O velocino de ouro.
1 ........ Amargo regresso.
A tempestade passara.
O cavalo corria pela estrada sem se importar com as poças deixadas pelo temporal. Sentia sua crina me golpear com os borrifos frescos e úmidos lançados pelo vento. O fraco sol da manhã fazia as folhas das árvores molhadas da chuva cintilarem. A tempestade atrasou demais a viagem.
Agora cavalgava pela vegetação que começava a se espessar. As copas das árvores se fechavam cada vez mais. Até a aldeia se estendia um imenso tapete verde, denso de bosques e florestas, com vida animal e vegetal abundante, com vários riachos cortando suas terras. Seus recantos escondidos foram por alguns séculos refúgios seguros das amazonas. Os raios de sol passavam por entre as folhas sacudidas pelo vento, criando sempre uma iluminação diferente.
Estava ansiosa para chegar à aldeia. Já estava longe a muito tempo, esse último trabalho tinha se estendido mais do que tinha planejado, mas estava tudo resolvido. Agora a minha única vontade era encontrar minha Gabrielle, abraçá-la e matar a saudade de quase dois meses longe de seus carinhos. Segui até uma pequena elevação e de lá galopei por um longo caminho que seguia na direção da aldeia.
Comecei a ver o portão; construída em cima de uma parede de terra, a paliçada imponente cercava toda aldeia. A amazona que pastoreava o rebanho de ovelhas no vale ao me reconhecer me acena. Respondi rapidamente a saudação. Passei trovejando pelo arco do portão. Argo brilhava de suor e bufava de cansaço. Com um pequeno puxão nas rédeas meu companheiro reduziu rapidamente a velocidade. Passei pelo estábulo, pelas cabanas de madeira com tetos de palha; as crianças corriam junto ao cavalo gritando e pulando com a alegria típica da infância; me dirigi ao centro da aldeia onde tive uma pequena recepção. Desci do cavalo; imediatamente uma amazona se prontificou a pegar as rédeas do animal e levou-o para o estábulo para descansar e se alimentar. Procurava ansiosamente por aqueles olhos verdes que tanta alegria me dava.
Ephyni, agora rainha amazona, Eponin, a segunda em comando e mais algumas amazonas se aproximam me dando as boas vindas. Mas senti algo estranho no comportamento delas. Não era uma recepção alegre como normalmente fariam, ao contrário, seus semblantes estavam sombrios. Respondi as saudações. Mas minha atenção estava voltada para a procura de minha alma gêmea, a ansiedade começava a me afligir. — Onde ela está?— Perguntava a mim mesma. Por fim como não consegui encontrá-la perguntei ansiosa: — Onde está Gabrielle?
Ephyni e Eponin se entreolham desconcertadas. Meus olhos ansiosos iam de um rosto ao outro examinando cada um, procurando a resposta.
— Xena..., venha até minha cabana, precisamos conversar. – Diz Ephyni me segurando pelo braço.
Num reflexo dou um solavanco soltando-me da mão de Ephyni. Meu instinto avisa que algo grave aconteceu. A preocupação e a ansiedade já começavam a tomar conta de mim, meus músculos se contraem, meu coração acelera. Repeti a pergunta.
— Tente se acalmar... – Ephyni começa a falar, mas interrompo sua frase e num rompante de aflição, seguro seu punho com força sacudindo-a irritada e insisto: — Aconteceu alguma coisa? Onde ela está?
Eponin e as amazonas imediatamente reagem a minha atitude agressiva com sua rainha. Mas Ephyni sinaliza que não me ataquem.
— Venha, vou te levar até ela. – Diz e se encaminha para a cabana de cura.
Acompanho Ephyni e Eponin. Meu coração bate desesperadamente. Entramos e antes que elas possam dizer qualquer coisa, avisto Gabrielle deitada numa cama, próxima a uma janela. Corro e me ajoelho junto à cama. A visão daquele corpo ferido, abatido, prostrado em nada parecia com a loira que havia deixado algum tempo atrás. Olheiras negras e profundas agrediam suas delicadas feições; o rosto era cadavérico, o corpo definhara assustadoramente. Seus cabelos loiros estavam molhados pelo suor de seu corpo, ela ardia com febre, a respiração quase não era percebida. Peguei sua mão e acariciei seus cabelos. Chamei por ela, mas não houve nenhuma reação. Uma grande mancha de sangue molhava a atadura amarrada sobre seu peito. Meu desespero explodiu.
— O que aconteceu? – Perguntei. A impotência de ver a vida de minha amada se esvaindo era um sentimento dolorosamente angustiante.
— Aconteceu em uma caçada, ela foi ferida por um javali. Já fizemos tudo ao nosso alcance, usamos todo o nosso conhecimento com as ervas, unguentos, remédios, oferendas a Ártemis, mas não está adiantando. Ela..., ela está morrendo. – Ephyni respondeu com os olhos baixos.
— Caçada? E vocês onde estavam que não a protegeram? – Berrei fuzilando todas as amazonas com o olhar.
— Xena, ela não é mais uma criança, ela é uma rainha amazona. Jamais teria deixado ela nos acompanhar se acreditasse que não era capaz. Não queira nos culpar por isso. — Eponin responde irritada.
Voltei minha atenção para Gabrielle: — NÃO..., VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR OUVIU?! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ MORRER! – Berrei desesperada.
Quis pegá-la em meus braços, mas o ferimento gravíssimo e o estado de debilidade de Gabrielle eram tamanhos que tive medo de prejudicá-la ainda mais. As lágrimas escorreram pelo meu rosto. A dor rasgava meu coração, pequenos soluços sacudiram meu peito e toda minha fortaleza desmoronou, chorei como uma criança desconsolada.
— Saiam, por favor! – Pedi entre soluços.
Todas as mulheres saíram em silêncio. Olhava o semblante doente de minha amada. Meu peito pesava, sentia como se as garras e dentes de Cérbero estivessem rasgando meu peito, dilacerando meu coração. O ar me faltava, o grito contido na garganta me sufocava e eu chorava descontrolada. Murmuro enquanto acaricio seus cabelos:
— Minha vida não terá mais sentido sem você Gabrielle. Você não vai morrer, eu juro meu amor!
