Notas iniciais

Espero que gostem! E deixe seu comentário para ajudar :D

Esta história também é postada no wattpad.
Escrito em co-autoria entre dois amigos.

Lembre-se garoto, ao passar por esta porta... estará morto.

Terá de negar seu nome, sua cidade e sua família em nome de um bem maior

em nome de toda A Ordem e de seus irmãos que nela residem...

Está pronto?

A voz rouca e envelhecida para e só resta o silêncio. Mantenho os olhos fechados por de trás das vendas e tento focar nos sons do ambiente, estive completamente desnorteado desde que tirara o saco da cabeça. Respirações pesadas e abafadas por trás de mantos, o som de tochas crepitando e o eco que seguia a voz já denuncia onde estamos, sinto a umidade contra minha pele e um leve gotejar. A caverna deveria ser imensa e ter algum tipo de saída próxima, mesmo com cerca de cem homens lá dentro o ar ainda não se tornara parado e escasso. Os homens começam a se mover e parecem formar uma espécie de corredor com grupos alinhados de cada lado das paredes, sinto e escuto o fogo a minha direita e esquerda, começo a focar ainda mais em meus sentidos tentando me localizar e só então percebo que estou completamente nu. Logo entendo o que queriam que fizesse.

Dou o primeiro passo, noto movimentos a direita e esquerda e começo a limpar minha mente focando no vazio dos meus olhos cerrados por trás das vendas. Respiro fundo e acelero o passo ao ritmo que os chicotes vão cortando a pele, certa vez me disseram que um homem dificilmente aguenta mais de trinta chibatadas mas em nove passos já ultrapassei esse numero. Em sete anos de treinamento aprendi a controlar a dor, aceitá-la e usá-la ao meu favor... geralmente para canalizar a raiva e suportar mais dor ainda ou lutar com mais ferocidade. O que eu garanto, as vezes não é assim tão divertido. As primeiras chibatadas como sempre são as piores, queimam, elas vêm uma da esquerda e outra a direita, o braço volta e pega mais impulso e o couro volta a estalar com mais força, cada homem me acerta três vezes.

Quando percebo já estava em algum lugar maior, deixo de sentir o teto baixo quando pareço entrar em uma espécie de cúpula com o chão úmido, e não era do meu sangue, escuto os sons de uma pequena corrente de água passando pela caverna. A voz rouca volta a se dirigir a mim.

—Aqui você será marcado como um de nós e recebera seu nome... Retire a venda.

A figura passa atrás de mim e me rodeia e então se dirige até o meio do regato, a água era quente e parecia ondular conforme o homem andava chapinhando os pés. Ele para por alguns instantes num altar e com cuidado leva até mim duas pedras, ambas brilhando com um vermelho incandescente.

Me ajoelho e estendo minhas mãos e o velho põe com cuidado as pedras nelas e as fecha, sinto a carne queimar e a fumaça sair de minhas mãos, meu corpo estremece e contenho uma careta de dor enquanto sinto a pele sendo marcada até ter permissão para soltar as pedras, que caem na água. Olho com curiosidade para minhas mãos e encaro as runas vermelhas, um círculo conectado a um losango e três círculos finos envolvendo o maior, por algum tempo até erguer os olhos para o companheiro a minha frente.

—Parabéns, Erethon. Você é oficialmente um membro d'A Ordem, erga-se como um de nós e sirva bem.

O caminho até a base da montanha é longo e cheio de perigos; pedras escorregadias, trilhas sinuosas e estreitas, penhascos. Levamos quase oito horas para concluir a descida, feita em sua maioria a pé saindo do meio de Yiethgnar, a maior montanha da cordilheira, com destino a Svellburg a maior cidade do sul. Acompanhando-me para o sul estão Gilean e minha prima, Brynna, além de nossos fenrirs, lobos maiores e mais ferozes que os que vivem na maior parte das florestas, que nos acompanham há anos. Assim como eu Gilean e Brynna receberam novos nomes ao se tornarem membros efetivos da Ordem, agora são conhecidas como Gracenys e Kyra respectivamente.

Chegando à base da montanha, abaixo o capuz e o excesso de pano destinado a proteger o nariz e a boca da nevasca, e observo a nova paisagem, árvores se erguem não muito longe margeando uma estrada que nos levará a cidade. A neve está começando a derreter com a mudança de estação o que torna o terreno lamacento e difícil de se locomover. Kyra toma a dianteira e nos conduz pela estrada, andamos cerca de uma hora até encontrarmos um local para descansar um pouco e fazer uma refeição simples, um odre com um vinho e uma trouxa contendo pão dormido, um pedaço de queijo e algumas fatias de bacon, não era um banquete, mas o bastante para nos alimentar até que chegássemos a Svellburg.

