OCASO
23 Queda 6.3
Tyler aninhou Holly em seu colo. Aquele pequeno corpo frágil e frio, que horas antes queimava um tipo de vida única, um sorriso tão sincero e de conselhos tão bons. Tocou seu rosto já não mais corado e quis chorar muito, como não chorava há muito tempo.
“Sinto muito”, repetia várias e várias vezes balançando em seus braços.
Ao seu redor as pessoas recolhiam os corpos, limpavam o sangue e se recuperavam. Ninguém conversava muito entre si, só o básico. Em seus rostos o espanto, o medo, a amargura da derrotada. Naquele meio tempo, Tyler já havia ouvido sobre como Christopher chegou com outros vampiros do clã do norte e simplesmente devastou tudo que via, principalmente os anciões da matilha.
—Deixe-me vê-la. -pediu uma voz gentil. A voz de Nora, que agora não parecia mais tão machucada como antes. Tyler fechou mais Holly em seus braços, não queria solta-la. – Por favor...
Ele cedeu e Nora a tocou no pescoço coberto de sangue seco. Depois abriu o olho de Holly devagar a procura de algo que Tyler não sabia dizer o que era.
—Tyler, eu vou ser bem sincera com você. Holly está em estado vegetativo e não ficará assim por muito tempo. Christopher a infectou e a deixou na beira da morte.
—Você não pode salva-la como Scott e Thomas?
—Infelizmente não, a única coisa que ainda a mantem o seu corpo ligado é o veneno, o processo de extração demora e se isso não a matar, com certeza a ausência do veneno irá. -ela se agachou para puxar a blusa que cobria o pulso de Tyler. — Você pode tira-la desse sofrimento ou pode cortar seu braço e terminar a transformação. Desse jeito ela vai agonizar por mais algumas horas e se você der o sangue... Bom, você sabe o que acontece.
Nora se colocou de pé e deu as costas. Havia outras pessoas para atender, crianças machucadas, corpos que precisavam ser enterrados, até mesmo desaparecidos. Tyler imaginou qual seria a vontade Holly. Imaginou o que dizer aos seus pais, ao seu irmãozinho e até mesmo a Emily. Imaginou como seria se Holly fosse vampira e o quanto ela sofreria. Poderia odiá-lo para sempre por isso.
Tampou seu nariz e sua boca. Seu rosto teve um impulso rápido de virar, mas debilitada do jeito que estava não conseguia lutar contra o aperto de Tyler. Se a matasse as coisas ficariam melhores para quem?
Não podia fazer isso.
Largou seu rosto e colocou seu pulso liso na boca de Holly. Seja como for, Holly teria que o perdoar. Nada aconteceu por alguns minutos, poderia ser tarde demais ou ela não reconhecesse ainda que aquilo se tratava de sangue.
No instante em que Tyler pensou em desistir, suas mãos pequenas agarraram seu braço e seus dentes encravam famintos no pulso. O sangue lhe escapando pelos canto da boca. Seus olhos arregalados perdiam a cor, mudavam para um azul tão claro perto de chegar no branco, encaravam os de Tyler com tristeza.
—Sinto muito. -continuava a repetir enquanto a mantinha aninhada em seus braços. – Sinto muito.
(...)
Nora correu aos braços de Jones sem se importar que todos o olhavam. Ele a pegou firme e prendeu em seus braços. Estava suado e machucado, mas sorria da forma mais amável que só ele conseguia. Estava tão grata por ele estar vivo e bem, tão grata que mal podia conter a emoção de chorar.
—Nós perseguimos eles até a fronteira do norte, mas tivemos que voltar. -comentou Jones somente para ela ainda no abraço. – Não consegui encontrar o Matt, eu acho que nos distraíram, levaram ele de outro jeito. Eu... Era uma armadilha para enfraquecer o acampamento enquanto os melhores em combate estavam atrás de Matt. No fim não conseguimos nada e perdemos muito.
—Salvamos alguns, muitos na verdade. -confortou Nora mesmo insegura das suas palavras.
