Notas iniciais
Compilação dos capítulos 17 a 33 disponível gratuita nos sites: Smashwords https://www.smashwords.com/books/view/457756 Itunes https://itunes.apple.com/br/book/o-vlog-carolina-e-o-feriado/id900230612?mt=11 Barnes & Noble http://www.barnesandnoble.com/w/o-vlog-de-carolina-e-o-feriado-antecipado-no-cal-ad-o-parte-2-gumpa-bk/1120028899?ean=2940045641463&isbn=2940045641463 Kobo http://store.kobobooks.com/pt-BR/ebook/o-vlog-de-carolina-e-o-feriado-antecipado-no-calcadao-parte-2

Fernanda olhou para o celular e tentou ler os banners. Neles, as mensagens se movimentavam da direita para a esquerda, alternando entre o nome do produto, o preço à vista e os benefícios concedidos ao comprador.

Porém, não conseguiu enxergar o que diziam. Ergueu a cabeça e piscou os olhos para Carolina, sem saber do que ela estava falando.

Carolina bateu o dedo na tela e chamou atenção novamente para os banners.

— Se o povo brasileiro não gosta de estética embrionária, as grandes empresas não irão contrariá-lo. Afinal, os brasileiros são seu clientes. E se as empresas apoiarem a opinião do povo, nenhum portal de notícias irá se opor. Afinal, o portal é financiado por estas mesmas empresas. Logo, no que diz respeito às clínicas embrionárias, nenhum jornalista irá elogiá-las, recomendá-las ou ficar neutro sobre elas. Pois, se fizer o contrário, não só ofenderá o povo, como também aborrecerá suas empresas patrocinadoras.

Carolina deslizou o dedo sobre a tela e acessou o artigo de Emílio Florentino. O mesmo artigo mostrado a ela por Alice, quando estiveram no corredor dos funcionários.

Indicou para Fernanda o título Vloguismo tendencioso: estamos regredindo para o Apartheid?

— É exatamente o que a Rede Lobo e a Seja estão fazendo comigo. Estão me chamando de preconceituosa de propósito, só para agradar a opinião pública. E também para agradar os seus patrocinadores.

— Carolina, eu não quero saber de nada disso. A verdade é uma só: você irritou a Narcisa & Brizola, a maior cliente que nós tínhamos. Apenas me diga se irá se desculpar.

Carolina sentiu o peito queimar. Lembrou-se do jeito manso de Fernanda. Guardou o celular no bolso e colocou a mão na cintura, dizendo:

— Pedir desculpas pelo quê? Pelo respeito à liberdade de escolha? Uma liberdade garantida pela constituição?

— Não. Pela ousadia em falar o que ninguém queria ouvir.

— Isso é sério, Fernanda?!

— Pareço estar brincando? Olha na minha cara e me diga se estou brincando. Quem irá correr atrás de novos patrocinadores, se a Narcisa & Brizola não voltar para nós?

— Me poupa. Não se faça de mártir. Eu saí perdendo tanto quanto você. Ou pensa que meu pagamento será igual ao do mês passado? Eu vou receber muito menos!

— É só pedir desculpas em público e... sei lá, comer acarajé na frente das câmeras. Daí todos irão te perdoar!

Carolina deu um passo adiante. Estava ficando irada.

— Até parece. Que humilhação! Desde quando virei uma celebridade polêmica? Destas que mostram seu lado humano num programa de auditório?

Fernanda não se intimidou. Manteve-se firme em seu lugar, devolvendo no mesmo tom:

— Desde que abriu essa bocona para irritar meio mundo!

— Eu quero que esse meio mundo se exploda! Bando de gente sensível que não sabe conversar! Povo mimado, mal resolvido e inseguro que berra racismo a troco de nada! O que os bolsonários tem de herança nazista, o brasileiro tem de coitadismo!

— Tsc, você...!

Fernanda emudeceu e virou o rosto para a escrivaninha. Começou a mostrar cautela. Já Carolina fechou o punho, vertendo fogo pelos olhos.

— Você o quê?

— ...

— Fala!

— Carlos está certo. Você traz problemas para o estúdio!

Nisso, Carolina ofegou. Foi pega pelo calcanhar. Relaxou os punhos e virou os olhos para o chão, pensando:

“Eu sei que estou trazendo problemas para vocês. Não precisa jogar na minha cara.”

Então cruzou os braços. Estava magoada.

Mesmo sendo motivo de orgulho pessoal, seu vlog estava custando muito para a imobiliária. A polêmica se prolongaria por muitos dias. Talvez até ganhasse destaque nos noticiários.

Outros empresários desistiriam de patrociná-la. Disto tinha certeza. E essas desistências lhe causariam tanta vergonha que dificultaria sua interação com Renato, Dalborga e Valéria.

“Mal se passaram três meses e já estou atrapalhando o estúdio. Poxa, acham que eu queria isso? Claro que não!”

Sentiu a garganta apertar. Não gostava de ser um problema para os outros.

Foi quando Fernanda lhe disse, ainda implacável:

— Onde você pretende chegar? Por quanto tempo acha que te aguentarão aqui, se não mudar de atitude?

Carolina reuniu suas forças e voltou a encará-la.

— E por que eu mudaria? Por que trocaria minha coerência e honestidade por pão e circo? Não foi isto que me trouxe aqui.

— Porque no mundo publicitário, você não faz o que quer. Você fica de pernas abertas e deixa os clientes fazerem uma Sodoma e Gomorra em você!

Agora foi Fernanda quem deu um passo adiante, ostentando o peito empinado.

— Afinal, é isso que você pensa de mim, não é?! Que sou uma libertina! Uma meretriz que deita e rola com todos os Judás do bairro, só pra vender publicidade!

— Não. Acho que você é uma coitada! Uma submissa às merdas do empresariado londrinense, feito uma porca se rastejando por lavagem!

Foi a gota d'água. Fernanda ardeu em ódio. Ergueu a mão e esbofeteou Carolina com toda a força, quase a derrubando no chão.

O estalo ecoou pela central, fazendo o coração de Valéria pular.