O veneno de Ostara
1 A imediato mulher no mercado de pulgas
Notas iniciais
Acordei antes do sol, com o barulho da água batendo debaixo da casa, devia ser umas cinco da manhã, me sentei na cama esfregando os olhos, com a maré alta daquele jeito não daria para sair sem ser engolido pelo mar, não haviam sons além das ondas do lado de fora e o ronco baixo dos mais novos que dormiam profundamente, isso fazia com que a madrugada fosse meu horário favorito do dia. Pus os pés no chão e o assoalho velho rangeu, penteei o cabelo para trás com os dedos, me levantei indo até a cômoda e peguei um dos meus “condenados”, era como minha mãe chamava os vestidos tão gastos que não durariam mais uma estação, vesti por cima da anágua, abri a janelinha do meu pequeno quarto, a água ainda batia no beiral da casa então sem chance de sair pela porta da frente, suspirei. Na cozinha comi um pedaço de pão e um pouco de cidra, coloquei as ramas verdes de alecrim secar atrás da porta e parei um pouco apoiada na mesa, eu tinha que levar duas dúzias de velas que estavam secando atrás da casa desde a noite anterior até o mercado, depois colher flor de arnica para terminar o unguento encomendado que eu me minha mãe estávamos preparando a alguns dias, pelo o que parecia, o escrivão da casa da moeda tinha feridas profundas nas mãos como consequência da lepra e ele não conseguia, bem, escrever. Estávamos na primavera, e aquele era dia de solstício, Ostara, como poucos ousavam chamar, em Ostara tudo o que crescia da terra era mais abundante, flores, frutos, ervas, não era um dia de se perder. Saquei meu colete pendurado em um gancho do lado da janela e calcei as botas, peguei minha bolsa de couro e adaga, que eu havia afiado no dia anterior, e parti para a parte mais difícil da manhã, sair de casa pela janela dos fundos, que ficava no quarto dos meus pais.
...
Decidi ir à cidade pela orla da praia e não pela estrada, quanto mais rápido eu chegasse ao porto melhor a chance de vender as velas para o festival que aconteceria naquela noite, andei rápido fazendo um barulho surdo na areia molhada e catando conchas aqui e ali, o sol aparecia no céu sem nuvens tão rapidamente que quando eu cheguei ao porto ele já castigava os meus olhos. Eram pouco mais de seis horas e o lugar já estava abarrotado de gente, vendedores, marinheiros, as docas estavam cheias de embarcações descarregando mercadorias, no geral aquela era uma manhã corriqueira para os frequentadores do cais, mas havia algo diferente no cenário, uma fragata atracada descarregando barris do que eu supus que fosse rum, o barco destoava dos demais, era longo como uma trirreme, tinha o casco pintado de vermelho e se chamava Grígora, mas, apesar da aparência estranha da embarcação, foram os tripulantes que atraíram minha atenção, homens baixos e troncudos, com as cabeças desprovidas de cabelo queimadas de sol, repleto de tatuagens, os rostos tão carrancudos que parecia uma pilha de tijolos, com argolas no nariz feito touros e, ao que parecia, de força descomunal, porque sozinhos levantavam os barris e os carregavam pelo cais, perdi um bom tempo os vendo trabalhar até que, alguém do outro lado da praça portuária, onde se estabelecia o mercado chama pelo meu nome, me viro em direção a praça e vejo a velha Ivory em sua barraca, corro até ela. Ivory era uma mulher velha e ninguém sabia ao certo a quantos anos ela trabalhava no mercado, diziam que ela vivia ali desde antes dos continentais chegarem, mas aquilo não podia ser verdade, os continentais haviam dominado a ilha fazia muito tempo. Ela era uma criatura misteriosa, de pele escura avermelhada e um cabelo liso tão branco quanto a espuma do mar, sempre adornado com moedas sujas e presos a um cachimbo longo e fino, um dos olhos era castanho e o outro branco e leitoso, tinha dois ou três dentes de ouro e um sorriso de charlatã, o que muitos diziam que ela era, sua barraca ficava relativamente escondida, fora da circulação dos vendedores de peixes e vegetais, ela vendia tudo o que se imaginar de ilegal e místico, amuletos, pedras mágicas, baralho cigano, ela também lia a sua mão por alguns centavos, mas o que realmente trazia movimento para a pequena barraca puída era o ópio e o tabaco.
