calçada enquanto Aaron mexia na barba, pensativo. Akila permaneceu travada, sem piscar. Vachan começou a perguntar para se convencer do inevitável. “Não sei como explicar isso tudo à junta diretora...”, o médico desabafou.

Esperando alguns minutos, Dr. Carter pediu para virem ao quarto. Foi preciso chamar Akila duas vezes para trazê-la de onde estivesse. No caminho, explicou que a paciente está na melhor ala do hospital, por isso o acesso de visitas é restrito. Ele foi o primeiro a entrar no quarto espaçoso e confortável. Cesar parou na porta voltando a chorar. Cailin o consolou conduzindo-o para dentro. Muriel entrou e acenou para o discreto enfermeiro no canto do quarto. Todos circularam o leito observando Karin em paz. Sua face estava alva como a lua e seus cabelos negros cobriam os ombros desnudos. Cesar ajoelhou-se e chorou por perdão.

– Esse não é seu lugar, meu amigo... Levante... – Karin falou e todos olharam seu rosto inexpressivo.

– Res ipsa loquitur... – Cesar bateu no peito, ajoelhado.

– Por favor, não se culpe... Você também faria o mesmo se estivesse em meu lugar. E por nossa amizade, pelos votos que fizemos, eu não iria abandoná-lo... – Agora todos perceberam que ela falava em suas mentes. Karin Krause era tão forte e perita em telepatia que mesmo sedada era capaz de criar um elo conjunto.

– Você entende porque eu não queria acompanhá-los? – Cesar foi se reerguendo. – Era pelo risco que corriam!

– Isso importa menos agora. O pior já passou e a minha perda é menor comparada ao sacrifício dos inocentes. Não se preocupem, porque a dor me permitirá servi-los melhor. Comecem a busca dos pergaminhos agora. Viagem à Zagra. Claire já está cuidando dos preparativos.

– E quanto às passagens, passaportes? – Akila questionou.

– Claire está fazendo os arranjos, não se preocupem.

– E porque iniciar na Europa? – Vachan perguntou.

– Há pouco tempo Sir Donovan Krause descobriu que o último portador do Opúsculo Ophiuchus, o arauto Elijah Baruel, durante a segunda guerra mundial ficou escondido em Zagra, antes de desaparecer. Peço que localizem parentes e consigam informações sobre o seu paradeiro. Se puderem achá-lo, talvez encontrem os pergaminhos. Esta é a nossa esperança.

– Então Elijah Baruel já está morto... – Akila cogitou.

– De acordo com os registros da Ordem, sua idade já era avançada quando alcançou o grau do Arauto... Então, provavelmente sim, Elijah Baruel não deve estar mais nesse plano.

– E aí, nós vamos procurar o quê? O corpo desse cara? – Nicholas gritou provocando caretas.

– Talvez. – Vachan continuou na conexão telepática. – Nossa prioridade são os pergaminhos, mas localizar o paradeiro do arauto será a melhor forma de encontrá-los. É isso, Karin?

– Sim. Em Zagra, achem os descendentes de Elijah Baruel e descubram o que puderem. Depois procurem os pergaminhos por todos os lugares onde ele tenha passado.

– Na cidade haverá um guia à nossa espera?

– Não, Aaron. Essa viagem não foi divulgada nos círculos. Contaremos apenas com a orientação de Akila.

– Eu conheço a cidade. Nosso deslocamento será fácil.

– Karin... – Muriel se manifestou. – Uma questão me deixou intrigada desde a iniciação. Depois que a Zeladora contou a história sobre a origem da Ordem, ela anunciou as oito sentenças proféticas. Na oitava, que dizia que uma sombra cobriria a Terra... Achei que os Zeladores se adiantaram em nomeá-la antes que fosse completada. Estou enganada?

Cesar arregalou os olhos, surpreso com a observação.