Saio da cabana. Ephyni que me aguardava próxima à porta vem ao meu encontro com os olhos marejados. – Eu sinto muito. – Ela diz com a voz embargada.
Me esquivo do seu abraço. Peço que me deixe sozinha com meus pensamentos e minha dor. Caminho como uma morta-viva pela aldeia. Quando cruzo o portão, começo a correr disparada pelo caminho sem rumo certo, quando dei por mim estava numa clareira em algum lugar no meio do bosque, com gramado curto e frondosas árvores de galhos grossos. Os raios de sol passavam por entre as folhas sacudidas pelo vento, criando um ambiente acolhedor. Ajoelhei-me apoiada em minha espada e num murmúrio solitário soltei as palavras presas no fundo de minha alma:
— Se alguém estiver ouvindo, você sabe que eu não sou muito de rezar, mas eu não sei mais o que fazer. Eu estava pronta para desistir de uma vez, e Gabrielle entrou na minha vida. Por favor, não deixe aquela luz que brilha no rosto dela se apagar. Eu não conseguiria suportar as trevas que se seguiriam.
Nesse instante no meio de um clarão ofuscante como um raio surge a figura de Ares. O deus assumira a forma humana, cavanhaque, uma cheia cabeleira negra como a noite e olhos negros que faiscavam perversidade. Instantaneamente levanto e empunho a espada em sua direção.
— Rezando Xena? Parece que você está com um problema muito sério, não é? — Disse sarcasticamente o Deus da guerra, rindo de lado; seu timbre de voz era poderoso. Com uma estranha delicadeza ele afasta a espada da sua direção.
— O que você quer? – Pergunto rispidamente.
— Ora Xena, isso é maneira de tratar um velho amigo? – Ares continua falando com um sarcasmo irritante.
— Você não iria aparecer só por que está com saudades não é? – Respondo.
Ares dá uma sonora gargalhada. – Está bem, vamos direto ao assunto. Ouvi o seu pedido e resolvi ajudar. Então eu vim lhe fazer uma oferta: Você não precisa implorar aos outros deuses pela vida daquela loirinha irritante. Eu posso dar um “jeitinho”.
Senti meu coração bater forte. A oferta era tentadora. Olhei-o desconfiada. – E em troca o que você vai querer?
O Deus cinicamente responde: — É por isso que eu gosto de você, inteligente, perspicaz..., sempre um passo a frente.
Ares me encara com os olhos flamejantes e me segurando firmemente pelos braços ele diz: — Eu quero você. Quero que me dê um filho! — Sinto o tom áspero na sua voz.
— Eu prefiro me juntar a Gabrielle na morte do que a você! – Digo revoltada. – Você quer se aproveitar do meu sofrimento seu miserável! Você não tem o poder de curar!
Os olhos negros do deus da guerra faiscaram de ódio. Com uma força descomunal ele me ergue do chão como uma folha seca. Sinto a pressão de suas mãos nos meus braços já se tornando dolorosa, minha pele começava a queimar. Mas de repente a fúria que surgiu no deus, se abrandou inexplicavelmente. Ele volta a me colocar gentilmente no chão.
— Hum, você está nervosa, é compreensível... Vou lhe dar um tempo para pensar, mas decida rápido, as Moiras já estão com o fio da vida de Gabrielle nas mãos! E nem os deuses podem alterar o destino. – Com os dedos imitando o corte da tesoura, num clarão ele desaparece do local.
Uma leve chuva começa a cair, aos poucos se transformando em chuva forte que escorria pelas plantas e formava poças na terra. Eu olhava para os riscos de água vindos do céu, o barulho da ventania não foi suficiente para abafar meu grito de desespero tanto tempo contido na garganta e chorei como nunca havia chorado antes.
........ A caçada.
Penetrando na mata as mulheres se esgueiravam entre as árvores e pedras, percorrendo a floresta com perícia de caçadoras, rastreando o animal, atentas aos sons já conhecidos da mata. Saltavam pelas rochas e sinalizavam umas as outras das pegadas da presa.
O vento fresco se torna mais frio e úmido. O dia começou a ser interrompido por retalhos de sombras quando as nuvens taparam o sol e as cores vivas deram lugar a tons acinzentados. À distância, relâmpagos brilhavam na escuridão das nuvens e os estrondos dos trovões eram ouvidos nitidamente. A tempestade se aproximava numa velocidade maior do que as amazonas julgaram possível.
A experiente Eponin interrompe a caçada e ordena que todas retornem a aldeia, já não era mais seguro ficarem na floresta. Obedecendo ao comando todas começam a retornar, exceto Gabrielle que distraída em rastrear a caça, não ouviu a ordem de Eponin. Quando percebe o chamado de uma amazona, o grupo já se distanciava. Ela retorna com passos rápidos, vez por outra pulando sobre troncos caídos e pedras. O sol foi engolido pelas nuvens da tempestade. As primeiras gotas de chuva começaram a cair para logo depois dar lugar a uma chuva insistente.
Gabrielle voltou sua atenção para o desconforto de estar encharcada, maldizendo a pouca sorte. O vento voltou a soprar e ela sentiu o primeiro arrepio. Apressou o passo o máximo que conseguiu. As pequenas árvores começaram a dobrar com o vento, enquanto o som arrepiante do vento assobiava nos ramos das velhas árvores da floresta.
O vento se intensificou e a chuva feria seus olhos; batia em sua pele como centenas de minúsculos espinhos. Sabia que corria perigo, pois a tempestade estava alcançando uma violência muito além do normal para aquela época do ano. Gigantescos relâmpagos iluminavam a paisagem sombria, contrastando por breves instantes as árvores e o caminho. Os enormes estrondos dos trovões agrediam seus ouvidos. Decidiu caminhar entre as árvores na beira do caminho; o vento diminuiria um pouco devido aos troncos das árvores.