Até a cidade gastamos mais quatro horas, montados em nossos fenrirs, devido a péssima estrada. Havia anos desde a ultima vez que eu estivera ali, mas me lembro claramente da infância que vivi, agora estou de volta, os tempos são outros e eu também. Quando chegamos à entrada da cidade o ocaso já tomou o céu completamente, nossos lobos farejam o ar e assim que tiramos nossas bagagens de seus dorsos, disparam em direção à floresta atrás de nos, enquanto avançamos pelas vielas a procura de um lugar para um refeição quente. Acabamos entrando na taberna e hospedaria Cavalo Manco, uma antiga hospedaria que se localizava no limite da cidade, onde viajantes e alguns jovens param ao fim do dia para conseguir uma refeição quente, ou para se embebedar.

Entramos os três no estabelecimento e imediatamente as cabeças dos presentes se voltam na nossa direção, não poderia ser diferente, somos três recém-chegados utilizando estranhas roupas negras. Logo voltam para suas conversas e bebidas, lançando-nos olhares curiosos enquanto nos dirigimos a uma mesa afastada no canto da taberna, quando estamos no meio do caminho o taberneiro termina de secar o copo em sua mão e vem nos recepcionar. Não reconheço o homem, nem mesmo o lugar, provavelmente havia sido construído logo que deixei a cidade e desde então não passou por reformas.

—Sejam bem vindos — ele faz uma pausa enquanto nos observa- cavalheiro e damas! Imagino que precisem de comida e cama, aqui no Cavalo Manco posso conseguir tudo isso... Mas por um bom dinheiro é claro.

O homem gordo abre um largo sorriso, olho ao redor enquanto minhas companheiras negociam as acomodações e tento reconhecer alguém de minha antiga vida, vejo uma garota de costas para mim servindo algumas mesas e uma velha corcunda mexendo um ensopado na lareira. Tento sondar o que havia no interior do caldeirão e vejo alguns legumes boiando entre as erupções borbulhantes, daquilo que parecia água suja... Me pergunto que tipo de louco comeria aquela mistura escura e pastosa, e então ouço meu estômago roncar.

—Muito bem então- diz o homem gordo ao receber cinco dracmas de ferro de Kyra- Vou pedir que lhes sirvam, mas primeiro vou conduzi-los ao quarto.

A maior parte do quarto é ocupada por uma grande cama capaz de acomodar cinco homens adultos, assim deve nos servir perfeitamente. Deixamos nossa bagagem num canto, entre elas estão nossas espadas. Contudo ainda portamos nossas adagas presas à cintura quando voltamos para o andar debaixo.

No salão da taberna nos acomodamos na mesa que havíamos escolhido antes de sermos interrompidos pelo dono da hospedaria, não demora até que a garçonete venha a nós e então serve uma tigela de sopa e caneca de cerveja, a garota parece me encarar por um momento, mas logo volta ao seu trabalho. Eu a reconheço de minha infância, seu nome é Beatrice, costumávamos brincar na rua com outros amigos, mas aquele garoto era Arthem, não Erethon. Por um instante me perco em minhas memórias, balanço a cabeça para desanuviá-la e me volto para minhas companheiras e digo num sussurro — Quando é o evento que devemos nos infiltrar, Kyra?

Kyra bebe um demorado gole da bebida antes de me encarar com seus olhos púrpura e então me responder.

— Amanhã à noite, Erethon, mas não vamos discutir isto aqui. — ela diz maneando a cabeça para alguns mexeriqueiros às minhas costas que tentavam ouvir o que dizíamos.

Me viro para observa-los e noto que eles me parecem familiares, tento me lembrar onde eu os teria visto, porém não consigo associá-los a ninguém.

Passamos um bom tempo falando de frivolidades enquanto nos aquecíamos com a comida, o caldo podia não parecer, mas era muito apetitoso, durante esse tempo reparei que, um dos homens a quem Kyra havia se referido, não desgrudava os olhos de nossa mesa, isso não costuma ser um bom sinal. Nossos olhares se encontram e vejo-o se levantar e vir até nós. Percebo que os ombros de minha prima estão tensos, sua adaga já está desembainhada e pronta sob o tampo da mesa enquanto finge estar falando algo importante conosco.

