O Último Reino da Terra
22 Capítulo 21: Governo Provisório
June subiu ao palco improvisado no centro do Domo, diante de uma multidão que lotava a praça. O silêncio que se formou assim que ela pegou o microfone não era apenas respeito, mas um reflexo da tensão que ainda pairava sobre todos. Muitos estavam ali para ouvi-la, esperançosos. Outros, desconfiados. Mas todos sabiam que aquele discurso definiria o futuro do Domo.
Ela respirou fundo. Não esperava estar ali. Nunca quis o poder, nunca quis ser a pessoa a carregar esse peso. Mas, naquele momento, sabia que era a única que podia fazê-lo.
— Hoje, encerramos uma era de mentiras e começamos uma nova história.
Um murmúrio percorreu a multidão.
— Por décadas, fomos governados por um sistema que nos dizia que apenas os mais fortes, os aprimorados, eram dignos de estar aqui. Disseram que quem nascesse sem habilidades era um peso. Que o Cesto era um destino necessário. Que o Casulo era uma dádiva. Mentiram para nós. Manipularam o conhecimento. Ignoraram os avisos dos cientistas. Perseguiram aqueles que tentaram alertar sobre o que estava acontecendo. E nós acreditamos. Aceitamos. Até agora.
Os aplausos começaram tímidos, mas cresceram até se tornarem ensurdecedores.
June esperou. Eles precisavam ouvir tudo.
— Não basta derrubar um sistema. Precisamos reconstruir um. Um que funcione para todos.
Ela fez uma pausa, encarando a multidão.
— Hoje, apresento as bases do governo provisório. Não haverá mais monarquia. Não haverá mais parlamento como conhecíamos. O futuro do Domo será decidido por vocês, pelo povo.
Ela levantou uma das mãos, e os painéis holográficos ao seu redor acenderam, exibindo a estrutura do novo governo.
— Durante os próximos meses, três conselhos serão formados: o Conselho de Justiça, para garantir que aqueles que cometeram crimes sejam julgados e que nunca mais sejamos vítimas de um sistema corrupto. O Conselho de Fiscalização e Desenvolvimento de Políticas Públicas, para garantir que o governo trabalhe para vocês, e não contra vocês. E o Conselho de Integração e Saúde, para cuidar daqueles que foram esquecidos por tanto tempo: os que foram jogados no Cesto, os aprimorados que sofreram no Casulo, os que perderam tudo por conta de um governo que nunca se importou.
Os painéis mudaram, mostrando a nova Constituição.
— Estamos escrevendo uma nova Constituição. E ela garantirá que cada cidadão do Domo tenha acesso à educação, à saúde, ao saneamento e à moradia. Isso não será um privilégio de poucos. Será um direito de todos.
Ela apertou os punhos. Essa era a parte mais importante.
— E, acima de tudo, o preconceito será um crime. O preconceito contra os aprimorados, contra os habitantes do Cesto, contra qualquer cidadão do Domo será considerado crime de ódio. A crença de que uns são melhores do que outros foi o que nos levou a esse colapso. Nunca mais permitiremos que isso aconteça.
Os aplausos explodiram novamente, e dessa vez, vieram acompanhados de gritos de apoio. Mas ela ainda não havia terminado.
— Por fim, este governo provisório durará seis meses. E ao fim desse período, vocês escolherão seus representantes. Os distritos elegerão aqueles que os representarão. Esses representantes elegerão um Primeiro-Ministro, que governará por seis anos, com direito a apenas uma reeleição.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Este não será um governo eterno. Não será um governo de privilégios. Não será um governo de heranças de sangue. Será um governo do povo. E ele só existirá enquanto vocês quiserem que ele exista.
O silêncio caiu sobre a multidão. Então, alguém começou a bater palmas. Em segundos, toda a praça se encheu de vozes. Pessoas choravam. Outras levantavam os punhos. Algumas ainda pareciam hesitantes, mas até elas pareciam perceber o peso daquele momento.
June sentiu um nó na garganta. Ela não sabia se tudo aquilo funcionaria. Não sabia se conseguiriam reconstruir o Domo sem mais dor, sem mais perdas. Mas sabia que, pela primeira vez, o futuro estava nas mãos do povo.