Jones a soltou para olhar bem seu rosto. Nora fazia o mesmo sem evitar o suspiro de alivio. O amava tanto que seu peito se comprimia do tamanho de um grão, estava farta daquela vida, da luta incansável para sempre enterrar pessoas queridas. Cansada de dormir preocupada se Jones não poderia ser o próximo morto.
—A Riley? Levaram ela também? -perguntou confuso.
—Isso é algo ruim, vem comigo. -puxou Jones pela mão o afastando das pessoas curiosas e o levando para o que outrora já tinha sido o casebre onde Riley passou alguns dias.
Entraram e logo se depararam com Tyler sentando em uma poltrona meio sonolento. Estava com cortes no rosto e com as mãos tremulas. Havia perdido sangue demais para Holly, havia tomado uma decisão importante demais.
—Quem é ele mesmo? -indagou Jones na defensiva.
Tyler se levantou sobressaltado, andando mancando e estendeu a mão para Jones:
—Sou Tyler, é... -pareceu desconfortável com as palavras que viriam a seguir. – Ex-namorado da Riley.
Jones aceitou o aperto de mão e virou melhor para ver a marca no pulso de Tyler:
—Parece que um vampiro te mordeu, não é? Você já tomou a cura para o veneno?
—Pelo jeito eu não preciso. -e revelou a marca cicatrizada na pele puxando a blusa um pouco de lado.
—Você tem a marca de caçador? -recuou dois passos incrédulo.
—Então... -Nora interrompeu retomando a frente da conversa. – Muitas coisas estranhas aconteceram, muitos problemas para se resolverem nos próximos dias, mas o maior de todos está bem na nossa frente. -e mostrou Riley em coma na pequena cama perto da janela.
(...)
Segurou a mão de Riley apenas na ponta dos dedos e abaixou a cabeça cansado. Não dormia bem há dias e depois do que passara talvez nunca mais fosse capaz de deitar a cabeça no travesseiro e esvaziar a mente. Lembrou-se com pesar de quando a mãe de Riley morreu e de como ele precisou ser forte para ela, mesmo jovens, Tyler quis mostrar que ela poderia encontrar nele alguém que não iria desmoronar. Pareceu mais fácil quando eram crianças, onde nada nunca parecia os atingir com tanta força.
Agora vendo que existia a mínima possibilidade dela morrer, sentia-se fraco. Todas as energias levadas de si, farto de estar firme. Tudo mudando constante para algo pior do que um dia já foi. Pessoas morrendo e sangrando pelos motivos mais irreais. Tanto para se engolir sem se entender a metade da história.
—Riley. -falou em tom de suplica. – Precisa acordar. Você precisa arrumar essa bagunça, dar ordens e gritar um pouco comigo... -riu nervoso. Riley não era o tipo de pessoa que gritava, mas imagina-la fazendo isso lhe deu um pouco de conforto. — Você precisa voltar para as pessoas que te esperam, pessoas que precisam de você... Riley, eu preciso de você. -apoiou a outra mão na cama. – Seu pai está vivo, você o salvou e todos te acham incrível por isso, precisa voltar e ver como ficou famosa... -engoliu em seco, uma última tentativa de não chorar. — Me desculpe, mas coisas ruins também aconteceram...
Tyler se calou. Riley havia apertado sua mão ou aquilo era só uma pegadinha da sua mente sonolenta? Seus dedos magros em um aperto duro. Aos poucos, quase como o acordar de uma boa noite de sono, ela abriu seus olhos. Não parecia confusa ou desesperada. Riley sorria:
—Eu estou aqui.
—Não acredito que você acordou. -reprimiu a vontade de abraça-la. O sorriso dela parecia da mesma Riley que chorou com emocionada quando ele passou na Universidade.
—Por quanto tempo fiquei assim?
—Dez dias, não achávamos que você ia acordar em menos de um mês.
Riley se sentou abruptamente. Toda serenidade cedendo ao susto.
—Não foi um sonho. -falava mais para si mesma. – Onde está o meu pai?
—Ele está bem, você conseguiu salva-lo e... -Tyler parou de falar. Percebeu que no rosto de Riley escorriam lagrimas silenciosas. – O que foi? Aconteceu alguma coisa?
