O último ato no Tabuleiro de Copas
4 O final não tão feliz
Notas iniciais

Stuart
Lucy me encara com os grandes olhos azuis arregalados. As flores murmuram sons de espanto e tudo isso só me deixa ainda mais confuso. Embora minha vontade seja correr até encontrar algum lugar que faça sentido, me contenho.
– Não conhecem? – pergunto, receoso com o espanto.
– Me siga. – Lucy diz e se vira. Ela começa a pular e correr no meio das flores e faço o mesmo, sob os murmúrios de uma ou duas quando piso em suas raízes.
– Papai! Papai! – ela grita quando chegamos perto de algumas arvorés. Ao passarmos por ela, sou surpreendido por uma mesa de chá, com um pequeno rato, uma Lebre gigante e um homem tão estranho quanto tudo nesse lugar. Assusto-me e dou um passo para trás, tropeçando em uma raiz e caindo em um amontoado de folhas secas.
– Ele perguntou sobre a rainha vermelha. – ela diz baixo para o pai, talvez esperando que eu não a escutasse, mas a escuto.
– Quem é nosso novo amiguinho? – ouço passos em minha direção e me assusto. Afasto-me, me arrastando para trás por cima das folhas, mas ele me encontra. Seus olhos são estranhamente verdes e brilhantes, contrastando com sua pele dotada de uma alvura exagerada. Seus cabelos bagunçados e avermelhados estão presos por um grande chapéu negro, com uma fita vermelha o rodeando. Suas roupas são tão berrantes quanto sua aparência e, embora sua expressão demonstre cansaço, seu sorriso parece o de um lunático.
– Precisa de ajuda? – ele pergunta e estende a mão em minha direção. Hesito um pouco antes de aceitar a ajuda, mas estico a mão e, após segurar firmemente, ele me puxa para cima.
– Bem-vindo ao País das Maravilhas. – ele sorri e me encara. Então sua expressão muda. O verde de seus olhos escurece repentinamente e uma expressão de surpresa toma conta de sua face. Dou outro passo para trás, com medo do que o homem – se é que ele é humano – pode fazer.
– Papai? – Lucy se dirige a ele. Olho para ela, confuso, mas noto que ela está tão confusa quanto eu.
– Olhos azuis como os dela... – ele murmura e dá um pulo para trás que faz meu coração saltar. – Oh! Santa Rainha Branca! Ele tem os olhos dela, olhem... – ele pula e aponta para mim, como se eu fosse algum tipo de aberração. Não deveria ser o contrário?
– Eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar. – a voz grave vinda de trás de mim me faz dar um salto, mas quando me viro, não encontro seu dono.
– Aqui, garoto. – ouço-a à minha frente e me viro. A cinco centímetros do meu rosto está a cabeça de um gato com olhos azuis e brilhantes e pelo cinza-azulado. O susto me faz cair para trás novamente e várias gargalhadas irrompem no lugar.
– Parem. – Lucy exclama e vem em minha direção. Ela me estende a mão e, com sua ajuda, me levanto, irritado. – Sejam cavalheiros, rapazes.
– Você é filho de uma mulher de nome Alice? – um pequeno camundongo pergunta. Demoro a encontra-lo na beirada da mesa, ao lado de uma xícara de chá.
– Não. – respondo e todos param de sorrir quase instantaneamente. O camundongo desembainha uma espada e aponta para mim. – Eu sabia. O coelho errou. – ele grita. Ouço vários murmúrios que tomam conta de todo ambiente. Flores, pássaros, as criaturas... todas cochichando e provavelmente o motivo do burburinho sou eu.
– Minha avó se chama Alice. – grito e as vozes cessam. Encaro todos eles, parados, me encarando. – Sou Stuart George Liddell, filho de Anne Marie Liddell, neto de Alice Liddell. – continuo gritando. A atenção de todos está voltada para mim. – Eu estou à procura de minha mãe. Acho que ela foi pega por essa tal... Rainha Vermelha. – paro e mais murmúrios se erguem.
– Ah não... – Lucy murmura. O homem do Chapéu se aproxima de mim e deposita suas mãos brancas sobre meus ombros. Ele se abaixa até seu rosto se alinhar com o meu e me encara por alguns segundos, como se avaliando algo que está além do alcance dos olhos dos outros.
– Será você o guerreiro que nos livrará da tirana Rainha Vermelha? – ele pergunta baixo e seus olhos se estreitam. Não sei se foi uma pergunta ou uma constatação, então permaneço calado. – Quer chá, Stuart? – ele sorri maliciosamente e o brilho verde de seus olhos fica ainda mais vivo.
– Fora Cabeçuda! – todos gritam em coro e ele se afasta de mim, dirigindo-se à mesa.
– Venha. – Lucy me puxa pelo braço e me leva até a mesa, onde várias xícaras de chá estão dispostas. A mesa se enche com o camundongo, o cara do chapéu, o gato que some e reaparece quando bem entende, uma lebre que treme sem parar e não fica quieta na cadeira e Lucy, que parece ser a mais normal daqui.
– Você chegou na hora certa. – ela murmura sorridente, sentada ao meu lado.
– Eu não quero chá. – sussurro para ela. – Tenho que encontrar minha mãe.
– Açúcar? – o homem do chapéu pergunta para mim, mas só percebo que a pergunta foi direcionada a mim alguns segundos depois. Sinto o calor tomar conta de minhas bochechas.
– Um cubo. – respondo e forço um sorriso. Ele sorri em resposta e coloca um cubo em uma xícara de porcelana branca.
– Eu tenho uma parecida com essa na minha... – só então me lembro da mochila. – Droga. — murmuro. – Minha mochila.
