O Último Pendragon
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– Avina, se importa de explicar por que estamos nos embrenhando no meio do nada? — Leon perguntou pela enésima vez. Subíamos um pequeno morro em meio à floresta e estávamos arquejando. Na última hora e meia havíamos passado por arbustos, troncos caídos cobertos por musgos e liquens e árvores. Em alguns pontos da floresta pedras se erguiam da terra fofa e foi enquanto escalávamos uma destas Dianne resolveu responder por mim.
– Pense nisso como uma aventura – ela gritou lá da frente. Liderava o grupo sem ter a mínima ideia sobre onde o Alymer se elevava. Mantinha-se firme e forte, ainda que dificilmente sua roupa estivesse adequada a uma caminhada tão longa. Sua saia longa ficara presa em galhos e se enroscara em troncos caídos, mas nada parecia ser capaz de afetar o seu ótimo humor. Certo ruivo que não parava de reclamar desde que havíamos deixado o vilarejo de Kimpton poderia ou não ter uma influencia direta sobre esse fato.
– Eu já disse Leon. –resmunguei, impedindo um mosquito de entrar em minha boca enquanto falava. Suor começava a se acumular em minha testa e meus pés começavam a doer nos tênis que normalmente eram tão confortáveis. Começava a duvidar que fossemos atingir o monte do qual o sorveteiro falara e o medo de nos perdermos na volta começava lentamente a se instaurar. Mas não queria que Leon percebesse – Estamos fazendo um passeio.
– Deveríamos estar treinando para o torneio. – disse o rapaz atrás de mim. Parou e tirou sua garrafa d’água da mochila às suas costas. Bebeu generosos goles e a estendeu para mim – Ouvi que algumas pessoas realmente boas estão se inscrevendo.
– Quem é que passa todo o seu tempo livre nas férias treinando justas? — a água era um descanso para minha garganta seca. Eu, claro, havia bebido toda a minha água na primeira meia hora – Isso vai ser moleza, pequeno amigo.
– Oh, eu não o chamaria de tão pequeno assim. O que me diz Leon? – Dianne virou-se e olhou para nós. Senti pena de Leon. Quando minha amiga queria ser irresistível, era isso que conseguia ser na maior naturalidade. A pouca maquiagem como quem não quer nada, os óculos de sol que caçara em um brechó charmoso e a blusa leve que deixava seus braços livres era tudo parte do show como tentara me explicar inúmeras vezes sem sucesso. Os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava pequenas mechas tocarem seus ombros cobertos de sardas também.
Leon tentava ignorá-la o melhor que podia, mas quando se voltava diretamente a ele sua educação o obrigava a responder.
– Ahm... Imagino que não. – ele disse e passou adiante – Então, um passeio? Está por acaso tentando achar a trilha que leva ao monte Alymer, está?
Pus as mãos na cintura, olhando para o alto esperando que talvez a trilha estaria indicada por uma linha pontilhada. A copa verdejante me encarou de volta, balançando um pouco ao sabor do vento e abrindo novos buracos por onde a luz do sol conseguia passar. Não consegui me livrar da sensação de que estávamos andando em círculos.
– E se estiver? — perguntei de volta.
– Bom, se estiver. – ele disse devolvendo a garrafa a sua mochila – Precisa saber que estamos indo na direção errada.
– Estamos?
– Estamos. Deveríamos ter virado a oeste há quarenta minutos. – ali estava, um resquício de seu tempo de escoteiro. Ainda que eu passasse mais tempo brincando com sua imagem de garoto pequeno e comportado posto em um grupo de escoteiros pelos pais numa tentativa de forçá-lo a uma socialização com crianças da mesma idade, às vezes tinha que admitir que era algo bastante útil. Isso e quando sabia como escolher o melhor lugar para montar um acampamento e acender uma fogueira sem fósforos ou isqueiro.
– Então você deveria liderar o caminho. – Dianne cantarolou, saltitando até o seu lado. Entrelaçou seu braço com o dele antes que Leon soubesse o que estava acontecendo — Você Leon, eu seguiria para qualquer lugar.