– Uma clériga, de fato! Você foi muito perspicaz, Muriel. Sua observação é totalmente pertinente à busca dos pergaminhos. A oitava sentença profética avisa que a Terra será coberta pela sombra da Grande Revelação, mas parece não informar quando será este dia ou o que virá em seguida. Por isso pedimos que descubram o paradeiro de Elijah Baruel. Como ele foi o último portador do Opúsculo Ophiuchus, o conteúdo original, nós esperamos encontrá-lo para decifrar e completar a última sentença.

– Mas o explorador que fundou a Ordem não fez isso?

– Chris Hunter Baldwin. Ele adoeceu e morreu antes de concluir o trabalho. E o primeiro círculo organizado, que depois se transformou no primeiro Supremo Conselho, recomendou a cautela de comprovar, na História, as sentenças anteriores para então considerar o desfecho da última. A propósito, seis das oito sentenças já foram confirmadas.

– Sobre Elijah Baruel, Karin... Se ele possuía os pergaminhos originais, também não seria possível que outros círculos tivessem cópias do quê procuramos?

– Não, Akila. O Supremo Conselho sempre determinou que um único arauto guardasse em sigilo o Opúsculo Ophiuchus. E cada círculo, na cerimônia da sua fundação, recebia as sentenças proféticas copiadas e manuscritas, sem a exposição dessa lacuna. Até hoje poucos membros tinham conhecimento do mistério na oitava sentença profética.

– Não entendo o motivo. Por quê? – Aaron questionou.

– Por cautela, cavaleiro. Imagine se todos os membros especulassem um desfecho para a última sentença? O que aconteceria? E se essas conjecturas se espalhassem e fossem vulgarizadas pelo senso comum? Não esqueça que no passado muitos círculos foram atacados para entregar nossas doutrinas e mistérios. Isto não pode ocorrer novamente. Pense ainda nas mentes servidoras do caos, o que fariam para derrogar nossa preparação. Daí as precauções...

Os pensamentos ficaram absortos um momento: Cesar, admirado sobre o quanto desconhecia a história recente da Ordem. Aaron aceitou as justificativas, pois sabia, como ex-soldado, que o sigilo era uma prerrogativa do comando. Cailin refletiu se a “escuridão” da profecia teria alguma relação com sua terra natal. Ao seu turno Muriel recapitulou as profecias enquanto Vachan considerou abordar a questão da liderança. Entrementes, Akila continuou buscando formas de encontrar os descendentes de Elijah Baruel. Nicholas continuou confuso com tantas vozes em sua mente.

Quando se aquietaram, Karin enfatizou que a busca dos pergaminhos será uma das missões mais importantes na história da Ordem Ofiúco. Ela pediu que não desanimassem pela dificuldade da missão e declarou sua confiança na liderança de Vachan Siraj.

– Eu queria falar sobre isso, Karin... Meu recente fracasso mostrou que não estou preparado para conduzir este grupo. Então...

– Espere. Posso acessar sua memória para entender o que aconteceu?

– Faça o que for preciso...

Karin vislumbrou os acontecimentos recentes, sob a perspectiva de Vachan. Por causa da conexão telepática, todos puderam visualizar, ainda que na forma de lampejos de memória, o que o trio passou, desde a saída do casarão até a contenda com Kamus Khan e a partida de Aaron.

– Eu compreendo... O problema do orbe será considerado no devido tempo. Mas esta foi a primeira ação do grupo e não o responsabilizo, Vachan, pelo suposto fracasso. Tem certeza que deseja romper com a tradição de liderança dos arcanos?

– Tenho... Assim ficarei mais confortável para contribuir.

– Então eu recebo sua deposição. E por favor, não se arrependa de nada.

– Assimilarei minhas falhas, prometo.

– Muito bem. Estou ficando cansada... Se não se incomodarem, gostaria de conversar com meu querido Cesar, por favor.

