O Último Final Feliz
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— Uhuuul. – Mila pula no sofá. Ela está com uma blusa enorme dos Tigres e faixas laranja e cinza, as cores do time, prendendo seu cabelo em marias-chiquinhas loiras.
Hoje é o dia da final e todo mundo está mega ansioso, meu pai é bastante fã de futebol americano e parece muito animado para o jogo, comentando sobre estratégias durante toda a manhã. Minha mãe não está tão empolgada quanto eles, ela não vê graça em um jogo, mas parece bem orgulhosa por mim.
Essa animação está me deixando levemente nauseado, não quero decepcioná-los – principalmente Mila que se autodeclarou minha fã número 1.
— Me pega! – Ela pula do sofá abrindo os braços para que eu a pegue. Pego ela no ar e a coloco de cabeça para baixo girando-a nessa posição. A garota dá boas gargalhadas. – De novo! – Ela pede entusiasmada quando a coloco no chão.
— Você não cansa nunca? – pergunto rindo e ela balança a cabeça negativamente para em seguida sacudir os braços querendo que eu a pegue novamente. Pego-a e coloco sentada em meus ombros. – Está bem cedo mãe, tem certeza que querem ir comigo agora? Posso ir de bicicleta.
— Tudo bem Jake, nós queremos ir com você. Além disso, nós podemos pegar assentos mais próximos e até tirar boas fotos. Nós também podemos comprar um daqueles chapéus engraçados da loja ao lado da escola para você Mila, o que acha?
— Sim! Eu quero aquele amarelo de listras roxas com olhos esbugalhados. Será que eles vendem garrafinhas combinando, mamãe?
— Vamos descobrir. – A loira sorri, minha mãe já tem algumas rugas no rosto, provavelmente marcas de muitos sorrisos ao longo dos anos e eu, sinceramente, acho que essas ruguinhas lhe dão bastante personalidade.
— Prontos? – Meu pai aparece na sala segurando minha mochila com as minhas coisas do time, ele me entrega e vamos para o lado de fora. Minha mãe sai de casa com as chaves do carro e senta no banco do motorista.
Anne ama dirigir, sempre que estamos todos juntos é ela que fica no comando do carro, mesmo quando as viagens são longas. Ela já me contou algumas vezes que o pai dela nunca fez questão de ensinar ela a dirigir, ensinou apenas para os seus dois irmãos, pois na cabeça dele ela teria um marido que dirigiria para ela.
Mas houve um dia que o pai dela saiu para comprar um novo telefone pra casa e enquanto ele estava fora, a mãe dela escorregou e caiu da escada. O pai não estava em casa, os irmãos estavam fora também, não tinha como ela ligar pra a ambulância ou chamar um táxi, já que o homem tinha saído justamente para comprar um novo telefone para a casa – Não, nenhum deles tinha celular.
Com a mãe sangrando no chão, Anne se desesperou, pegou a mãe e a colocou no carro estacionado na garagem – o pai tinha saído com o da família, mas um tio dela havia deixado o carro ali enquanto viajava com a esposa para o outro lado do mundo.
Minha mãe não fazia ideia de como dirigir, mas já tinha visto o pai e os irmãos fazerem por diversas vezes. Destemidamente ela ligou o carro e conseguiu dar a partida na máquina. Anos depois minha mãe contou-me que ela não passara dos 30km/h em momento nenhum, mas que naquele instante aterrorizante ela sentia-se em uma pista de corrida.
Felizmente ela conseguiu. Levou algumas multas, mas o importante que minha vó está bem viva e saudável até hoje. E depois desse acidente maluco, minha mãe decidiu que ela aprenderia a dirigir sim, meu avô querendo ou não. Eu a admiro tanto por isso.
— A casa de praia da tia Geralda vai estar livre no próximo fim de semana. – Meu pai comenta, me trazendo de volta de meus devaneios. Vejo Mila com dificuldade com cinto que as vezes parece gostar de implicar com ela e ajudo a pequena a encaixar. – Eu disse pra ela que a gente queria usar, vou pegar uma folga na sexta e vamos de manhã cedinho pra lá.
