O vlog de Carolina
29 Lobo em pele de redator
No título da notícia, lia-se o seguinte:Vloguismo tendencioso: estamos regredindo para o Apartheid?Carolina, atenta ao uso da palavra Apartheid, leu o nome do jornalista responsável pela matéria, que estava escrito abaixo do título: Emílio Florentino.Então, olhando para Alice com cara de descrente, perguntou:— Estou com problemas por causa dele? O senhor da tempestade em copo d'água? Por quê?— Bem, ele não escreveu coisas boas. E isso está se tornando um problema para nós.— Deixa eu adivinhar: meu nome foi mencionado na matéria.— Sim, entre outros.— Posso ler?— Pegue, fique à vontade.Carolina tomou o tablet das mãos de Alice e o segurou em posição de retrato. Então, arrastando o dedo sobre sua tela tátil, expandiu a notícia por todo seu comprimento e leu:
O discurso dos Patriotas Bolsonários, grupo extremista reacionário a favor da eugenia no Brasil, ganhou eco entre os comunicadores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Uma prova indiscutível de que suas ideias são subsidiadas por uma elite sulista preconceituosa, ávida por um ambiente tropical livre de mulatos, caboclos e cafuzos.Muito já foi dito sobre o assunto, inclusive aqui na Seja. Volto a ele mais uma vez, só para reforçar o que todos já sabem: que o sul está preparando uma guerra civil contra o sudeste e centro-oeste brasileiro.Como mais uma evidência disso, temos o caso de Carolina Godoy de Vilanova, vlogueira da cidade de Londrina, norte do Paraná. Eis o que ela disse aos seus milhares de internautas, na última segunda-feira: “Na minha opinião, qualquer casal pode usar engenharia genética em seus embriões, se assim desejarem. Numa democracia, todos são livres para se consultar numa clínica de estética embrionária, como a clínica Batismo de Lázaro.” Pergunto ao leitor: é paranoia ficar desconfiado do uso da palavra 'democracia' no meio de um discurso pró-eugenia? De minha parte, não é.Trata-se de algo escancarado, sem noção, como se ela insinuasse haver mérito patriótico na confecção (sim, confecção, igual a um produto industrial!) de filhos loiros, ruivos e, acima de tudo, brancos.Além disso, notem o destaque dado à clínica Batismo de Lázaro. Quanto eles pagaram para que a vlogueira defendesse suas atividades?Num discurso imparcial, você não dá nome aos bois. Especialmente quando esse “boi” pertence à área privada.No momento em que isto é feito, deixa de ser uma opinião e passa a ser propaganda. Uma propaganda que, nos meios de comunicação, jamais é feita de graça.E o que dizer da grife Narcisa & Brizola, patrocinadora oficial da senhorita Vilanova? Para quem não se lembra, esta rede de vestuário também já expressou favoritismo à elite branca.Anos atrás, no Shopping Vieira Souto, localizado no bairro carioca Ipanema, houve um incidente que revoltou o Brasil. Clientes fanáticos da Narcisa & Brizola, jovens de classe média apaixonados por moda e estética, jogaram ovos contra um grupo de garotas da periferia, que no momento participavam de um rolezinho.A agressão foi feita na entrada da loja, enquanto as vítimas observavam uma das vitrines. Os seguranças nada fizeram para impedir a humilhação, e alguns dos funcionários até riram, tirando fotos com seus Eagles de pulso.Novamente pergunto: é paranoia ficar desconfiado? É paranoia interpretar o uso da palavra 'democracia' como mensagem subliminar? Talvez. Quem sabe? Deixarei os especialistas do ramo confirmarem isto.Carolina, ainda digerindo o conteúdo da matéria, feito uma general avaliando a extensão do ataque inimigo, resolveu dar pouca relevância ao caso, brincando ao dizer:— Não é à toa que a Rede Lobo lidera o mercado de novelas. A imaginação dos seus escritores é ilimitada e, sobretudo, infantil. Uma infantilidade compatível com o gosto do brasileiro, infelizmente.— Como assim? Emílio Florentino escreve para a Seja, não?!— Sim, mas também escreve para o portal da Rede Lobo.— Eu não sabia. Só acompanho a Seja.— São farinha do mesmo saco. Você não está perdendo nada. Mas qual é o verdadeiro problema? Essa matéria afetou a reputação da Landschaft, só porque trabalho aqui?— Sim. Digo, afetou mais a você do que a nós, pra ser sincera.Alice tomou o tablet de volta e acessou seu correio eletrônico. Então, clicando na pasta de mensagens recebidas, abriu a primeira da lista, dizendo:— Leia isto.Carolina olhou novamente para a tela do tablet, que agora era amparado por Alice. Na área de remetente, podia-se ler:publicidadeldn@narcisabrizola.com.brCarolina reconheceu o e-mail. Pertencia ao setor londrinense de comunicação publicitária da rede Narcisa & Brizola. Era por meio dele que se combinavam as propagandas em seu vlog.Desde que Carolina começou a trabalhar na Landschaft, sempre mantiveram contato direto. Nunca foi necessária a mediação de Alice, Carlos ou de qualquer outra pessoa. O que tivesse para resolver, resolviam entre si.
Desta vez, foi diferente.
Fale com o autor