Quando a floresta já estava próxima, um enorme javali negro surge repentinamente da mata. O animal saiu dos arbustos aos tropeços; as duas enormes presas pareciam brilhar a luz dos relâmpagos. Com os olhos arregalados e pelos eriçados, a fera raspava o chão com as patas. Gabrielle sabia que os javalis eram extremamente agressivos e esse para piorar a situação, estava em pânico devido ao temporal. O animal ergueu a cabeça, farejando o ar, sentindo o cheiro da mulher levado pelo vento, enquanto bufava indeciso, para depois abaixar a cabeça e atacar.
O animal deslizou no chão enlameado atingindo as pernas de Gabrielle que cai no chão deixando a lança escapar de sua mão. Gabrielle tentou rolar para fugir, mas sentiu o peso do animal cair sobre seu corpo. Instintivamente cobriu o rosto com as mãos, mantendo os braços junto ao peito, foi quando sentiu a dor.
..................................................
Já a certa distância Eponin incentiva o grupo a acelerar as passadas, é quando percebe a falta de Gabrielle. – Onde está Gabrielle? – Ela pergunta a uma amazona.
— Não sei. – Responde a mulher.
— Você viu Gabrielle? – Pergunta a outra companheira.
— Eu chamei por ela. Estava um pouco longe, mas estava vindo atrás de nós. – Responde a mulher.
Isso não era nada bom, nessa tempestade os riscos na floresta duplicavam. Ela ordena que as amazonas corram para a aldeia e destaca as duas melhores caçadoras, Atalanta e Genora, para retornarem junto com ela para procurarem Gabrielle. Mas rastrear as pegadas naquela chuva era impossível. As imagens causadas pelos clarões ofuscantes confundiam os sentidos. A chuva açoitava sem piedade o corpo das amazonas; a sensação da ventania era de que uma enorme mão as empurrava pelo caminho. Protegendo os olhos com uma das mãos elas retornam pela perigosa estrada.
..................................................
Gabrielle estava prestes a desmaiar quando percebe o animal imóvel sobre seu abdômen, com uma flecha fincada no flanco e duas lanças no dorso. Ela apenas tem tempo de ver as silhuetas de três mulheres que a socorriam e se sente cair num poço profundo e escuro.
........ Com ajuda dos deuses.
Uma espécie de névoa rósea brilhante se formou ante meus olhos e um agradável perfume tomou conta do local. Uma sensação agradável como se alguém umedecesse minhas têmporas com essência de rosas, parecia me acalmar. Repentinamente a brilhante névoa se desfez e a deusa do amor se materializa.
— Aphrodite..., por favor, me ajude! – Pedi com os olhos marejados e a voz embargada.
— Ouvi sua oração..., fiquei muito comovida e quero te ajudar. – A deusa me responde.
— Por favor, salve Gabrielle. Não a deixe morrer. – Peço, sufocando o choro.
— Bem que gostaria de salvá-la, mas não tenho o poder de curar. A nossa pequena Gabrielle só tem uma chance... Mas é uma missão suicida para um mortal. Até mesmo para você!
Uma pontada de esperança acelera meu coração. – Não me importo, farei o que for preciso para ter Gabrielle de volta.
— Você conhece o velocino de ouro? – A deusa pergunta.
Imediatamente sinto meu rosto queimar ao ouvir a pergunta e respondo irritada: — Aphrodite, não é hora para brincadeira, estou de péssimo humor. Isso não passa de uma lenda!
— Aí que você se engana querida! O velocino existe. Frixo, filho de Zeus, obedecendo a um oráculo, sacrificou o carneiro e ofereceu seu pelo de ouro no templo de Ares. O velocino tem propriedades curativas, a pele do carneiro tem o poder de fechar qualquer ferida, por mais profunda que seja. Se Gabrielle for enrolada nela vai ser curada. Mas Ares não vai permitir que o velocino seja usado por um mortal, ele matou cruelmente todos que tentaram se apoderar da pele. — Explicou a deusa.
Lembrei-me das palavras de Ares: “... Eu posso dar um “jeitinho”.
— Eu vou correr o risco e enfrentá-lo. Juro por Gabrielle que vou pegar o velocino e vou salvá-la. – Digo com tom decidido.
— Está certo, mas redobre o cuidado com Ares, ele é traiçoeiro e ardiloso. Pode usar muitos métodos de ilusão para te persuadir ou aterrorizar. – A deusa alerta: — Mas lembre-se, o velocino só tem o poder de curar, não tem poder para ressuscitar, então não perca tempo. — E continua: — A única coisa que posso fazer por você é te conceder a proteção do amor, que é a força mais poderosa que existe. O amor de vocês é um sentimento poderoso e eu sinto isso em seus corações.
A deusa pousa a mão sobre meu coração. Por alguns instantes sinto meu peito queimar, uma sensação de fraqueza toma conta de mim. Uma luz suave parece penetrar em todo meu corpo, de repente um violento clarão explode em minha mente me deixando atordoada por instantes, e quando dou por mim estou sozinha.
Retorno correndo para a aldeia e sigo até o estábulo. Corro até Argo, coloco as rédeas, ajusto a sela e os estribos, monto de um salto, puxo as rédeas; digo em tom decidido para Ephyni e Eponin que se aproximavam: — Ela não vai morrer! Vou trazer a cura para ela! — e disparo na direção da saída da aldeia. Quando cruzo o arco do portão, instigo Argo para que corra mais e cheguemos o mais rápido possível ao templo de Ares. Ele pareceu entender meu desejo e disparou pelo caminho como se tivesse criado asas.
..................................................
Quando chego ao meu destino já é noite. O templo está envolto em um silêncio sepulcral. Construído incrustado no pé de uma montanha, os grandes blocos de pedras negras iluminadas pelas chamas dos castiçais de pedra que ladeavam a larga escada, davam uma aparência assustadora ao local. Chegou a hora. Tenho certeza que Ares já sabe de minha presença.
Abro a pesada porta de madeira negra. Entro cautelosamente examinando o local. O ar é pesado, abafado. Seis grandes castiçais de ferro distribuídos nas paredes laterais criavam sombras que se moviam diminuindo ou aumentando a luminosidade, fazendo as pedras cintilarem. Dezenas de armas de todos os tipos estavam penduradas ou encostadas às paredes; as chamas refletiam nas lâminas das armas e nos escudos de metal criando um ambiente sinistro, bem apropriado para o deus da guerra.
