O Último Suspiro
1 Lembrando
Notas iniciais
O frio pela falta de sangue já o dominava. A temperatura de seu corpo caia a medida que aquele liquido vermelho empapava suas roupas e também espirava no homem a sua frente.
–Pelo menos consegui. Eu o protegi uma última vez.– Pensou Haku, absorvendo o golpe de Kakashi.
Ainda segurando o braço do Jounnin e sentindo os dedos indo tão fundo em sua carne que quase tocavam seu coração, tossiu o que devia ser o resto de sangue de seu corpo.
Suas pernas estavam bambas e duras ao mesmo tempo. Mesmo que quisesse, não conseguiria se mexer. Gastava suas últimas forças segurando Kakashi naquela posição.
Foi quando sua visão começou a ficar turva. Viu um ponto branco no meio da escuridão, se aproximando e crescendo lentamente.
Uma rápida visão de seus pais passou por sua mente. Depois, imagens de quando crescia. Do dia em que descobriu suas habilidades. E por fim, de quando perdeu tudo o que tinha e amava.
Pensou que veria então o momento em que Zabuza o acolheu, mas teve uma surpresa ao reconhecer o cenário. Não era da ponte onde seu mestre o encontrou e nem estava de noite. Também nevava, mas agora estava em um pequeno parque no início da tarde.
A lembrança que pareceu se perder em sua mente ao longo do anos veio à tona. E Haku tratou de aproveita-la.
Flashback on:
O pequeno Haku andava pelas ruas daquela simples vila, procurando algo para comer. Fazia quase três dias que seu estômago reclamava, e ele tentava desesperadamente suprir essa necessidade.
Avistou um parque de aparência deserta, que ficava em frente a um prédio velho e mal conservado. Andou pelo lugar, procurando qualquer coisa que não o matasse quando engolisse. Se embrenhou por entre a grama que, mesmo com uma fina camada de neve cobrindo-a, havia crescido além da conta e chegava até seus joelhos.
– Olha galera, parece que temos um intruso. — Ouviu uma voz atrás de si.
Virou a cabeça e se deparou com três garotos mais ameaçadores e maiores que ele. Não somente em idade, mas em tamanho também.
–O que está fazendo aqui, pirralho. Não sabe que esse parque é nosso?- O mais magricela dos três reclamou.
Haku estava assustado. Até poderia dar conta se fosse apenas um garoto com a mesma idade que ele, mas três contra um, sendo que os três estavam em vantagem de força também... Ele próprio não tinha dúvidas.Levaria uma surra, e seria bem feia.
– Responde moleque! -Ordenou o mais corpulento deles. — Ah, pouco importa. Chefe podemos dar logo uma lição nele?
O maior dos garotos observou-o da cabeça aos pés, parando bem nos olhos e vendo o medo transbordando neles. Deu um sorriso cínico, que fez o sangue de Haku congelar nas veias. O mesmo esperava o veredito querendo fugir, mas suas pernas não lhe obedeciam.
– Kouta, Sone, segurem ele! — O "chefe" ordenou e os outros dois correram na direção do menino.
Só tomou de volta o controle de seu corpo pouco antes deles o alcançarem. Cada um dos garotos segurou um se seus braços e o ajoelhou no chão. O líder do grupo se aproximou e, sem dizer nada, deu-lhe um chute bem no estômago, fazendo-o tossir.
Essa reação e as risadas ao redor pareceram incentivá-lo, pois o garoto continuou com o ataque, agora dando socos e mais socos em Haku, que apenas se debatia e contorcia de dor.
Quando já não aguentava mais e estava prestes a desmaiar, ouviu uma voz que não era de nenhum dos três valentões.
– Ei vocês, larguem ele agora! -Era bem suave e feminina, mas o tom de raiva era evidente.
Mesmo assim, aquela voz soou em seus ouvidos e encheu seu peito com um calor aconchegante, fazendo seu coração voltar a bater forte como um tambor.
