O Último Reino da Terra

3 Capítulo 2: Crianças sem rostos


Alex e Maddy não eram mais crianças. Eles haviam passado anos convivendo com os dons que lhes foram impostos, presos em corpos que não funcionavam da maneira como desejavam. Agora, adolescentes, carregavam o peso da escolha de seus pais e da crueldade do sistema.

Alex morou no Casulo por quatro anos. Quando saiu, sua velocidade era maior do que o som, mas seus olhos viam o mundo em câmera lenta. Enquanto os outros falavam, ele percebia cada movimento antes mesmo das palavras saírem de suas bocas. Caminhar entre as pessoas era uma tortura. Tentar interagir, uma impossibilidade. Ele gritava por dentro, mas ninguém conseguia ouvi-lo. Seus pais, que acreditavam que o Casulo o tornaria melhor, logo perceberam que tinham perdido o filho para sempre. Não havia como reverter. Ele vivia sozinho em um tempo que não era o dos outros.

Maddy era da monarquia e foi vítima do Casulo por seis longos anos. Quando finalmente emergiu, seus sentidos haviam se aguçado a um nível insuportável. O mais leve som era ensurdecedor. A luz do sol feria seus olhos. O toque da seda mais fina era áspero em sua pele. Comer era uma experiência tortuosa, pois cada sabor era um choque. Ela passava os dias trancada em silêncio, as mãos pressionando os ouvidos, tentando ignorar o mundo que gritava ao seu redor. A própria presença das pessoas ao seu redor era uma agressão sensorial. Sua família, os governantes do Domo, fingiam que ela era uma bênção, mas a verdade era que Maddy se sentia um erro.

Quando June revelou a lista de nomes, tudo mudou.

Os três se encontraram à noite, no subsolo de um prédio abandonado. June espalhou os papéis sobre a mesa. Eram registros ocultos, documentos apagados da história do Domo. Crianças que haviam sido lançadas ao Cesto, que haviam morrido nos Casulos. Sem lápides. Sem despedidas. Apenas estatísticas que o governo se recusava a admitir.

"Nós fomos as exceções que sobreviveram", sussurrou June. "Mas e os outros? E aqueles que nunca tiveram escolha?", ela mostrou apenas um dos milhares de arquivos que estavam contidos nas caixas abandonadas. “Olhem para eles, todos tinha uma vida inteira pela frente e a maioria morreu de maneira horrível”.



Registro de Óbitos de Candidatos Não Aprovados


Nome: Esther Stevens

Idade no óbito: 7 anosTempo no Casulo: 6 anosExperimento: Desenvolvimento de telecinese avançadaCausa da morte: Hemorragia cerebral devido à hiperatividade neural

Nome: Julian Carter

Idade no óbito: 14 anosTempo no Casulo: 14 anosExperimento: Regeneração celular espontâneaCausa da morte: Proliferação descontrolada de células, resultando em múltiplos tumores internos

Nome: Aiko Nakamura

Idade no óbito: 10 anosTempo no Casulo: 10 anosExperimento: Adaptação biológica ao ambiente subaquáticoCausa da morte: Falência respiratória devido à formação incompleta de brânquias

Nome: Thomas Richter

Idade no óbito: 13 anosTempo no Casulo: 13 anosExperimento: Controle da eletricidade estáticaCausa da morte: Parada cardíaca por sobrecarga elétrica no sistema nervoso

Nome: Elise Moreau

Idade no óbito: 11 anosTempo no Casulo: 11 anosExperimento: Aumento da densidade óssea para resistência física superiorCausa da morte: Ossificação excessiva que levou à imobilização completa e falência orgânica

Nome: Rafael Torres

Idade no óbito: 9 anosTempo no Casulo: 9 anosExperimento: Manipulação térmica (controle do próprio calor corporal)Causa da morte: Hipertermia extrema, resultando em combustão espontânea

Nome: Ingrid Voss

Idade no óbito: 13 anosTempo no Casulo: 12 anosExperimento: SupervelocidadeCausa da morte: Desgaste celular acelerado, levando à degeneração muscular irreversível

Nome: Daniel Park

Idade no óbito: 11 anosTempo no Casulo: 10 anosExperimento: Invisibilidade parcialCausa da morte: Desaparecimento irreversível de órgãos vitais devido à falha no controle molecular

Nome: Zoe Campbell

Idade no óbito: 9 anosTempo no Casulo: 8 anosExperimento: Amplificação auditiva e ecolocalizaçãoCausa da morte: Trauma cerebral por sobrecarga de estímulos sonoros

Nome: Malik Hassan

Idade no óbito: 10 anosTempo no Casulo: 9 anosExperimento: Transmutação da pele para resistência a impactosCausa da morte: Endurecimento progressivo dos tecidos, resultando em falência sistêmica