O homem então para ao meu lado e por um momento observa Kyra e Grace em silencio. Eu o reconheço. É um dos amigos de meu pai, viro meu rosto instintivamente para que ele não me reconheça.

— Não pude deixar de notar que vocês são novos por aqui. Será que eu posso pagar a próxima rodada?- O tom da voz dele parece amigável, mas sei quais são suas intenções. Descobrir quem somos e o que fazíamos ali, algo que deve permanecer em sigilo.

Lanço um rápido olhar para minhas companheiras de que resolveria a situação e respondo o homem logo em seguida.

— Queira nos desculpar meu senhor, mas eu e minhas irmãs tivemos um longo dia de viagem vindo do leste e estamos deveras cansados, terminaremos nossa refeição e vamos nos recolher- digo com a voz carregada de uma falsa exaustão de um longo dia de viagem.

— Você me parece familiar meu jovem, já nos encontramos antes? — ele pergunta depois de me analisar por breves instantes.

—Receio que não senhor, a menos que tenha visitado as vilas perto da zona fluvial a algumas centenas de quilômetros — volto minha atenção para minhas irmãs de ordem e então prossigo. — Vamos irmãs, temos um longo dia amanhã.

Dizendo isso nos levantamos da mesa deixando o homem para trás enquanto nos encaminhamos para a escada que levaria aos aposentos que alugamos, sinto o homem nos encarar, mas ninguém se vira para olhá-lo. Agora que estamos a sós, a tensão que existia em sermos descobertos desapareceu, e podemos discutir o nosso próximo passo. Kyra acende uma lamparina e a coloca sobre a cômoda do quarto e observa a cidade pela janela, Gracenys e eu nos sentamos na extremidade da cama e observamos minha prima com atenção.

— Como já sabem viemos aqui com um propósito, perdoem-me por deixá-los no escuro quanto ao que viemos fazer, mas quanto menos soubessem melhor seria.- Kyra começa ainda olhando pela janela — Recebemos informação de que o Burgomestre seria atacado durante um jantar realizado para comemorar o aniversário de sua filha mais nova.

Ela faz uma pausa e se vira para nos encarar com seus olhos agora com um tom escuro de púrpura, ela respira fundo e prossegue.

— Nosso objetivo é proteger o burgomestre e sua família, precisamos nos entrar no jantar e ficar de olho em qualquer coisa suspeita. O grão mestre disse que poderíamos pedir ajuda a um velho conhecido, que mora numa casa perto do mercado. Amanhã assim que acordarmos iremos a procura deste homem. Algo que não entenderam?

Balançamos a cabeça negativamente. Satisfeita com o gesto Kyra despe suas roupas de viagem e se prepara para dormir, Grace e eu seguimos o exemplo e usando nossa roupa de dormir deitamos na enorme cama do quarto de forma confortável.

Gostaria de dizer que foi uma noite tranquila, mas eu estaria mentindo. Fui atormentado por pesadelos, dos quais não consigo me lembrar ao acordar, felizmente minhas companheiras não pareceram notar minha inquietude durante a noite e se notaram, não demonstraram isso. No dia seguinte tomamos o desjejum cedo e deixamos a hospedaria, afinal de contas tínhamos trabalho para fazer.

Conduzo minhas amigas até o mercado uma espécie de praça cheia de pequenas tendas, localizada no centro da cidade. Durante o caminho sou tomado por diversas memórias que já não pertencem a mim, elas pertenciam a quem eu já fui um dia, quando dou por mim estamos em meio a multidão que faz suas compras pela manhã. Parecemos um tanto deslocados em relação as pessoas que passam por nós, usando trajes pretos reforçados com couro fervido e capuzes, enquanto os demais estavam trajados com roupas mais casuais de donas de casa e trabalhadores.

Ficamos parados ali por algum tempo a procura de algo que nos leve ao homem que nos ajudaria a entrar na festa do burgomestre. Decorrido alguns minutos começamos a caminhar pelo mercado olhando vez ou outra algumas mercadorias nas tendas, quando paramos numa vendinha de frutas um homem de meia idade, de cabelos negros e olhos acinzentados, se aproxima e pega uma tangerina de inverno. Ele observa a fruta por alguns instantes.

— O sangue faz um parente. Mas só a lealdade faz a família. — Diz o homem enquanto me entrega a fruta e deixa alguns dracmas de ferro para a dona da venda e se vai.

Me volto para as garotas e percebo que minha prima se surpreendeu com aqueles dizeres.

—Kyra, você está...

— Precisamos ir atrás daquele homem. Agora.- Ela me interrompe e sai às pressas, comigo e Grace em seus calcanhares.

