OCASO

11 Segredos 3.4


Notas iniciais
"Esse é a realidade, os fracos morrem todos os dias para que os fortes se lembrem que estão vivos."

Matt encarava o teto, angustiado demais para fazer qualquer coisa e ocupar o tempo. Os membros da matilha entraram em acordo de não procurar Riley e ele parecia estar dentro de uma nostálgica lembrança do dia em que resolveram não ajudar o Will. Circunstancias diferentes, mas o mesmo abandono. Estava claro que ninguém queria se desprender dos seus antigos valores ou sujar seu nome com mestiços. Ele acreditava que com Nora como segunda no comando, as coisas mudariam um pouco, apenas se iludiu.

Pensava em como Riley podia estar agora, ainda remoía na sua cabeça a briga e todos os motivos banais que levaram os dois a dizer coisas tão terríveis um para o outro. Pensava nos “E se?”, o que só piorava a culpa.

Queria poder ouvir sua voz. Puxava todos os pensamentos dela e podia jurar que sentia como se ela o puxasse também do outro lado, como se só bastasse mais um esforço mental para que pudesse encontra-la ou chegar até ela. Se sentou na cama e fechou as mãos no joelho.

—Não tente busca-la desse jeito. –declarou Bill trazendo Matt dos seus devaneios. – Você pode morrer.

—Há quanto tempo você está ai?

—Acho que devo lembra-lo que sou um caçador e que além de ser minucioso com meus passos sei de todos esses truques mentais dos licantropes. –Bill caminhou lentamente para perto da cama fazendo Matt automaticamente se sentar na defensiva. – Riley está extremamente machucada, não se sabe que tipo de torturas ela pode estar passando. Se vocês se conectarem ela pode fazer você entrar em colapso mental, acredito que nenhum de vocês recebeu treinamento para fazer esse tipo de coisa. Além de uma técnica proibida, só pode ser realizada em casos em que o Alfa da matilha está em perigo, o que não é o caso, então não faça mais isso.

—Precisamos fazer alguma coisa. –rebateu Matt.

Ele sabia da gravidade de se fazer uma conexão mental com outros licantropes. Geralmente, eles faziam isso ao compartilhar memorias e pensamentos através do toque, mas em uma técnica extremamente proibida era possível se fazer isso a distância, enquanto ambos pensassem um no outro na profunda parte da mente. Uma ligação que trazia colapsos terríveis para um dos lados ou ambos. Foi classificada como último método de se proteger um Alfa sequestrado. Morra e veja seus amigos morrerem, mas nunca desista de salvar o líder da sua matilha.

—Eu sei. –Bill suspirou e dessa vez mostrou seu lado cansado e abatido. Sacou uma faca e cortou a palma da mão. – Fique calmo garoto, é só um pouco de sangue. –pegou o desenho de Riley que havia guardado no bolso e amassou entre os dedos.

—Isso é algum tipo de magia negra?

—Quando se mora com os russos você aprende alguns truques. –comentou com um sorriso malicioso no rosto. – Não conte a ninguém sobre... –e antes que terminasse caiu de joelhos no chão. Agora sussurrava palavras que pareciam em latim, mas certamente não era.

Matt saltou da cama e antes que pudesse chegar a Bill, ele voltou a si. Os olhos perdidos e a boca aberta. Sua mão havia parado de sangrar.

—Você é louco de praticar magia negra dentro do acampamento! – explodiu Matt o ajudando a ficar de pé.

—Fale mais baixo. –repreendeu Bill segurando o braço de Matt com força. Aquilo doeu e Matt se perguntou se a força de caçador era capaz de mata-lo como se ele fosse um mero humano. – Quer que todos ouçam isso?

—Sempre há um preço a se pagar com magia negra, você podia ter morrido ou condenado todos do acampamento, ou mesmo invocado algum tipo de besta que só bruxas conseguem controlar ou...

—Isso é só um simples feitiço de localização. –se esticou com dor. – A única consequência é que quem realiza fica um pouco mais cego, faz sentindo quando se usa magia para ver demais e no fim acaba vendo menos, meio irônico até. — Bill estava piscando devagar, se observasse bem, a íris castanha havia desbotado para um tom mais claro.

—Isso explica os óculos. –comentou Matt mais para si mesmo do que para Bill.

—O importante é que encontrei a Riley e você vai me ajudar.

(...)

As noites de lua cheia naquele dia, de certa foram, eram confortantes para Matt, significava o ápice da sua força em sua melhor forma de lobo, um lado animal incontrolável e bestial capaz de lidar com qualquer inimigo, lhe daria uma vantagem em luta, mas lhe enfraquecia mentalmente e consequentemente perdia a razão humana no meio da transformação. Aquele dia era péssimo de qualquer forma.