A sala sombria dava acesso a um grande salão com o mesmo tipo de iluminação. Os altares nas paredes laterais mostravam as oferendas e no final do recinto, num grande tablado em cima de quatro degraus estava o imponente trono de Ares. O salão está vazio, mas sinto a presença dele.
— ARES! – Chamo, mas não tenho resposta. Repito o chamado. O silêncio continua.
— Apareça, quero falar com você! – Insisto.
De repente um frio penetrante se espalhou por todo meu corpo, como o frio da morte. A presença do deus se fez sentir às minhas costas.
— Ora, ora se não é a princesa guerreira. A que devo a honra de sua visita? – Ares pergunta com seu habitual sarcasmo.
Sem demonstrar qualquer prazer em vê-lo, vou direto ao assunto: — Andei pensando na sua proposta... Quero saber o que vou lucrar com o meu sacrifício.
Os olhos do deus faiscaram. – A vida de Gabrielle não é o suficiente? – Ele responde.
— Não, não é o suficiente. Vou perder a única pessoa com quem gostaria de passar a eternidade para me unir a última pessoa com quem gostaria de estar. – Respondo.
As feições de Ares se contraem e ele me encara como se quisesse ler meus pensamentos. Após alguns instantes me avaliando, ele diz: — O que mais você quer?
— Sendo mulher do deus da guerra terei que fazer jus ao título, e não quero passar a eternidade à sua sombra. Não sou mulher para isso... Tenho que admitir que você tem razão. Você sabe que sempre ambicionei poder, fortuna... E por falar em fortuna, seus adoradores parecem que não estão lhe prestando as devidas homenagens. Com todas essas guerras, as pilhagens não estão rendendo muita coisa para você, hein? – Digo enquanto mexo nas oferendas expostas e observo a reação dele.
Ares dá uma gargalhada: — Essa é a minha Xena. – Ele enche a mão com moedas de ouro e algumas joias. – Isso não é nada, é apenas lixo que esses míseros mortais deixam aqui para me bajular... Eu sou um deus, não preciso disso. Venha, quero lhe mostrar uma coisa. – Ele me responde e segue em direção ao trono.
Atrás do trono um arco de pedra mostra o início de um corredor que se aprofunda para o interior da montanha. No final do corredor um grande portal dá acesso a uma gigantesca caverna com dezenas de baús transbordando moedas de ouro, pedras preciosas, joias e os mais variados objetos de ouro e prata que reluziam sob as luzes das chamas dos inúmeros castiçais. Mas o que mais impressionava era a quantidade de armas e artefatos de guerra guardados no local. O suficiente para armar um exército de milhares de guerreiros.
— Veja Xena, esse é o meu salão de armas, isso é que é o meu tesouro. É aqui que guardo o que realmente me interessa. Com essas armas eu abasteço os exércitos dos senhores da guerra. Vocês humanos me enobrecem a cada dia que passa. Aahh, isso sim é o que importa: A guerra, a destruição, o caos, a violência, isso sim é excitante. Um mundo perfeito para o deus da guerra.
Fingindo me interessar pelo discurso de Ares, eu examinava cada metro da caverna, procurando o velocino.
— O mundo está pronto para receber o deus da guerra e sua rainha! – E me encarando ele completa: — Eu ainda posso sentir em você aquela chama da antiga Xena. Talvez você só precise de um incentivo.
Num recanto pendurado na tampa de um baú vejo o que parece ser um tapete de pele. Um estranho brilho dourado emanava dele destacando-o sobre tudo que havia a sua volta. Era o velocino, Aphrodite tinha razão, ele existia. Meu coração disparou, tinha que controlar minha ansiedade de pegar a pele e sair dali. Tinha que ser cautelosa. Se Ares descobrisse minha real intenção, mesmo com toda obsessão por mim, explodiria toda sua fúria e sei que seria morta sem piedade. Tudo estaria perdido.
........ Enfrentando o Deus da Guerra.
A amazona entra apressada na cabana real, chamando pela rainha. Gabrielle mostrava sinais de consciência. Ephyni corre para a cabana de cura e se depara com a amiga tendo a boca umedecida pela Xamã que poucas vezes se afastara do leito da enferma. A expressão de esperança no rosto de Ephyni logo acaba quando ela percebe o sinal negativo da curandeira. Era como se fosse um último instante de consciência antes da morte.
— Ela não deve passar de amanhã. – Murmura a mulher.
Ephyni se aproxima e se ajoelha junto à cama, com os olhos marejados, segurando a mão de Gabrielle com ternura, ela acaricia os cabelos molhados da amiga e a chama delicadamente: — Gabrielle!
Com grande esforço, Gabrielle vira o rosto e olha para Ephyni, tenta falar, mas a dor no peito a impede. A imagem do corpo definhado e o olhar sem brilho de Gabrielle arrasam o coração de Ephyni, que não consegue mais conter as lágrimas.
Numa nova tentativa Gabrielle se esforça para falar e com as palavras entrecortadas ela sussurra:
— Xena..., chegou? – Um gemido acompanhado de tosse; arfando com esforço ela faz nova tentativa de falar, mas Ephyni a impede, o esforço estava sendo demasiado para a amiga. Mas Gabrielle insiste.
— Estou morrendo,... avise Xena. – Um novo acesso de tosse e uma golfada de sangue brota da boca de Gabrielle e o sangue vivo começa a molhar a atadura recém colocada.
— Não..., você não vai morrer, ela não vai deixar, está me ouvindo?! – Ephyni responde desesperada. Ela sente a vida da amiga se esvaindo.
Nesse momento Eponin entra na cabana de cura, esperançosa da melhora da amiga ela se aproxima apenas a tempo de ouvir a frase de Gabrielle.
— Diga que..., a amo. – E num curto suspiro, Gabrielle fecha os olhos.
