O Último Shirian [hiatsu]

16 Capitulo 16 - Reencontro


Notas iniciais
Voltei dos mortos, pelo jeito eu, que prometi não morrer, renasci kkkk

Longe dali, dois jovens ainda se encontravam caminhando em um canto isolado, ainda nos arredores do lar de Kyo.

Hiroshi suspirou enquanto se punha a andar, inseguro, a mente ainda digerindo a decisão que havia acabado de tomar, no fundo sem acreditar que realmente havida dito sim, Sim! Automaticamente ele parou engolindo em seco, sentia que havia sido sincero ao concordar em ficar com o Shirian, ele realmente queria estar ao lado do outro, entretanto isso não era o bastante para impedir o receio que tinha: E se não desse certo? E se viessem atrás dele?

—Está preocupado? — Questionou Kyo atrás de si, e algo em seu tom fez Hiroshi virar-se para encará-lo sem conseguir proferir uma resposta.

O Shirian o observou, vendo-o se encolher diante do seu olhar, os olhos percorreram mais a frente, na direção em que eles iam e um arrepio se passou por sua coluna, o ignorou. Ele tinha que parar de se preocupar atoa, não é um sinal, não era um extinto, não era nada! Tentando se convencer disso Kyo se concentrou em Hiroshi a sua frente, sorrindo pela atitude do pequeno, Kyo levou uma das mãos ao rosto do menor, erguendo-o pelo queixo na sua direção, contemplou com um sorriso a face levemente corada do ruivo diante do seu toque.

—As vezes sinto que é muita coisa pra eu lidar — murmurou Hiroshi —Minha cabeça dói Kyo, e nada mais está fazendo sentido na minha mente.

—As vezes você se esquece de que eu estou contigo —Retrucou Kyo, vendo o menor relaxar —Se for demais pra você, simplesmente divida comigo, se ainda sim continuar pesado demais pra você, me dê tudo pra mim suportar.

—Isso é loucura — afirmou Hiroshi rindo — Não consigo imaginar você fazendo isso por algum humano, você fala com tanto ódio deles.

—Não generalize, não faria pra qualquer um, faria por ti. —Rebateu Kyo, vendo Hiroshi embaraçar-se .

—Está me seguindo— Desconversou Hiroshi sem conseguir encará-lo.

—Estou te acompanhando —Corrigiu –o e antes que percebesse as palavras deixaram seus lábios — Seja lá o que tiver que fazer antes de vir viver comigo, não pode ser feito mais tarde?

—Porque está falando isso?

—Acho que depois de tudo o que aconteceu ... —Começou Kyo, lembrando-se de tudo o que ocorrera e antes que percebesse o arrepio retornou, um mau agouro, algo lhe afirmando para não prosseguirem, não revelou seu temor desviando o assunto —Quero apenas passar uma noite normal contigo, falando sobre tudo ou sobre nada...

Hiroshi soltou um suspiro percebendo o quão tentador era aquela proposta, a aceitaria cegamente se fosse em outra situação, mas precisava fazer aquilo, ver Dilan e falar com ele antes de partir com Kyo. Normalmente não pensaria nisso, nesta possibilidade de dar alguma satisfação, normalmente se pudesse fugir como agora já estaria de malas prontas, mas depois de tudo que lhe havia sido dito, sentia que não podia simplesmente partir do nada.

O normal não existia mais.

—Eu também, mas entenda Kyo, e preciso fazer isso — A face do Shirian se contorceu em uma expressão desgostosa fazendo o ruivo forçar um sorriso —Só por esta noite Kyo, depois estarei contigo quantas noites quiser — Falou Hiroshi sentindo um sorriso abrir-se quando a carranca de Kyo amenizou-se.

Ambos estavam quase nas arvores rasteiras que marcavam o inicio da floresta, Hiroshi tinha os olhos vermelhos pelo choro de horas atrás, porém erguia a cabeça confiante, entrelaçando seus dedos no de Kyo ao enxergar bem a longe a mansão.

Até que um grito ecoou pelas arvores.

Automaticamente o corpo de Kyo retesou, parando enquanto os olhos guiavam-se para a direção do som, a mão se soltou da de Hiroshi e um rosnado rompeu seus lábios.

—Kyo? O que foi? —Questionou o ruivo silenciando-se ao ver a expressão endurecida do Shirian. As orelhas de Kyo ergueram-se, enquanto puxava o corpo de Hiroshi para trás de si, em sinal de proteção.

O que está acontecendo? Pensou Hiroshi, tentando ouvir, porém só sentia o som alto de sua respiração, fechou os lábios prendendo-a, e no mesmo instante sentiu-se tremer arrependendo-se por ter feito.

—O que foi isso? —Murmurou Hiroshi finalmente escutando e um arrepio subiu por sua coluna, os olhos se encontraram com os de Kyo que o puxou novamente, recuando.