Troco um olhar com Gracenys à procura de uma explicação para aquilo, mas ela parece estar tão confusa quanto eu. Atravessamos a multidão de pessoas fazendo suas compras logo atrás do homem, quando finalmente o alcançamos havíamos deixado o mercado para trás. Ele anda calmamente pela rua sem se importar conosco.

— Não vai comer a tangerina, garoto?

Quando ele diz isso noto que ainda estou com a fruta em uma das mãos, então começo a descascar e dividi-la para quatro, ainda sem entender o que estava de fato acontecendo .

Percorremos uma grande distância pelas ruas de Svell até que paramos em frente a uma grande casa de estilo colonial feita de pedras cinzentas com estátuas de lobos de ambos os lados da porta, como se estivessem de guarda . O homem faz sinal para que fossemos os primeiros a entrar ali, minhas companheiras logo atendem o pedido, mas eu estou hesitante.

Veja bem, o homem não parecia ser uma ameaça poderíamos sozinhos lidar com ele, mas havia algo de estranho naquilo tudo. Segui as garotas para o interior da casa com o homem logo atrás de mim. A casa... bem, ela era enorme e magnífica. O chão era de uma madeira escura que contrastava com as paredes cinzas onde haviam diversos quadros, alguns de família outros retratavam cenas de matilhas, os móveis feitos de carvalho com um bom acabamento. Adquiro uma postura respeitosa depois de observar o meu entorno, aquele homem era alguém importante e portanto havia certas precauções a serem tomadas em sua presença, uma vez que pessoas da aristocracia costumam se ofender facilmente. Ele indica um par de bancos acolchoados separados por uma mesinha de mogno, e nos sentamos de frente para ele.

Ele passa algum tempo nos observando meticulosamente, como se estivesse avaliando a melhor forma de nos incapacitar, então o homem de meia idade quebra o silêncio.

— Suponho que tenhamos assuntos a tratar, mas primeiro uma bebida.- ele bate palmas e um par de criadas surge e deposita uma bandeja com quatro taças e um jarro de vinho tinto na mesinha entre nós.

— Desculpe-me a impertinência, senhor, mas poderia nos agraciar com seu nome? — digo da forma mais formal que encontro.

— Quanta indelicadeza de minha parte — ele diz enquanto enche as taças. — Meu nome é Merrick Urthadar, e é um prazer finalmente conhecê-los, ouvi muitos elogios a respeito de vocês três.

Grace tira os cabelos loiros da frente dos olhos verdes e se dirigi a Merrick.

— Você sabe quem somos, então conhece o motivo que nos trouxe a Svellburg. Presumo que você seja aquele que o Grão Mestre falou para Kyra...

Merrick sorri fazendo com que as rugas de seus olhos se contraiam, assente com a cabeça e toma um longo gole do vinho.

— Estou ciente de tudo- diz o homem- e irei ajudá-los a entrar na festa do burgomestre, mas vocês precisam estar preparados.

Ele nos oferece uma deliciosa refeição, um leitão temperado com ervas e mel acompanhado por uma cerveja encorpada, em seguida começa a nos preparar para a missão. Merrick providencia-nos banho e roupas adequadas para a festa, nos dá informações sobre os assuntos da nobreza e por fim nos leva a um arsenal, escondido atrás de sua adega, para que nenhum empregado curioso tome conhecimento, e nos equipa com algumas de suas armas.

No cômodo há diversas armaduras e armas. Espadas de variados tamanhos de um lado, machados de duas mãos e lanças de outro, armaduras de todo tipo de peso estavam em manequins, apesar disso fomos conduzidos a uma outra sala onde encontramos o que iríamos precisar. Os objetos diante de nós eram elegantes, veja bem, a maioria dos ferreiros criam armas pensando apenas em sua finalidade e portanto são trabalhos grosseiros e mal acabados, porém os melhores artífices embelezavam aqueles instrumentos letais tornando-os elegantes. E o que Merrick nos apresentava era uma obra prima. Ele entrega um punhal para cada das garotas, com uma guarda adornada e um cabo de madeira entalhada, também entrega chicotes. O de Kyra possuía uma lâmina em sua extremidade enquanto o de Grace uma pequena estrela da manhã.

— Sugiro que coloquem nos cabelos os punhais, foram feitos para parecerem adornos, tomem cuidado quando colocarem. Já esses "chicotes", seus vestidos possuem um bolso revestido de couro, guardem-nos lá.- ele se vira para mim e em seguida olha ao redor a procura de algo.