Temendo que o pior tivesse acontecido, Ephyni assustada insiste em chamar por sua amiga, mas sabe que não terá mais resposta. Gabrielle estava novamente inconsciente, mas ainda viva. Ephyni desaba num choro amparada por Eponin.
— Temos que avisar Xena. – Ephyni diz finalmente se controlando.
— Como, se não sabemos onde ela está? – Eponin pergunta.
— Temos que encontrá-la. Mande aviso para as outras tribos e peça ajuda para localizá-la. Escolha as nossas melhores rastreadoras. Quero cada canto da região vasculhada. VÁ! – A rainha ordena.
Eponin sai imediatamente para cumprir a ordem de sua rainha. Embora sabendo que seria uma missão impossível encontrar Xena, pois a essa altura qualquer rastro já teria sido apagado pelas constantes chuvas.
..................................................
Desviei meu olhar do velocino antes que Ares percebesse meu interesse. Fui me dirigindo cada vez mais para o interior da caverna. Disfarcei remexendo em alguns baús, apreciei as joias; despejei moedas de minha mão como uma cascata de ouro. Fingi olhar as armas com curiosidade, ora avaliando o peso de uma lança, ora a resistência de um arco, a lâmina de uma espada; sempre acompanhada pelo olhar de Ares. Minha mente fervilhava, as horas se passavam tinha que pegar o velocino e sair dali o mais rápido possível antes que fosse tarde demais para Gabrielle. Procurava ansiosamente alguma coisa que pudesse me dar uma oportunidade de escapar. Até que numa parede vi uma corrente pendurada que me chamou atenção.
— O que é isso? Alguma arma? – Perguntei curiosa. Avaliando o objeto.
— Isso é um presentinho de Hefesto. – Ares responde.
Examino a corrente. Os elos são grossos, fortes e pesados. – Hum, que interessante. Dizem que o metal forjado por Hefesto é indestrutível. É verdade? – Pergunto já me interessando pela corrente.
— É verdade. – Ares responde sem se dar conta que acabara de indicar o caminho para minha saída.
Com a corrente sobre o ombro, lentamente vou me aproximando do baú onde está o velocino, mas o deus está me observando atentamente e se aproxima tocando delicadamente minha pele.
— Está vendo?! Posso lhe dar tudo isso e muito mais. Posso lhe dar o mundo se você for minha. – Enquanto murmura Ares acaricia meu rosto, pescoço e ombros. Percebo seus olhos faiscarem, não de ódio, mas de desejo. Deixo-me acariciar pelas mãos fortes do deus. Enquanto me acaricia ele examina meu corpo vagarosamente. Suas mãos deslizam por minhas costas; ele beija meu pescoço causando-me um arrepio involuntário. Vejo seu rosto chegar tão perto a ponto de sentir sua respiração quente e nossos lábios se encontram num ardoroso beijo.
— Você me prometeu que salvaria Gabrielle se eu me entregasse a você... Bem, aqui estou. Já que vamos selar nosso acordo, que tal ficarmos mais à vontade? – Começo a instigar o desejo do deus, começando a despir o peitoral de minha armadura. A respiração de Ares se altera visivelmente, ele me devora com o olhar, tenta me abraçar, mas eu o empurro delicadamente.
— Me deixe despir você. – Digo enquanto tiro o cinto com a espada de sua cintura. Ele me olha excitado. Acaricio seu peito largo e musculoso, me coloco as suas costas enquanto beijo e mordo seu pescoço e orelha. Vou tirando a roupa de couro que realça seus ombros largos. Com os braços voltados para trás presos pela roupa, ele está indefeso, distraído e totalmente extasiado; é a minha chance. Num rapidíssimo movimento eu enrolo seus braços, mãos e pescoço com a corrente de Hefesto, por fim travando a corrente com uma adaga cruzada entre os elos.
— Xena, o que é isso? – Surpreso Ares esbraveja. Imediatamente seus olhos se tornam duas brasas. Ele tenta em vão se libertar, mas a corrente resiste as suas tentativas.
De repente o local escureceu, uma névoa encheu o ambiente, vi formas semelhantes a formas humanas, que se moviam, diminuíam ou aumentavam. Então naquele espaço onde havia apenas uma névoa surgiram sucessivas paisagens, vales, colinas, rios, florestas, e num local distante, vi a aldeia amazona. A cabana de cura, Ephyni e Eponin junto à cama de Gabrielle. Era tudo tão real que podia ouvir suas vozes:
“Estou morrendo ..., avise Xena.” – Era a voz de Gabrielle.
“Não..., você não vai morrer, ela não vai deixar, está me ouvindo?!” — Ephyni responde.
Eponin entra na cabana de cura.
“Diga que..., a amo.” – E Gabrielle fecha os olhos.
As palavras de Aphrodite ecoaram na minha cabeça: “... redobre o cuidado com Ares, ele é traiçoeiro e ardiloso. Pode usar muitos métodos de ilusão para te persuadir ou aterrorizar”.
De repente a névoa se transforma numa nuvem escura que se estendeu pelo ambiente, e numa nova visão identifiquei aterrorizada a presença implacável de Celesta pairando sobre a aldeia.
Um indescritível horror tomou conta de mim de tal forma que cheguei a esquecer de Ares com seus olhos luzindo um brilho infernal. Naquele rosto somente se distinguiam os olhos. As chamas vacilantes dos castiçais apagaram-se. Uma terrível malignidade emanava daqueles olhos. Tudo mais em volta era negro, indistinguível. No ar pesado sentia-se um ódio terrível e ameaçador, quase palpável. Um arrepio gelado percorreu meu corpo. Senti dor como se garras estivesse perfurando meu peito, querendo atingir meu coração.
Buscando forças em minhas entranhas me concentrei em Gabrielle. De repente senti como se o tempo tivesse parado. “O amor é a força mais poderosa que existe”. As palavras de Aphrodite ecoavam na minha cabeça.