Leon tentou sorrir, a tentativa se transformou em um pigarreio e então num acesso de tosse. Dianne sorria como se estivesse tendo o melhor dia de sua vida e eu revirava os olhos. Deveria arranjar logo algum programa para os dois fazerem sozinhos. Nem Christa teria chances de manchar os planos de Dianne. Enquanto os observava conversar (o que consistia basicamente em Dianne tagarelando e Leon balançando a cabeça, ora pra cima e para baixo, ora pros lados) não pude deixar de reprimir uma risada. Talvez Dianne não soubesse, mas para mim estava muito claro que havia algo novo em sua maneira usual de conquistar uma nova “vítima”, como se gabava. Algo frágil e genuíno e eu sabia que quando ela o percebesse tentaria se afastar. Estaria lá para tentar convencê-la do contrário. De todos os rapazes que nós conhecíamos Leon era de longe o cara que eu conseguia imaginar dando certo ao lado de Dianne. Bom, ela e Morgan também se davam até bem demais para o meu gosto, quando se juntavam tornavam-se especialmente insuportáveis, mas Dianne não era bem o que Morgan procurava em alguém com que queria se envolver romanticamente. Costumava dizer entre gargalhadas que era quase perfeita, faltando-lhe apenas algo muito importante entre as pernas para despertar seu interesse.
O último namoro do meu irmão não terminara bem. Simon fora o nome do rapaz que daria tudo para Morgan, menos a verdade do relacionamento diante de sua família. Havia durado três anos. Três anos nos quais Morgan se sujeitava a encontros às escondidas, realizados em lugares distantes para anular a possibilidade de algum amigo ou familiar de Simon ver o que não devia. Até que o inevitável aconteceu. Na verdade, Simon fora corajoso e tentara se abrir para os pais altamente conservadores. Ficou uma semana sem dar notícias e quando finalmente atendeu às ligações de Morgan, marcou um encontro em seu restaurante favorito. Meu irmão me contou que ainda dava para ver as marcas da surra em seu rosto. Simon terminou tudo que havia entre os dois naquela noite e Morgan pensara que fora por medo, por não conseguir aceitar. Mais tarde descobriu que o pai de Simon, um importante homem no ramo de televisão, havia ameaçado deserdá-lo. Isso ele não conseguiu perdoar e acho até hoje que foi isso que quebrou seu coração. Quando Morgan me ligou para contar o que realmente havia acontecido ele estava chorando em uma maneira que nunca vi antes, não consegui fazer muita coisa além de derramar minhas lágrimas do outro lado da linha. Era em meio ao semestre letivo e não havia muito mais o que podíamos fazer. Gosto de pensar que fora suficiente, mas então recordo como Morgan ficara feliz por ter encontrado alguém especial. Dos sorrisos, dos olhos brilhantes e dos “bom dias” mais empolgados e sinceros que já ouvi. Porque Morgan realmente acreditava que qualquer dia perto de Simon era, por si só, um dia bom. Um dia cheio de alegria.
Lembrei-me de como havia se referido a Mordred pelo apelido estranho tão rapidamente. Havia poucas pessoas das quais eu não gostava de maneira alguma. Minha mãe podia ser uma delas em seu auge de controle e egoísmo, mas a verdade era que a amava e havia aprendido que amor e irritação podem andar de braços juntos. Mas com Mordred havia sido diferente. No momento em que o encarei sabia que algo estava errado. Que era uma ameaça. Chutei um graveto para longe do meu caminho, as risadas da dupla à minha frente assustaram um esquilo que parara para nos observar, balançando o espesso rabo e erguendo as orelhas com curiosidade. Em algum lugar entre as árvores um pica-pau fazia seu trabalho. Por mais que andasse e andasse o rosto de Mordred não saía dos meus pensamentos. Se chegasse perto de Morgan o faria se arrepender tremendamente. Sobressaltei-me quando algo começou a vibrar em meu bolso e precisei de bons dez segundos para me dar conta que era o celular de Dianne.
– Eu disse que ele ligaria! – ela gritou.
Puxei o aparelho do bolso e chequei, depois agradeci por Dianne e Morgan não serem irmãos. Iriam fazer um estrago gigantesco.
– Bom dia raio de sol! – veio a voz sonolenta de Morgan através do celular – Se importa em passar o telefone para minha irmã foragida?
– Estou bem aqui Morgan. – resmunguei de volta.
Meu irmão gargalhou, me forçando a afastar o celular do ouvido. Na frente Leon avisava que não demoraria muito mais. Seu humor parecia ter melhorado.
– Hey – Morgan puxou minha atenção de volta para a ligação – Adivinha quem acabou de me ligar? Ou melhor, adivinha que me acordou?
– Devem ser duas horas da tarde Morgan. Qualquer pessoa decente já estaria acordada.
– Oh, é uma pitadinha de rancor que escuto? Eu não tenho culpa de você sair sem avisar a ninguém na calada da noite.
– Seis horas.