Ele anda pela sala e pega ao que parece um par de luvas e as joga pra mim. quando eu pego as luvas sei que elas não são simples luvas. Parecem simples luvas de couro, mas eram mais pesadas do que o normal. Girei elas em minhas mãos e notei algo próximo de onde ficaria o antebraço, parecia a empunhadura de uma espada ou adaga, era a cabeça de um lobo e tinha a runa que é queimada em nossas mãos .

— Acho que você já entendeu como funcionam, certo?- ele diz com um leve e travesso sorriso se formando em seu rosto. — São presentes de um velho, usem bem.

A noite não tarda a chegar e as carruagens que nos levarão até a festa já se encontram a nossa espera. Cada um de nós sairá em um horário distinto para não levantar suspeitas.

A mansão vista por fora parecia imensa, sacadas se sobressaindo pelas janelas com arcos de mais de dois metros e sendo sustentadas por grandiosas e rebuscadas colunas de pedra pintadas de branco, estas agora enroladas com uma fina seda vermelha que sobrecaia enfeitando os pilares dando contraste ao branco polido da mansão.

Faço uma rápida revisão do plano enquanto minha carruagem dá a volta no pátio florido e torço para não encontrar com nenhum conhecido de minha velha vida, com um suspiro e um balanço de cabeça desabafo comigo mesmo, aquilo seria quase impossível, metade dos conhecidos de minha família se davam por motivos políticos, portanto bastaria apenas as minhas habilidades para fingir ser um nobre vindo do oeste a procura de uma noiva sulista. Com um rápido olhar para o céu logo encontro a Lua, pela posição dela minhas companheiras já estariam infiltradas na festa há mais de quinze minutos, tempo suficiente para que Grace roubasse uma lista de convidados de algum arauto e Kyra fizesse a varredura do lugar a procura de alguém suspeito, minha missão seria ficar nos calcanhares do burgomestre e, a custo de minha própria vida, protegê-lo.

A porta da carruagem se abre e um cavalariço muito bem vestido com uma boina vermelha caída para a esquerda e uma pena branca sobressaindo do lado direito, um casaco de seda vermelha, com botões tão brancos quanto a pena, sobre a camisa preta davam-lhe um ar pomposo de elegância. Algo me chamou atenção em seu rosto, era um curto e escuro bigode sobre o lábio superior. Com um salto rápido e um pequeno esvoaçar de meu casaco preto, deixo a carruagem a passos largos e peito estufado, típico de um membro da Corte do Oeste. Atravesso a grandiosa entrada da mansão, uma porta dupla de carvalho com mais de três metros e toda entalhada com desenhos rústicos, ao adentrar no bem iluminado salão principal encontro uma pequena multidão de duzentas pessoas, uma minúscula parcela da nobreza da região.

Aparentemente não vai ser tão difícil encontrar um assassino por aqui. Penso enquanto ando por entre casais que dançavam ao som de um violino acompanhado da doce voz de uma garota, é quando uma voz a minha direita parece se dirigir a mim.

—Ei! Você aí! Acho que já te vi em algum lugar!

Pela maneira de falar percebo que o sujeito está claramente embriagado e pelo sotaque noto que se trata de alguém da Capital, Vindrburg.

—Creio que não senhor- Digo enquanto giro em meus calcanhares na direção da voz e vejo que se trata de um garoto, provavelmente não mais velho do que eu. — A não ser que tenha visitado a região dos Pilares de Aço além oeste daqui.

—Nah, nunca ouvi falar — O garoto faz uma mesura um pouco atrapalhada e se volta para mim. — Já esteve na capital? Cidade grande, ótimas mulheres, melhor arquitetura do continente, ótimas mulheres, melhores tabernas, ótimas mulheres, a música... mulheres... se não conhece, deveria. Mas preciso dizer que Svellburg me surpreendeu.

Ao dizer isso os olhos do garoto seguem os movimentos do vestido de Gracenys, ela me lança um olhar irritado e me chama com um aceno de cabeça, deixo o garoto para trás e sigo-a, notando de pronto a lista de convidados oculta por trás da pequena bolsa de mão que ela trazia consigo.

—Alguém suspeito? — Digo ao me aproximar.

— Com certeza, lembra-se de Vergil Dovahküll, o nosso velho irmão de ordem? Parece que ele está na lista de honra.

—Ele o que...?!?

