O Último Despertar - Parte I
1 Prólogo: Divergência paradoxal
Notas iniciais
[...]
Aqui os dias iam e vinham mas de pouco adiantava: ontem era o mesmo que hoje, e seria igual ao amanhã. Os dias seguiam-se um atrás do outro sem que um único momento fosse diferente. Eu pouco podia diferenciar um habitante normal de Killera de outro, e este ontem com o mesmo hoje. Tudo se passava de maneira igual. Os dias corriam apressadamente, como se temerosos à calma. Talvez temessem uma mudança — um momento de lucidez espontâneo em que alguém questionasse o que acontece em seus dias e então resolvesse que queria as coisas diferente. Pouco sabiam os dias, porém, que isso não aconteceria. Pelo menos, não da maneira como era esperado.
Lammina era o nome dado à região de península em que tudo isso acontecia. Era tido como um país independente, mas fazia parte de uma nação maior chamada Heverg. Segundo ouvi dizer, a História narra que houve várias guerras entre os povos de Lammina e Heverga, a parte norte do "país". Mesmo assim — apesar de eu não entender muito desses assuntos — há 2 governantes, um para Heverga e outro para Lammina, para administrar as questões da regiões — esse foi o resultado das guerras que se prolongaram por anos. Mas isso tudo foi há muito tempo e creio eu que pouca importância faz.
Eu nunca fui a Heverga, então não posso falar sobre como é lá, mas Lammina é dividida em 6 lugares básicos: 2 cidades — Killera, a maior delas, e Hazzara, uma cidade onde ocorrem mais eventos "divertidos" e coisas diferentes (o único lugar onde se pode dizer que há algo de diferente — apesar de já ter virado rotina — na região de Lammina é definitivamente Hazzara); além das cidades, há ainda o Pântano de Hydrae, e junto a ele a Floresta de Dante. Além disso, o Palácio do Governador e a Praia de Nóron, que se estende por todo o litoral sul da península de Lammina, compõem a região. Há ainda outros lugares, mas de pouco adianta comentar agora. A região em si é apenas isso, não se espera nada além disso.
Apesar do estilo antigo que há por aqui, a tecnologia de fato atingiu até os lugares mais inesperados — como, por exemplo, Killera. A tecnologia é realmente fascinante: leva a rotina a um nível ainda maior! Se antes, segundo dizem, as pessoas já viviam suas vidas tediosas, hoje então, a coisa avançou de nível: Se antes ainda havia uma certa determinação em sonhar por algo melhor, agora o conformismo reina. Mas se me perguntarem o que acho disso, eu realmente acho que assim está melhor! Celulares, computadores e a internet — como imaginar uma vida sem eles?
Mas apesar disso, eu sempre pensei em levar uma vida diferente... Por que tínhamos que seguir sempre a mesma rotina, fazer as mesmas coisas e o pior, acharmos que estávamos sendo diferente quando na verdade isso era ser normal, e então seguirmos nossas vidas até que o conformismo nos atingisse? Por que não seria possível viver uma vida diferente? Por que fazer sempre as mesmas coisas? Por que o tédio atinge alguém que entende o que está vivendo? E por que, acima de tudo, eu estou me questionando tantas coisas sem sentido? O que estou fazendo?
[...]
De repente sinto como se estivesse caindo e, ao espatifar no chão, meus olhos se abrem. Uma terrível dor de cabeça me atinge. Tudo aquilo tinha sido apenas mais um sonho revoltado e sem sentido. Pelo menos já era de manhã e eu estaria disposto a seguir mais um dia. Ou assim eu esperava.
"Mas o que..." Meu corpo se imobilizou. Minhas mãos tocavam uma coisa macia que passava por entre os dedos, deixando marcas superficiais: areia. À frente, uma imensidão de azul. Virando rapidamente o corpo e olhando para trás, o asfalto se fazia presente, subindo em direção à cidade. “Aqui é a praia de Nóron?” Disse, desnorteado.
Como eu tinha ido parar ali? Nunca fui uma pessoa que gostasse de praias ou lugares semelhantes. Ainda assim, lá estava eu, sentado em meio ao escuro. Ainda era de noite?
No bolso da calça jeans que eu estava usando se encontrava meu celular: um modelo relativamente simples com câmera e de cor preta. Ainda com a visão um pouco embaçada, apertei o botão de ligar e então o visor se iluminou: “4:30” diziam os números à margem superior na direita da tela. Meus dedos estavam sem força, quase não tive a coragem de sequer erguer o aparelho; desistindo de segurá-lo, soltei-o ao meu lado e me deitei na areia branca do litoral de Nóron.
