O Último Inverno
1 Capítulo O1: LAR.
Eu já estava me cansando das bolhas de sabão.
Mesmo naquela confusão, não era muito difícil voltar a achar os pequenos pontos brilhantes flutuando pelo ar. Eles pareciam no seguir, e, depois de tudo, era provável que realmente estivessem. Pela posição do sol, nos aproximávamos do meio-dia. E eu ainda não acreditava que estava mesmo fazendo aquilo.
Partimos duas noites antes do Acampamento Meio-Sangue. Era um sábado. O clima não poderia estar melhor ─ com a chegada do verão, os semideuses partiam para a nossa pequena praia e lá passavam o dia. O cheiro que vinha dos campos de morango era delicioso, as ninfas brincavam e corriam em harmonia e não havia, aparentemente, uma única alma infeliz. Depois da guerra contra Gaia, o mundo não parecia ter outros planos de destruição. E nós, heróis, agradecíamos.
Foi quando eu voltava da praia que Quíron me chamou. O centauro, que ainda se recuperava de tanto estresse, estava nos jardins da Casa Grande. Apesar do calor, a chegada da noite trazia uma brisa suave, o que explicava a camisa de botões cobrindo sua parte humana. Sua figura era sombria, parada junto às várias árvores cultivadas, em grande parte, pelos filhos de Deméter. O brilho do luar o deixava um pouco pálido.
─ Lola, precisamos conversar. Se importa? ─
Surpresa demais para contestar, acenei com a cabeça e me desviei de meu caminho, seguindo pelas pedras que levavam até a sacada. A Casa Grande estava, em seu interior, totalmente iluminada, ao contrário dos jardins, que contavam com apenas algumas luminárias entre as plantas.
─ Alguma coisa de errado? ─ Perguntei ao finalmente me aproximar do centauro.
Quíron tinha uma expressão confusa no rosto. Não parecia muito animado para contar o que precisava.
─ Bem, Lola, não é nada grave. Hoje, enquanto estava na praia... Sua avó ligou.
Ele cuspiu as palavras rapidamente, como se cada vez ficasse mais aliviado por despejar o aviso.
E ele tinha razão. Quíron era uma das únicas pessoas que sabia sobre a minha avó e como ela era um assunto pesado. Era uma mortal, mas uma das mais complicadas. Cada vez que você a via, parecia ser apresentada à outra pessoa, uma totalmente diferente da última versão conhecida.
Adotei uma postura rígida, ciente que estava em um campo minado e de como só uma citação sobre minha avó poderia me deixar incomodada. Ergui os ombros e transformei meu tom para um com mais confiança.
─ Hm... Está tudo bem com ela? Qual o motivo da ligação?
─ Bem, sim, está tudo bem com a sra. Sparrow.
─ E então...? ─
─ Ela quer que você vá visitá-la. ─
Quíron deve ter percebido que era aquilo o que eu mais temia.
Antes de voltar aos dias atuais, permitam que me apresente a vocês e, como um extra, conte alguns outros detalhes.
Meu nome é Lola Sparrow. Tenho dezessete anos e mais ou menos dois anos atrás fui reclamada como filha de Afrodite. Desde então, tenho passado todo o meu tempo no acampamento, não só os verões.
Deveria começar por... Ser uma filha de Afrodite? Sim, ok, é um bom tópico. Os outros campistas costumavam desacreditar no nosso potencial. Até que Piper McLean chegou ao acampamento. Nós assistimos à evolução da garota ao mesmo tempo em que assistíamos a nossa. Depois que a cherokee se tornou uma arma, ela passou a nos treinar. E eu fui seu primeiro projeto.
Minha arma favorita? Chicotes. Não são bem comuns por aqui, por isso encontrei várias opções quando entrei pela primeira vez no empório do acampamento. Logo me afeiçoei a dois longos e pretos, básicos, mas poderosos. Perfeitos. Modéstia a parte, gosto de acreditar que sou a melhor com esse tipo de arma desde muito tempo.
Como acontece com todos os outros, minha chegada não foi muito simpática. Duas harpias me perseguiram durante toda a jornada até que, usando apenas palavras, fiz uma se virar contra a outra ainda na base da colina meio-sangue. E isso explica o porquê de ter sido chamada para o chalé de Afrodite com tanta rapidez.
Meu sangue natural é alemão. Ainda tenho meus dois pais, vivendo em um dos cantos mais isolados da Alemanha, e a minha avó. Vocês com certeza saberão mais dela. Sou filha única, sem outros parentes mais próximos ou conhecidos: um dos motivos por ter optado viver no acampamento.
Vida amorosa? Hm... Um filho de Despina. Vou cuidar para que isso também seja um dos tópicos importantes por aqui. Talvez vocês não saibam quem Despina é. Mas irão.
Com a liderança de Piper no chalé, tomei o cargo de conselheira. Não sou fraca. Aprendi que não se deve subestimar uma deusa, muito menos os filhos de tal. Piper diz que eu poderia muito bem me encaixar no chalé de Ares. Eu digo que sou apenas uma Sparrow.