– Calada da noite. – ele enfatizou – E para pôr fim a essa discussão sem sentido devo dizer que trabalho melhor de noite, o dia foi feito para dormir.
– Como temos sinal no meio dessa floresta de qualquer forma? — perguntei me dirigindo a ninguém específico.
– Floresta hmm? Se Leon estiver por perto passe esse pequeno recado para mim, sim? “Corra Forrest, corra.”
– Morgan – suspirei frustrada – Você está ligando por um motivo especial?
– Se você tivesse seguido o meu roteiro imaginário já saberia. – ele devolveu – Bom, vou soprar a resposta: Gwynn.
Suspirei de alívio. Não era Mordred, isso era algo bom. Logo depois me dei conta do que isso significava e meu coração fez aquilo de bater fora do ritmo que devia.
– Gwynn? — parei de andar.
– GWYNN! – gritou Dianne.
– Quem diabos é Gwynn?
Leon ficou sem resposta porque Dianne estava ocupada demais formando um coração com suas mãos e eu tendo uma palpitação atrás da outra.
– O que – me esforcei para manter a voz razoavelmente controlada – Ele queria?
– Então nem ao menos nega. – a voz de Morgan parecia ferida – E no sótão você fingiu que não sabia quem ele era. Há quanto tempo estão saindo?
– Saindo?! Não! – balbuciei – O conheci hoje de manhã. Ele está cobrindo Brian no MdP.
– Ah. – podia sentir sua frustração. Morgan adorava criar drama onde não havia, mas diferente da minha mãe o fazia por diversão – Bom, parece não tê-lo assustado. O que também significa que terei que contar algumas de suas aventuras no primário durante o jantar.
– Morgan... – comecei.
– Estou apenas brincando. – ele mentiu, o tom voltando a ser animado – Vou tentar me controlar. Gwynn é perfeito, mas isso você já deve saber.
– Perfeito... – repeti em dúvida.
– Para você. – ele completou.
Mordi os lábios como sempre fazia quando estava em um conflito interno (o que talvez explica o estado deplorável deles).
– Acho que quem deve determinar isso sou eu. – falei.
– Claro. Estou apenas garantindo mais um “eu te avisei”. E, hey, dessa vez até será um positivo.
– Ouça Morgan, adoraria continuar a ter essa conversa constrangedora, mas estamos no meio de um passeio. Então resume: para quando marcou?
– Para quando marquei? — ele repetiu como se aquilo não tivesse o mínimo sentido – Para hoje é claro.
– Hoje?! – levei a mão livre à cabeça – Morgan...
– Ah, não se descabele. Na verdade ele estava muito animado com a ideia. Já te disse hoje que você é minha pessoa favorita? Devo dizer quantas pessoas naquela classe bombardearam o pobre coitado em busca de algo assim?
– Obrigada pela parte que me toca. – respondi em tom monótono – E eu não o bombardeei com nada.
– Não foi isso que eu percebi.
– Certo, hoje à noite. – queria mesmo saber como encaixaria tudo que tinha em mente antes do anoitecer. Encontrar Merlin, falar que talvez essa coisa de magia não estivesse completamente pirada, convencer Dianne e Leon de que grifos, bruxas e feiticeiros eram algo bastante real, voltar para casa, tomar banho e me aprontar. Estava exausta só em recapitular a nota mental – Se não se importa vamos continuar a nossa aventura agora.
– Okay Indiana Jones. Apenas tome cuidado com pedras soltas. – ele se despediu.
Murmurei qualquer insulto menor de volta e guardei o aparelho de novo. Dianne e Leon ainda estavam parados, me encarando. Suspirei e comecei a andar.
– Então... Esse tal de Gwynn – começou Leon quando passei por ele.
– Ninguém em especial. – cortei na voz menos interessada possível.
Ninguém em especial. Repeti e não consegui convencer nem a mim mesma.
–-x--
Para a alegria e alívio de todos atingimos o monte Alymer meia hora depois. Era um pequeno monte de terra calvo que se elevava em meio à floresta. Coberto de grama e pequenas flores que se distribuíam aqui e ali, contava também com uma parede de pedras no alto. Lembrei instantaneamente do aviso de Morgan e suprimi um sorriso. Eram bons duzentos metros até chegarmos às paredes rochosas. Pareciam ser de arenito e o arranjo delas me fez pensar que talvez tivessem sido parte de alguma construção maior centenas de anos atrás. Pela posição privilegiada do monte, talvez até uma torre sentinela. Agora a parte mais alta mal me ultrapassava e as outras estavam caídas ao redor formando uma espécie de base o que me deu a ideia de algum dia ter sido a base de uma construção em primeiro lugar.