Isso é um sonho – me convenci naquela hora. Então o que me resta é esperar até que eu acorde. Se bem que nunca tinha tido um sonho que continuasse depois de eu ganhar consciência de que nada daquilo era real. Bem, o que me restava era esperar. E esperar...
De olhos abertos encarei o céu que se fazia violeta naquela hora. Em breve iria amanhecer, era só questão de tempo. De repente me lembrei que nunca tinha visto o sol nascer – e ainda mais em um lugar como esses. Então tudo bem. Se eu continuasse a dormir até que amanhecesse, essa seria minha primeira vez, por mais que não fosse de verdade.
Aguardei por alguns instantes, até virar o rosto e, sentando na areia, recolher meu celular. Havia se passado apenas alguns poucos minutos. Será que eu estava errado e aquilo não era um sonho? E se não fosse, então como explicaria eu ter chegado até aqui?
Batendo de leve na cabeça eu tentei me lembrar, enquanto sentia a briza úmida e gélida que lá se fazia naquele momento: parecia envolver todo o meu corpo de tal maneira que me dava a sensação de flutuar em meio a imensidão de um mar azul e vazio.
Será que eu tinha bebido na noite anterior? Por mais que me concentrasse, eu não conseguia me lembrar do dia anterior. Mas nunca fui do tipo de pessoa que bebe, mesmo socialmente. Nem via necessidade para isso. Não acho, também, que justamente no dia anterior eu poderia ter resolvido mudar. Mas então o que explicava isso? Se fosse tudo verdade, então eu estava louco. Sim, essa era e é a resposta. Não há outra que consiga se encaixar em meio a isso tudo. É impossível, é … insano!
Perdido em devaneios (em meio a um sonho? Até que soa divertido, se não fosse estranho demais), decidi me entregar ao momento. Afinal, se fosse um sonho, então eu iria acordar mais cedo ou mais tarde eu iria acordar – não posso ficar dormindo para sempre – e, se aquilo fosse verdade, então eu certamente estaria encrencado com meus pais de uma forma ou de outra. Como eu iria explicar a situação eu não sei, mas que o melhor a se fazer devia ser chegar sorrateiramente para evitar perguntas – sempre é bom evitar as perguntas cuja resposta não existe nem é possível de compreender. Eles irão me interpretar de forma errada de qualquer maneira – e se isso foi por causa de bebida, o que duvido, então já devem estar cientes de que fiz coisa muito errada na noite anterior. Mas não creio que o fiz.
Balançando a cabeça, apenas ri da situação e, pus-me de pé. Do meu lado esquerdo estava a mochila que eu costumava usar para ir à escola – ou qualquer outra situação em que fosse necessário carregar coisas: sempre a mesma boa e velha mochila. Naquele dia, porém, fazia-se 1 semana desde que as férias haviam começado. Por incrível que pareça, o dia a dia em Killera e talvez até em toda Lammina não mudou muita coisa: no melhor dos casos, algumas pessoas com melhores condições estavam viajando para Heverga ou, quem sabe, algum outro lugar do mundo. Dessa forma, Lammina ficava ainda mais vazia e monótona.
Segundo o celular, aquele dia era: 3 de dezembro de 2012. Fazia exatamente 1 semana desde o último dia de aula para os alunos do terceiro ano do ensino médio. Em breve eu começaria uma faculdade e seguiria carreira. Assim eu esperava que fosse, assim todos queriam que fosse. Infelizmente, ou felizmente, o rumo das coisas não foi como o esperado. Existem coisas que são difíceis de entender e aquela era uma delas. O que eu estava fazendo lá e como eu fui parar ali, talvez um alguém consiga me explicar. Mas naquele instante eu não sabia quais eram as perguntas, nem o que viria a seguir. Eu apenas estava encarando, estupefato, para a enorme coloração escura que se fazia na areia a medida que o mar recuava cada vez mais.
“Não...” exclamei. Eu sabia muito bem o que era aquilo, mas nunca achei que pudesse acontecer. Aquilo não podia estar acontecendo! Um tsunami?!