Olhou para cima e viu o que lhe pareceu um anjo. Apesar da expressão séria e brava, a menina ainda era bonita. Tinha uma pele branca como a neve e parecia ser tão macia quanto; os cabelos castanho-claros não muito compridos, estavam amarrados em um rabo de cavalo; os olhos pareciam ser cinzas, embora um tom avermelhado brilhasse neles; e para completar, usava um simples kimono verde com diversas flores desenhadas.
Haku murmurou um inaudível e imperceptível "Uau", enquanto líder dos delinquentes rangia os dentes e avançava sobre a menina.
– Não! — Ele gritou, com medo de que algo acontecesse a garota por sua causa.
Porém, o que aconteceu surpreendeu a todos. Foi tão rápido que nem sabiam direito o que houvera ali. Tudo o que sabiam é que agora a garota misteriosa estava por cima daquele bruta montes, caído e nocauteado no chão. Ela apontava uma pedra afiada para o pescoço dele. Fez um pouco de pressão, arrancandouma gota de sangue para provar que não estava brincando.
– Eu mandei largarem ele!!
Kouta e Sone olhavam para a menina com pavor. Não querendo se meter com ela, acabaram por soltar Haku e correrem dali. Quando os dois já estavam longe, a garota soltou o chefe, que correu chamando pela mãe.
Antes que Haku pudesse agradecer ou fazer qualquer outra coisa, a menina passou a rir, como se a situação pela qual passaram fosse motivo de graça.
– Eles eram tãaao durões, mas saíram daqui querendo a mamãe! Essa é boa, viu!
No começo, Haku a encarou sem ter ideia do que responder, mas a risada dela acabou contagiando-o e ele passou a gargalhar também.
– Mas agora, falando sério. -Ela parou de rir de repente. Sentou-se à frente dele e examinou seu rosto. — Você está bem?
Haku sentiu suas maçãs do rosto começarem a arder pela proximidade da garota. Deu um pigarro tímido e desviou o olhar antes de responder:
–Graças a você, obrigado.
– Não foi nada. Uma ninja nunca fica parada diante de uma injustiça.
–Você é uma ninja? — Ele indagou, pouco crente naquilo.
– Quero ser. — Um brilho de esperança faiscou em seus olhos. — Qual o seu nome?
– É... Haku.
– Nome legal. Muito prazer Haku, eu sou a Miso.
– Miso. — Ele repetiu, querendo gravar cada detalhe que descobrisse sobre ela.
– Não fui eu quem escolhi, lógico. Meu pai só entendia de sopas e minha mãe deixou a escolha do meu nome nas mãos dele, então já viu no que deu.- Ela se explicou, meio envergonhada.
– Eu gostei. — Haku respondeu, dando um sorriso sincero.
Miso pareceu ficar feliz com o elogio, e isso já bastou para que o sorriso de Haku se abrisse mais um pouco.
– Você está aqui sozinha?- Ele perguntou, reparando que não havia nenhum adulto por perto.
– Não, meu primo está lá na faculdade. — Apontou para o prédio caindo aos pedaços no outro lado da rua. — Se ele passar no teste que está fazendo,vamos nos mudar para Konoha e eu finalmente vou poder me tornar uma ninja de verdade! — A empolgação era mais do que evidente na voz de Miso.
Haku olhava com esplendor para aquele rosto tão iluminado e cheio de confiança. Ela era tão linda...
– Isso é o que você quer fazer, não é? — Perguntou depois de um tempo.
– Se você quer dizer que este é o meu sonho, pode tercerteza! — Exclamou animada.
– Sonho... — Ele repetiu a palavra que já estava fora de seu vocabulário a meses.
– E qual é o seu sonho? — Miso perguntou.
Haku ficou sem jeito para responder que não tinha um. A curiosidade no olhar de Miso era, em sua opinião, uma coisa linda de se ver, e ele não queria desaponta-la.
Porém, a menina reparou que a resposta demorava demais e tomou suas próprias conclusões.
– Ah, já entendi. — Miso desviou o olhar, ficando meio constrangida por pressioná-lo. — Não precisa ter vergonha, ninguém nasce com um sonho. — Ela tentou animá-lo de novo. — Se você não tem um é só por que ainda não o encontrou.