– Veja. – chamou Dianne – Rabiscaram alguma coisa aqui.
Era verdade. E definitivamente fora feito depois.
– Vândalos. – disse Leon com pouco carinho – Ouvi que grupos costumam acampar aqui. Isso – apontou para o desenho que dizia “J e M para sempre” em um coração torto – Deve ter sido feito com carvão. Olhem, ainda tem marcas da fogueira.
O pequeno espaço na terra preto era como uma cicatriz no gramado, nua e escura. Pelos restos de fuligem e brasa esbranquiçada Leon estava certo.
– Então... Piquenique? — quis saber Dianne, tirando sua bolsa das costas.
– Piquenique. – concordou Leon – Eu trouxe alguns sanduiches.
– Eu vou... Ahm, dar uma volta por aí – resmunguei um pouco desapontada com o lugar. Se algum dia aquilo tivesse sido um espaço tocado pela magia de qualquer maneira que fosse, deveria ter sido há muito tempo atrás.
– Tem certeza que é seguro?
– O que Leon? Com medo de que alguns fantasmas me raptem? Eu posso cuidar de mim mesma, não está de noite e não temos lua cheia. – enfiei as mãos dentro dos bolsos amplos da minha calça – Não vou demorar.
Não estava longe o suficiente para fingir que não tinha ouvido o que Dianne comentou a seguir.
– Não se preocupe – falou minha amiga voltando-se para Leon – Eu te protejo.
Virei-me o suficiente para dirigir um olhar de desculpas para o rapaz acompanhado de um dar de ombros. Ele ficaria bem.
Eu, por outro lado, não tinha essa mesma certeza quando pensava em mim. Ir a Alymer havia sido um impulso, algo que surgiu em minha mente no momento em que tentei buscar uma maneira de encontrar o velho lunático. Estava certa de que havia sido um ímpeto resultante da sorte, mas agora já não tinha tanta certeza. Pássaros cantavam em meio à copa das árvores e uma libélula passou zunindo em minha frente. Segundo Leon isso significava que deveria ter um corpo d’água não muito longe, mas como as garrafas dos meus amigos ainda estavam quase cheios aquilo não me animou. Circulei o monte inteiro duas vezes em vão e até me arrisquei para chamar pelo velho algumas vezes. Rezei para que Dianne estivesse fazendo seu papel de distrair Leon porque se qualquer um dos dois ouvisse o meu chamado eu teria sérios problemas para me explicar. Parei ao lado de uma árvore que tinha um tronco especialmente grosso e achei que se tratasse de um carvalho. Sua copa deveria estar a pelo menos vinte metros. A madeira estava coberta de musgo que eu estava começando a arrancar com as unhas quando uma voz me fez saltar.
– Eu não faria isso com as árvores sagradas se fosse você. – aconselhou a voz esganiçada.
Virei-me para encarar o velho que sentava em cima de um tronco caído como se fosse o lugar mais confortável do mundo.
– Merlin. – cumprimentei, tentando mascarar minha ansiedade – Achei que talvez o encontrasse por aqui.
– E agora que me encontrou, o que vai fazer? — levantou os braços em dúvida – Me xingar de louco? Insultar o meu dragão? Profanar a floresta sagrada? Atropelar-me com seu motociclo? Ou todas elas juntas?
– Já disse que é motoCICLETA. – suspirei levando o indicador e o dedão até os olhos fechados – Olha, talvez não tenhamos começado com o pé direito.
– Definitivamente não. – concordou satisfeito – E já que deixou seu imponente castelo algo realmente interessante deve ter acontecido. Do que se tratou? Um sapo venenoso, ou ou um demônio dos lagos talvez? — fez uma careta franzindo o cenho – Não, eles a teriam afogado. Talvez uma quimera? Um espírito maligno? Uma fada traiçoeira! – seu rosto se iluminou a cada tentativa.
– Não conheço qualquer outro nome para ele... Bom, talvez ela. Foi um grifo. Hoje de manhã.
Qualquer luz que estivesse em sua expressão o abandonou por completo.
– Então você foi atacada.
– É o que estou tentando dizer o tempo inteiro. Eu fui atacada por um grifo de bronze. Em um parque próximo da minha casa.
– Um parque?! – para o velho eu poderia estar falando chinês – Um parque?!
– É, você sabe. Trilhas para caminhada. Um grande gramado, às vezes com um campo de minigolfe ou lago.