– Olha o que encontramos perto das flores? – mais vozes. Mais criaturas pra me enlouquecer. Como se não pudesse piorar...
Atrás de mim, dois homenzinhos iguais, baixinhos e rechonchudos seguram minha mochila, cada um por uma alça.
– Na verdade, fui eu quem achei. – diz o da direita.
– Mas eu vi primeiro. – diz o da esquerda.
– A mochila é minha. Devolvam. – digo por fim e eles me encaram.
– Quem é esse? – um deles pergunta e aponta para mim. – Nunca vimos você por aqui. É da realeza?
– Tenham modos, Tweedles. – Lucy os adverte. – Entreguem a mochila.
– Tá bom. – eles respondem em coro e me entregam a mochila.
– Muito obrigado. – digo e volto à mesa. Os dois se sentam também e, ao dar uma olhadela pelo lugar, só vejo gente pirada. Acho que enlouqueci de vez. Se fosse Andrew, já teria escalado o buraco e voltado pra Paradise.
– Quero fazer uma pergunta. – digo e todos na mesa me encaram, curiosos. – Eu morri?
Várias gargalhadas irrompem na mesa e fico envergonhado. Até Lucy sorri com a pergunta, o que piora as coisas.
–Parem – o cara do Chapéu murmura. – Ainda não nos apresentamos. Sou o Chapeleiro Maluco. – ele tira o chapéu e o abaixa em reverencia.
– Mallymkun, o dormidongo. – o camundongo murmura e faz um movimento com sua pequena espada.
– Chess. – diz o gato e some no meio de uma fumaça cinzenta.
– Eu sou Tweedledee e ele é Tweedledum. – uma das criaturas gordinhas diz.
– Não. Eu sou TweedleDum. Ele é Tweedledee. – diz o outro.
A Lebre grita e solta uma gargalhada. Ela atira a xícara contra mim e Lucy me puxa para o lado, me fazendo desviar. Encaro-a com os olhos arregalados.
– Essa é a Lebre de Março. Acho que ela gostou de você. – Lucy sussurra.
– Ah... senhor Chapeleiro... você pode me levar até a Rainha Vermelha? – pergunto e ele me encara, consternado. Então ele abre a boca e as palavras que diz parecem ter sido decoradas, como uma poesia sendo recitada.
– Ela veio quando tudo parecia prosperar. Trouxe consigo os Ghroskot do Norte e as aves gigantes do Leste. Tomou o reino e sentou no trono da Rainha Branca. Sua sede por sangue não diminuiu com o tempo. A Rainha Vermelha voltou. – ele para. Todos encaram o chão, até mesmo Lucy, enquanto o Chapeleiro permanece olhando para o vazio.
– O que é um Ghroskot? – sussurro para Lucy
– É um... – ela começa, mas o Chapeleiro faz um “shiu” pra ela e ela faz o mesmo para mim, permanecendo de cabeça baixa por pelo menos um minuto.
– Fora Cabeçuda. – todos gritam em coro e, sorridentes, voltam a beber o chá como se nada tivesse acontecido.
– Vocês são loucos. – digo e me levanto da mesa. Caminho para longe, para o meio da floresta, disposto a encontrar a Rainha Vermelha sozinho.
– Espere. – Lucy grita e vem andando atrás de mim, mas estou tão irritado por ninguém me ajudar que a ignoro.
– Não pode ir pra floresta sozinho. É perigoso. – ela adverte e continua me seguindo enquanto caminho entre as árvores. Paro repentinamente. À minha frente, a fumaça tapa o caminho e me impede de avançar.
– O que é isso? – pergunto a Lucy, que para ao meu lado e olha para a fumaça.
– A Lagarta. – ela sussurra e continuo encarando a fumaça, que começa a se dissipar. Atrás da fumaça está uma lagarta, munida de um charuto bem grande.
– Olá, Stuart. – ela sorri. Sua voz é grave e lenta. – Sei o que procura. Você quer achar sua mãe, mas não conseguirá sozinho. Grandes desafios lhe esperam.
– Como faço para chegar até a Rainha Vermelha? — pergunto. Nunca pensei que depositaria as esperanças de rever minha mãe em uma lagarta.
– Conhece a Rainha Vermelha, Stuart? – ela pergunta. A encaro por alguns segundos, mas, antes de dizer qualquer coisa, ela começa.
– Ela fugiu da prisão e do exílio e voltou com um exército gigante. A Rainha Vermelha conseguiu subjugar o País das Maravilhas com criaturas horrendas ao seu lado e agora ela extermina quem quer que esteja em seu caminho, como antes. Ela os leva para um lugar onde toda a esperança de viver é pouca. Acho que você sabe o lugar.
– O tabuleiro de Copas. – murmuro e sinto minhas mãos esquentarem. A Lagarta acena com a cabeça e assopra um jato de fumaça em nosso rosto.
– E o que eu faço agora? – pergunto desesperado, mas ela começa a sumir na nuvem de fumaça novamente.
– Você veio enfrentar seu destino? – ela diz e então some. A fumaça toma conta de tudo e, depois que ela desaparece, a Lagarta não está mais lá.
– Preciso encontrar minha mãe, Lucy. – digo, encarando-a desesperado. Minha mãe corre perigo e cada segundo que perco aqui pode ser crucial para a vida dela. Preciso encontrar a Rainha Vermelha.
*
– Quer chá, Stuart? — seu sorriso está estranhamente aberto, mas dotado de uma malícia quase imperceptível.
– Não é chá. É sangue. — respondo rispidamente e rejeito a xícara de porcelana, com detalhes em vermelho. Ela parece um pouco desapontada, mas a surpresa incontida que trespassa seus olhos é o que me dá forças para enfrentá-la.
– Sabe de quem é esse sangue? — ela pergunta.
Eu sei?
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