— Olá Fidji, tem alguma coisa pra mim aí nessa saca? – ela perguntou quando me aproximei, Ivory sempre me chamou de Fidji e demorou para eu descobrir que o apelido significava pequena flor na língua nativa, mas não fora ela que havia me contado isso, suponho que revelaria muito da sua tão misteriosa origem.
— Hoje eu trouxe velas — Tirei da minha bolsa vinte e quatro velas roxas, ela pegou uma avaliando com o olho bom e a cheirou.
— Do que são?
— Lírio e lavanda
— E eu suponho que você queira vende-las ãnh? nenhuma de presente pra sua iya velha? – eu não sabia o que iya significava, mas sempre supus que fosse avó.
— Eu dou essas velas pra você, viro as costas e você as vende pelo dobro do que eu estou cobrando, não pense que me engana.
— Como pode fazer esse tipo de acusação menina – ela primeiro disse com uma carranca, depois rimos – Você me conhece bem, bom eu não tenho um tostão, mas vou fazer um esforço, afinal o Dódd ali na outra barraca está fazendo uma fortuna com esse tipo de bugiganga.
Ela tirou cinco tinns do cabelo, que eram as moedas de menor valor, feitas de estanho separou suas velas do amontoado e colocou na frente de todos os outros produtos que estavam a mostra
— Na minha época o mercado servia pra comprar peixe, ópio e bruxaria, agora com esses vigilantes podres do continente eu não posso fazer nada, meus dias de ler cartas davam um dinheiro que só.
Ivory continuou reclamando e eu me peguei entretida naquele barco novamente, agora a tripulação descarregava sal, sacas enormes de sal, de longe era audível a melodia que eles cantavam, era diferente de tudo o que eu já tinha ouvido.
— Estranho, não? – A velha diz por cima do meu ombro, concordei com a cabeça – É a primeira vez que eu vejo esse barco e essa gente, mirtilo? – ela ofereceu.
Peguei um punhado de mirtilo, era época e essas frutinhas davam em qualquer arbusto que crescia da terra. O fato da velha nunca ter visto aquele barco atracado deixava tudo ainda mais estranho, ela conhecia todos os barcos que passavam por aquelas docas, desde os da frota continental, até os navios piratas que apareciam na madrugada de tempos em tempos. Ficamos observando a novidade, dois ou três clientes passaram na barraca, mas não dei atenção, até que me dei conta do tempo que estava perdendo, eu precisava vender o resto das velas e voltar para casa, catei minhas moedas e quando estava para me despedir, como se aquele maldito barco não tivesse me tomado tempo suficiente, vejo alguém diferente daqueles anões troncudos andando na proa, gritando ordens, eu não tinha a melhor visão quando as coisas estavam longe então eu presumi que aquele fosse o imediato, ele pulou por cima da amurada do navio caindo em pé no cais e veio correndo em direção a praça, só depois que chegou relativamente perto vi que era, na verdade, uma mulher jovem, que vinha em nossa direção, eu e Ivory nos entreolhamos. A velha pediu para eu entrar na barraca caso precisasse de ajuda e uma coisa que ela sempre elogiara sobre mim era o meu poder de persuadir alguém a comprar seja lá o que eu estivesse vendendo, pulei para o seu lado antes da imediato mulher nos alcançar. Aquela, sem dúvida era a garota mais peculiar que eu já havia posto os olhos, em geral elas eram todas iguais, se ricas usavam vestidos suntuosos e adornavam suas longas tranças com joias, se pobres os vestidos eram de linho e as longas tranças eram adornadas com flores, mas ela era diferente, não possuía as longas tranças ou o vestido e nem a suavidade e