O Último Shirian [hiatsu]

18 Capitulo 18 – O que realmente importa.


—De que vai adiantar vingar o fantasma de sua linhagem se o preço será perder a sua verdadeira família?

—Minha verdadeira família? —Retrucou Kyo sem compreender.

—Não sou seu irmão? Ele é mais importante do que a segurança do seu povo?

—Eles não são meu povo, meu povo esta morto.

—Eu ainda estou aqui.

—Não estará se continuar me impedindo

A lembrança da discussão de Kyo com Youru que ocorreu minutos atrás parecia um fantasma lhe assombrando, assim como a imagem dele machucado, fraco diante da força do Shirian. A luta não havia sido nada equilibrada.

Kyo se sentia diferente, o caminho até a casa foi feito em segundos, a sua percepção estava sensível a tudo, a cada estimulo. Segundos atrás tudo que ele pensava era em salvar Hiroshi, Nem ao menos as palavras de Youru tiveram a força necessária para o impedir de ir até ali, de ir até Hiroshi, e para que?

—Eu te amo.

A fala de Hiroshi lhe embrulhou o estomago, assim como a forma entregue que ele estava, quase tão entregue quanto no dia em que fora atacado e correu para os seus braços, afundando o rosto tremulo e choroso no seu peito, entregue a ele, como se sua vida fosse dele desde muito tempo atrás.

Egoistamente desejou que Hiroshi não tivesse ido ate ali, se ferido, descoberto a verdade. Desejou não saber de nada para mergulhar em uma maré de ignorância e busca impossível e incansável de uma verdade que não gostaria de ouvir. Porque então jamais verei o seu amor se corroer em um ódio irracional.

Machucou Youru para ir até ali. Kyo se colocou em risco indo até ali, não só um risco para ele mas de todo o mundo magico que restava escondido na floresta, e a que custo? Para salvar alguém que agora ele mesmo estava matando?

Como um fio de consciência, a voz de Youru lhe assombrou em um tom venenoso e alto.

“Vai o matar também? Anda aperta. Dessa vez não terá ninguém para você culpar e tentar se vingar. Você que estará matando sua única família, assim como fez comigo. Você não olhou para trás Kyo, não conferiu se seu ataque me feriu o bastante. Aperta mais um pouco, ta vendo as mãos dele tremerem? Ta sentindo esse cheiro de sangue? Ele vai te assombrar para sempre, respira fundo, sente. É o mesmo cheiro que você sentiu meses atrás e errou em não matar. Você só adiou o inevitável não é mesmo.”

A cabeça de Kyo zunia, todos os pelos de sua cauda estavam arrepiados assim como seus cabelos. Ele não estava atento ao seu entorno, do tamanho de seu poder gelando todo o ambiente em volta, a ponto do fogo não ter se alastrado pela casa, como se sua presença fosse uma barreira para aquelas chamas. Ele não sentia a pele de Hiroshi ficar a cada instante mais fria entre seus dedos, os nos lábios dele estarem um tom mais roxo.

“Olhe para ele, declarando o amor por alguém que vai o matar, um final triste e poético não?” Soou a voz de Youru.

—Cale a boca —Ordenou Kyo e seu corpo não obedeceu a própria ordem.

Você já perdeu o controle, no momento que despertou perdeu ele. Eu não vou me calar pelo mesmo motivo que você não consegue fazer a temperatura parar de abaixar, pela mesma razão que você me atacou e ataca o Hiroshi, você está selvagem. Me diz Kyo, qual a diferença dos humanos e você? Não está simplesmente matando tudo na sua frente?”

—Cale a boca!

“Sabe o que é mais louco nisso tudo?”

Kyo abriu os olhos, sua alucinação ganhando forma, como se Youru estivesse ali, levemente mais translúcido e sem nenhuma ferida, o corpo se aproximando dele, as mãos deslizando por seus braços até o pescoço de Hiroshi. O rosto se aproximando do rosto do ruivo enquanto com a língua para fora ele lábia um rastro de lagrimas que Kyo não notara na face de Hiroshi.

“Ele está entregue porque daria a vida por você, mesmo que isso signifique dar a vida para você ter sua doentia vingança. Que louco né? Porque ele escolhe você ao invés dele mesmo, mas vamos ser sinceros, ele está sozinho nessa não?

Não. Era isso que Kyo queria dizer, queria negar, queria se lembrar do porque havia corrido até ali, arriscando tudo, se arriscando, tudo por ele, tudo por Hiroshi. O amava, era ele que havia o aceitado como família tempos atrás.

Olhou-o, vendo por detrás da imagem de Youru, a pele levemente pálida, o rastro de sangue do chão, o corpo mole. A visão assustou Kyo mais do que qualquer pesadelo. Soltou-o. E com um baque surdo o corpo de Hiroshi caiu no chão. Kyo não soube o que fazer. Desejou por um segundo que ele virasse de lado, sugando o ar em um último movimento de sobrevivência.

Porém o corpo de Hiroshi não se moveu.

As mãos de Kyo tremiam enquanto tentava recuperar a consciência, precisava salvar Hiroshi, precisava não perde-lo, não podia perde-lo, Youru estava certo ou seja o que fosse aquela forma estranha e transparente que lhe encarava com um sorriso doentio rindo da sua tentativa de controlar seu poder.

Tocou o corpo de Hiroshi, gelado, mais pela temperatura do poder de Kyo do que por seu possível óbito, conseguia ouvir seus batimentos baixos e a cada segundo mais fracos.

As unhas foram até o pulso cortando-o em um ato desesperado para que alguma gota pingasse nos lábios de Hiroshi, tentando salvá-lo nem que fosse para lhe dar um minuto a mais de tempo para pensar.