Quando os aplausos começaram a diminuir, June ergueu a mão novamente. Seu olhar percorreu a multidão, buscando aqueles que, apesar de estarem ali, ainda pareciam deslocados. Eram os habitantes do Cesto. Suas roupas eram diferentes, seus olhares carregavam o peso da exclusão, da fome, do abandono. Eles não aplaudiam. Não gritavam. Apenas observavam, como se estivessem esperando por mais uma promessa vazia.
Ela inspirou fundo. Aquele era o momento mais difícil, mas também o mais necessário.
— Quero falar diretamente a vocês.
Os murmúrios cessaram.
— A vocês que cresceram ouvindo que não eram bons o suficiente. Que não eram dignos de estar aqui. Que foram arrancados de suas famílias e jogados para fora dos muros do Domo sem nenhuma chance. Que tiveram que aprender a sobreviver com nada, enquanto nós, aqui dentro, fingíamos que vocês nunca existiram.
Ela apertou os punhos.
— Não há palavras que possam desfazer o que foi feito. Não há pedido de desculpas que possa devolver as vidas que foram tiradas. Mas, mesmo assim, eu peço perdão. Em nome de todos aqueles que se calaram enquanto vocês morriam. Em nome do antigo governo. Em nome de todos nós que, de alguma forma, contribuímos para esse sistema cruel.
Por um instante, ninguém disse nada. Então, uma mulher do Cesto, de pele marcada pelo sol e pelas dificuldades, deu um passo à frente. Seu olhar era duro, mas sua voz, quando falou, tremia.
— E o que você vai fazer além de pedir desculpas?
June assentiu.
— Não basta pedir perdão. Precisamos mudar. E a mudança começa agora.
Ela apontou para os painéis holográficos.
— O novo governo garantirá que todos vocês tenham acesso ao Domo. Vocês não serão mais tratados como estrangeiros ou criminosos em sua própria casa. O Conselho de Integração e Saúde será formado para garantir que aqueles que cresceram no Cesto recebam apoio para reconstruir suas vidas aqui dentro. Haverá moradia, trabalho e acesso à educação para todos. O Cesto nunca deveria ter existido. Mas, agora que existe, precisa ser um lar digno, e não um lugar de exílio.
Os olhos da mulher brilharam com algo que June não conseguia definir. Não era ainda confiança, mas talvez… esperança.
June deu um passo à frente.
— E mais do que isso: queremos vocês aqui. Queremos que façam parte dessa reconstrução. Vocês não serão apenas aceitos. Vocês terão poder. Vocês terão voz. Este governo não será feito apenas pelos antigos habitantes do Domo. Será feito por todos nós.
Ela olhou diretamente para os rostos marcados pelo sofrimento e pela resistência.
— Sei que muitos de vocês não confiam em mim. Não confiam no Domo. E eu entendo. Mas dou minha palavra de que farei tudo ao meu alcance para garantir que a história de vocês não seja apagada novamente. O Domo não sobreviverá se não aprendermos com nossos erros. E a maior lição que podemos aprender é que a diversidade é o que nos salvará da ignorância.
Um silêncio pesado se espalhou. Então, um dos homens no meio da multidão, um dos líderes do Cesto, ergueu o punho no ar.
— Se você cumprir sua palavra, estaremos ao seu lado. Mas se falhar com a gente… nunca mais ficaremos calados.
June sorriu.
— Então segurem minha palavra. E me cobrem sempre que for preciso.
Os gritos começaram devagar, mas em segundos, tomaram conta da praça. Dessa vez, o Cesto também aplaudia. E pela primeira vez na história do Domo, aquelas vozes, que sempre foram silenciadas, estavam sendo ouvidas.
June esperou os aplausos diminuírem, a energia da praça ainda pulsando com as reações diversas. Sabia que, apesar de muitos estarem esperançosos, outros ainda a olhavam com desconfiança. Era compreensível. A mudança nunca viria sem resistência.
Ela respirou fundo e retomou a palavra, dessa vez, com um tom mais apaziguador.
— Eu sei que, para muitos de vocês, essa transição ainda não é fácil. Sei que há aqueles que olham para este governo com desconfiança, esperando que sejamos apenas mais uma engrenagem de um sistema que falhou com vocês. Mas deixem-me ser clara: eu não estou aqui para buscar aprovação. Não estou aqui para convencer ninguém a nos aceitar.
Seu olhar percorreu a multidão, firme.
