Barcelona, ano de 2000

“Já faz vinte anos.” Foi meu primeiro pensamento quando o taxi parou em frente ao velho palacete de Sarriá. Por incrível que pareça mesmo com a ação do tempo o local não tinha mudado muito, a única diferença eram as plantas bastante altas que escalavam as paredes da casa.

-Obrigado. –Disse ao motorista tirando a única bagagem que tinha trazido, não pretendo ficar muito tempo.

Pegando a chave que há quinze anos trás foi me dada, abrir o portão que rangeu por conta do tempo fechado. Respirei fundo antes de dar meu primeiro passo adentro, respirei, mas não andei, não sair do lugar, não consegui. Tinha medo de entrar e todas minhas lembranças do que passei lá dentro voltassem a me invadir, mas a quem quero enganar? Elas sempre me invadiram, nunca tive uma noite sem quer sem sonhar com este lugar, com o senhor Blau ou com ela.

-Vinte anos. –Sussurrei meu pensamento anterior, vinte anos que não vinha aqui, vinte anos dês que conheci a morte de perto, vinte anos dês que o primeiro amor da minha vida foi arrancado de mim. E depois de tanto tempo sou obrigado a retornar, mas preciso fazer isso, por aqueles que foram minha família.

E assim entrei, na frente à porta havia uma vasilha velha, a vasilha de leite morno de Kafka. Sorri a pensar na gata que matava passarinhos por diversão, nosso primeiro encontro não foi um dos melhores, mas foi essencial para complementar o ar de mistério do local.

Tirando a gata de minha mente entrei definitivamente na casa, já esperava a poeira, teia de aranhas e tudo mais, porém ver aquele local tal abandonado me deu um aperto do coração, o lugar onde tudo tinha começa estava dado para o esquecimento, por minha causa.

Há quinze anos o senhor Blau morreu, e deixou sua única herança para mim, porém semana passada me foi enviada uma carta de que se eu não tomasse conta do local, vendesse ou alugasse iam demolir o palacete. E aqui estou, para decidir o destino da casa dela.

Primeiro teria que limpa-la, mas o pensamento me fez estremecer, não estava pronto para re-explorar a casa, os quadros da mulher que nunca cheguei a conhecer, o quarto em que me hospedei no natal, o aposento onde ela morreu.

Ela, Marina, a garota da qual nunca esqueci, a menina que foi minha melhor amiga, a minha mais clara lembrança de um passado recente. Pensar nela me fez sem perceber ir até seu quarto onde a perdi.

Esta ali fez crescer uma saudade que nunca me abandonou.

Durante os anos que seguiu sua morte cheguei a ponderar que podia salva-la, mais então me lembrava o que havia acontecido com Mijail e Eva. Não se pode enganar a morte, por mais cruel que ela seja.

Ainda no quarto coloquei minha bagagem em sua cama, abri e tirei de dentro o caderno que havia lhe dado para escrever nossa aventura. Ela não conseguiu termina, nem eu. Abrir novamente o “livro”, o que às vezes tenho o costume de fazer, e reli o que já estava pronto. Faltava apenas a noite em que tudo se revelou. Peguei o lápis que desenho meus projetos e tentei continuar.

Nada.

Com uma raiva repentina joguei o caderno contra o chão. Marina... Levantei passando as mãos pelos meus cabelos, respirei fundo pela segunda vez dês que cheguei, e então olhei para ver onde o livro tinha caído. Foi então que vi junto do livro um papel meio amarelado. O peguei delicadamente com medo que desmanchasse e vi meu nome escrito, era uma carta dela para mim. Estava no fundo do livro, nas paginas em branco que nunca conseguir preencher. Voltei para cama dela e comecei a ler.

Óscar,

Queria poder disser que sinto muito por te coloca nesta situação, ficar em um hospital com meu pai e ver junto com ele a morte me levar cada dia uma parte de mim. Porém eu não sinto muito, sempre soube que esse dia chegaria e fico feliz por meu pai não te que assisti-lo sozinho, se que não é uma boa coisa para ficar feliz, mas dentro de minhas antigas circunstâncias prefiro esta.

Outro motivo para não ter pena de você nesses dias é que você é o motivo de eu ainda querer lutar contra o inevitável, mesmo sabendo que já perdi a guerra do dês do dia em que nasci.

Preciso que entenda que em todos meus poucos anos de vida tive três tarefas para cumprir: Ficar escondida, cuidar de meu pai e ser uma lembrança. Ficar escondida para que não conhecesse ninguém, perde meu pai já é ruim demais não queria acrescentar mais ninguém na lista seria demais para mim e para a pessoa. Cuidar de meu pai, pois mesmo ele sendo um homem forte era a única família que ainda tinha. E por fim ser a lembrança de minha mãe.

Só que em uma noite tudo mudou, enquanto estava no meu lugar, cuidando da minha vida um garoto que se achava o maior aventureiro de Barcelona resolveu por diversão invadir a minha casa, que em seu julgamento estava abandonada, perturbar minha gata e ainda por cima roubar um relógio. Agora me diga uma coisa Óscar, ensinam no internado ser mal-educado, imprudente e bisbilhoteiro? Porque se essa for à lição você com certeza é o numero um da turma.

Quando você apareceu para devolver o que pegou vi seu encantamento por mim, naquele momento sabia que devia tomar cuidado, pois você voltaria, eu tentei. Mas antes que percebesse você tomou minha mão e me levou para um verdadeiro e triste mistério. E enquanto desvendávamos o mistério da borboleta negra, você de ladrão, intruso e imprudente evoluiu para meu melhor amigo. E de repetente eu ansiava para que aparecesse durante as noites e me arrastasse pela cidade atrás da verdade, e quanto mais nos mergulhávamos em nossa busca menos eu aceitava minha verdade e pela primeira vez em muito tempo eu quis poder viver mais tempo. Não se assuste com minha passada aceitação da morte, mas quando se sabe que vai morrer lamentar é a ultima coisa que se deve fazer.

Você me fez querer lutar, me fez querer viver, mas apesar de saber que meu tempo acabou fico feliz por te ter a meu lado, por ter me mostrado o quanto é bom se sentir vivo, o bom de ter um amigo. Por isso obrigado, e por nunca ter dito antes sobre mim com medo de perdê-lo, peso perdão.

Não se pode enganar a morte, quando ela te marca não para onde fugir, enganá-la é sofrer mais ainda, lutar contra ela é ter esperança e ter esperança é ser feliz. E eu fui, é por isso que agora te escrevo, eu queria viver e eu vivi. Graças a você.

E lembre-se: Você fez uma promessa, trate de não quebrar, não pude continuar o livro, pois quis gastar meus últimos minutos te escrevendo isso. Vê se não fica convencido.

Até mais Óscar, não direi adeus porque as borboletas negras não partem, renascem.

Marina.

Não sei quanto tempo fiquei parado lendo e relendo as palavras dela, mas sei que quando a lua tomou deu lugar no seu eu já estava em sua escrivaninha com uma vela acessa, e um lápis que invés de desenhar escreveu.

Eu não era mais um garoto que fugia de internatos e resolvia mistérios de borboletas negras com uma menina que me encantava.

Eu agora era um homem, um arquiteto, com um caderno, uma lápis, uma vela, lembranças e uma promessa para cumprir.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!