— Uhuuul! Praia! – Mila comemora balançando suas mãozinhas.
— Sábado eu tenho jogo. – Falo.
— Ah, é verdade. Acho que podemos deixar pra daqui algumas semanas. – Meu pai dá de ombros e vejo um biquinho se formar no rosto de Mila. Sinto-me mal imediatamente, não quero ver minha irmã chateada.
— Vocês podem ir, eu não ligo de ficar em casa.
Ficar sozinho em casa também vai ser uma experiência bem maneira.
— Não, não. Nem pensar. – Minha mãe protesta. – Não vamos deixar você ai. E se acontecer alguma coisa? Eu nunca me perdoaria se acontecesse alguma coisa com você, querido. Além disso, sei que na sua idade o auge da diversão é dar festas em casa.
— Não vai acontecer nada mãe. E eu juro que não vai acontecer nenhuma festa, até porque nem faria sentido eu dar uma festa, já que vai rolar uma na casa de um dos caras.
Olho para o meu pai pelo espelho do carro e peço silenciosamente para que ele me ajude. Acho que ele realmente quer ir para a praia pois concorda em me ajudar sem mais nem menos.
— Eu acho que o Jake já tem idade para se cuidar por um final de semana. – Ele diz e Anne fita-o com um olhar sério, depois dirige o mesmo olhar pra mim. – Quer dizer... acho que pode ser discutido depois.
Ok, ainda existe uma chance.
Minha mãe estacionou em frente ao campo, onde ficam os estacionamentos usados só em eventos, já que é um pouco mais distante da entrada, e todos nós descemos do carro.
Despeço-me de meus pais de uma vez, eles sempre encontram alguém e ficam conversando um século. Mila me deseja boa sorte balançando as mãos e as marias-chiquinhas.
— Vou ganhar esse jogo só pra você. – Digo para fazê-la sorrir, pois, obviamente não depende só de mim. Ela então corre até os meus pais que já estão conversando com alguém. – Ai, ai, tão previsíveis. – Rio. Reparo que estão conversando com a cineasta e o marido dela. Acho que a filha deles deve estudar aqui então.
Sou o último a chegar, mas ainda estou dentro horário. Todos já se trocaram e estão no gramado, uns sentados no banco e outros na grama, aparentemente esperando o treinador chegar. Corro para o vestiário para me trocar também. Felizmente da pra fazer isso bem rápido, já que só tem eu no lugar.
— Vamos cara, o treinador chegou. – Gabbie aparece na porta do vestiário. Acompanhando-o vou em direção ao campo, hoje vai ser decisivo.
..........
Três minutos para o fim do jogo... Os Tigres de Tales City irão conseguir derrotar os Mamutes de Oscar Millian? – Diogo narra da cabine que fica no alto da arquibancada.
Olho em volta, parece tudo como no sonho, até as posições dos meus adversários parecem as mesmas. A bola vem em minha direção e pulo pra pegá-la. Um dos mamutes vem correndo, mas consigo desviar. A adrenalina sobe cada vez mais por meu corpo. Quando outro Mamute vem em minha direção lanço a bola pra Gabbie que está livre.
E ai o estranho começa a acontecer...
Tudo em volta torna-se preto e branco – como naqueles filmes antigos que assistimos nas aulas de história, sobre a revolução industrial. E eu estou bem rápido, consigo ter noção disso, mas ao meu olhar tudo parece em câmera lenta – não daquelas que parecem acontecer após um momento desesperador, mas daquelas iguais às dos vídeos engraçados nas redes sociais.
E nesse mundo cinza eu vejo algo colorido. Inclino minha cabeça na direção da cabeça e a enxergo. Os cabelos ruivos brilham em um rabo de cabelo que balança ao vento, ela usa uma grande blusa dos Tigres e uma calça jeans qualquer, em cima da cabeça um par de óculos de sol. Megan aponta uma câmera fotográfica pra mim e a observo apertar o botão. Um flash dispara e prende meu olhar por mais um segundo ou dois.
Em seguida, pareço acordar deste pequeno transe e volto a prestar atenção no jogo. A multidão está tensa. Recebo a bola de outro jogador e a lanço para marcar o ponto.