As recordações das mútuas juras de amor que fizemos; as trocas de carícias, de olhares, as noites de entregas de corpo e alma entre nós; as aventuras que vivemos, o companheirismo, a amizade. O sorriso meigo com aquele jeitinho de enrugar o nariz, a luz de bondade que emana de minha doce Gabrielle... – Minha cabeça latejava. As lembranças passavam assustadoramente rápidas frente aos meus olhos, e aos poucos uma luz suave foi se tornando mais clara, espalhando-se pelo ambiente. De repente uma luz prateada pareceu penetrar na minha mente e senti como se rompesse uma forte cadeia. Por segundos tive um intenso sentimento de felicidade que só encontrava nos braços de Gabrielle.
As chamas voltaram a acender, iluminando a grande caverna. Ares continuava tentando se libertar da corrente, praguejando e me maldizendo a cada instante:
— Sua vadia, você me enganou, isso não vai ficar assim Xena! Você vai pagar caro por isso! VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR SALVAR GABRIELLE! – Ares esbravejava. A poderosa voz ecoava no teto da caverna como se quisesse alcançar o Olimpo.
Sem dar importância a fúria do deus, pego a pele de carneiro e corro para fora do templo. Chamo por Argo que me aguardava pastando tranquilamente a certa distância. Monto de um salto e disparo pela estrada; sussurro para mim mesma pensando em Gabrielle: — Aguente meu amor, estou indo.
Agora meu pior inimigo é o tempo, tenho que correr, pois a vida de Gabrielle está se esvaindo e Ares não continuará preso por muito tempo e sua fúria só será aplacada com vingança.
........... O ataque.
O vento estranho trazia uma sensação de vazio. Não era agradável como costumava ser nessa época do ano. Voltando-se para os guerreiros, Ares encarava os homens com um olhar que parecia atravessar seus corações, um olhar carregado de crueldade e frieza, que impedia que alguém o encarasse diretamente nos olhos.
Muitos que estavam ali queriam apenas os frutos dos saques, mas outros estavam lá com a intenção de matar e estuprar. O cheiro de sangue atraía muitos aventureiros e o exército de Gasgar estava repleto deles.
Uma guerra se justificaria pela ganância, pela conquista, pelo poder, mas Gasgar não entendia por que tinha sido convocado pelo deus da guerra para essa batalha. Eram somente mulheres, uma aldeia sem riquezas que justificassem uma invasão.
Gasgar se aproxima e diz: — Estamos prontos Lord Ares.
Com os olhos flamejantes de ódio, Ares olhou para o homem com bastante atenção de cima a baixo; com um tom arrogante e malicioso diz apontando na direção da colina: — Eu quero todas as amazonas mortas! Quero que a nação amazona desapareça da Terra e que comece por aquela miserável aldeia!
Embora receoso Gasgar perguntou: — Mas o senhor é um Deus, por que precisa de nós para isso? O senhor pode destruí-las quando quiser!
O tom de irritação na voz de Ares é assustador: — As amazonas são protegidas de minha irmã Ártemis; não poderia exterminá-las sem provocar a ira dela. Já isso acontecendo durante uma batalha, coisa tão comum entre vocês mortais, não seria um problema tão grave. Aguarde meu sinal para atacar.
E antes que Gasgar se virasse. Ares o agarra pelo pescoço com uma das mãos, pressionando sua garganta: — NÃO QUERO NENHUMA SOBREVIVENTE, ENTENDEU? NEM AS CRIANÇAS DEVEM SER POUPADAS! QUERO TUDO DESTRUÍDO!
Assustado com a fúria do deus, Gasgar afasta-se. A força de ataque foi se mobilizando, aguardando apenas o sinal do deus da guerra.
— Eu disse que você ia me pagar Xena, agora você vai carregar nas costas a culpa pela morte de todas essas mulheres e crianças. Essa vai ser minha melhor vingança. – Após sussurrar a frase para si, Ares solta uma gargalhada.
..................................................
Desconhecendo o que está para se abater sobre a aldeia, as amazonas seguem a rotina. Apesar da preocupação com Gabrielle, Ephyni cumpria com os afazeres que sua posição exigia, enquanto Eponin como segunda em comando se encarregava junto com outras amazonas em supervisionar a segurança da aldeia, armazenar e controlar as provisões para o inverno que não tardaria a chegar, além do contínuo treinamento das guerreiras. Afinal fazia parte da tradição ser um dever e uma honra lutar para manter seu território livre de invasores.
Ephyni percorria a aldeia preocupada com as notícias sobre as investidas das legiões romanas. Andar às vezes a acalmava e ajudava a clarear os pensamentos. Todas sabiam que se a tribo de Varia não oferecesse mais proteção, os territórios de toda a região ficariam vulneráveis aos invasores que se aproximavam rapidamente.
— Eponin, mande batedoras pelas colinas. Quero ser avisada de toda e qualquer movimentação estranha. – Ephyni ordena.
— Sim minha rainha. – Eponin responde e com uma reverência sai para cumprir a ordem.
O vento úmido de chuva pesada levantava as folhas do chão e sacudia as árvores. Os animais demonstravam uma estranha agitação. Os cavalos amuados se recusavam a sair do estábulo, como se pressentindo a tragédia que se aproximava.
As rastreadoras retornam sem novidades sobre Xena; como esperado os rastros da guerreira foram apagados pelas chuvas. Mas trouxeram outra notícia aterradora. O exército de Gasgar, conhecido Senhor da Guerra, estava rumando na direção da aldeia, e chegaria mais tardar ao amanhecer do segundo dia.
Ephyni fica estarrecida com a notícia. Manda chamar imediatamente Eponin e as outras chefes guerreira para uma reunião de emergência na cabana real. A sua atenção se concentrara nas legiões romanas e agora são surpreendidas por um ataque iminente de outro inimigo aos seus portões.
........ O velocino de ouro.
Disparei pelo caminho retornando a aldeia. Aceno para a sentinela.
— XENA..., É XENA, ABRAM O PORTÃO! – A amazona avisa.
A madrugada já ia acinzentando o céu quando passei pelo portão a todo galope, as sentinelas se limitaram a me acompanhar com os olhares. Puxei as rédeas do cavalo com força obrigando Argo a parar repentinamente, pulei do cavalo e entrei correndo na cabana de cura com o velocino na mão. Encontrei Ephyni enxugando a testa de Gabrielle e a Xamã trocando a atadura de seu peito.