modéstia ao caminhar, no lugar do tudo isso havia um cabelo curto caído sobre os olhos, roupas de homem, andava com uma leveza imponente, uma pressa comedida, como se não quisesse chamar atenção apesar de estar falhando nesse ultimo aspecto. Ela chegou a barraca com o folego curto e parou alguns segundos olhando os produtos, pigarreou penteando os cabelos para trás com os dedos, fiquei fascinada com a cor laranja, como uma dália, eu já ouvira histórias sobre sereias e bruxas que seduziam homens com seus cabelos de fogo, eu não costumava acreditar nessas histórias, desviei o olhar e ela provavelmente sorriu mas meus olhos estavam voltados para baixo, ela finalmente se pronunciou:
— três porções de pólvora, por favor
Vi que ela carregava uma escopeta, mesmo assim três porções de pólvora era muito para uma arma apenas, Ivory me deu uma cotovelada e eu me dei conta que devia pegar a pólvora, coloquei as três porções dentro de um saco e entreguei à ela que checou o peso e depois prendeu a sacola em seu cinto, jogou uma moeda dourada sobre o balcão, uma coroa, valia uma fortuna, olhei para moeda e depois para ela:
— isso é tudo?
— Não – ela disse tirando um papel da manga da camisa, tomei de sua mão, em uma escrita corrida dizia: extrato de flor de papoula, levantei meus olhos a ela, que olhava para os próprios pés um tanto agitada, com os braços cruzados, dei o papel para Ivory que ao ler abriu um sorriso afetado e o queimou na chama de uma vela antes de ir pegar a mercadoria nos fundos da barraca. Aproveitei os minutos em que Ivory se ocupava com o pedido para observar a figura em minha frente, ela era intrigante no mínimo, os seus braços eram cobertos de tatuagens como os outros de sua tripulação e diferente deles suas feições não eram como uma pilha de tijolos e nem meramente agradáveis como as de uma jovem mulher, seu rosto tinha traços geométricos, bochechas cavadas, que poderia ser consequência de passar tanto tempo no mar, olhos amarelo queimado se destacavam em meio a olheiras, sobrancelhas arqueadas e um nariz arrebitado, eram vários traços fortes que se harmonizavam, pousei os olhos por alguns segundos em seus lábios um pouco contraídos, eles eram a peça destoante, pareciam suaves e macios e tinham uma coloração um tanto avermelhada. O que ela vestia também atraía os olhos de qualquer um, eu nunca havia visto tanto do corpo de uma mulher além do meu, ela estava coberta, naturalmente, mas a calça de couro cozido mostrava suas pernas e seu quadril e subia até a cintura fina onde tinha embainhada uma adaga longa e uma arma, um blusão de linho cobria o resto do seu corpo, metade estava preso dentro da calça, o linho estava tão gasto e fino que vi as tatuagens das suas partes cobertas. Ivory voltou com um pequeno embrulho de papel ceda em mãos, pôs sobre o balcão e abriu para a cliente ver, olhei de relance, era um pó de tom amarelado, a Imediato avaliou rapidamente, fechou o embrulho e guardou num dos bolsos da calça, depois agradeceu Ivory e me fitou por dois segundos saindo sem dizer nada.
— Mulher estranha — a velha disse a observando de longe, concordei sem dizer nada, o fato era que a estranha garota que não haviam me dirigido a palavra, me causou uma sensação estranha na boca do estomago, ela era novidade e eu adorava novidades.
— O que é extrato de flor de papoula? — perguntei, Ivory riu para si mesa e passou a mão na minha bochecha como se eu fosse uma criança inocente.
— É ópio Fidji, a droga que domina os mares.
Fale com o autor