A buzina de fim de jogo apita a mesmo tempo que a bola atravessa o arco. Todos em silêncio a espera do veredito do juiz.
— Ponto para os tigres! É isso mesmo pessoal! No último milésimo Jake Williams marcou o ponto decisivo! Vitória para os Tigres de Tales City! – Diogo berra no microfone ao ver o juiz considerar o ponto.
"Isso é loucura..."
Não tenho tempo de pensar em nada, já que o time todo vem em minha direção. Eles me levantam e comemoram loucamente. Nós vencemos!
Estranhamente a vitória não me anima quanto eu imaginei. Tudo parece com o sonho, mas Megan não aparece nele como apareceu nesse jogo e... Ele aparece! É isso, agora me lembro de onde ele me parece tão familiar.
"- Tem um cara muito estranho te encarando." Lembro-me de avisar Megan sobre o cara na janela. É o mesmo cara do meu sonho. Mas não o vejo em lugar nenhum. No sonho ele me dá uma espada incrível que depois quase me deixa surdo.
Os caras me põem no chão e vamos todos comemorando para os vestiários. Estou particularmente cansado hoje, parece que só aqueles poucos segundos gastaram toda a minha energia. Por isso acabo ficando conversando com os caras e esperando os chuveiros liberarem. Sou o único no vestiário quando saio do banho.
Os caras do lado de fora fazem piada com a minha demora, mas em seguida todos se ajustam no banco e sorriem para a ruiva com a câmera. Se não me engano, a Locke é uma das fotógrafas do colégio, a maioria das fotos que aparecem no anuário são dela.
— Isso aí, todo mundo sorrindo pra titia. – Megan faz piada. Quando ela termina de tirar a foto todos se levantam e começam a ir embora.
— Vamos comemorar a noite essa vitória grotesca nos Mamutes. – Gabbie me diz e se despede. Ainda recebo alguns elogios das pessoas — todos estavam muito impressionados, antes de conseguir pegar minhas coisas.
— Parado aí Williams. – Manda a ruiva impaciente. – Falta uma foto sua sozinho, todos os caras já tiraram.
— Ah, não precisa.
— A menos que você queira que eu pegue uma foto sua da oitava série, edite e coloque no anuário, tenho certeza que as sua "fãs" vão adorar. – Ela revira os olhos. – Vem logo.
Vejo os dedos delicados de Megan se fecharem ao redor de meu pulso. E de repente uma dor alucinante me alcança. Imediatamente puxo meu braço da mão dela. Ela se assusta e segura a própria mão também. Meu pulso ainda queima como se um metal acabado de sair de uma forja fervente tivesse sido cravado nele.
Busco os olhos da garota com assombro, tento desesperadamente encontrar alguma resposta. Mas quando os olhos de um azul do mar encontram os meus não há nenhuma resposta ali, apenas espanto.
Uma nuvem rosa começa a serpentear pelas pernas de Megan, olho para aquilo com um horror imensurável. Que caralhos está acontecendo? Outra nuvem colorida surge e depois mais uma, e outra, e outra e várias outras. Elas começam a rodear-nos com muita velocidade, colocando-nos no olho de um mini furacão colorido.
— Você o achou, Guardiã. – Uma voz suave pode ser ouvida e o velho entra no centro do pequeno furacão também. Megan ainda me encara com muito espanto.
O barulho de espadas se chocando pode ser ouvido e nós dois somos obrigados a cobrir nossos ouvidos. Uma espada reluzente aparece nas mãos do velho. – Vinda direto das forjas do outro mundo, Guardião.
Ele coloca a espada em minha mão sem que eu diga absolutamente nada – como se eu fosse capaz de dizer alguma coisa. O homem começa a caminhar para fora das nuvens coloridas e Megan parece finalmente acordar.
— Não, não, não, não. – Ela corre atrás dele. – Você não pode fazer isso de novo! Espera!
Ela continua atrás dele, mas o homem já desapareceu.
— Volta aqui! Houve um tremendo engano!
— Que porra está acontecendo aqui? – Encaro a espada em minhas mãos, ela também desaparece lentamente.
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