Antes que pudesse continuar com a conversa o burgomestre surge da sacada do segundo andar que era ligada duas escadas vindas cada uma de um lado do salão, Grace e eu trocamos olhares rapidamente e cada um de nós segue para uma escada. Vasculho a multidão a procura de qualquer coisas suspeita, pois agora seria o momento perfeito para matar o Burgomestre enquanto fazia um discurso de agradecimento e ficava a vista de qualquer um. O discurso dele agradecia a presença de todos os presentes e as pessoas de Svellburg que possibilitaram que ele fizesse as mudanças necessárias.

Ele termina o discurso sem incidentes, e então desce as escadas para socializar com seus convidados. Olho ao redor a procura de Vergil, mas nenhum sinal dele, vou até onde minha prima está e digo.

—Já sabe quem é o nosso suspeito certo? — Digo parecendo que estamos tendo uma conversa divertida.

—Sim, não vi nenhum sinal dele ainda. Deixe isso comigo e com a Grace, fique olho no Burgomestre, se possível converse com ele ficaria mais fácil de protegê-lo.

Um jovem se aproxima de nós com a intenção de cortejar minha prima. Faço uma mesura para ela e me retiro deixando-a na companhia do rapaz. Procuro pelo enorme salão o Burgomestre, não é um homem difícil de se achar, graças a seu porte e sua barba grisalha. O encontro conversando num grupo de pessoas da nobreza local. Me sirvo com uma taça de vinho e me dirijo ao anfitrião, andando com a postura de um nobre vindo dos Pilares de Aço. Alguns nobres notam minha chegada ao grupo, mas a maioria continua com suas fofocas. O líder de Svellburg, Bartolomeu Arken, é um dos que notam minha chegada e a usa como uma deixa para se livrar daquele bando de hienas.

— Olá meu jovem, estava mesmo querendo falar com você. Queiram por favor me dar licença senhoras e senhores. — diz o homem enquanto me indica um caminho em direção a mesa com as comidas. — Não sei quem é você meu jovem, mas obrigado por me tirar dali, não suporto ficar ouvindo mexericos.

— É um prazer conhecê-lo senhor, pode me chamar de Erethon. — digo ao homem, já que não consegui pensar em um nome falso.- Venho do oeste, representando meu pai.

De perto posso ver melhor o homem de que meu pai havia falado tanto em minha infância. Era um homem de meia idade alto e corpulento, com uma espessa barba grisalha e olhos azulados. Estava trajado com um gibão fino e bem trabalhado de um tom de verde escuro com fios de ouro. Andava de modo orgulhoso, quem visse até pensaria que aquele homem havia sido criado em meio a toda aquela riqueza, mas quem pensasse isso estaria enganado. Bartolomeu alcançou seu posto através do fruto de seu trabalho

— Suponho que seja filho de Lorde Ulthadar. Venha, me acompanhe numa bebida. -

Assinto com a cabeça. Para falar a verdade não tenho ideia de quem seja este lorde de quem Bartolomeu falou. Ele me conduz até a grande mesa e pega uma grande caneca e cerveja para si e me entrega outra, e fazemos um brinde.

— Eu gostaria de debater com você algumas ideias que tivemos para a região perto das terras de seu pai.

— Meu pai adora ideias para melhorar as condições de seu povo. — digo tentando demonstrar interesse.

Por algum tempo ouço o que o homem tem a dizer fingindo demonstrar algum interesse, e conversando sobre como uma parceria entre o sul e o oeste poderia ser algo benéfico. Enquanto Bartolomeu fala continuo atento às pessoas ao redor, o aristocrata percebe que não entendo muito dos seus planos quando os músicos começam a tocar uma famosa balada.

— Quanta indelicadeza a minha, estamos numa festa e aqui estou falando de trabalho, enviarei uma carta a seu pai sobre isso. Agora, venha vou lhe apresentar minha filha, Katherine.

Não havia como recusar ao pedido dele, minha missão é ficar olho em Arken e sua família e protegê-los, e caso algo aconteça a um dele por consequência de uma falha minha eu jamais poderei me perdoar. Esse pensamento quase desaparece, quase, quando ele me introduz a garota. Ela tem olhos azuis como o pai, porém de um tom elétrico, seus longos cabelos castanhos em duas tranças que se uniam próximo da nuca e desciam até a metade das costas usava um vestido da cor creme com ligeiros detalhes em azul e dourado, em seu pescoço havia um colar de topázio azul, resumindo, ela é linda.

—Minha filha, quero que conheça Erethon herdeiro de um lorde do oeste.

—É um prazer conhecê-la senhorita.- digo enquanto beijo de leve uma de suas mãos. — Me concederia a honra de uma dança?

