O Último Olhar
1 O Sussurro do Outono
A brisa fria de outono atravessava as ruas estreitas de Kyoto, trazendo consigo o aroma intenso das folhas de bordo a cair e o cheiro húmido da chuva que se anunciava. Hana caminhava lentamente pelo caminho de pedra que levava ao templo próximo da sua casa. O seu corpo, já debilitado pela doença que a consumia há meses, tremia ligeiramente a cada passo, mas a sua mente recusava-se a ceder à resignação completa. Gostava daquele passeio matinal, apesar do cansaço, sentia que ainda podia perceber os detalhes da vida que a rodeava: o tilintar distante de sinos, o rasto de névoa que se erguia sobre o lago, e o voo silencioso de um corvo negro a rasgar o céu acinzentado.
A sua doença era invisível aos olhos dos outros. Por fora, parecia apenas uma mulher cansada, com uma postura frágil e cabelos que haviam perdido parte do brilho que tinham noutras épocas. Mas, no seu interior, cada célula parecia sussurrar a inevitabilidade do fim. Nos últimos meses, sentia como se algo, uma presença intangível, silenciosa e persistente a seguisse. Às vezes, em corredores vazios ou nas sombras projetadas pelas lanternas de pedra, tinha a sensação de que alguém a observava, mas ao virar-se, não havia ninguém. Pensava que eram apenas frutos da sua imaginação cansada, ou talvez ecos da sua própria ansiedade.
Naquele dia, o ar estava particularmente quieto. Hana sentou-se num banco de madeira junto ao lago do templo, observando as carpas que nadavam lentamente na água espelhada. Cada movimento dos peixes parecia sincronizado com o pulsar do seu coração. Ela fechou os olhos por um instante, permitindo que a melancolia a envolvesse sem resistência. Foi nesse momento que sentiu uma mudança na atmosfera, um frio subtil, diferente da brisa habitual, uma presença que não precisava de ser vista para ser sentida.
Hana abriu os olhos e, por um breve segundo, pensou ver uma figura indistinta no outro lado do lago, parcialmente escondida entre as árvores. A figura era alta, vestida com tons escuros, e parecia observar cada gesto seu com uma paciência quase curiosa. Mas, antes que pudesse focar melhor, a neblina que subia da água parecia engolir a silhueta, e ela ficou sozinha novamente, apenas com o som das águas a ondular. Sacudiu a cabeça, rindo baixinho de si própria.
“Estou a imaginar coisas,” murmurou, tentando afastar o arrepio que percorria a sua espinha.
Mesmo assim, algo mudou naquele instante. Um sentimento profundo de familiaridade e inevitabilidade instalou-se no seu peito, embora não soubesse identificar porquê. Era como se, há muito tempo, alguém a estivesse à espera, e finalmente tivesse decidido aproximar-se. Hana respirou fundo, tentando concentrar-se na beleza das folhas vermelhas que caiam lentamente, cada uma desenhando um pequeno arco no ar antes de repousar no chão húmido. Apesar do medo silencioso que sentia, havia também uma curiosidade estranha, uma necessidade de compreender o que estava para vir, mesmo sem saber que se tratava da própria Morte que a rondava há meses.
Com o coração mais calmo, Hana levantou-se e continuou o seu caminho pelo templo. O som dos seus passos ecoava entre os portões de madeira e as paredes de pedra, misturando-se com o sussurro do vento nas árvores. Não sabia que aquele dia marcaria o início de encontros silenciosos, olhares trocados e conversas que a levariam a aceitar um destino que já estava traçado desde muito antes de ela nascer. Mas, naquele instante, sentia apenas a beleza triste do outono e a presença de algo que não se via, mas se pressentia, como uma sombra que acompanhava cada passo seu.
E foi assim, entre folhas caídas e reflexos na água, que a Morte começou a aproximar-se de Hana, sem pressa, sem presságio, como quem espera pacientemente que a hora certa chegue.
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