—Não adianta encarar a escuridão esperando que ela te devolva luz. –comentou Bill, tranquilo demais, ciente de que dirigia melhor do que ninguém naquela noite. E isso fez Matt se perguntar se sua confiança vinha de algo que tinha visto em sua visão. – Talvez nem precisemos da sua transformação, estamos lidando com vampiros jovens.

—O que Riley é e o modo que você a criou vai prejudicá-la por toda vida. –disse Matt pensativo, não queria ofende-lo, mas não havia melhor forma de dizer isso. – Você e a mãe dela realmente precisavam se esconder tanto?

—Sim. -afirmou absoluto. – Éramos líderes da causa de liberdade, lutávamos pelos mestiços e oprimidos pelo sistema que discriminava pela genética. Éramos Idealistas de uma utopia, o Conselho sempre enrolava, nunca foi um apoio total, mesmo que ele fosse composto por membros de todas as espécies.

—Acho que me recordo de vocês, quando eu era criança ouvia falar de pessoas que faziam isso. Pensamos em levar o Will, meu irmão mais novo e mestiço, para vocês. Jones não achou que seria uma boa ideia, preferiu que ele ficasse longe de holofotes.

—E onde ele está agora?

—Morto. -virou o rosto para a sua janela e observou as luzes da cidade ficando para trás. Um caminho escuro os esperava. – Por que você não continuou o que começaram?

—Alana era a grande fundadora, queria um mundo diferente para Riley, mas eu nunca fui feito para as batalhas. –e seu olhar pareceu distante, muito além da estrada e do horizonte. – Meu pai era caçador, ele era o melhor nisso, reconhecia uma espécie pelo cheiro, matava com as mãos e para cada cicatriz um feito heroico. Eu nunca fui assim, era mais mente e menos músculo, gostava de estudar a vida e a morte nas espécies. Quando eu era mais novo isso me custou um exílio.

—Não existe exílio para caçadores, eu li sobre isso em algum lugar. Ou você é o que esperam que sejam ou você é morto.

—Estudou bem, mas meu pai jamais permitiria isso. Embora eu fosse fraco demais para isso, ele convenceu o Conselho de que minhas capacidades intelectuais precisavam ser exploradas. –ele riu diante dessas palavras. – Me mandaram para Rússia com a roupa do corpo, viveria com os monges para nunca mais voltar, aprenderia mais sobre magia e como meu próprio pai disse: “Meu filho fará a magia nos tornar mais fortes”.

—Isso me lembra a minha família. Mandaram meu irmão para longe, isso não muda nas espécies. –Matt suspirou exausto, sempre tinha que tocar na história de Will quando inevitavelmente ela convergia com a de Riley. – Diferente de você ele não teve... Bom... Eu já posso supor que foi ai que conheceu a Alana.

—Ah sim... –e sorriu de forma tímida, o óculos escorregando para a ponta do nariz. – A matilha de lobos brancos na Rússia, é tão pura que dizem haver mais magia no sangue deles do que de qualquer espécie, cruzavam entre si para manter a herança genética. O que eu e Alana fizemos foi imperdoável. Foi com base no que aconteceu que fomos atrás dessa luta, Alana era totalmente a frente das ideias preconceituosas, esperançosa em todos os aspectos, precisei segui-la, porque... –ficou em silencio por um breve momento – Não vou explicar de sentimento para você. Mas o que você precisa saber, é que se ela dizia vamos fazer a revolução no mundo, no mesmo minuto, você iria.

Matt refletiu sobre isso e chegou a comparar com a sua família, talvez enxergasse um pouco disso em Nora e Jones, mas só neles. E quando ele estava prestes a concluir seu pensamento, o carro parou e Bill respirou fundo, antes de anunciar:

—Pegue a minha besta no banco de trás.

(...)

O sangue escorria sem perfeição pela pele fria de Riley, um traço fino e insistente acumulando pequenas poças no chão. Depois de algumas horas havia cansado de gritar e chorar, suas forças se concentravam apenas em ficar consciente por alguns minutos e ter pequenos desmaios.

—Poderíamos vender o sangue dela. –comentou o vampiro de cabelos mais longos. Ele apenas mantinha seus olhos fixos nas cartas do baralho, inseguro com seu jogo e esperançosos por distrair seu oponente e amigo.

—Poderíamos apenas matá-la de vez. –resmungou o outro, com tatuagens e ar mais macabro. – Mesmo que eu saiba que desse jeito ela não acorde amanhã.