Olhei apressado para os lados: em dois deles apenas areia, no outro a água que corria para trás. Às minhas costas, o asfalto que levava até Killera. Mas de pouco serviria tentar fugir. Ainda tentei mover as pernas, mas percebi que estavam paralisadas de medo e trêmulas à medida que a briza parecia cada vez mais fria e agora congelava-me de fora para dentro. Era inútil fugir. Era tarde demais.
Com grande esforço, resolvi me virar para voltar a encarar o mar. Em instantes, toda Lammina, talvez todo o continente fosse engolido pela água. Todas as pessoas e nossas vidas sem sentido, todas as paisagens, todas as lembranças e memórias, tudo estava prestes a ser engolido pela maré.
Aos poucos um pequeno ponto azul espumante de raiva se formava no horizonte. Ao mesmo tempo, logo acima, o sol começava a brilhar. Em busca de calor, como se isso fosse me servir de alguma coisa, encarei o ponto amarelo. A medida que a onda se aproximava, o círculo solar parecia se esticar horizontal e infinitamente, formando uma linha de luz tão forte que se eu tivesse olhado por mais um segundo, estou certo de que teria ficado cego.
De olhos fechados, eu pude sentir o frio de maneira mais intensa. Meu corpo latejava. Duas duas uma, ou eu ia morrer com a tsunami ou congelado. Ao perceber isso, é inevitável: sua vida inteira parece que começa a passar diante de si. E comigo não foi diferente. Se bem que eu não tinha nada particularmente interessante a que me lembrar.
Senti como se um filme começasse a rodar em minha cabeça. Refletia-me imagens de pessoas, situações e lugares que se fizeram de fundo; algumas paisagens, vozes... Por fim um último rosto ecoou na minha mente e sua voz era doce. Em minha boca se fez um último sorriso enquanto eu imaginava dias inexistentes que se seguiam nos quais essa pessoa estava em minha vida e seguíamos felizes. Como nada dura para sempre, imaginei também um fim para a história. Não queria que tivesse acabado. Mas então vejo seu rosto jovem e alegre mais uma vez. E de repente o rolo de filme se acabou e então eu me vi na escuridão de minha mente mais uma vez, sozinho.
Era tarde demais...
O frio me consumia. O sol já não oferecia mais perigo. Apenas brilhava calmamente no horizonte e la, eu via como se em câmera lenta o paredão de água ficar maior a medida que chegava mais perto, mas eu já não sentia mais nada. Estava preso dentro de mim mesmo. Minhas mãos suavam.
Fechei meus olhos e mãos com toda a força que me restava. De repente, comecei a sentir uma chama que parecia me queimar de dentro para fora. Era como uma luta da chama cada vez maior contra o meu pensamento, que se encontrava em extrema desvantagem. Eu estava sendo derrotado. Não que fosse algo ruim; a chama era prateada e seu calor agradável: era a única coisa que me aquecia em meio a esse frio. Era como uma vela que se acendia na escuridão. Decidi não mais resistir à chama e a aceitei dentro de mim. Eu sentia ela crescer a uma velocidade descomunal.
Ao finalmente abrir os olhos, enxerguei minhas mãos rodeadas por uma intensa labareda pateada que dançava por todo o meu corpo – sem sequer queimar a mim ou minha roupa. A sensação de calor e poder tomou conta de mim. Mas não havia mais tempo de pensar. Ao lembrar do tsunami, encarei o mar à frente e, antes que pudesse entender o que havia acontecido, a água parecia me engolir. Cerrei os olhos por uma última vez. Tentei me ater a vontade de gritar, mas era impossível. Então, com todo o ar que pude expirar dos pulmões, gritei com todas as forças. Mais forte do que nunca. Ninguém iria me ouvir; ninguém restaria para me ouvir. Afinal, aquele era o fim.
Toda a história de Heverg, juntamente com todas as pessoas, todos os seres, vivos ou não, que passaram por essa terra estava a menos de um instante de se encerrar. De repente me lembrei de uma amiga que um dia me contara da guerra entre norte e sul de Heverg, que dividiu o país em duas regiões: Lammina, ao sul e Heverga, ao norte. A vontade era de rir. Quão inútil tinha sido aquilo... afinal, tudo o que foi conquistado por esses lugares e pelas pessoas desses lugares tinha sido destruído em menos de um segundo; séculos de história...
O que se seguiu após isso eu não sei, mas tudo o que sei é que aquele tinha sido marcado como o fim. Ou talvez eu esteja enganado... sim, afinal, aquilo havia se tornado o começo daqueles que se ergueriam para se opor a você...
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