Com um breve aceno de cabeça ela aceita, e então a conduzo a pista de dança. É uma dança conhecida pelo povo de Svell, não existe um cidadão que não a saiba. Por alguns instantes ficamos apenas dançando sem ter o que falar, até que ela começa a perguntar sobre minha vida.

— Então, você é mesmo da porção oeste de Astéria?

— Sim, as terras de meu pai ficam a três dias inteiros indo de carruagem.

—Imagino que seja uma viagem cansativa.Diga-me, como anda as estradas? Pretendo viajar para visitar uma amiga em Havntør.

Um momento de silêncio paira entre nós, olho a procura do pai dela me asseguro de que está tudo bem. Em seguida respondo.

— As estradas para Havntør, não são boas nesta época, muita chuva na região da cidade portuária. Sugiro que adiei sua viagem por algumas semanas, senhorita.

Neste momento a música cessa, me afasto dela e beijo novamente sua mão. Ela me dá um leve sorriso em retribuição, seus cabelos cobrem parte de seu rosto emoldurando o mesmo.

—Obrigado pela dança, senhorita. — dizendo isso me retiro, perdi muito tempo com isto.

A noite está quase no fim, não houve nenhum incidente que ameaçasse a vida da família Arken. Estive atento a todos os presentes; notei nobres que passaram da conta na bebida; olhares de diversas mulheres pra mim, a filha do burgomestre estava entre elas; olhares de superioridade. Basicamente coisas que se vê em qualquer festa, porém, nenhum sinal de algum assassino ou de Vergil. Estava tudo normal, empregados tiravam os pratos e arrumavam o ambiente, cocheiros ajudavam seus patrões bêbados a chegar às carruagens, contudo o ambiente ainda estava cheio.

Kyra andava pelo salão, bebendo e flertando com diversos rapazes, mas seus olhos eram como os de uma águia, percorriam todo o salão sem deixar passar nada. Já Grace se encontrava próxima as janelas e portas, atenta ao perímetro, parecia um tanto nervosa levando as mãos ao pescoço na direção da lâmina escondida.

Estou conversando próximo a Bartolomeu, que nunca fica fora do meu campo de visão, mas não vejo nada suspeito até ouvir Kyra gritar.

—ERETHON!

Foi então que notei o homem com bigode que abriu a porta de minha carruagem se aproximando do burgomestre com algo na mão. Levo a mão direita ao antebraço esquerdo, onde a adaga está escondida dentro da manopla de couro. Com a arma em mãos avanço o mais rápido que posso para me colocar entre o assassino e sua vítima. Quando os alcanço o assassino está prestes a apunhalar o homem que governa Svellburg há anos, e entro na frente, levando uma facada na clavícula, o homem surpreso em me ver larga a arma em meu corpo.Retiro a adaga e a prendo a cintura em seguida entro num corpo a corpo com o homem de bigode, ele não é um simples assassino, ele possui treinamento.

Depois de trocar alguns socos e chutes, consigo derrubá-lo, contudo ele logo se levanta e vendo que não teria como terminar o serviço, o homem dispara na direção de uma sacada, Grace tenta impedi-lo, mas ele escapa do local. Olho na direção de minhas companheiras e em seus olhos vejo uma mensagem implícita. Vá buscá-lo.

Não preciso dizer que saio no encalço dele no mesmo instante. Quando salto pela sacada, posso vê-lo no limite da propriedade indo em direção a cidade, talvez ele ache que consegue me despistar. Aumento a velocidade dos meus passos e estou a cerca de dez metros quando ele entra numa praça com alguns caixotes que ele derruba, tentando me atrasar salto sobre os caixotes com facilidade, e sigo ele por algumas vielas estreitas. Cães começam a latir com o barulho que fazemos em nossa perseguição, percebo que ele está ganhando vantagem então escalo a parede de uma estrebaria e continuo a persegui-lo a partir dos telhados, a Lua brilha no céu projetando minha sombra no beco abaixo. Gotas de suor gelado descem pelo meu rosto até chegar ao pescoço, posso ouvir o sangue pulsando em meus ouvidos. Meu único objetivo é capturar aquele homem, e neste momento meu cérebro apenas pensa em: Correr, inspirar, expirar, saltar.