—Não... –e ficou pensativo, talvez analisasse seu jogo antes de dizer algo ou talvez articulasse um plano melhor. – Quanto o clã do norte pagaria pela mestiça dos lobos brancos?

O vampiro de tatuagens abaixou seu jogo, as cartas viradas para baixo e fitou Riley. Não havia enxergado por esse lado, não havia nem sequer se dado conta de que ali, como prisioneira, estava um espécime muito mais valiosa do que um mestiço qualquer.

—Então temos que partir hoje mesmo. –concluiu ainda com os olhos fixos em Riley. – Se ela é quem pensamos que é, virão atrás dela, a família, a matilha e quem mais estiver interessado.

Com um piscar de olhos o vampiro de cabelos longos estava a centímetros do rosto de Riley. O sorriso parecia congelado no rosto, internamente ele desejava matá-la, vingar a morte de Josh parecia acima de qualquer negócio, mas o que o clã do norte faria com ela superaria qualquer crueldade que ele pudesse ter planejado para ela. Se o que ela havia lido por cima no livro ainda fosse algo concreto, então poderia ser uma bolsa de sangue perfeita para rituais.

Estava farta de ver os sorrisos afiados nos rostos daqueles vampiros, o prazer em seus olhos cada vez que um grunhido lhe escapava dos lábios junto com um choro silencioso. Pensava em morte. Em fechar os olhos e se render só para encontrar a paz, já não nutria mais esperanças e sentia medo.

Pingavam gotas de prata derretida em seus braços e riam toda vez que o corpo de Riley se contorcia. Foi só quando um barulho estrondoso rompeu vindo de fora do galpão que os dois vampiros congelaram de olhos arregalados.

—Se ela gritar por ajuda despeje a prata na boca dela. –avisou o vampiro tatuado e saiu a passos firmes.

O de cabelos longos balançou a tigela no ar de forma provocante. Riley tossiu engasgada com o próprio sangue em uma tentativa desesperada de respirar e ele ameaçou passando o vapor quente próximo de seu rosto.

—Acredito que seu pai chegou para a festa.

A porta se quebrou em duas revelando Bill e o vampiro tatuado atracados aos socos. A besta de aço deslizando para longe dos dois. Matt entrou correndo e com um movimento rápido arremessou uma faca contra o peito do segundo vampiro, que cambaleou e deixou a prata cair para longe de Riley.

Riley arfou desesperada, mas foi impedida de chama-lo pela coleira de prata que lhe envolvia o pescoço. Matt voltou a correr, sem se preocupar que Bill perdia a luta a alguns metros de distância. Correu até Riley ignorando o vampiro ainda vivo com a faca presa no peito.

Quando chegou no destino parou, respirou e juntou as forças que tinha para tocar nas trancas de prata, sua mão tremendo, seus dentes cerrados. O chiado da pele queimando era alto, como o quente em contato com o frio. Riley estava angustiada pelo esforço dele, arrancou a primeira e a segunda já parecia mais fácil, gradativamente melhorando nas outras. O corpo dela caiu mole nos braços dele e escorregou para o chão, porque ele próprio era incapaz de segura-la com as mãos em carne viva.

Matt estava prestes a se virar quando sentiu o a faca próxima a sua cabeça. Virou-se desviando por poucos centímetros. Estremeceu e caiu de joelhos, assustando não só uma Riley debilitada, mas o vampiro ferido a frente. Dois segundo mais tarde, o corpo inflou e como uma explosão a forma de lobo irrompeu de si.

Foi como em câmera lenta, a roupa rasgando, os olhos revirando e todos os ossos se moldando em uma nova estrutura. A monstruosa besta era tão feroz que Riley não pode se fascinar, a versão de Nora nem chegava perto daquilo que foi capaz de repartir o vampiro em dois. O sangue preto explodindo como fogos de artificio. Seu pelo da cor de um tronco de arvore estava sujo, os olhos negros como a noite que consumia o mundo em dias sem luz. Era disso que Matt temia, essa transformação que o afastava do humano.

Rasgou o segundo vampiro com ainda mais violência. Avançou para o Bill e Riley imaginou o pior desfecho. Segurou a sua blusa com força, juntou ar e gritou para que pudesse ser ouvida em todo o galpão:

—Acabou! -ofegou, queria gritar de novo, mas não tinha folego. Era como num sonho onde coisas ruins estavam prestes a acontecer e você não tinha voz para impedi-las.

O lobo parou. Havia reagido a voz, se virou devagar, o sangue escorria nos pelos e na boca. Fez jus aos desenhos que ela havia visto no livro no estúdio do seu pai. A respiração pesada dele era um sinal de que buscava a calma. Bill também se levantou, estava bem.

