OCASO

12 Confiança 4.1


O som explodia das caixas de som potentes de Scott. Ele cantava e batucava no volante, estava frenético depois do segundo baseado de êxtase. Thomas zapeava em seu celular, a tela no brilho mínimo para não incomodar as pupilas extremamente dilatadas, estava lidando com a ansiedade pelo possível encontro com Jennifer, garota pela qual estava interessado há dois anos, era visível o nível de estresse já que a ponta dos dedos estava na carne e as unhas mal roídas faziam ondas imperfeitas.

No banco de trás Tyler quase caia no sono e o que o impedia de tal era as batidas compassadas que fazia sua cabeça bater no vidro. Estava exausto. Não fisicamente, mas psicologicamente. Podia até parecer piegas, mas não conseguia parar de pensar em Riley. No dia perfeito na praia e ainda melhor na casa dela, só agora entendia o quanto aquele dia pareceu soar como um adeus escondido nas entrelinhas.

Caleb havia ligado totalmente insano há alguns dias, gritava os piores xingamentos, haviam levado tudo o que ele tinha de Riley. Então Tyler tinha feito a pior coisa, não era o certo, mas ele se lembrava perfeitamente do que tinha dito ao irmão:

“Você pode calar a droga da boca? Apenas pare de falar toda essa merda por um minuto! Para de culpar a Riley, de falar nela como se a conhecesse, como se você tivesse alguma moral para acusar alguém de cometer um crime. É isso Caleb, você conseguiu, vá se foder com todas as suas paranoias, ninguém dá a mínima para os segredos da Riley e muito menos para você.”

Havia sido tão cruel que no mesmo minuto suspirou e pediu desculpas. Desculpas sinceras, nada daquilo era algo que ele realmente pensava. No fundo começava a acreditar em Caleb e isso o revoltava, era difícil aceitar, então ele só berrava aquelas coisas para o irmão na esperança de que ele próprio calasse seus pensamentos duvidosos.

Riley estava diferente. O dia perfeito com uma versão perfeita dela não deveria existir, nunca. Isso era só uma tentativa dela de desviar o foco de si e dos seus problemas. Riley já havia feito isso um milhão de vezes e pela primeira vez, foi fácil identificar algo que a envolvia.

—Você vai supera-la. –afirmou Scott gritando por cima do som. – Garotas fodem tudo, quando ficamos com elas ou quando estamos querendo ficar com elas. –e apontou para Thomas.

—Nós não terminamos. -declarou Tyler, mas não se sentiu aliviado. – Eu só acho que não deveria ir nessa festa.

—Por causa dela? –revoltou-se Scott diminuindo o som.

—Não. –mentiu engolindo seco. – Caleb me ligou disse que quase foi preso por causa de uma denúncia anônima, ele diz que foi a Riley, disse que ela estava com um cara estranho que nunca apareceu na cidade e daí ele começou a me falar um monte de teoria maluca... Então não, definitivamente não é por ela, mas pelo meu irmão louco.

—Está vendo! –batendo no volante com aquela expressão de “estou sempre certo”. – Essa garota fode até com a sua família, sua sorte é que eu convidei uma amiga minha que vai na certa fazer você esquecer da Riley. –e antes que Tyler contestasse, Scott aumentou o volume e voltou a cantarolar a pleno pulmão.

(...)

Para Riley conviver com as dores no corpo era tão mais difícil quanto ouvir os murmúrios da matilha sobre quem ela era. O fato de ser mestiça era um assunto que rendia muito em todos os almoços no acampamento, havia gente que não se incomodava e havia os que achavam que assim como Will, isso só traria mais problemas. Riley não só havia se tornado famosa entre os membros da matilha, como também fora dela. Sabia que seu nome havia ficado falado demais e sua história passada para outras matilhas e clãs mundo a fora. Era atenção demais.

Recolheu a lenha com dificuldade enquanto observava algumas crianças brincando de escalar uma arvore. Estavam risonhas e sujas, indiferentes demais para a tensão dos adultos no lugar. Todos estavam preocupados com a semana da lua cheia, até mesmo Riley que não fazia ideia de como seria sua primeira transformação.