Mas assim que o corte foi feito ele fechara, a rapidez de sua cura o impedindo de que o filete de sangue se formasse. Agora, mais do que confusão, a mente de Kyo entrava em um estopim de desespero.

“É tarde demais para ser altruísta não acha?” Perguntou a forma fantasmagórica de Youru ainda o perseguindo.

Não, não seria. Se o que ele precisava era agir pelos instintos então seguiria eles, era mais fácil do que discutir ou mandar calar a boca de alguém que não existia ali.

Os lábios de Kyo tocaram os de Hiroshi, sentindo a temperatura gélida dos mesmos, e então a língua de sua boca roçou nos caninos afiadíssimos de suas presas. Contento uma reclamação de dor Kyo mordeu sua língua, pressionando as presas todas as vezes que alguma recuperação ameaçava acontecer, sentindo o gosto metálico de sua boca passar para Hiroshi.

Minutos se passaram, apenas dor permeava o ato de Kyo, dor esta que não chegava ao desespero que rompia seu peito. As mãos foram novamente até os pulsos, numa vã tentativa de um corte que não se mostrou eficaz, arranhou sua pede, sentiu-a rasgando-se no ato apenas para curar-se em seguida, a recuperação muito mais veloz da que a que ocorria em sua boca.

Não desistiu, persistiu até que uma miséria gota rompeu sua pele, caindo com um estranho chiado no ferimento do ombro de Hiroshi, como se borbulhasse. Tinha prometido nunca deixar Hiroshi, nunca o machucar, e o que fez? Arrependimento tomava-lhe a alma.

“Me desculpe” era o que Kyo queria dizer, para Youru, para Hiroshi, para seus familiares por não conseguir ir adiante.

Não falou. Não ousou gastar um único segundo de esforço com palavras que não seriam ouvidas. Agarrou-se ao corpo de Hiroshi, pulando pela janela para longe dali quando passos invadiram o andar debaixo, diversos. E assim que saiu de lá, como se sua presença fosse a pressão que faltava para o fogo explodir, o fogo alastrou-se como um grande efeito sonoro, tomando todo o segundo andar da mansão.

Em seus braços o corpo de Hiroshi tremia e Kyo não sabia dizer se ele estava ou não melhor, ele parecia péssimo para si. Só o consideraria bem e a salvo quando abrisse os olhos, quando ouvisse sua voz desmentindo o fantasma de Youru, de que Kyo não havia feito isso, o matado em meio a sua fúria cega.

Recusando-se a permitir que aquele fantasma se tornasse real Kyo, com Hiroshi nos braços, Kyofoi até onde Youru estava. O amigo, sentado no chão tinha uma mão sobre a barriga tentando estancar o corte dos machucados. Seus olhos vermelhos tinham linhas rosadas em torno, marcadas na pele branca que reluzia.

A aproximação de Kyo não era bem vinda e o Shirian não se importou com isso. Colocando Hiroshi no chão ele se aproximou de forma submissa de Youru, se ajoelhando na sua frente.

Não foi necessário conversa nenhuma, repleto de ódio e sem a mínima cerimonia os dentes de Youru se afundaram no pescoço de Kyo, sugando seu sangue de maneira rude. Sentindo uma vaga força fluir misturado ao sabor grotesco que o sangue do Shirian tinha. Sugaria cada energia dele, desejava isso.

Quando sentiu os machucados se mecharem brevemente sugou mais forte, irritado como a figura de Kyo parecia inabalada ao seu ataque. Arrastou suas presas, vislumbrando que aos poucos o poder de cura do Kyo enfraquecia, demorando longos segundos para fecharem os machucados apenas para Youru morder novamente.

Era uma vingança minúscula e inútil que arrancou a mínima reação de Kyo, em um resmungo de dor que não compadeceu Youru. A longe gritos e a mansão incendiada roubavam a atenção que qualquer ser teria naquelas três figuras jogadas entre as arvores.

Longos minutos se passaram até a boca de Youru se afastar do pescoço de Kyo, seus olhos vermelhos ainda brilhavam com revolta, não o perdoaria tão fácil por ter ido atrás do humano. Olhou-o irritado vendo a figura de Kyo colocar-se de pé, filetes de sangue descendo por seu pescoço e mesclando-se com o sangue seco de suas vestes.

Estranhamente o olhar de Kyo carregava um agradecimento que Youru não compreendeu, muito menos quando cambaleante os passos do Shirian se moveram, arrastados até Hiroshi, caindo de joelhos ao seu lado. Dessa vez quando as unhas perfuraram sua pele o sangue desceu com facilidade, em um sinal obvio do quão fraco estava seu corpo depois de usar tão descontroladamente seus poderes e de ter seu sangue sugado por tantos minutos.

Não se importou, permitindo que gotas de seu sangue caíssem como chuva sobre os ferimentos de Hiroshi, antes de seu corpo fraco desabar ao lado do humano, exausto e cansado. Na sua mente nebulosa a dor já parecia distante, assim como Youru ou a floresta, a noite de lua cheia, o cheiro de fumaça ou a imagem fantasmagórica que agora tomava a sua forma como um espelho distorcido que lhe encarava de volta.

Antes de tudo ficar escuro e em um último movimento, Kyo se virou abraçando Hiroshi para que mesmo sem vê-lo, sentisse o seu calor em contraste com sua pele fria.

Porque ele estava vivo e isso era tudo que lhe importava naquele instante.

Notas finais
Os sentimentos envolvidos nesse conflito eram complexos demais, espero que eu tenha conseguido transmitir essa confusão mental de forma não confusa.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.