Nome: Bianca Vasquez

Idade no óbito: 11 anosTempo no Casulo: 10 anosExperimento: Capacidade de respirar em atmosferas tóxicasCausa da morte: Colapso pulmonar devido à exposição prolongada a gases experimentais

Nome: Evan Holt

Idade no óbito: 8 anosTempo no Casulo: 7 anosExperimento: Telepatia avançadaCausa da morte: Atividade neural extrema levando à perda total da consciência e estado vegetativo permanente


Quando Alex, June e Maddy encontraram os registros de óbitos das crianças do Casulo, a sala ficou em um silêncio pesado. As fotos, tiradas antes dos experimentos, mostravam bebês sorridentes, com olhares esperançosos que contrastavam brutalmente com as causas de morte descritas nos documentos. Cada nome, cada rosto representava uma vida interrompida, um potencial brutalmente apagado.

Alex, que havia passado quatro anos no Casulo e desenvolvido uma habilidade que o isolava do mundo, olhou para as fotos com uma expressão de puro desgosto e desespero. A raiva borbulhava dentro dele, mas ele se sentia impotente, como se a dor de ver aquelas crianças fosse algo que ele não poderia consertar. "Eles fizeram isso com essas crianças... com essas vidas. Nós... nós não podemos deixar isso passar." Ele apertava as mãos, o som do papel rasgando levemente enquanto seus dedos trêmulos tocavam as fotos. Sentia uma angústia visceral ao perceber que ele poderia ter sido mais uma dessas crianças, esquecido por todos.

June, que já estava cheia de perguntas não respondidas e cuja própria história no sistema era marcada por traumas, começou a balançar a cabeça, como se tentasse afastar a dor de uma realidade que ela já temia. Ela sentiu um peso esmagador no peito. "Eles fizeram experimentos... Mas não eram 'experimentos', eram assassinatos." Suas palavras saíram em um sussurro, como se ela não pudesse acreditar no que estava vendo, mesmo sabendo que o sistema sempre fora cruel. Ela olhou para Maddy e Alex, seus olhos marejados, lutando para entender como isso foi permitido. "Tudo isso... tudo foi em vão? Não podemos deixar que isso aconteça com mais ninguém." Ela sentia uma revolta crescente, mas também uma tristeza profunda ao perceber que as crianças ali não tinham escolha.

Maddy, cuja própria experiência no Casulo havia sido dolorosa, mas não fatal, olhou para as fotos com uma sensação de impotência e culpa. Ela sentiu como se o sistema a tivesse traído, como se ela também fosse culpada de alguma forma por ter sobrevivido enquanto outros não tiveram a mesma sorte. "Tantas vidas perdidas... E tudo o que nos disseram era que estávamos 'ajudando' a salvar o Domo."

Ela olhou para Alex e viu sua frustração contida. Olhou para Maddy e sentiu sua raiva silenciosa. Eles não precisavam dizer nada. Todos sabiam que não havia volta.

Eles não eram mais vítimas. Eram sobreviventes. E estavam prontos para destruir o sistema que os criou.

Mas eles não estavam sozinhos.

A revolta começou a crescer entre os corredores sombrios do Domo. Pais que nunca tiveram o direito de enterrar seus filhos começaram a se reunir. Homens e mulheres que haviam escolhido o Cesto por medo e arrependimento agora queriam justiça. O silêncio que envolvia as mortes das crianças rejeitadas estava se rompendo.

June, Alex e Maddy não estavam apenas se vingando. Estavam iniciando algo muito maior do que eles.

A queda do Domo começaria com aqueles que ele tentou apagar.



A sala do parlamento estava tomada pelo burburinho de vozes exaltadas. O desaparecimento dos documentos das crianças sem nome havia abalado a estrutura do Domo como um terremoto. As informações, antes ocultas nos arquivos sigilosos do governo, agora circulavam entre os cidadãos, alimentando uma revolta crescente. A monarca Allison Stewart estava presente, seu olhar impassível observando cada membro do parlamento. Mas quem falava por ela era sua filha mais velha, Dalila, um exemplo vivo de que o Casulo poderia funcionar – pelo menos, essa era a narrativa oficial.

— Isso é inadmissível! — vociferou Richard Walters, representante da família Walters. — A segurança do Domo foi comprometida, e informações sensíveis foram expostas! Quem pode garantir que essas acusações não são pura manipulação?

— Manipulação? — rebateu Helena Alves, inclinando-se sobre a mesa. — E se forem verdadeiras? E se todas aquelas crianças mortas forem apenas a ponta de um iceberg?

— Isso é um ataque direto ao nosso governo — declarou Elias Wilson, sua voz dura e intransigente. — Essas informações foram roubadas por terroristas, e qualquer um que se alinhe a eles deve ser tratado como tal.

— Terroristas? — resmungou Nicholas Oliver. — Eu chamaria de mártires. Você acha mesmo que essas crianças escolheram desaparecer? Ou melhor, acha que os pais delas escolheram isso?