Riley tossiu mais uma vez e olhou para Matt ainda na forma de lobo, em algum lugar ali enxergou sua humanidade e sentiu que agora finalmente poderia fechar os olhos sorrindo.

(...)

O cheiro de floresta proporcionava a melhor sensação. Riley sorriu ainda de olhos fechados. Antes mesmo de abri-los sabia quem estava lá, sabia onde estava. Poderia eternizar aquela sensação de paz. Não se lembrava da última vez que se sentiu assim, agradecida por estar viva. Se fosse o céu ou apenas o acampamento estaria feliz de qualquer forma.

Abriu os olhos e lá estava Matt, humano e bem, sentado perto da cama. Até mesmo sorria, convencido de que o sorriso de Riley era por ver ele. Ela viu que suas mãos estavam enroladas em grossas ataduras e se sentiu culpada.

—Isso... -ele olhou para as próprias mãos e acenou. – Estamos combinando. São como luvas de boneco de neve. -suspirou abaixando as mãos e ficando sério. – Vai ficar tudo bem, as cicatrizes somem em alguns meses.

Cicatrizes.

Riley não imaginava que a prata feria tanto. Era possível ver em torno dos seus pulsos as feridas escapando por de baixo das suas ataduras. Antigamente, antes da mordida de Josh, ela tocava o material e nem sentia a diferença, mas agora algo realmente havia mudado. Não só o corpo, sua força e sentidos, mas também suas fraquezas, agora não tão humanas e mais hostis. Se voltasse a fechar os olhos, ainda podia sentir a dor de ser torturada.

—Sinto muito. –sussurrou rouca, a garganta machucada impediria sua voz de voltar ao normal por um bom tempo. – A nossa briga, você tinha...

—É bom vê-la aqui. É bom ver você sorrir, porque... –parou e voltou com as mãos no bolso da jaqueta. – Eu a vi morrer, Riley, você já estava morta, os olhos fechados e tudo mais. Só que você sorria, tinha esperança de que tudo ia acabar bem, mesmo que eu não acreditasse que podia te soltar das trancas de prata, mesmo que eu soubesse que não tinha forças para me manter consciente na transformação... Eu preciso me desculpar, abandonei você mais uma vez.

Ele falava sobre a época em que Riley sofria com o veneno de vampiro no organismo, havia se negado a ajudar e partido. Só que Matt não entendia que com Riley as coisas iam e vinham com facilidade, a culpa nunca foi algo que ela cultivou por muito tempo e ele deveria esquecer aquilo como ela esqueceu.

—Não ligo, não me importo com isso. -era tão difícil falar e como Riley queria falar naquele momento.

—Você não precisa fazer parte desse mundo sobrenatural, você tem escolha e é melhor do que tudo isso aqui, não troque seus planos e sonhos para viver nisso aqui.

—Não estou trocando. –respondeu com dificuldade. – Eu... Pertenço... Aqui.

—Você vai morrer. –advertiu sério.

—Não é a primeira vez que você se engana sobre isso. –relembrou abrindo um sorriso vantajoso, mas Matt não acompanhou a brincadeira.

—Sair um pouco da cidade, apagar o seu rastro, talvez ficar longe de...

—Isso não funcionou com o Will. -disse baixinho, não queria machuca-lo.

Ele abriu a boca para responder, mas desistiu e fechou a cara:

—Haverá outros piores que Josh, piores do que aqueles que te torturam. Pessoas te caçaram por dinheiro, por status ou simplesmente porque odeiam mestiços.

—Sempre vai haver pessoas ruins... Nesse mundo ou no outro. –tossiu seco e foi enfática ao encerrar o assunto. — O que muda daqui ou de lá são as pessoas que são importantes para gente.

Bill entrou no quarto com uma batida de porta. De cabeça meio abaixada parecia precisar de um momento a sós com a filha. Matt se afastou antes que Riley pudesse toca-lo, se levantou e saudou Bill com um aceno. Riley o observou sair e depois voltou o olhar para o pai.

Ele encarava suas mãos calejadas. Mãos de um caçador? Mãos de um mentiroso? De um singelo fotografo que não era? Um silencio perturbador tomou o quarto. Era muito a ser dito, muito para se absorver. Bill respirou fundo, abriu e fechou as mãos.

—Apenas me ouça. –pediu gentilmente antes de começar a contar do princípio.

(...)

Há três dias Caleb tentava recuperar o material confiscado pela polícia. Temia que se alguém descobrisse que ele ainda estava nessa de pesquisar sobre a vida de Riley alguém o denunciasse de novo, mas agora mais do nunca tinha certeza de que algo muito sombrio a envolvia, não só na morte de Josh.