Quíron me permitiu escolher outros dois campistas para a visita. Eu não quis incomodar Piper e todo o seu projeto e treinamento, então optei por outros dois amigos: Tristan, um filho de Hipnos, e Rosetta, uma das crias de Deméter.
Nenhum de nós três conseguia abafar o calor. Depois de dois dias em uma viagem até a cidade natal de minha avó, a fadiga já estava dando suas caras. Vovó, por uma bênção, morava mais perto que meus pais. Phoenix, Arizona, Estados Unidos. Eu não considerava aquilo uma vantagem, pois era conhecida como a cidade mais quente dos EUA. E estávamos comprovando essa fama.
Deveríamos admitir que o caminho que estávamos tomando naquela segunda-feira não era um dos mais frescos. Os moradores locais o chamavam de “mercado do Saara”: um complexo de ruas estreitas que se cruzavam diversas vezes e ocupadas apenas por lojas. Era um mar comercial. As calçadas eram dominadas por diversos suportes para produtos e araras de roupas, e como em uma boa feira, você encontrava de tudo – tudo mesmo. Sobre nossas cabeças, vários fios cobriam a rua, cada qual com uma caixa de som pendurada exatamente para anunciar os produtos mais estranhos que poderíamos imaginar. Uma mistura de suor, tumulto, correria e meias colegiais por dois reais.
Um dia antes, quando finalmente chegamos ao Arizona, tratamos de nos adequar ao calor. Meus longos e ondulados cabelos loiros estavam bagunçados, presos em um rabo-de-cavalo. Nós três vestíamos a blusa do Acampamento Meio-Sangue e jeans, mas Rosetta e eu tínhamos transformado as calças em short com nossa faca. Tristan usara um pouco de seu dinheiro mortal para comprar uma bermuda: uma das peças que você com certeza encontraria aos quilos no Saara. O rapaz e eu tínhamos lotados nossa pele de protetor solar. O filho de Hipnos tinha a pele mais clara que a minha, ao contrário de Rosetta, que tinha a pele em um tom de bege e as madeixas escuras. Éramos um trio bem variado.
Por volta de uma hora depois de nossa chegada ao Saara, o caminho mais curto para a casa de vovó, já tínhamos uma preocupação. Rosetta foi a primeira a notar o excesso de bolhinhas de sabão flutuando em certa rua. Bastou alguns passos para avistarmos: deitado na sombra de uma das lojas e largado no meio da calçada, um grande leão de prata. Tinha a cabeça apoiada em suas patas e, mesmo naquela posição desleixada, parecia mais poderoso e de fato maior que todos nós. Apostei que era uma das estátuas durante a noite que decidiam passear durante o dia: já tínhamos avistado algumas como aquelas, mas algo me dizia que essa, em especial, não era tão pacífica. Seus olhos estavam fechados e a respiração lenta, mas cada vez que o animal expirava, bolhas de sabão fugiam das suas narinas. Nós tentamos sair discretamente, assumo, mas três semideuses cansados pareciam um prato cheio ─ e a situação não disfarçava muito o nosso cheiro.
E, desde então, estamos passando nossa manhã correndo pela multidão e nos escondendo em lojas. Pareceu funcionar nas primeiras vezes, então aderimos o truque: correr e se esconder. Não era muito difícil. No momento, aliás, estou cercada por araras de blusas de estampas com piadas atrasadas. Por entre as peças, consigo ver Rosetta abaixada sob suportes para capinhas de celular, oculta por vários clientes, e um pouco mais a frente está Tristan se misturando entre as plumas e decorações de uma loja de festas.
Me pergunto se já posso sair e estou colocando meu pé para frente quando ouço o rugido. É tarde demais. Percebo o erro que eu fiz quando os olhos de prata do animal me açoitam com um olhar pesado demais para sustentar: e eu preciso encarar de volta. Passo meu corpo por entre as camisas e caminho, confiante, para o centro da rua. Ela parece um pouco mais vazia agora. Bendita névoa.
Sinto que Rosetta e Tristan se juntam a mim. Estou agradecida e até mesmo segura, mas a minha mente não para de repetir: Você é uma Sparrow. Você é uma Sparrow. Lute como uma Sparrow.
O leão outra vez foca seus olhos em nós. Consigo ver, pela sombra, que Tristan já agarrou sua faca. Rosetta parece planejar algo com seus poderes. O animal com certeza consegue sentir a ameaça, e, por isso, abre a boca em um rugido. A baforada nos atinge em cheio, balançando nossos cabelso e roupas, e o barulho ocasionado consegue calar até mesmo as caixas de som sobre nós. Seria trágico demais se milhares de bolhas de sabão não tivessem escapados de sua garganta.
Mas, mesmo assim, vejo que ele é perigoso.
Ele já conhece nosso truque. Não vai deixar que aconteça de novo.
E está prestes a atacar.
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