—Um grito —Sussurrou de volta —Não é um bom sinal, vem. —Falou andando para a direção oposta mas o corpo do ruivo ficou parado, firme no mesmo lugar,

—Vem da mansão — Constatou Hiroshi sentindo as pernas fraquejarem —É a voz de Dilan —Os olhos verdes arregalaram-se em pavor —Nós temos que ir lá— Desesperou-se Hiroshi.

Um novo grito foi ouvido, muito mais baixo, mais fraco.

Dessa vez as pernas de Hiroshi não ficaram paradas, começando a correr com todas as forças em direção a mansão. Kyo em uma reação atrasada começou a correr atrás do ruivo, sem saber se o impedia ou se o seguia. Em seu peito o coração dava saltos em um aviso de perigo.

O menor passou pelas ultimas arvores da floresta e Kyo corria logo atrás de si, tomando sua decisão, suas presas cresceram e sua mente nublara-se focando apenas em Hiroshi e em deixa-lo em segurança não importa o que acontecesse, exato, era isso que faria, iria com ele.

Em sua mente uma pontada apertou-lhe o peito, não deveria sair da floresta, não deveria aparecer diante de mais humanos, isso colocaria todos os anos a perder, isso destruiria tudo que vinham mantendo em segredo até ali.

Lembrou-se de quando salvara Hiroshi daquele garoto há meses atrás, sentindo novamente aquela adrenalina passar como choques por seu corpo, o risco de ser pego, o preço por ser pego, não fora visto na primeira vez, e agora também não permitiria que fosse, seus passos rápidos já ousavam atravessar o fim da floresta.

Mas não conseguiu.

— Critus — Pronunciou Youru e o corpo de Kyo desabou com tudo no chão, desnorteado olhou para o mestiço sem compreender enquanto o peito comprimia-se em busca de ar. —Os seres mágicos não deixam a floresta —Murmurou baixo, os olhos focados à longe no ruivo que corria sem olhar para trás —Não me incomoda que fique com aquele garoto, mas não deixarei você por todos os outros em risco deixando que mais humanos o vejam. —“Não te deixarei por tudo a perder por causa dele” Concluiu Youru.

Não. Deuses, não.

Não, Youru não poderia estar fazendo aquilo, não agora, não com ele. Tentou se debater porém o corpo não se moveu um único centímetro, tentou gritar e a língua não movia-se. Ele tinha que sair dali, ele havia prometido, para Hiroshi, para si, estaria ao lado dele, o protegeria, mas que droga, eles ficariam juntos, eles finalmente ficariam juntos.

Não, aquilo não iria acontecer, não deixaria acontecer novamente... Não deixaria sua família correr riscos. Lembranças nublaram sua mente, sangue, sangue por todas as partes, uma mistura de vermelho e azul enchia a floresta, de sangue e poder, de espadas e magia, rosnados e gritos, arquejos de dor, lembrou-se do pavor e do medo, do corpo tremendo agachado entrefolhas, desta vez... Apenas dessa vez queria manter sua familia viva, segura, ao seu lado.

Naquele instante um rosnado, subiu por seu peito e as pupilas afinaram-se predatórias, sua consciência embaralhou-se confusa. Ele estava em perigo, repetia freneticamente em sua mente. Ele estava em perigo. Ele estava em perigo. Ele estava em perigo.

Ouvia à longe os passos de Hiroshi ficarem mais e mais distantes, um arrepio de mau agouro subiu-lhe a espinha, ouvia o grito rouco de alguém na mansão, ouvia a respiração baixa de Youru que não o encarava.

Até que parou de ouvir.

Tudo.

Talvez se Hiroshi tivesse parado e olhado pra trás teria visto, talvez se não estivesse tão focado em correr até Dilan teria voltado, teria ido até Kyo, teria trazido sanidade ao mesmo, teria impedido.

Mas o ruivo não o fez, ele simplesmente entrou dentro da mansão arfando buscando a origem dos gritos, sem saber que lá fora a noite iluminava-se com um azul extremamente brilhante.

Youru recuou um, dois, três passos, os lábios se abriram chocados, sentiu a pele arder. Da onde vinha aquilo? Kyo não era capaz de irradiar tanto poder, não deveria ser... Apenas um Shirian adulto seria capaz daquilo, de desenvolver e irradiar tal força. Kyo não possuía mais do que 18 anos de vida, precisaria de mais 100 pra chegar aquilo.

Encarou o amigo vendo os pelos brilharem em um azul intenso, como se uma luz própria tivesse surgido neles, porque isso estava acontecendo agora? Kyo precisava voltar a si, se aquilo ocorrer ali, não seria capaz de impedi-lo e precisava impedi-lo! Não poderia deixá-lo correr mais esse risco, aonde estava o Kyo que odiava humanos? Que pensaria 568648 vezes antes de salvar um? Por que a cada segundo sentia que o outro mudava cada vez mais? Naquele instante Youru não o reconheceu.

Youru não precisou sussurrar nenhuma palavra ou magia para quebrar seu feitiço. Nada adiantaria contra aquilo, apavorado Youru compreendeu o que estava ocorrendo. O motivo das ondas de poder emanarem do Shirian, compreendeu que prematuramente, sem controle, sem maturidade, sem nem ao menos estar preparado física ou psicologicamente aquilo estava ocorrendo.