– Eu sei o que é um parque! – ele sibilou insultado e se levantou , começando a andar de um lado para o outro – Mas não faz o mínimo... Cobri todas as possíveis brechas, selei todos do outro lado... E se houver mais?... Não, não, não! – gritou com raiva balançando a cabeça com os longos cabelos brancos – Impossível... Impossível... Mas explicaria... – parou de andar e me encarou – Ele era de quê?
– Bronze. – respondi encostada a uma árvore.
– Mas você sentiu o bronze?
– Se está perguntando se cheguei perto o suficiente para tocar em um monstro enlouquecido e potencialmente homicida, não.
Fez um gesto de que eu já não tinha mais jeito e se afastou.
– Durante anos... Séculos venho tendo apenas uma tarefa. Uma tarefa tediosa e repetitiva, que exige demais de meu corpo velho e envolve muitas viagens. O que sabe sobre barreiras temporais?
– Ahm, nada?
– Claro que não sabe. – ele confirmou como se fizesse uma nota mental – Bom, eu selei Albion. Selei... Acho que o termo que você usam hoje em dia é universo. Eu selei um universo que existe no mesmo lugar que este, mas em um tempo diferente.
– O que você é? Uma espécie de time lord?
– Timelord? — Merlin repetiu – O que em meu nome é um timelord? Não importa, não importa. – empurrou a dúvida para longe com um gesto de mão – Albion estava morrendo. Forças sombrias estavam crescendo em seu interior, forças que eu consegui enxergar por muito tempo por estar... – se perdeu nas próprias palavras e por um momento pareceu frágil como papel – Por estar ausente. Quando voltei a única coisa que pude fazer foi selar o mundo inteiro com minha magia para que não engolisse este universo também. Eu tentei dar mais tempo ao dois, mas agora parece que o sacrifício foi em vão.
– Espere... Você selou... Você destruiu Albion? — algo dentro de mim chorava por Camelot, por Avalon e a Távola Redonda. Lendas que eu julgava por estórias e que agora sabia terem realmente existido. Existido e desmoronado por causa de um feiticeiro.
Diante da pergunta Merlin parou de andar, me encarou e de repente parecia confuso.
– Eu selei... – disse de forma vaga – Destruir, não! Destruir nunca. Eu lutei contra todos eles. Contra todos os monstros que deixavam o penhasco de Astork, mas eles continuaram vindo. A nuvem sombria cobriu tudo – seus olhos se arregalaram diante da lembrança – Eu... Eu tentei, mas não havia como evitá-lo. Cacei todas as passagens para a Terra, é como chamam este lugar não é? — não parou pela confirmação, estava ansioso em tirar o peso de seu peito – Eu selei todas elas, menos uma. Por ela fiz passar todas as pessoas que consegui.
– Quantas? — estava tendo dificuldades em imaginar um grande grupo de pessoas vindas de um mundo medieval de fantasia cair de paraquedas em meu mundo. Não teria passado despercebido das autoridades e quão grande deve ter sido o choque ao se defrontarem com a modernidade.
Merlin levou as mãos à cabeça, os olhos inquietos. Metade de mim tinha pena por forçar toda essa situação sobre ele, a outra metade estava cheia de curiosidade e tentando gerar hipóteses que pudesse tornar tudo um pouco mais lógico.
– Quantas Merlin? — insisti.
– Poucas demais. – ele respondeu, não para mim, mas para as árvores. Perguntei-me há quantos anos elas haviam sido sua única companhia.
– E ninguém percebeu nada? Essas pessoas simplesmente brotaram de uma passagem mágica e ninguém se importou?
– Todas as pessoas que podiam se importar já estão mortas. – falou novamente para o nada.
– Você as matou?! – certo, Merlin não era um mendigo lunático. Mas se transformasse em um mendigo assassino eu estaria preparada para correr.
– Matar? — a velha irritação transpareceu através de suas palavras – Matar?! Não, elas morreram naturalmente.
– E você não teve nada a ver com isso?
– Você está surda? — grasnou – Eles estão mortos. Os camponeses que os encontraram, as pessoas que salvei de Camelot e seus reinos vizinhos. Todos mortos. – e ao ver minha expressão confusa deu um suspiro exasperado – Quantos anos você acha que eu tenho?
– Espere... – uma ideia terrível me ocorreu – Quando você abriu o portal Merlin? Há quantos anos?
Sua expressão mudou. A carranca de frustração se transformou em tristeza.
– Alguns... – começou e ao ver a determinação em meu rosto acrescentou – Algumas dezenas... Ou foram centenas? — pousou o indicador onde seu queixo deveria estar escondido debaixo da barba e deu leves batidas – Milhares?