— O que eu espero, e pelo que lutamos até aqui, é que daqui a três, quatro gerações, não exista mais essa divisão. Que não existam mais "aprimorados" e "abandonados". Que a ideia de jogar crianças para fora do Domo ou de forçá-las a experimentos genéticos pareça algo tão absurdo quanto parece para nós hoje olhar para os erros do passado.
Ela fez uma pausa, sentindo o peso de suas próprias palavras.
— Mas não quero que esqueçam. Não quero que a história se perca. Quero que, quando alguém do futuro estudar essa época, diga: "Que absurdo foi isso, né? Criar pessoas geneticamente modificadas e lançar outras para fora dos muros". Quero que olhem para trás e entendam o horror disso. Quero que nunca mais permitam que algo semelhante aconteça.
Os painéis holográficos ao seu lado exibiram imagens dos antigos laboratórios do Casulo, dos arquivos do Projeto Gênesis, dos corpos esquecidos do Cesto.
— Por isso, a educação será a nossa maior arma contra a ignorância. Será obrigatório o ensino dos malefícios do governo deposto nos currículos de história, geografia e biologia. A ciência deve servir para nos proteger, não para justificar atrocidades. E aqueles que esquecem a própria história estão fadados a repeti-la.
Os murmúrios cresceram. Alguns ainda resistiam, mas a maioria compreendia o que aquilo significava.
— Nós não vamos esquecer. E se depender de nós, ninguém mais será esquecido.
Um novo silêncio tomou conta da praça. E então, devagar, os aplausos começaram de novo. Não eram apenas gritos de comemoração. Eram de compreensão. De compromisso.
June saiu do palco sabendo que aquele era apenas o começo. Mas pela primeira vez, o futuro parecia um caminho que poderiam trilhar juntos
Seis Meses de Mudança
Nos dias que seguiram o discurso de June, o Domo viveu uma tensão silenciosa, como se todos estivessem esperando para ver se as promessas feitas realmente seriam cumpridas. Mas logo a expectativa deu lugar ao movimento.
A primeira grande ação do Governo Provisório foi simbólica e prática ao mesmo tempo: a quebra dos muros do Domo.
Com máquinas pesadas e a força da própria população, os muros que separavam o Cesto do restante da cidade começaram a ruir. Cada pedaço de concreto caindo representava o desmantelamento do antigo regime. Homens e mulheres do Cesto observavam com um misto de receio e esperança, muitos nunca tinham sequer se aproximado daquela barreira sem serem repelidos. Agora, pela primeira vez, eram convidados a entrar.
O Recomeço para o Cesto
As portas foram abertas, mas não bastava apenas permitir a entrada dessas pessoas: era necessário reconstruir suas vidas. Com os fundos confiscados da antiga monarquia, o governo iniciou um plano de moradia emergencial. Grandes áreas foram revitalizadas para abrigar as famílias que antes viviam à margem do Domo. Edifícios abandonados foram reformados e convertidos em habitações sociais. Novos bairros começaram a surgir, agora planejados com infraestrutura adequada: saneamento, escolas, hospitais.
A prioridade foi dada aos mais vulneráveis: mães com filhos pequenos, idosos e aqueles que sofreram modificações extremas nos Casulos e precisavam de assistência especial.
O preconceito ainda existia, mas os esforços de integração foram implacáveis. Campanhas de conscientização foram lançadas, e grupos de voluntários ajudavam na adaptação dos recém-chegados. Algumas das pessoas que antes viam o Cesto como um perigo começaram a perceber que aqueles que estavam do outro lado dos muros não eram monstros, apenas pessoas que haviam sido condenadas sem motivo.
A Revitalização das Áreas Pobres
Não eram apenas os moradores do Cesto que haviam sofrido. Muitas áreas dentro do próprio Domo haviam sido negligenciadas por décadas enquanto a monarquia e os parlamentares viviam no luxo.
O dinheiro confiscado do tesouro real foi usado para projetos que pareciam impensáveis sob o antigo regime novas hospitais e escolas foram construídos e mais geração de empregos especialmente para os moradores do cesto.
A riqueza acumulada pela monarquia durante séculos foi finalmente devolvida ao povo.
Enquanto as mudanças estruturais aconteciam, a transição política também avançava. Durante aqueles seis meses, os conselhos de justiça, fiscalização, saúde e integração tomaram forma, garantindo que as decisões futuras fossem feitas pelo povo, para o povo.