Gabrielle definhara ainda mais, a carne já enegrecida em volta do ferimento que continuava aberto, exalava um forte cheiro, mesmo com o ferimento limpo. Ephyni se volta surpresa com minha presença. A lembrança da imagem de Celesta sobre a aldeia acelera ainda mais meu coração. Entregando o velocino a Ephyni, falo desesperada:
— Me ajude aqui! – Tento levantar Gabrielle no colo, mas Ephyni me impede.
— VOCÊ ENLOUQUECEU? VAI MATÁ-LA! – Ephyni berra.
Com o olhar fuzilando de raiva e agonia respondo irritada: — ELA VAI MORRER SE VOCÊ NÃO ME AJUDAR! – Berro desesperada. Nesse instante Gabrielle tenta respirar, puxando o ar com dificuldade, uma golfada de sangue brota de sua boca escorrendo pelo lábio. Vejo seu corpo estremecer em convulsão.
— NÃO! NÃÃOO! – Grito e num único impulso levanto Gabrielle em meu colo, apesar dos protestos de Ephyni.
— FORRE A CAMA COM O VELOCINO, TEMOS QUE ENROLAR O CORPO DELA! RÁPIDO! – Grito em total desespero.
Ephyny estica a pele sobre a cama. Pouso o corpo de Gabrielle, enrolo a pele enquanto com a aflição consumindo minhas entranhas, aguardo alguma modificação do quadro. Os minutos se passam como milênios e ainda nada. Ephyni também aguarda ansiosa alguma novidade. Uma nova convulsão mais forte faz Gabrielle gemer. Meu desespero é indescritível, meu peito parece que vai explodir, meus músculos estão tensos ao máximo.
— GABRIELLE REAJA, POR FAVOR! – Berro no auge do desespero. Mas não vejo nenhuma reação. – VAMOS REAJA, ESTOU AQUI MEU AMOR! – Assisto impotente a vida de minha amada se esvair. Após um profundo suspiro vejo sua respiração parar.
— NÃO, NÃO FAÇA ISSO... NÃO ME DEIXE! – Grito desesperada. As lágrimas de dor, de desilusão com a vida escorrem pelo meu rosto.
Em choque acaricio seus cabelos loiros e seu rosto definhado; embalo a mulher em meu colo como se segurasse uma criança. Não veria mais aqueles lindos olhos verdes; não sentiria mais o aconchego do seu colo nem o calor do seu abraço. A realidade desaba sobre mim repentinamente, a infinita dor da perda me destrói. Entre soluços imploro seu perdão.
— Foi tudo culpa minha..., me perdoe... Eu não devia ter deixado você! – Sussurro.
Agarro aquele corpo com vontade de não o largar mais. Me entrego a um choro convulsivo. Minha alma esta vazia, meu peito dói. Grito desesperada, chamando pelo nome de minha companheira. Abraçada a ela, meu corpo se sacode em soluços intermináveis.
— AAAAHHHHH... O grito rasga minha garganta enquanto acalento o corpo de Gabrielle. Várias amazonas que entraram na cabana assistiam em silêncio a cena de meu desespero.
Com muita resistência em me separar do corpo, pouso delicadamente Gabrielle na cama e recebo o abraço de Ephyni que também chora a dor da perda da amiga.
— Sinto muito Xena, todas nós sentimos... O que você pretende fazer? — Ephyni me pergunta ainda em prantos.
Tentando conter o choro respondo: — Vou levá-la para Amphípolis..., era seu desejo se alguma coisa acontecesse com ela... – As palavras travaram na minha garganta. Após alguns instantes recuperei o fôlego. – Ela queria ser enterrada junto à minha família.
Um leve gemido chama minha atenção. Meus olhos já inchados tentam identificar a origem do gemido. Minha esperança parece renascer, olho para Gabrielle, mas logo em seguida me desiludo. Nenhuma reação.
Mais alguns instantes se passam. Estamos tão absortas em nosso sofrimento. Que não percebemos que uma leve aura vai se formando, envolvendo o corpo de Gabrielle lentamente. O pelo dourado da pele de carneiro vai adquirindo uma tonalidade cada vez mais reluzente, mais intensa, brilhando como ouro sob o sol. As amazonas recuaram com assombro e confusão estampadas em seus rostos.
A aura foi se tronando cada vez mais intensa, tremeluzindo. Eu também assistia a tudo com certo espanto.
— Huuumm... — Um novo gemido. Olho para Ephyni que também observa assustada.
— Aahhh... Humm... — O gemido vem da cama, mal acredito no que vejo. Olho para Ephyni que surpresa olha para Gabrielle.
Num profundo suspiro, como se o ar da vida enchesse novamente seu peito Gabrielle respira. Ante nossos olhares espantados, vagarosamente a fisionomia abatida vai adquirindo a suave tonalidade de pêssego, as profundas olheiras vão desaparecendo, dando lugar a uma pele clara e saudável. Seus cabelos vão adquirindo o brilhoso loiro natural. Embora seu corpo ainda esteja abatido sua pele não tem mais a cor pálida acinzentada, doentia, de alguns minutos atrás.
O velocino continua brilhando intensamente, irradiando uma energia vital em Gabrielle. Pairando no ar bem junto a todo seu peito e abdômen uma intensa luz branca brilhava e tremeluzia, emitindo pequeninos raios de cores diferentes que mesclavam entre o amarelo vivo, laranja, azul e rápidos tons avermelhados. Não entendíamos o que estava acontecendo, mas sem dúvida a vida voltava ao corpo de minha amada.
— ELA ESTÁ VIVA! – Gritei. – ELA ESTÁ VIVA! – Repito gritando de alegria, minhas lágrimas se misturam a risos de felicidade. Ephyni também comemora entre risos e lágrimas a sobrevivência da amiga.
