O vlog de Carolina
18 Resgatando a criança problemática interior
Marcelo, acomodado em sua cadeira, ligou para o escritório do 2° andar e chamou por Fernanda. Após avisá-la sobre a chegada de Seu Paulo, pegou seu tablet, até então deitado sobre o balcão, e voltou a assistir o vlog de Carolina. Estava envaidecido com os poucos minutos em que dialogou com ela, e tinha esperança de conversarem novamente durante o almoço.Para ele, o dia voltou à normalidade.Já Daniel, agora usando o próprio celular para navegar pelo Cowboy Recauchutado, segurava-se para não ir atrás de Seu Paulo. Em nome da honra de sua colega, desejava muito quebrar-lhe os dedos, para impedi-lo de usar qualquer aparelho eletrônico.Contendo o impulso de entrar no elevador, mas sem desconsiderar a possibilidade da violência, perguntou à Carolina:
— Como assim “eu sei quem ele é”? Vocês se conhecem de algum lugar?— Felizmente, não. Deus me livre de ter alguém assim no meu dia a dia.— Você já foi na loja dele?— Também não. Nem sei o que ele vende.— Então como pode conhecê-lo?— Daniel, essa pergunta é séria?— Claro que é! Por que não seria?— Porque você, melhor do que ninguém, deveria saber quem ele é.Foi quando Daniel parou de navegar no site. Baixando o celular, olhou para Carolina e lhe deu maior atenção.— Do que está falando?— “Virjão”, “vacilão”, “leléqui”, “huehue” e desrespeito total à dignidade das mulheres. Daniel, é lógico que Paulo pertence à tribo urbana da Zuera Never Ends.— ...— A mesma turma que te encheu o saco, durante o colegial.— ... sim, eu lembro disso.— Acesse o perfil do Procriador Veterano e veja a foto do avatar.Trazendo o celular de volta à altura dos olhos, Daniel fez como Carolina lhe pediu. Aumentando o zoom na foto de Seu Paulo, viu a caricatura de um garoto mulato, careca, com dentes frontais separados e olhos esbugalhados saltando das órbitas. O fundo era pintado de amarelo e estampado com textos “huehue's” verdes.Daniel resmungou baixinho:— O emblema da Zuera Never Ends.— Sim.— Pensei que estávamos livres dessa praga, depois que a Anatel implantou o sistema de rastreamento de IP.— Pragas brasileiras são difíceis de eliminar. Elas resistem à ordem e progresso e batem de frente com as leis de conduta na internet.— Não me admira aquele favelado...— Lá vem você de novo com isso!— ... estar usando boné de aba reta, aparelho dentário colorido e camisa polo da Crocodilo Tenista. Ostentação brega é o uniforme de um zuero.— Não é apenas um uniforme: é uma mensagem de alerta. Algo do tipo “Ainda estamos na atividade. Ainda estamos por perto”. E acho que essa mensagem foi direcionada pra mim.— Por quê?— Veja bem: além de pertencer à tribo da Zuera Never Ends, Paulo também segue o movimento Café com Leite, certo?!— Sim. Ou, pelo menos, é o que indica o símbolo no boné.— E o movimento Café com Leite está com raiva de mim, por causa do que falei no meu vlog, certo?!— Tanto eles quanto a Rede Lobo.— Por enquanto, esqueça a Rede Lobo e se concentre apenas no Paulo. Ele é zuero, é Café com Leite e é cliente do serviço publicitário da Landschaft.— Sim, tô te acompanhando.— Sendo um Café com Leite, ele provavelmente ouviu falar de mim. E como tal, enquanto se aprontava para vir aqui, imaginou que as chances de me encontrar eram grandes.— E daí? Onde está querendo chegar?— Eu não acho que Paulo vestiu suas velhas roupas de zuero à toa. Não acho que ele fica andando por aí assim, o tempo todo. Acho que ele as vestiu de propósito, só para mostrá-las pra mim.— Para te alertar sobre a existência da Zuera Never Ends? Algo do tipo “nós estamos vivos e estamos de olho em você”?— Sim. É como um índio pintado para a guerra. Ele tomou as dores do movimento Café com Leite, então veio aqui disposto a me confrontar, e não apenas para pagar a conta da propaganda.Carolina mostrou a Daniel o comentário enviado ao Cowboy Recauchutado, assinado pelo Procriador Veterano.— Como Paulo está dodói com o que falei no vlog, ele pretende usar o machismo para me afrontar. E como cyberbullying é a atividade principal de um zuero, resolveu me adicionar no Cowboy Recauchutado, só para me enviar esses comentários... abençoados. — "Gostosa, mas azeda. Não pego nem pra chupar. Huehuehue."Quando terminou de ler a mensagem, Daniel ficou sedento por sangue. Por uns breves segundos, esqueceu-se da existência da polícia, do tribunal e da cadeia, ocupando-se apenas em se lembrar dos requisitos necessários para uma prolongada tortura chinesa.— Paulo deve estar cansado da terceira idade, pois acabou de assinar sua sentença de morte.— Daniel, não seja uma bola de chumbinho estraga prazer. Esse rato pertence ao quintal desta gata aqui.— Então seja rápida no bote, porque meu veneno fará efeito já já!— Rápida? Só porque você quer. Se você não sabe, gatos costumam brincar com suas presas, antes de aplicarem a mordida final.— E você pretende “brincar” com Paulo?— Até eu me cansar. E não valerá ele me dizer que é café com leite.
— Hey, quero participar dessa brincadeira!— À vontade, mas já sou primeirinha.— Ok. Aceito ser segundinho.Carolina sorriu com maldade, erguendo o polegar para o colega. Daniel, devolvendo-lhe o gesto, disse:— Sabe o que me incomoda? Falando desse jeito, estamos parecendo o Paulo: criancinhas em corpo de gente madura.— Bem, levando em conta nosso sistema educacional e a disciplina dos nossos pais, não é exagero dizer que as crianças brasileiras estão se tornando verdadeiros monstros. E como diz um ditado militar: as vezes, você precisa de monstros para combater outros monstros. Se o Paulo pretende ser infantil comigo, é razoável lançar mão do velho “olho por olho, dente por dente”.— Quero morrer seu amigo, Carol.— Eu que o diga! Foi você quem começou, dizendo “ele está cansado da terceira idade, pois assinou sua sentença de morte”.— E estou errado? Porque francamente: como pode um senhor de idade ficar incomodando uma garota desse jeito?— É o lema daquela tribo urbana: a zuera never ends. Never. Nem na maturidade, nem na velhice.A porta do elevador se abriu. De dentro, alguém disse:— Ah, finalmente te achei! Você tá enrascada, Carolina!
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