O vendedor de sementes
2 Os Dois Mundos
Notas iniciais
Era uma quarta-feira , a moça entrava pela venda novamente.
O vendedor de sementes a olhou e sorriu.
Ela olhou para o lado do vendedor, mas ele já tinha desfeito seu sorriso e ela abriu o dela. Ficou muito feliz de vê-lo. Parece que era impossível olhar para ele e não sorrir.
–Então, você voltou? Fico feliz pelo seu retorno- disse o vendedor.
–Eu que fico feliz de reencontrá-lo.
Existe uma afinidade entre as pessoas que se parecem, que você nunca fica triste perto delas.
–Minha semente já se tornou um pequeno ser com duas folhinhas.
–É porque você está cuidando muito bem dela. Tudo a que você se dedicar lhe trará retorno, mais cedo ou mais tarde.
–Verdade. Sabe, hoje vim comprar algumas frutas, aquelas frutas ali-aponta a moça para uma banca que parece de feira, comprida e baixa, uns 10 centímetros de altura no máximo.
–Tudo bem, vá lá- diz o vendedor com um ar de desapontamento.
–Me ajuda a escolher?-diz a moça de um jeito que ele não teve como dizer não.
–Sim, é claro.
–Adoro frutas, não vivo sem.
–Sim, as melhores são as que são das nossas plantações.
–Sim, é claro, mas não tenho muito tempo. Mal tenho tempo para mim, quanto mais para cuidar de plantações.
–É claro. É normal esquecer de si.
Na venda entra uma senhora sorridente, e apesar de sua aparente idade avançada ela se estava com muita disposição.
–Vendedor, quero semente daquela variedade que comprei semana passada para minha filha.
–Vou ver para a senhora, aguarda um pouco, moça?
–Sabe, quando comprei aquelas sementes para mim, uns anos atrás, não pensei que tinha um fruto tão gostoso, muito saboroso, acho que só perde para as sementes de felicidade, que dizem que é maravilhosa- a senhora fala e solta uma risada suave.
Dizem os mais antigos que ir atrás das árvores de Felicidade é tão difícil e tão demorado que é melhor nem ir, então ninguém vai, mas alguns conseguem ser felizes sem ela. Não se sabe, mas tem gente que consegue.
–Que sementes aquela senhora comprou?-a moça fica intrigada como a senhora consegue ser tão feliz e tão bem disposta.
– Ficou curiosa...rss...sabia que você prestava atenção em tudo.
–Como sabia?
–Pois você já é uma pessoa muito sábia para sua idade.
–Sábia? Eu sou sábia? Não sabia disso-diz a moça, soltando um sorriso debochado, mas feliz pelo elogio.
–Sábia sim, percebi que você já vive no mundo certo.
–Ham? Estou mais confusa ainda.
–Já vou fechar a venda e preciso colher algumas folhas lá fora, você me aguardaria? Aí lhe explicarei melhor.
A moça observa o vendedor guardar algumas coisas do balcão nas gavetas e uma senhora vai somando o valor das suas frutas.
– Doze lenhares.
–Tão barato, aqui está o dinheiro.
–Essas frutas são baratas mesmo- responde a senhora de roupas escuras e mãos finas e enrugadas.
O vendedor enfim fecha a porta depois de um longo dia de trabalho e quando vira-se vê a moça vislumbrar uma orquídea amarela arraigada no tronco da árvore em frente.
–Belíssima,não é?
–Belíssima, nem um desenhista por mais criativo que fosse faria melhor. Como pode existir tanta beleza em tão pouco espaço?
–Mistérios, mistérios...quem sabe um dia entenderemos...
–Mas me diga, se impacienta a garota, que sementes aquela senhora comprou?
–Sementes de Solidariedade.
–Ham? E deu frutos tão bons quanto os de Felicidade? Ela é meio exagerada não é?
–Não.
–Não? fica abismada.
–Não.
–Não faz nenhum sentido...mas outra coisa que estou pensativa desde que você falou — porque disse que eu vivo no mundo certo?
–Porque você não vive no mundo dos homens.
–Achei que eu vivia no mundo dos homens. É só esse que existe.
–Não. Não vive, você vive no outro mundo. Existem dois mundos, e você vive no Superus.
–Superus? Como funciona os mundos? Não entendo nada. Achei que tudo era um mundo só.
–A maioria pensa assim, poucos sabem dos dois mundos. Agora que sabe de qual mundo você é, tome mais cuidado para não passar para o lado de lá.
–Como eu passaria para o mundo de lá?
–O mundo dos homens tem uma gravidade incrível, lhe arrastaria sem você nem perceber.
As sombrancelhas da moça se levantam a cada palavra do vendedor. Não preciso nem dizer que a boca da moça também não fecha. Sua face transparece todo o seu estranhamento.
–Não entende, não é? Vou dar um exemplo: alguém discute com você por algum motivo qualquer, logo você responde e de repente a discussão se transforma em briga, a outra pessoa chega até a lhe xingar, e quando você se dá conta, você está xingando também. No fim, você está com mágoa e raiva em seu ser. Pronto, você foi arrastada para o lado de lá. O lado dos maus sentimentos, os sentimentos que fazem mal para sua saúde.
–É muita informação para mim.
–Vamos caminhar, preciso colher algumas folhas para o meu chá, aí conversamos mais.
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