– Milhares?! – repeti um pouco alto demais. Em algum lugar acima de nós um cuco piou em reclamação. Mas não me importei – Milhares?
– Anos ficam um pouco estranhos e engraçados quando se é imortal. Acho que contei até seiscentos e oitenta e três. – semicerrou os olhos – seiscentos e oitenta e sete. Isso foi antes de Roma cair, eu acho. Tinham um senso de estilo que me agradava.
– Merlin! – exclamei fascinada – Você acompanhou a queda do maior Império que já existiu!
– Observei mesmo. Da minha caverna. Era meio fria nos invernos, mas era agradável nas épocas mais quentes. Um dia vi até um general passar diante dela com sua tropa. Eram um grupinho realmente hilário.
– Hilário? — o desapontamento em minha voz foi tão palpável que o humor de Merlin melhorou em um instante. Resolvi que lhe poderia fazer perguntas sobre História e quedas de grandes civilizações mais tarde – Mas então você cometeu algum erro.
– De não furtar um de seus elmos você quer dizer? Realmente fariam uma peça de decoração adorável -
– Merlin. Sobre o que você andou fazendo nos últimos anos. Não milhares de anos, apenas anos. Supervisionando as entradas para o nosso mundo. – “meu mundo” pensei, mas Merlin havia acompanhado grande parte da história da humanidade e era tanto parte dela quanto Julio César – Se os monstros estão passando quer dizer que há uma falha. Que não estão se contentando com Albion.
– Então você realmente tem algo dentro dessa sua cabeça. – Merlin notou – Fascinante. – e quando viu minha expressão tratou de acrescentar – Então, esse seu grifo. O matou, não matou?
– Matar? Merlin, eu estava ocupada demais tentando não ser esmagada por suas garras ou ter o pescoço dilacerado pelo bico. Deixando completamente de lado que treinamento para matar grifos não foi parte da minha vida escolar. – eu enfrentei alguns monstros na escola, mas a maioria havia consistido em outras crianças, às vezes um professor. Na maioria das vezes eram meus próprios.
Merlin se mostrou pouco tocado pelo meu alarme.
– Bom, então como sobreviveu?
Lembrei da cara irritada da criatura enquanto enfiava suas garras no chão atrás do arco do parque. Havia algo ali que a impedira de avançar sobre mim. E se havia sido esse algo que me salvara Merlin talvez o considerasse útil.
– Algo o fez parar. Em um momento queria a minha cabeça, no seguinte parava e me encarava.
– Parecia estar frustrado?
“Eu lhe pareço uma especialista em grifos?” quis devolver, mas respirei fundo. Talvez não sobrevivesse ao próximo ataque e se as coisas estavam tão ruins como Merlin imaginava ele poderia vir logo, logo.
– Bateu o bico algumas vezes. Deu um grito para o alto, fingiu que a areia eram minhas tripas e afundou suas garras nela. Tentou me fuzilar com os olhos uma última vez e abriu voo. – relatei.
– Algo o forçou a parar.
– Foi o que quis dizer o tempo inteiro.
Merlin desconsiderou a ofensa.
– Esse parque... – começou e voltou seus olhos para mim – O que sabe de sua história?
– Nada. – disse com sinceridade.
– Como assim nada?
– Não tenho mais de dois mil anos Merlin.
– Ah.
Ficou em silêncio por algum tempo. Provavelmente encontrando a solução para o problema, eu torci.
– Precisa me mostrar esse parque. – ele disse por fim.
– Sim... Bom, imagino que possa fazer isso. – calculei a hora em que chegaríamos em casa se partíssemos agora. Tarde demais se quisesse manter o jantar com Gwynn. Prioridades. – Amanhã? — tentei.
Merlin estivera cutucando distraidamente um dos bichos mortos que trazia preso à cintura.
– Não pode ser amanhã. – respondeu com simplicidade – A não ser que não seja muito afeiçoada a sua cabeça. Ou membros em geral.
– Bom, não pode ser hoje... Quero dizer, não pode ser hoje à noite. Eu... Meio que tenho planos.
– Posso apenas tentar imaginar o que pode ser mais importante do que manter a cabeça sobre o pescoço. – ele zombou.
– Hey! — dei alguns passos em sua direção – Você não pode simplesmente ir entrando em minha vida, falar algo sobre monstros e lendas e esperar que eu possa digerir isso tudo num piscar de olhos. Eu preciso de um pouco de normalidade em minha vida Merlin. Afinal, você não estava lá hoje de manhã!
– Não estava porque você me expulsou de sua casa! – ele devolveu irritado e de repente seus olhos brilharam dourados.