— Muitos escolheram, sim! — rebateu Graham Godric, batendo a mão na mesa. — E eu faria a mesma escolha de novo. Melhor um filho morto do que um filho medíocre. O Domo sobrevive pela superioridade dos seus habitantes.

— Diga isso aos Stevens — murmurou Anna Thompson, sua voz carregada de desdém. — Eles estão esperando há seis anos pela filha que entregaram ao Casulo. Onde está Esther agora?

Os Stevens estavam em silêncio. Albert Stevens, o patriarca, cerrava os punhos com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Sua esposa, Lillian, mantinha o olhar fixo no vazio, mas uma lágrima solitária escorreu por seu rosto. O nome da filha deles estava entre os arquivos roubados, listada como uma das crianças que não sobreviveram. Mas oficialmente, ela ainda estava no Casulo, “em desenvolvimento”.

— Não podemos permitir que esse tipo de informação seja usada para desestabilizar nossa estrutura social — cortou Eleanor Watson, com sua postura rígida. — O Domo é um modelo de sucesso. Precisamos controlar a narrativa antes que se instale o caos.

— Concordo — disse Jonathan Smith, com um tom entediado. — Mas sejamos francos, quem realmente se importa? O sistema funciona para a maioria. Os fracos simplesmente não sobrevivem. Isso sempre foi um fato.

— Estamos lidando com famílias que nunca puderam enterrar seus filhos! — explodiu Matheus Sullivan, vermelho de raiva. — Eu perdi quatro para o Cesto! Mas pelo menos eu sabia para onde eles estavam indo! E esses pais? Nunca tiveram escolha!

— O sistema está se deteriorando — sentenciou Caroline Philips, sem emoção. — Mas não cabe a nós resolver isso. Esse problema deve ser controlado pelo governo.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um ruído leve – um único toque de unhas longas e bem cuidadas batendo contra o braço da cadeira de comando. Allison Stewart, a monarca, ergueu-se com lentidão calculada, seu olhar deslizando por cada um dos presentes, avaliando-os como peças em um tabuleiro de xadrez. Quando falou, sua voz era baixa, mas cortante como uma lâmina afiada.

— O sistema funciona. Sempre funcionou. E continuará funcionando.

Dalila, ao lado da monarca, ergueu-se logo em seguida. Seus olhos faiscavam com determinação.

— Não permitiremos que um grupo de rebeldes destrua tudo o que construímos. A verdade será restabelecida. A ordem será mantida. O Domo prevalecerá.

— Que verdade? — a voz frágil de Lillian Stevens se ergueu pela primeira vez, agora tingida por um tom amargo. — A que nos fizeram acreditar? Eu vivi seis anos esperando Esther voltar, confiando nas promessas do Casulo. Agora, descubro que minha filha nunca saiu de lá. Ela está morta.

Albert Stevens se levantou abruptamente, a cadeira arrastando-se para trás. Seu rosto estava vermelho de fúria e dor, e por um instante pareceu que ele avançaria contra os membros do parlamento. Mas ele se conteve, respirando com dificuldade.

— Você não tem provas disso — retrucou Eleanor Watson, impaciente. — Esses documentos podem ser falsificações.

— Mas não são — disse Nicholas Oliver, sua expressão sombria. — E não é só sobre os mortos. Os que sobreviveram, a que preço pagaram?

— Meu filho — começou Graham Godric, com um brilho de irritação nos olhos — não sobreviveu. Mas ele era fraco. Pelo menos, teve a chance de tentar ser algo mais.

— Minha filha sobreviveu! — interveio Margaret Grint, a voz carregada de emoção. — Mas vocês querem saber como? Ela não respira mais o mesmo ar que nós! Ela vive presa em um tanque de água! É isso o que vocês chamam de sucesso? Isso é sobrevivência?

O murmúrio cresceu no parlamento. Alguns pareciam abalados, outros irritados. Até que Elias Wilson se levantou bruscamente.

— Isso já foi longe demais! Precisamos de ação imediata! Esses arquivos foram roubados, e agora estão sendo usados como arma contra nossa sociedade! É uma afronta! Proponho uma caçada implacável para encontrar os responsáveis! Descobrir quem fez isso e puni-los severamente!

— Concordo! — gritou Jonathan Smith. — Isso não pode ficar impune! Se deixarmos essa rebelião crescer, nosso Domo desmoronará!

A monarca Allison Stewart permaneceu em silêncio por um longo momento. Então, inclinou-se levemente para frente, um sorriso frio brincando em seus lábios. Quando finalmente falou, sua voz não precisou ser elevada para dominar a sala.

— Então que assim seja. Vamos caçar os traidores. E acabar com essa revolta antes que ela comece.

Enquanto os membros do parlamento discutiam os próximos passos, do lado de fora, a revolta já se espalhava pelas ruas. O Domo estava prestes a enfrentar a maior tempestade de sua história.