O x da questão
1 Prólogo
Notas iniciais

Ela estava sentada no quintal de sua casa, tinha em suas mãos uma caneca cheia de café puro, que estava fumegante. Olhava intensamente para o conteúdo em sua caneca, tentando inutilmente encontrar respostas lá. O ventou soprou forte, bagunçando seus cabelos, a fez fechar os olhos e apreciar aquela sensação. Estava frio, então ela tomou um longo gole de sua bebida e sentiu seu corpo esquentar-se novamente. A garota voltou seu olhar para a grama vívida e um pouco grande de seu quintal. Um mínimo movimento chamou-lhe a atenção, então ela saiu da cadeira de praia em que estava e foi até onde havia visto folhas se moverem. Ela viu algumas formigas juntas, levando folhas e grãos de arroz e feijão até o formigueiro. Por um momento, a menina sentiu uma profunda inveja daquelas formigas. Eram seres pequenos, mas juntas eram capazes de enfrentar objetos gigantes – para elas – e levar comida pra sua casa. Comida essa que alimentava todas, não apenas uma. A moça desejou profundamente ter companheiros leais como as formigas. Podia contar nos dedos quem eram seus amigos e suas relações amorosas sempre foram um completo desastre.
– Ju, vem pra dentro filha! – sua mãe chamou.
– Certo mãe, entro daqui a pouco – respondeu.
Ela sentou-se na cadeira, olhou o céu estrelado e passou a contemplar aquela brilho cativante. Julieta lembrou-se que quando era criança pensava que as estrelas eram enormes lâmpadas habitadas por eletricistas. Ju riu ao lembrar que ela passava horas ponderando sobre o quão caro deveria ser a conta de luz das estrelas.
– É impressão minha ou o ar está incrivelmente melancólico por aqui?
Julieta se virou e viu Mariah, sua melhor amiga. Ela estava encostada na porta do quintal, sorria de forma descontraída, mas seu olhar demonstrava preocupação.
– É impressão sua, seria impossível existir um clima mais agitado que esse – Julieta respondeu de forma irônica.
– Então você é uma péssima amiga por não ter me convidado para toda essa... “agitação”.
– Bom, já que você está aqui, pegue sua cadeira de praia e se junte a mim!
Mariah sorriu e pegou uma cadeira de praia que estava no chão da lavanderia. Ela foi até o quintal e colocou sua cadeira ao lado de Julieta. Mariah percebeu que havia algo tocando suas pernas, então ela olhou para baixo e viu Batman, o gato negro de Julieta.
– Ele me parece triste… – Mariah comentou ao pegar o gato e fazer carinho nele. — Gatos são animais muito sensíveis, eles sabem quando seus donos estão felizes ou tristes e ficam com o mesmo estado emocional dos donos.
– Obrigado pela informação, Mariah. Agora eu sei que por minha causa meu gato está depressivo! – Julieta disse com mal humor e tomou outro gole de seu café.
– Pois é, Ju. Você é uma péssima pessoa, você deixou seu gato depressivo e por isso merece queimar no fogo do inferno! – Mariah falou sorrindo e arrancando uma gargalhada de Julieta.
– Ah Mariah, só você mesmo!
Julieta e Mariah se encararam por um instante, Mariah fitava a amiga com preocupação, ela segurou a mão de Ju e disse:
– Você vai ficar bem, Ju?
Julieta olhou para Mariah, ela pensou em milhares de respostas positivas, mas tudo que saiu da sua boca foi:
– Eu… eu não faço a mínima ideia.
Mariah se levantou da cadeira, ela foi para a varanda e pegou sua bolsa, voltou ao lado de Julieta e tirou da bolsa um grosso caderno com a capa de couro, uma caneta e um lápis.
– Uma vez alguém muito inteligente me disse que o papel é o melhor ouvinte, ele não te julga, não te interrompe, apenas fica quieto enquanto você escreve nele tudo o que sente, por mais revoltante e idiota que seja – Mariah sorriu. – Você me disse isso, Ju. E agora eu estou lhe dando seu próprio conselho.
Mariah entregou a Julieta o caderno, caneta e lápis. Ela sorriu animada e disse:
– Está esperando o que, mulher?! Escreva!
Julieta revirou os olhos, abriu o caderno e analisou ainda insegura aquelas folhas brancas e imaculadas. Ela suspirou fundo, sua mão estava trêmula quando ela começou a escrever.
“Meu nome é Julieta Groves. Desde sempre, eu quis viver minha vida como se fosse um filme, de preferência como uma grande produção hollywoodiana. Queria ser a diretora, protagonista e roteirista do meu destino, e eu era, até o momento que o conheci. Ele foi a grande incógnita na equação matemática que é minha vida, e eu, como uma tola, tentei a todo custo descobrir o valor daquela incógnita. Esse foi o meu erro, já que a incógnita não tinha valor definido, era tudo e ao mesmo tempo nada. E aquele sempre foi o x da questão.”
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