Foi como se puxassem um tapete invisível debaixo dos meus pés. Caí para o alto e contra o chão (felizmente pouco duro) da floresta antes que pudesse processar o que estava acontecendo. Encarava a copa verde das árvores e logo a figura magricela e anciã de Merlin.
– Eu sinto muito! – ele disse e havia algo novo em sua voz. Uma preocupação sincera, que não estava escondida atrás de zombarias, irritações ou sarcasmo – Eu não achei que poderia... – parecia mais atordoado do que eu – Não consegui fazer o mais simples feitiço em tanto tempo, achei que...
– Então você sabe usar a magia. – acusei em um tom bem mais ameno que pretendia. A verdade era que a realização de que Merlin era O Merlin ainda não me atingira em cheio até aquele momento – Agora tire essa barba do meu rosto, está fazendo cócegas.
Aceitei a mão que estendeu. Com uma força que não imaginava habitar seres tão velhos me puxou para cima. Ainda parecia confuso. Na verdade a intensidade com que se parecia com um garoto que havia finalmente conseguido cumprir uma tarefa para a qual treinara tanto era quase assustadora. Era como se um bocado de centenas de anos tivesse sido tirado de suas costas que já se curvavam um pouco menos.
– Sua magia está voltando. – comentei, lembrando do nosso primeiro encontro.
– Sim. Sim. – ele repetiu olhando para suas próprias mãos como se nunca se dera conta que existiam.
Aproveitei a virada positiva da situação e o fato de não ter me machucado para tocar em outro assunto antes de partir.
– Ouça, eu imaginava que havia enlouquecido.
– Eu também. – confessou, ainda meio aéreo.
– E, não me leva a mal seu golpe jedi foi impressionante e todo o mais... Mas talvez eu consiga me sentir melhor se outras pessoas também vissem você. E as coisas que pode fazer.
Merlin parecia finalmente acordar do transe e me encarou em dúvida.
– Está falando do casal lá em cima.
– Sim. – respondi.
– Não sou uma atração. — ele disse se virando – Aqueles que precisam saber da minha existência já o fazem. Terá minha ajuda porque diferente do que pensa eu realmente queria estar naquele parque. Mas não podemos esperar até amanhã.
– Então me encontre de meia noite. Em frente à minha casa. – agora que sabia se tratar de um feiticeiro, um meio de transporte era uma das últimas coisas com que precisava se preocupar – E Merlin? Nada de fogos de artifício mágicos ou coisa parecida. Estarei te esperando.
O velho deu de ombros.
– Estará se sobreviver até lá.
– Vou me esforçar. – disse com sinceridade e foi suficiente para se virar e me dar um meio sorriso.
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Aqueles olhos definitivamente não combinavam com sua idade refleti enquanto começava a subir o Alymer. Mas agora que Merlin havia se provado um feiticeiro a única coisa que queria fazer era permanecer ao seu lado, talvez tendo grandes aventuras. E ao mesmo tempo me sentia mal por me desprender do mundo, do que o mundo era para todos os outros. Era como se tivesse um segredo compartilhado apenas com Merlin e eu não esperava esse tipo de relacionamento com um mendigo/lunático/irmão-de-Gandalf/feiticeiro legendário. Por partes. Forcei-me a pensar. Primeiro teria um jantar que talvez fosse até agradável se Morgan não resolvesse atrapalhar tudo, depois um passeio noturno até um parque numa companhia inusitada. Não exatamente a noite que tinha em mente quando acordei, mas também nada tediosa.
Surpreendi Leon e Dianne em seu piquenique. O clima estava muito bom e ambos sorriram ao me verem subir o monte.
– Achamos que tivesse se perdido. – disse Leon – Se Dianne não tivesse me garantido que você tem um senso de direção infalível teria ido procurá-la.
Não parecia nem um pouco prestes a sair procurando uma amiga perdida. O último sanduiche fora salvo por Dianne e estendido para mim. As frutas apenas sobrara uma maça enrugada, do suco poderia dar três goles se economizasse.
– Uma ceia e tanto. – cometei me deixando cair entre os dois. Senti o desapontamento de Dianne no mesmo instante e reprimi um sorriso.
– Encontrou o que a fez nos arrastar no meio do nada? — quis saber e olhando para Leon acrescentou – É um no meio do nada agradável, não me entenda mal.
– Encontrei. – disse simplesmente e enfiei os dentes no sanduiche para mostrar que este assunto estava encerrado.