—Tyler, por que eu não sinto as minhas pernas?
(...)
Retomava aos poucos sua consciência e à medida que o caminhão balançava sua cabeça batia contra o metal frio, o despertando mais de um sono sem sonhos. Matt pouco conseguia fazer, mas pensava muito nas últimas horas. Como havia parado ali. De como Christopher o drogou e a última lembrança que teve foi na floresta com Riley, dos seus olhos perdidos e suplicas silenciosas. Se ao menos ali soubesse que aquela era sua última chance de lhe dizer algo importante, de fazer algo que mudasse tudo...
Não devia ter acredito tão cegamente em Christopher. Todos mudavam, todos mudaram depois da morte do Will. Inocência a sua acreditar que de todos, Christopher ainda permaneceria no bom caminho, quando nem ele próprio conseguiu se manter. Se recordava do quão rebelde ficou depois de toda a sua família, membro após membro, morrer. De como queria chutar portas e matar vampiros. De como odiou o Conselho e Jones, fazendo do ódio seu único motivo para levantar da cama todos os dias. Se meteu em várias brigas, desafiou pessoas poderosas e na lista de mortos que fez levou um ou dois que não mereciam.
Então esse era o declínio de Christopher. Trair a todos com suas manipulações e mentiras, induzir todos a se afastarem, pegar um após o outro e enfraquecer seus laços, acreditar que somente Christopher poderia entender sua dor, já que este podia estar na sua mente.
Como não pensou nisso antes?
Como não pensar para onde está indo?
Já fazia horas que viajavam sem muita pressa. Não estava mais tão frio atrás, embora soubesse que Christopher havia bagunçado sua cabeça com seu dom. O caminhão fez duas paradas, rápidas, para reabastecer ou para pegar algo. Se fosse para Matt morrer, não o levaria para tão longe. Se o clã do norte queria Matt, não era por vingança.
Pensava no acampamento. Em como as coisas poderia estar horríveis. Na probabilidade de mortos e vivos, além das chances de onde Jones, Nora e Riley se encaixarem nisso. Sem eles... Se qualquer um deles Matt perderia o rumo, nunca iria saber lidar.
O caminhão parou devagar. Matt encostou mais seu rosto contra o metal e tentou ouvir.
Havia vozes e risadas.
Era algum lugar. A parada final. O clã do norte.
A porta se abriu. Um vampiro de olhos vazios e roupas grossas sorriu. Tinha a cabeça raspada, a julgar pela palidez da pele e cor das sobrancelhas era albino.
—O convidado especial chegou finalmente. -virou o rosto para onde as vozes vinham- Hoje a tortura ao vivo é por minha conta. -bravejou triunfante levando o braço.
—Não vai tocar nele. -entoou uma voz mansa que se aproximava das portas.
—Então você ficou com tanto medo de machucarmos ele que veio dirigindo? -debochou o vampiro dando espaço para o rapaz com boné e casaco de time de beisebol entrar no caminhão. – Ele ainda é o prisioneiro do clã do norte.
Matt recuou, mas não havia como ir mais para trás. Estava no fim, encolhido ao frio do dia lá fora e do próprio frio que sentia por dentro. Sentia-se acanhado como um animal que acaba de apanhar do seu dono a qual foi tão fiel. Queria fechar os olhos e sumir ou apenas descobrir que aquilo era só Christopher mexendo com suas lembranças e sentimentos.
—Ele ainda é a minha família. -vociferou estridente o rapaz que agora tirou o boné revelando o cabelo loiro escuro.
—Que ótimo, agora o cãozinho de estimação tem o irmão de volta. -o vampiro levantou os braços e saiu descontente.
Sem o boné dava para ver o seu rosto. A semelhança com alguém que não deveria existir. Um fantasma que já atormentou Matt em tantos pesadelos, que agora na realidade podia ser confundido com um.
—Matt. -chamou o rapaz se agachando receoso.
Matt estava perplexo, a voz saiu tremula quando disse devagar:
—William.
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