Percebo que o meu alvo está se cansando, ele leva a mão a um dos bolsos e pega algo que não consigo enxergar. Agora é o melhor momento para confrontá-lo. Salto do telhado de uma taberna, rolo ao chegar ao chão para reduzir o impacto da queda, o homem ainda corre a uns cinco metros a minha frente, pego a adaga que Merrick deu a mim e a seguro com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos e então arremesso nas costas do meu alvo. O falso cavalariço cai e o vejo levar o que tinha em mãos a boca, era um pequeno frasco, percebo o que ele havia feito e o alcanço o mais rápido que posso, retiro a adaga de suas costas e o viro com a barriga para cima, ele mal consegue respirar, provavelmente acertei seu pulmão com a faca.

— Por que você tentou matar o burgomestre?- preciso interrogá-lo o quanto antes.

—Ele... ele tem a chave. — o homem balbucia.

—Chave? Chave para o quê?

— A Lua...

Ele certamente está delirando depois de beber o que estava no frasco.

—Quem enviou você? Quem é você? — pergunto nervoso por não receber nenhuma resposta útil.

—Ss... Som... Sombras.

Neste momento ele começa a se contorcer e a boca a espumar. Pego o pequeno frasco e levo ao nariz, não posso identificar a substância, mas sei que é veneno. O corpo do homem está inerte, revisto a procura de alguma pista, nos bolsos há alguns papéis, eu os guardo e continuo a procurar evidências. O homem possui algumas tatuagens, um dragão cuspindo fogo e sombras espreitando por detrás.

Deve haver alguma ligação— penso.

Decido que é hora de voltar e compartilhar essas descobertas com Kyra e Grace. No caminho furto um cavalo no quintal de alguém, e mesmo assim quando chego ao palácio é possível ver os primeiros traços da aurora no horizonte.

Tudo parece estar calmo, o assassino suicidou, o burgomestre está seguro.

Entro no salão e para minha surpresa ele está todo revirado, cadeiras quebradas, restos de comida espalhados pelo chão, alguns convidados ainda estão ali presentes a maioria em estado de choque. Olho ao redor com mais atenção... e então vejo duas mulheres debruçadas sobre um corpo ensanguentado, volto ao estado de alerta, procuro desesperadamente por minhas amigas, neste momento isso é tudo o que me importa. Encontro Kyra com seus olhos num tom púrpura devido as lágrimas que escorrem por seu rosto o vestido está aos farrapos, em seu colo repousa a cabeça de Grace que está desacordada.

—O que... Quem fez isto, Kyra?

Ela levanta seus olhos para mim, seu rosto apresenta uma expressão desoladora, sinto o impulso de abraçá-la, pois neste momento não é Kyra, minha irmã de ordem que está diante de mim, é Brynna, minha pequena e doce prima, que sempre demonstrou ser a mais forte entre nós. Ela soluça ao tentar me explicar.

—Ha... havia um segundo as... assassino entre os convidados.- ela cobre o rosto com as mãos e passa a soluçar mais. Espero até que ela se acalme e termine de me contar. — Ele matou diversos guardas que se interpuseram, tentamos impedir, mas... ele era muito habilidoso, Gilean e ele lutaram por algum tempo mas conseguiu derrubá-la na queda ela bateu com a cabeça... e no fim não consegui evitar que assassinasse o burgomestre.

—Não foi sua culpa, era meu dever protegê-lo e eu falhei.

Olho para novamente para o corpo e as pessoas debruçadas e percebo quem são, a família Arken. Penso em prestar minhas condolências, mas esse não é o melhor momento, estamos entrando numa crise. Ainda olhando para elas noto alguém oculto pelas sombras, mesmo após tantos anos posso reconhecê-lo. Ele está um pouco diferente, a cor de seus cabelos se esvaíram, a cor de seus olhos lembram carvão em brasa, mas é ele tenho certeza.

Toda a raiva que eu estava sentindo naquele momento toma conta de mim, avanço a passos largos até o local onde ele estava, mas não há nada além de sombras.

—Como é possível... Podia jurar que ele estava aqui- penso.

Volto meu olhar para Katherine e sua mãe debruçadas sobre o corpo inerte de Bartolomeu. Não há nada que eu possa fazer por elas, não depois de fracassar em minha missão.

A luz da alvorada invade o salão tornando tudo tão claro e brilhante, como se estivessem debochando de nós... Retorno até onde Kyra se encontra e digo baixinho:

— Temos que ir, não podemos fazer nada para ajudar essas pessoas.

Dizendo isso pego o corpo de Grace e caminho até a carruagem com Kyra visivelmente abalada a meu lado. Andamos devagar até o cocheiro que me trouxe aqui, ele não faz perguntas e após nos acomodarmos saímos do mansão do Burgomestre. No silêncio da alvorada tenho um pressentimento; Tempos sombrios estão se aproximando.