Não demoraram a achar outro. Conversamos e aproveitamos os raios de sol fazendo cócegas em nosso rosto. Dianne trançou uma coroa de margaridas e coroou Leon como melhor escoteiro aposentado de história em meio a risadas. Foi uma tarde agradável. Duas horas depois atingimos Kimpton sem maiores incidentes e uma vez lá Dianne nos deu carona. A viagem de volta foi acompanhada de rádio no último volume e cantorias dignas de qualquer karaokê. Quando paramos diante da minha casa foi difícil me lembrar que magos, grifos, bruxas e outras criaturas existiam. E quando vi o carro de Dianne sumir na esquina soube que não importava o que viria pela frente, eu precisaria daqueles curtos e bem aproveitados momentos de normalidade.
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– Você acha que esta roupa me dá um ar de quem está arrumado, mas que não se esforçou muito para isso? — perguntei ao meu irmão enquanto me estirava em sua cama. Morgan estava na escrivaninha de seu quarto, rabiscando qualquer coisa para passar o tempo.
Essa era um daqueles momentos que definiam grande parte da nossa relação. Eu fazendo minha melhor imitação de um gato se espreguiçando e tomando a maior parte da cama de Morgan que conseguia e ele inclinado sobre um papel qualquer. Quando ignorou a minha pergunta comecei a cantarolar a última música pop chiclete que Dianne nos forçara a ouvir no último volume. Estava no terceiro bis quando finalmente largou o lápis e se levantou, me encarando de cima a baixo com as mãos na cintura.
– Imagino que seja um visual até excepcionalmente bom vindo de você. – comentou fazendo seu melhor em parecer um crítico sério – Talvez deveria tentar um pouco de maquiagem.
– Não. – recusei. Enfiar-me na saia preta e blusa azul marinho com pequenos detalhes em renda já fora um grande feito no mundo da beleza. Grande demais para o meu gosto, mas depois de grifos enfurecidos mostrar as pernas até os joelhos não parecia uma ameaça assim tão grande.
– Tem alguma ideia do que ele vai cozinhar para nós? — tentei desviar o assunto.
– Sei que Jodie está indignada por estar proibida de fazer o nosso jantar. Tentei convencê-la de que cozinhar para Lady Catherine já é algo a se almejar, mas você sabe como ela é sensível nesse assunto. Quanto ao que Gwynn vai cozinhar... Bom, eu falei que poderia nos surpreender.
– Eu o achei legal. – foi o mais perto que cheguei de lhe confidenciar o meu interesse pelo rapaz.
– Claro que achou. – Morgan foi até sua janela e seu cenho se franziu – Tem um carro aqui na frente. Acha que Gwynn alugaria um para te impressionar?
Corri até seu lado. Era verdade. Imaginei se não se tratasse de uma das amigas da minha mãe e suas visitas inoportunas. E então a campainha tocou.
Morgan praticamente se jogou para fora de seu quarto e se inclinou por cima do corrimão, encheu os pulmões e berrou para baixo:
– Avina vai atender!
E antes que pudesse protestar me arrastou para fora e quase me jogou escadaria abaixo. Alisei a minha saia que parecia muito mole sobre meu corpo e sorri nervosamente para Tina, nossa empregada que fora impedida de alcançar a porta pelo anúncio sutil de meu irmão. A campainha tocou novamente, ecoando pelo mármore. Respirei fundo e caminhei em direção à porta. Repeti o gesto automático de prender uma mecha de cabelo atrás da orelha e abri a porta com a outra, pronta para dar as boas-vindas a Gwynn.
O “boa noite” estava preso em minha garganta quando a porta se moveu para o lado, revelando uma figura diferente da esperada.
– Boa noite Avina. – murmurou Felix – Isso é para você.
Apertou o buquê de girassóis em minhas mãos. O encarei em completo choque. Eram minhas flores favoritas. Não achava que Felix soubesse qual era minha comida favorita depois de todas as vezes em que pedíamos as mesmas coisas nos restaurantes, agora isso.
– Paul me contou que você passou lá em casa na outra noite. Tentei ligar para você o dia inteiro, mas não estava conseguindo. Imaginei se estava com raiva, se eu tinha feito algo errado ou se algo ruim tinha acontecido com você. Fiquei com saudades.
Jogou todas essas palavras sobre mim e não me deu um segundo para responder. Apenas me encarou com aqueles olhos e sorriso emoldurado por covinhas. Foi então que soube que não sabia o que responder. Mas Felix não se importou porque parecia ter falado tudo o que queria.
Apenas colou seus lábios nos meus e me envolveu em um beijo apaixonado.
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