Dalila assumiu seu papel como representante do governo, garantindo que as mudanças não fossem barradas pela burocracia. June, enquanto coordenava a criação da nova Constituição, começou a se afastar lentamente da política ativa. Ela sabia que seu papel estava chegando ao fim ali. Seu propósito não era governar, era abrir caminho para algo novo.
O Governo Provisório cumpriu sua missão.
O Futuro Começa Agora
Seis meses depois, quando o novo governo foi eleito, o Domo não era mais o mesmo lugar. Ainda havia desafios, ainda havia preconceito, ainda havia aqueles que não aceitavam a mudança. Mas o essencial havia acontecido:
O sistema que condenava crianças à morte ou à experimentação genética não existia mais.
Os muros caíram.
Os esquecidos voltaram a ser vistos.
O poder voltou ao povo.
E, pela primeira vez em séculos, o Domo não parecia mais uma prisão, mas um lar.
June subiu ao palco montado no centro do Domo, vestindo roupas simples, como sempre fazia. Seu rosto estava marcado pelo cansaço dos seis meses mais intensos de sua vida, mas também por um profundo orgulho. Ela esperou o silêncio tomar conta da multidão antes de começar a falar.
— Seis meses atrás, este governo provisório nasceu do caos, da dor e da revolta. Nós pegamos um Domo quebrado e começamos a reconstruí-lo tijolo por tijolo. Mas nosso papel sempre foi temporário. Não nos impusemos ao poder, não criamos um trono. Hoje, o governo provisório termina. E isso é motivo de comemoração.
A multidão assistia em silêncio, absorvendo cada palavra.
— Nos últimos meses, vimos os muros caírem. Vimos os moradores do Cesto voltarem para casa. Vimos os aprimorados sendo tratados como seres humanos e não como experimentos. Mas ainda há muito o que fazer. A nossa luta não terminou, apenas mudou de forma. E agora, quem conduzirá essa nova fase é uma líder que provou, acima de tudo, sua coragem e seu compromisso com a verdade.
June respirou fundo, olhando diretamente para Dalila.
— Dalila Stewart renunciou a sua posição de princesa para entregar ao povo as riquezas de sua família. Ela não apenas derrubou a monarquia, mas provou que um líder verdadeiro não se esconde atrás de títulos. Ela enfrentou sua própria mãe, sabendo que isso significava renunciar ao último laço que tinha com sua antiga vida.
Ela fez uma pausa e, com um pequeno sorriso, concluiu:
— E agora, com orgulho e confiança, passo oficialmente o governo para a Primeira-Ministra Dalila Stewart.
A multidão explodiu em aplausos. Dalila, que assistia de perto, subiu ao palco sob os gritos de aprovação.
Dalila ficou diante dos microfones, esperando os aplausos cessarem. Quando o silêncio retornou, ela começou:
— Sei que muitos ainda olham para mim e enxergam a filha da monarca deposta. Sei que o nome Stewart ainda causa desconfiança. E vocês estão certos em questionar. Não quero que confiem em mim apenas porque estou aqui. Quero que confiem no trabalho que este governo fará, nos projetos que construiremos, nas promessas que cumpriremos.
Ela olhou ao redor, vendo os rostos de cidadãos de todas as partes do Domo, incluindo os que um dia foram jogados para fora dele.
— A monarquia acabou, mas seu legado de destruição ainda precisa ser reparado. E eu prometo que nenhum de vocês jamais será esquecido novamente.
Dalila respirou fundo, sentindo o peso do momento.
— Nosso governo será diferente de tudo o que já existiu. Criamos os Conselhos de Justiça, de Fiscalização, de Desenvolvimento, de Saúde e de Integração. Todos eleitos por vocês, e não por mim. Criamos uma Constituição, onde a educação, a moradia, o saneamento e a saúde são direitos inegociáveis. Onde qualquer forma de discriminação será tratada como crime. Onde ninguém nunca mais será lançado ao esquecimento.
O silêncio que tomou conta da multidão não era de dúvida, mas de respeito.
— Eu não sou a salvação de vocês. Eu sou apenas o começo. E juntos, vamos garantir que nunca mais precisemos derrubar um governo corrupto, porque nunca mais permitiremos que um governo como aquele se levante.
Ela ergueu o punho no ar, um gesto que se tornou símbolo da revolução. E, dessa vez, o povo ergueu os punhos junto com ela.
Fale com o autor