Quando se pegou pesquisando sobre coisas sobrenaturais percebeu que estava no limite de sua sanidade. Parou. Respirou fundo. Com certeza estava um pouco mais louco desde que começara nisso.

Seu telefone tocou o tirando dos seus devaneios com um susto. Com um sobressalto pegou o aparelho que vibrava intenso no balcão. Era do hospital da cidade a julgar pela numeração estranha. Atendeu receoso.

—Caleb? –a voz era suave e feminina, logo reconheceu como recepcionista do hospital, Sara. Ambos tiveram um caso há dois verões atrás, nada sério, contudo uma amizade se formara com o tempo. – Tenho novidades.

—Por favor, que seja sobre o que eu estou pensando. –suplicou mais para si mesmo do que para a mulher do outro lado da linha.

—Pediu para que eu ficasse de olho em qualquer coisa que envolvesse a filha do fotografo, Riley. –ela fez uma pausa dramática, talvez esperando uma confirmação do próprio Caleb. Percebendo que isso não aconteceria, continuou: — Ontem Nora solicitou um kit medico para queimaduras, com ataduras e remédios. O diretor perguntou para qual finalidade e ela ficou apreensiva, mas disse que era para Riley. Parece que a garota foi descuidada e caiu em algum liquido fervendo. Eles tentaram fechar a porta da sala para tornar a conversa mais privada, mas consegui ouvir pela brecha. O mais estranho disso foi que Nora disse com essas mesmas palavras “Tivemos sorte porque foi perto da lua cheia”. Eu não entendi se isso se trata de alguma superstição, mas eu sempre desconfiei que essa mulher era envolvida em algum culto religioso. –ela suspirou, parecia cansada. – Seja como for, não posso te ajudar em mais nada além disso, o diretor é totalmente rigoroso e a Nora é a sua queridinha, não me envolva em mais nada.

—Sim, claro. –respondeu de imediato. – Você foi muito útil Sara, muito obrigado... Sabe, qualquer dia poderíamos sair pra...

O telefone ficou mudo. Ou Sara precisou desligar as pressas ou eles não eram tão amigos como Caleb imaginara. O importante é que agora tinha uma informação nova para saber de onde deveria começar. Pegou o notebook e digitou lentamente:

“SUPERSTIÇÕES ENVOLVENDO LUA CHEIA”

(...)

Sara colocou o aparelho de telefone no gancho. Suas mãos tremiam enquanto ela arrumava os papeis envolta da mesa e se dirigia para as portas de emergência no fundo do hospital. A medida que andava sentia que estava prestes a tombar, as pessoas como borrões escuros e a luz branca como o sol de meio dia contra os olhos. O único barulho que ouvia era as próprias batidas do coração, fracas.

Passou pelas portas que tinham o letreiro escrito “SAÍDA”. No fundo era onde os funcionários as vezes vinham para fumar, mas Sara estava ali para suprir outros vícios. Na verdade, um primeiro e recente vicio adquirido em um passeio de sábado à noite.

Estava uma noite tão sombria como dos dias anteriores. O vento gelado fazendo cada pelo exposto do seu corpo se arrepiar. Parou por um minuto e um breve desespero afligiu seus pensamentos: “E se ele não viesse, como ela aguentaria?”

Congelou. Abriu bem os olhos aceitando o resquício de claridade do lugar. O alivio a fez relaxar. Ele estava ali, bem entre as ambulâncias desligadas. Sara mal podia vê-lo, apenas a silhueta na escuridão.

—Fiz tudo o que você disse, liguei para o Caleb e contei a história como o combinado. –um interminável silencio macabro. Sara cerrou os pulsos, “por que ele ainda não dissera nada?” se perguntou nervosa. – Ele acreditou em tudo, ficou animado até... –o silencio permaneceu e Sara começou a duvidar de que era realmente ele a silhueta entre as ambulâncias. – Não me deixe sem, por favor eu não vou...

Uma mochila foi jogada na sua direção, caiu com um som macio aos seus pés. Sara abriu exasperada, mal podendo controlar os dedos trêmulos no zíper. O coração pareceu bater forte quando viu as bolsas de sangue, o aroma agridoce preenchendo o ar. Tomou uma em suas mãos e se sentou ali mesmo, sem se importar em sujar o uniforme no chão lamacento que horas antes havia recebido uma chuva forte. Abriu o lacre e bebeu. O liquido espesso descendo em goles sedentos. O sangue lhe devolvendo a vida.

Notas finais
♪ - Fix You (Coldplay)