Cesar abriu os olhos e perguntou ao médico se poderia ficar sozinho um minuto com a amiga. O Dr. Carter assentiu e abriu a porta lamentando que não terem conversado, alheio ao contato telepático.

O médico e as visitas voltaram ao saguão do hospital. Aaron precisou do apoio de Cailin e Nicholas para caminhar e se ajeitar no sofá, pois a dor na perna de Megido estava muito forte. Nic manjou a atendente da recepção e se achegou para puxar conversa enquanto Akila, ao lado de Aaron, acessou a internet para continuar pesquisando sobre o brasão na torre do sino de Zagra. Vachan preferiu se afastar para não ser reconhecido ali, pelo pouco tempo que ficou internado.

Na TV uma repórter comentava o estado de Mòn-paradi após o terremoto. Dezenas de casas destruídas, deslizamentos de terra, famílias em pânico, estado de calamidade. O número de mortos subiu para trezentos e quinze, com novecentos e oitenta feridos e uma estimativa de quinze mil desaparecidos. Os bombeiros continuavam trabalhando no resgate e civis formavam grupos de apoio. “A força-tarefa enviada pela NON já chegou ao local do epicentro que registrou 8,1 pontos na Escala Richter. É o terceiro grande terremoto este ano. Vamos esperar que seja o último”, declarou Lara Venable, encerrando a transmissão local.

Perplexa com a reportagem Muriel quase se esqueceu de falar com o Dr. Carter. Então perguntou se ele poderia ajudar uma grande amiga, a madre superiora do seu mosteiro. Contou que ela está doente, definhando e que não aceita internação. O médico solícito pediu o endereço e se comprometeu a visitá-la. Muriel agradeceu muito e o Dr. Carter sussurrou que era seu dever como Zelador.

– Seria bom deixar um enfermeiro com ela?

– Bem, eu prefiro examiná-la antes de fazer recomendações.

– Claro, desculpe. Mas o enfermeiro de Karin parece muito gentil e confiável. De repente...

– De quem está falando? – O Dr. Carter sorriu duvidoso.

– Ora, daquele que estava no quarto quando chegamos.

– Não. Hoje é Amanda quem está no rodízio. Nenhum enfermeiro esteve lá. Eu me certifiquei da privacidade dessa visita...

“Mas o que é isso?”, a recepcionista apontou as orquídeas secando no jarro do balcão ao lado de Muriel. Ela tentou disfarçar e percebendo olhares suspeitosos, pediu licença para fazer companhia à Vachan do lado de fora.

CESAR SENTOU AO LADO DE KARIN PARA CONTINUAR A CONVERSA TELEPÁTICA. “Agora a Aliança de Krause precisará muito mais de você”, ela refletiu. O mago remexeu na cadeira e confessou o receio de voltar a fazer o mal. Karin argumentou que de algum modo esse risco é assumido por todos. Sugeriu que o amigo, ao invés de repudiar a inspiração negativa, tentasse compreendê-la para conseguir transformá-la. “Quanto mais aversão se tem do mal, mais ele se fortalece”, ela considerou. Cesar ficou em silêncio, receptivo, de olhos fechados. “Lembre-se, um problema é como um bumerangue que sempre volta quando arremessado. O ciclo só pode ser desfeito quando o revés for resolvido. Pare de se torturar com o passado”... Agora Cesar tinha os lábios trêmulos e os olhos mareados. “Você se livrará de toda culpa quando assumir o passado e enfrentar essa provação. Então alcançará a redenção”...

NA RECEPÇÃO NINGUÉM PERCEBEU O FENÔMENO DAS FLORES. Quando Cesar reapareceu, o Dr. Carter acompanhou todos ao estacionamento para se despedir. Aaron já sentia a perna doer menos e no caminho Akila jogou a chave para Vachan dirigir. Muriel avistou os dois meninos sozinhos no jardim. Eles ainda acenavam... Com os corpos putrefatos...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.