O Shirian despertara.

**

Enquanto isso Hiroshi entrou na mansão receoso, a garganta seca, os sentidos aguçados, olhou de uma ponta a outra do vasto salão de entrada sem notar nenhuma mudança, caminhou até a escada subindo a mesma, um passo atrás do outro, o grito retumbando em sua mente, a urgência percorrendo-o em correntes elétricas.

—Dilan? — Chamou baixo, um sussurro temeroso que recebeu apenas o silencio em resposta.

Ele caminhou temeroso, os passos mal eram ouvidos, reflexo de anos de serventia que o deixaram bem treinado. Caminhou, em um andar lento que virava uma corrida a medida que uma luz intensa saia pela porta de um cômodo.

A primeira coisa que Hiroshi viu foi Dilan deitado, o seu peito uma mistura avermelhada de sangue e logo atrás dele a chama se erguia cada vez mais. Não permitiu-se congelar em choque, correu na direção do irmão, desatento a figura alta e forte encostada na parede.

Suas mãos envolveram Dilan com urgência, puxando seu corpo para cima, para seus braços, distante daquele fogo e do perigo.

—Vá em.. embora, é perigoso..

A fala de Dilan saiu pausada e baixa demais para ter algum peso, Hiroshi ignorou, sentindo dentro de si uma estranha força que não sabia que possuía, ergueu-se. Aguentando o peso de Dilan que tombou em direção a janela do segundo andar. Abaixo deles, do lado de fora, um canteiro com matos denunciava o perigo daquele fogo se uma única brasa saísse por aquela janela e caísse ali.

Então finalmente os olhos de Hiroshi encararam Edward, ele jazia encostado, o encarando como quem assiste atento a um espetáculo sem querer interromper, quase se divertindo com a situação. Era como um presente dos deuses aquilo, dois coelhos com uma cajadada só, um reencontro melhor que o do nosso terceirão da atualidade, digno de reprise das agradáveis lembranças – apenas para Edward – deles juntos.

Foi como quando você vira um shot de tequila e balança a cabeça, ou se levanta rápido da cama e a pressão cai. A visão de Hiroshi rodou, uma dor penetrou sua cabeça, pulsando, assim como uma ânsia lhe subiu a garganta. As costas arderam de feridas fantasmas e de uma única vez todas as memórias romperam sua mente, não distorcidas por flash’s e relatos, mas vividas.

Um terror se apossou dele, o terror que uma criança de pouca idade teria e que guardou no fundo na memoria, trancado com sete chaves. Reconheceu o rosto de Edward pela primeira vez em anos.

Edward desencostou-se da parede, em sua mão uma faca brilhava, manchada de vermelho, machada pelo sangue de Dilan. Meses atrás essa informação não compadeceria Hiroshi, talvez lhe desse até um estranho prazer em uma doentia vingança. Agora, aquela visão lhe embrulhou o estomago, assim como a leve pressão de Dilan nele, como se o empurrasse para longe com a mínima força em uma última tentativa de o tirar dali.

Quanto tempo mais Dilan tentaria salvá-lo? Quanto tempo mais Hiroshi ficaria parado sendo salvo? O terror que assombrava sua visão não foi o bastante para impedir de se mover, arrastando Dilan para perto da janela, ciente de que jamais conseguiriam passar por Edward para chegar na porta.

Edward parecia ainda divertir-se, o que será que o ruivo faria? Gritaria por ajuda? Ninguém viria em seu socorro, os planos de Edward não envolviam pontas soltas tão facilmente para que viesse a ruir em um grito por ajuda de um simples servo. Não havia nada que Hiroshi pudesse fazer.

Ou era o que ele acreditava.

Nem ao menos Edward teve reação quando Hiroshi empurrou Dilan pela janela, o corpo loiro colidindo com os arbustos em um baque que carregou um grito alto. Aquela altura não o mataria, Hiroshi sabia disso, diferente do homem que agora encarava ele como quem encarava aquela merda que você pisa sem querer no caminho para casa, suja, com ódio, um empecilho não planejado.

O veneno iria corroer Dilan, Edward sabia disso. Mas queria mais, queria ouvir o grito que Dilan soltaria quando as chamas o alcançassem para só então sair dali, com essa ultima imagem na mente.

Hiroshi não permitiria que Dilan mais uma vez desse uma de herói, era hora de devolver o favor, de fazer o que jamais havia conseguido. A mão tremia quando abaixou-se apanhando a injeção esquecida no chão, a única arma a seu alcance entre o fogo e Edward.

E então Hiroshi avançou, como um guerreiro pronto para a batalha.

Notas finais
Me desculpem a demora, acho que eu abordava de maneira muito explicita coisas que não conseguia lidar mas precisava escrever kkk Agora consigo, vamos finalizar de uma vez por todas essa fic, capitulos já agendados para irem subindo.