—Deixa eu te ajudar com isso. –Bill tomou em seus braços alguns tocos de arvore.– Sabe que não pode fazer esforço em tão pouco tempo, não vai se recuperar assim.

—Preciso fazer alguma coisa. –Riley começou a andar meio torta em direção as cabanas. Seus pulsos e pescoço ainda estavam enrolados em ataduras, sentia-se como um farol ambulante no acampamento. Era inevitável. – Preciso ser útil.

—Você não precisa fazer parte disso. –e com o olhar mostrou o acampamento. – São egoístas, nunca te aceitarão e você ser útil não te fará mais digna na percepção deles.

—Eu só tenho aqui. –jogou os tocos de madeira no monte perto da fogueira recém apagada. – Não existe nada que me prenda naquele mundo fora das cercas, aqui é o que eu sou agora e se me julgarem eu não me importo, porque eu ainda estarei sendo parte de alguma coisa.

—Você e Tyler terminaram?

—Não. –Riley pegou um machado e usou com violência para repartir o primeiro toco. – Estamos em perfeita harmonia, cuidei para que eu pudesse afasta-lo aos poucos, gradativamente para que não seja... -procurou a palavra apropriada, mas nada lhe vinha à cabeça. – Para que não seja tão dolorido.

Bill balançou a cabeça, sentiu-se na obrigação de também pegar um machado para acompanhar a Riley.

—Para que não seja dolorido? Vamos lá Riley, vocês namoram há quantos anos? 3 ou 4 anos? –quebrou um toco sem usar muita força. – Ao que eu saiba vocês nunca terminaram esse relacionamento por mais de 10 minutos e agora você me fala que quer afasta-lo para sempre.

—As circunstancias são outras, existe um motivo mais maduro do que ciúmes e briga. -explicou paciente. — Não vou torna-lo parte disso, Tyler faz Universidade, é um ótimo surfista e tem uma linda vida humana e extraordinária pela frente.

—Isso é por causa do Matt? -perguntou quase em um sussurro inaudível.

—Não. -respondeu com veemência. – Talvez sim, mas não nesse sentindo. As pessoas morrem desse lado da história, elas me caçam e me fazem sangrar porque sentem prazer e sabe se lá o que poderiam fazer com Tyler simplesmente por ele estar no lugar errado e na hora errada comigo. E agora todas as vezes que eu fecho os olhos não sou capaz de sonhar, porque qualquer lembrança dói e Josh morre em todas elas e vampiros de olhos vazios me perseguem risonhos. -parou de falar para respirar fundo. Limpou o suor que lhe escorria a testa- Pai, eu fiquei a beira da morte e tudo o que eu via era o rosto das pessoas que eu deixava, então eu só queria diminuir essa lista.

—Ninguém disse que isso era um fã clube sobrenatural, mas já que está aqui e foi contra qualquer conselho de fugir e se esconder pelo menos continue com os seus laços, com aquilo que ainda te torna humana. -ele largou o machado. – Nunca pensei que diria isso, mas você vai precisar do Tyler porque nele está todo o vínculo humano que ainda te faz ser quem é, não tem mais ninguém que possa te dar isso sem ser ele.

Por um momento Bill chegou a pensar que Riley o ignoraria, porque tentava tirar o machado do gramado em silencio. E ela chegou a cogitar isso. Era mais fácil dar as costas e sair andando do que ficar ali e terminar a discussão em lagrimas.

—Não, eu não preciso do Tyler e não é porque tenho um fã clube sobrenatural, mas porque tudo o que eu preciso agora é desses lobos para me deixarem segura. Para que talvez quando eu acorde amanhã eu não esteja sendo torturada com prata ou você sendo caçado como a mamãe foi. -respirou fundo juntando folego. Não queria chorar. Não precisava chorar.

—Riley, não tem como fugir, você vai se apegar as pessoas e eles irão tentar matar essas também.

—Não quero mais ouvir. -largou o machado.- Você já escolheu por mim tempo demais.

(...)

Matt já observara uma vez Riley desenhando. O modo como o lápis dançava na folha e a imagem ganhava vida depois de pronto, porém dessa vez não esperava encontra-la no penhasco fazendo isso. Dessa vez o lápis não dançava na folha, dessa vez ele parecia bombardear o papel de forma violenta, indo de um lado a outro furioso. As mãos de Riley estavam firmes e ansiosas para completar o desenho, ela nem mesmo notou a presença de Matt até ele pisar em folhas secas perto da pedra.

