O Último Grande Roubo
2 1 - O que esta por vir
Kyle enchia o balde no riacho, a água fria correndo na altura de suas canelas.
O sol já tinha se erguido do horizonte, e assim o bosque que antes parecia tão sombrio para ele durante a noite agora se mostrava um lugar bonito, quando as únicas sombras eram as que vinham das copas das árvores. Carregando o balde com as suas duas mãos, ele sai de dentro do curso d'água, pisando com cuidado nas pedras da margem com os seus pes descancos ate chegar aos quatro cavalos amarrados em um tronco.
Não muito longe dali estava a carruagem parada na estrada e ainda que não a tivesse visto desde que pararam, Arya também estava por perto, possivelmente preocupada em não se afastar muito de seus pertences, ainda que a quantidade de folhas sobre o caminho denunciasse que a estrada era pouquíssimo utilizada.
Nao pela primeira vez, ele contemplou se as manias da elfa eram fruto de uma precaução fundamentada na experiência ou apenas de uma paranoia constante.
E a última vila que avistamos foi há dois dias atrás.
Kyle lembra-se que a parada foi feita apenas para que eles alimentam aos cavalos e garantissem suprimentos.
Desde então o ritmo da viagem estava errático: a carruagem não parava, sendo que os dois alternavam no posto de condutor, enquanto o outro dormia ou preparava alguma refeição. Essa, consistia em rações de viagem como as que os soldados utilizavam misturadas, inusitadamente, com alguma fruta desidratada. A mistura do primeiro com o segundo, do utilitário com a iguaria, era apenas mais uma excentricidade da elfa, cujas escolhas eram insondáveis para ele na maior parte do tempo.
"Bom garoto..." Ele murmurou, alisando a crina do cavalo, enquanto ele se ocupava em passar um pano umido para limpar o suor e a poeira que se acumularam sobre o couro do animal.
No entanto, sua mente está muito longe do que estava fazendo. Talvez por causa da exaustão de uma semana de viagem cruzando as grandes planícies, ou talvez por causa de puro escapismo, pela primeira vez desde que deixou a sua cidade natal de Rosenberg, Kyle se pergunta o que aconteceria com ele.
"E agora?"
A dúvida tomava forma nessa simples frase, que parecia ecoar várias vezes no vazio de respostas que encontrava. O que eu devo fazer agora? ele se perguntou, aflito. Semanas atrás, o plano era simples: fugir e sobreviver e, tendo conseguido isso com a ajuda de Arya, ele não sabia como deveria prosseguir. Fazer decisões era consideravelmente mais difícil quando não havia capangas atrás de suas cabeças. Pensar a longo prazo, mais ainda.
Uma coisa era certa, assim que eles chegassem em Ravena Arya iria imediatamente cuidar de seguir seus próprios planos, que não o incluíram. Apesar de suas promessas, e do título de aprendiz, era óbvio que Arya não tinha a menor intenção de ensiná-lo a lutar ou recompensá-lo de qualquer forma.
Ela parecia já ter algo em mente, o que poderia explicar a sua pressa. Se eu perguntasse o que, ela me diria...? Ele pensou, olhando na direção da estrada. Duvido... Ela raramente conversava. E mesmo se ela dissesse, de que me adiantaria?
Não é como se Kyle tivesse ilusões sobre o tipo de pessoa que ela era. Mas, infelizmente, ela era a única pessoa com que ele poderia contar no momento.
Que premissa animadora... Ele pensou sarcasticamente.
Mesmo se conhecendo, se é que seria adequado usar esse termo, há mais de um mes, ele nao sabia muito sobre a elfa além do óbvio. Ela parecia ressoar em uma outra frequência, seguindo os passos de uma música que ele não podia ouvir. Talvez não fosse necessariamente loucura — ele esperava que nao — mas a realidade aos olhos dela era certamente diferente do que a que ele via.
Era óbvio, também, que apesar do arco militar que ela sempre carregava, ela parecia mais ser de algum tipo mercenário ou ladino. Era difícil ter certeza, já que ele não sabia se alguém a contratou para alastrar o caos na sua cidade, talvez em uma vendetta contra o duque, ou se ela estava agindo por conta própria para roubar a fortuna dele. Ela certamente se importou muito em limpar tudo de valioso que ela encontrou no seu caminho antes de fugir, por mais que isso os atrasasse. Mas, mesmo que não soubesse de suas motivações, suas ações falavam por si mesmas.
Ela era uma criminosa de alta periculosidade. Então, se o mundo fosse preto e branco, se Kyle tivesse o luxo e oportunidades que teve, se a vida dele tivesse seguido como deveria, essa cenário em que ele fugia de sua cidade com alguém como ela seria improvável, assim como o simples fato de ele estar considerando — céus, tornar-se seu aprendiz, seja lá qual o real significado do apelido, porque ele realmente não tinha melhores opções e, sobretudo, se recusava a ser um escravo de novo.
E ao pensar que há um anos atrás, eu seria o tipo de pessoa que se tornaria o juiz que a poria atrás das grades...!
Se não fosse pelo duque, se não fosse por ele…
Seu mundo teria continuado perfeitamente preto e branco, compreensível. Eis outra coisa que ele arruinou, dentre várias, e por isso, Kyle o odiava com todas as suas forças.
Ele pode estar morto, mas isso não conserta nada do que ele fez.
E no fim, foi isso que o convenceu. Agora ele devia enxergar em tons de cinza, relativizando os bons valores que seus pais o ensinaram e que se mostraram inúteis desde a morte deles. Pois afinal, quem era Arya diante do Duque? Ela era uma salvadora, seu ticket para a liberdade!
Talvez, talvez, se ele a convencesse que ele poderia ser útil ele poderia ascender no ramo, no crime, e conseguir sua vingança...
Kyle sorri sem qualquer humor, e os os cavalos sao as únicas testemunhas do misto de ironia e inconformidade na sua expressão. Tendo terminado seus cuidados, ele deixou os animais para pastar na relva e subiu o íngreme terreno em direção a estrada. Ele para quando avista a elfa sentada no chão de folhas, passando um pente nos cabelos longos. Ele observa com curiosidade suas orelhas protuberantes além dos fios dourados. Por algum motivo, ela tinha trocado a sua usual armadura de couro por um vestido azul claro, de um corpete bordado de fios claros, e longa saia rodada. Simples, mas belo, como o de uma camponesa qualquer. E talvez por isso, movido por essa impressão mundana, Kyle se senta ao seu lado e lhe pergunta o que passava em sua mente:
O que você vai fazer agora?
"Você tem alguma espécie de compromisso hoje em Ravena?" Kyle pergunta, ao invés disso, tendo na verdade sentado a uma boa distância dela.
Arya não interrompe o que estava fazendo imediatamente, o que o fez pensar que ela estava o ignorando mas, antes que ele se repetisse, ela se vira para ele encarando-o com o olhar estranho nos seus olhos escuros.
"Sim." Ela responde um tanto devagar, o olhar logo se desviando para qualquer outro ponto da paisagem. Kyle observou seu perfil, sua testa franzida em contemplação e tenta imaginar o que poderia fazê-la falar.
"... O que sabe sobre Lord Byron?"" Surpreendentemente, eh Arya quem quebra o silêncio.
"Nada..." Ele responde rápido, pego de surpresa quando a cena veio perfeitamente clara na sua memória...
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