– Como você descobriu que queria ser ninja? – Haku não se conteve a perguntar. Quem sabe se soubesse o que incentivou um sonho, conseguiria ter o seu próprio.
Miso pareceu pensar. Outro sorriso, dessa vez nostálgico, surgiu em seus lábios. Ficou por mais um minuto olhando para o horizonte até que seu olhar se encontrou com o de Haku.
– São cinzas de verdade. – Ele pensou, admirando os orbes acinzentados da garota.
– Minha mãe era uma ninja de Konoha. – Miso começou a contar, tirando Haku de seus devaneios. – Ela ainda era apenas uma gennin quando teve uma missão nessa vila. Conheceu meu pai, eles mantiveram contato e quando cresceram ela veio morar aqui. Ela sempre me contava que queria se tornar uma Jounnin, mas não chegou a isso. – Sua expressão ficou rígida. – Além de ter o sangue ninja em minhas veias, quero tornar o sonho de minha mãe realidade. Me tornarei uma Jounnin por ela!
A convicção naquelas palavras e a tamanha firmeza emposta nelas deixou Haku impressionado.
– Talvez o meu sonho possa ser realizar o de outra pessoa também. – Ele supôs.
– Quem sabe. – Miso concordou, pensativa. – Não se preocupe. Se tem uma coisa que eu sei é que Kami não cria peças adicionais.
Sua expressão de dúvida deve ter ficado muito boba, pois Miso não conseguia segurar a risada, embora tentasse.
– O que quis dizer com isso? – Haku questionou.
– Quero dizer que todos no mundo tem um propósito. Se você está aqui, tem de ter uma razão. E você vai encontrá-la.
O garoto pensou um pouco e percebeu que as palavras dela faziam sentido. Talvez aquela tragédia que separou sua família, só fosse o começo para encontrar seu verdadeiro caminho.
– Entendi! – Ele se levantou em um pulo. – Chega de remoer o passado. Se quiser encontrar meu propósito, tenho que procurá-lo!
Miso apenas sorriu, orgulhosa por conseguir levantar o astral do novo amigo... Será que eles eram isso mesmo? Amigos?
– Mas não se esqueça, quando encontra-lo faça de tudo para torná-lo realidade.
– Eu farei. – Haku praticamente jurou.
A badalada do relógio da faculdade chamou a atenção dos dois.
– Meu primo já deve estar saindo. – Disse Miso, tentando não transparecer sua tristeza.
Haku também não ficou feliz ao notar que seu tempo juntos estava acabando. Encarou a neve no chão e teve uma ideia. Pegou um punhado de neve nas mãos e rapidamente, sem que Miso percebesse, o fez adquirir um formato de coração.
– Pra você. – Estendeu o coração de gelo para a garota, que o pegou admirada.
– Obrigada, isso... isso é lindo. – Miso parecia estar sem palavras.
– É um agradecimento por ter me ajudado.
– Não precisava. Amigos são para essas coisas.
Haku se surpreendeu com aquelas palavras, mas não pôde deixar de ficar feliz. Finalmente tinha uma amiga!
Miso se levantou para seguir seu próprio caminho, mas antes de começar a caminhar olhou para Haku e deu um sorriso.
– Um dia, quando eu for uma grande ninja e você tiver encontrado seu propósito, vamos nos ver de novo?
– Claro que sim, eu vou garantir que isso aconteça. É uma promessa!
– Uma promessa, então. Foi um prazer te conhecer. – Miso estendeu a mão. Quando o garoto a apertou ela o puxou e lhe deu um rápido beijo na bochecha. – Até um dia, Haku! – Ela gritou, correndo em direção a faculdade, e acenando para o amigo.
Flashback off:
Haku ouvia apenas seu coração dar as últimas batidas, enquanto as palavras de Miso ecoavam em sua mente:
Uma promessa, então... Até um dia, Haku!
Teve vontade de chorar ao perceber que esse “um dia” nunca viria a chegar.
– Miso... sinto muito.
E então, com a imagem do sorriso de sua primeira amiga e paixão em mente, Haku deu seu ultimo suspiro.
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