Levantou o olhar:

—Meu pai te mandou aqui?

—Não. –e ficou confuso por um momento. – Costumo vir aqui para encontrar silencio.

—Ah sim, tudo bem. –Riley recolheu seu material. – Eu já estava terminando.

—Pode ficar. –ele se sentou ao lado dela, o esforço no desenho havia feito suas ataduras sujarem um pouco com sangue. – Posso ver a obra de arte?

Riley entregou receosa, era um desenho horrível, sombras negras que mal tocavam o solo, corpos ensanguentados, o acampamento no caos e um lobo de pelos cor de madeira sucumbindo à dor no meio da escuridão da floresta.

—Você costuma desenhar muito isso?

—Não sei, eu não me lembro quando foi que eu perdi a habilidade de fazer algo para me sentir bem. –deu de ombros indiferente. – Os pesadelos são gritantes, então eu os desenho.

—Esse sou eu? O lobo morrendo? -apontou no desenho e sentiu o relevo da folha. Parecia uma cicatriz no papel.

Uma brisa leve passou por eles, como se o ambiente tivesse esfriado repentinamente. Riley estremeceu e Matt percebeu que talvez ela não quisesse falar sobre.

—Eu espero que não. –ela pegou a folha e guardou em sua pasta.

Matt tentou ignorar aquele súbito clima tenso. Arregaçou as mangas da blusa um pouco abaixo dos cotovelos, não percebeu a princípio que expôs as recentes marcas de injeção no braço, não era segredo para ninguém que Matt se drogava, mas Riley encarava fixo aquilo que já sumia lentamente.

—Não sou tão bom com a lua cheia, preciso me acalmar. –apesar da sua justificativa direta, Riley continuou encarando as marcas no braço, nada havia mudado depois das palavras. – A licantropia permite que eu me cure, daqui algumas horas as marcas vão sair e o efeito também... Eu... -parou de falar, ela agora o encarava. – Eu... Não sou um viciado nem nada do tipo.

—Quando a próxima lua cheia vier, você vai usar mais? -perguntou com uma voz mansa. Matt assentiu. – E isso não é ser viciado?

—Eu não sei... -puxou as mangas de volta aos pulsos e sorriu nervoso. – Parece mais fácil fala sobre isso sob efeito do álcool.

—Eu te entendo, Matt. -agora ela olhava para o precipício sob seus pés, media com os olhos a altura. Pensava em se jogar? – Doí em mim também, como um segundo coração que pulsa por cima do primeiro. Eu sinto o abalo que vem com a lua cheia, a necessidade de deixar de ser humano só para deixar de se importar com tantas coisas, ser a besta que te mantem viva quando nenhum outro lado humano poderia fazer.

Matt olhou para as suas mãos enfaixadas, não doíam mais, mas talvez doessem em Riley saber que aquilo era por ela. A encarou e ela levantou a cabeça sorrindo com tristeza. Matt entendia porque ela agora o aceitava, sabia que de sua pequena lista de pessoas importantes, ele era o único que poderia se sacrificar por ela sem muitos danos. Podia perde-lo e não faria tanta diferença, ele estava disposto a morrer e mesmo assim, por incrível que pareça, Matt não se importava. Ele também a usava, nem que fosse para fazer um pouco melhor do que foi com Will e aliviar a sua própria culpa.

(...)

O lugar era quente, a pouca ventilação o fazia suar. O que antes era um galpão para depósitos eletrônicos agora pulsava cheio de pessoas loucas demais para enxergarem a porta da saída. A fumaça e a máquina de flash deixava tudo meio turvo e lento. Tyler tentava se mexer de acordo com a batida, mas depois de uma garrafa de uma bebida verde já não lembrava mais como era ter coordenação motora. Procurou por Scott e Thomas nas últimas horas, mas havia desistido. Estava envolvido com algumas garotas que perdera a noção de espaço.

As garotas riam a todo momento e Tyler também tentava acompanhar a graça naquilo, mesmo que no fim só concordasse com a cabeça. Elas cochichavam e acabaram por conduzi-lo mais ao canto.

—Que tal um jogo, Tyler? –a morena mais alta tinha sotaque estranho, mas Tyler gostou do seu sorriso malicioso então só assentiu.

—Um jogo com sangue? –ofereceu a mais baixinha de cabelos cacheados e loiro. – Um pouco de cada.

—Eu não sei... –Tyler forçou para dizer as palavras com clareza. – Se eu quero sangue. –e caiu na gargalhada, contudo riu sozinho.

—O nosso você vai querer, bobinho.

A garota loira passou a mão no seu rosto e sorriu. Beijou Tyler na boca e desceu para o pescoço. O hálito dela era frio e fez a nuca de Tyler arrepiar. Quando parou deixou suas unhas compridas cortassem se braço frágil e pálido. Seu sangue tão escuro que parecia um borrão preto escorrendo.

“Beba.”, uma ordem mental impulsionava o corpo de Tyler.

Beijou o braço da garota, que parecia realmente se divertir com aquilo. O modo como Tyler recolhia cada gota de sangue que escorria e como sentia prazer naquilo. Para ele o gosto era indescritível, um vício que ele nem sabia que reprimia. O topor invadindo cada célula, dominando cada instinto. Encaixou o seu corpo com o dela contra a parede, não se importava que houvesse outras pessoas ali, ninguém parecia se importar. Precisava daquele sangue, da sensação de vida dentro de si, de sorrir em desejo e ver que aquela garota sorria satisfeita também. Não havia nada que o tirasse daquele transe, nem o som alto, o álcool no corpo, os gritos desesperados de alguém em algum lugar.

—Minha vez? -perguntou com um sorriso malicioso e afiado. Tyler já sabia o que viria. Ela puxou seu cabelo para trás sem esforço, expondo o pescoço. Mais beijos gelados na sua pele e quando estava prestes a morder veio o barulho de tiro. Um. Dois. Três. E o corpo da garota escorreu dos seus braços como uma boneca de pano.

Parte do fulgor de Tyler escapou dele como água pelos dedos, só que ainda sorria, os braços parados na parede ainda como se o corpo dela estivesse lá. Outro tiro. Fechou e abriu os olhos lentamente.

Uma mão quente lhe puxou o ombro de uma vez. O mundo pareceu tremer e ganhar foco. Era Caleb, furioso, a roupa suja de sangue, aos seus pés os corpos de garotas mortas. Sacudia Tyler com veemência, mas o mesmo não conseguia ouvir o que o irmão mais velho dizia. Esforçou a vista para ler seus lábios: “Não feche os olhos!” Caleb arrancou a blusa de uma das garotas mortas e deu a Tyler, mas ele não fazia ideia do que fazer.

—Vamos logo, antes que alguém venha atrás do barulho. — juntou o corpo do irmão para si e com esforço começou a andar.

—O que está acontecendo? –sussurrou tão baixo que não tinha certeza se Caleb ouvira. – Onde estão Scott e Thomas e...

—Possivelmente mortos. –falou sem rodeios enquanto abria a porta do carro às pressas.

—Mortos? –Tyler riu. Via o mundo rodopiar. – Eu também morri.

Caleb empurrou o irmão para o banco de trás e fechou a porta. Correu para o outro lado e já entrou no banco do motorista. Quando ligou o carro e começou a dirigir tão rápido que o vento entrava no carro como um chicote no rosto, foi que resolveu voltar a falar:

—Não Tyler, você não morreu porque eu te salvei daquelas malucas. –explicou pausadamente. – Aquela festa era só um disfarce para o que essas... essas... Coisas? –ficou em dúvida por um momento. – Para que essas coisas se alimentem, é como uma colheita. Eles levam universitários porque é mais fácil e... –olhou para trás onde Tyler se distraia com o cinto do banco. – Você não está nem prestando atenção, você não vai entender mesmo nesse estado, eu nem sei porque...

—Isso tem a ver com a Riley? –perguntou Tyler tendo um estalo de consciência.

Caleb balançou a cabeça, Tyler não sabia se o que ele via no rosto dele era um sorriso.

—Sempre, sempre tem a ver com a Riley.