Não tenho como descrever a sensação que me invadiu naquele momento. Senti meu sangue ferver, meu corpo todo tremia, um arrepio correu por toda minha pele, meu coração parecia que ia sair do peito de tanta felicidade, minha respiração estava acelerada, foi quando ela abriu os lindos e brilhantes olhos verdes esmeralda e sorriu para mim. Um sorriso doce como não existe igual.
— Xena... – Ouço meu nome soar como música aos meus ouvidos.
— Gabrielle..., Gabrielle meu amor. – Murmurei enquanto enxugava as lágrimas de emoção que escorriam no meu rosto.
Ela se esforça para sentar. Quis impedi-la, pois ainda estava fraca, mas ela insiste. Ajudei-a com muito cuidado. A pele de carneiro desliza de seu colo o suficiente para que se veja uma linha avermelhada como um arranhão que se formou no local onde a grande ferida fétida e enegrecida purgava alguns instantes atrás.
Mantive os olhos presos naquela maravilhosa criatura, acariciei seus cabelos, seu rosto, beijei suavemente as palmas de suas mãos. Ela ergueu os braços envolvendo meu pescoço, me curvei e a abracei com cuidado. Levantei seu rosto e a beijei delicadamente. Senti a presença de uma força estranha no aposento. Não era a mesma sensação que tinha com a presença de Ares. Era uma sensação agradável, leve, de amor, puro amor.
A névoa se formou e se desfez e um agradável perfume, já conhecido, inundou o ambiente e a deusa do amor se materializa.
— Então, aqui temos a nossa querida Barda de volta. – Diz Aphrodite com um grande sorriso. – Parabéns Xena, você conseguiu.
— Aphrodite..., eu quero te agradecer. Sem sua ajuda eu não saberia da existência do velocino. Sempre acreditei que fosse uma lenda. – Digo com alegria.
— Você foi muito corajosa minha amiga. Mas esteja preparada, Ares é vingativo, ele não vai esquecer a humilhação de perder o velocino para uma mortal. – A deusa avisa.
— Eu sei, mas foi um risco que correria quantas vezes fosse preciso para salvar Gabrielle. – Respondo emocionada.
— Eu tinha certeza que ela arriscaria a própria vida para me salvar. – Diz Gabrielle, interferindo na conversa, já visivelmente mais recuperada.
Nossa atenção se volta para ela que se recosta na cama ajudada por Ephyni.
Ephyni acaricia os cabelos de Gabrielle carinhosamente, ainda surpresa com a recuperação da amiga. – Pelos deuses..., é inacreditável! – A rainha murmura.
Olhando Gabrielle com ternura, ela beija a testa da amiga e diz: — Eu tenho que tratar de alguns assuntos muito importantes. Voltarei logo que for possível, está bem?
Ephyni se levanta da cama e se dirigindo para Xena com um profundo suspiro de alívio ela diz: – Bem, agora que o susto passou e ela está em boas mãos, tenho assuntos para tratar no conselho de guerra. – E sai acompanhada de Eponin e das outras amazonas.
........ A oferenda.
Eu achava o silêncio mais perturbador do que o som da guerra; precisava saber da atual posição do inimigo e quantos eles são. Com uma amazona me acompanhando, em velocidade máxima que nossos cavalos podiam correr, atravessamos os vales em direção às colinas onde as rastreadoras viram pela última vez o exército de Gasgar.
Era próxima a hora do pôr do sol quando chegamos ao nosso destino. Do alto da colina, ocultas pela vegetação alta, observávamos a movimentação do exército. Eles pareciam bem equipados pelo modo como se vestiam e a quantidade de armas. Pela contagem, de dez guerreiros em volta de cada fogueira, era um total de setecentos homens.
De repente sinto os pelos de minha nuca se eriçar.
— Então Xena, apreciando a paisagem? Está gostando do que está vendo? – A voz profunda do deus da guerra as nossas costas assustou a amazona, que se levanta aos tropeços e num reflexo arremessa a lança no peito de Ares, que se esquiva pegando a lança em pleno ar. No instante seguinte gira a lança e arremessa de volta com tal força que a arma atravessa o peito da amazona expondo a lâmina quase toda nas suas costas. Ela cai pesadamente sem nenhum grito.
Me levanto com rapidez empunhando a espada.
Com o cinismo habitual ele diz: — Você só adiou o destino de Gabrielle. Só que agora vou cobrar em dobro.
— Você não pode fazer isso, elas não têm nada com o que aconteceu. – Respondo tentando esconder o choque da notícia. – Eu lhe devolvo o velocino e você as deixa em paz.
Ares dá uma gargalhada e diz: – Você acha realmente que tem condições de me fazer essa proposta? Acho que você não entendeu. Eu pegarei o velocino de qualquer forma depois que tudo naquela aldeia estiver morto. Gasgar tem ordem de destruir tudo, acabar com todas elas..., mas vou ser benevolente. Somente você será poupada da chacina, quero que conviva com essa culpa!... Até breve minha cara! – E dizendo isso ele desaparece no clarão de um raio.
Tratei de sair dali o quanto antes. Montei de um salto e coloquei Argo a todo galope na estrada. Precisava avisar as amazonas. Além da superioridade numérica de armas e homens, Gasgar tem o exército mais destruidor que conheço. Será um massacre.
Argo bufava, já demonstrando sinais de exaustão. Instigo o animal: – Vamos amigo, só mais um pouco, aguente firme!
..................................................
Passo como um raio pelo portão me dirigindo para a cabana real, onde o conselho de guerra se reunia. Informo da gravidade da situação. Ephyni se recostou na cadeira, seu coração pesava. Por alguns segundos se fez um pesado silêncio.
— Atalanta, quantas guerreiras temos prontas para lutar? – A rainha perguntou.
— Em condições de lutar temos atualmente em torno de cento e cinco guerreiras, e umas vinte em treinamento, mas que estarão dispostas a darem suas vidas defendendo a aldeia. – A amazona responde.
— Não duvido das habilidades das nossas guerreiras, mas estamos em grande desvantagem e não temos mais tempo para pedir ajuda das outras tribos. – Responde a rainha.
— Quantos eles são? – Perguntou Syndia, a guerreira encarregada do treinamento das amazonas com os cavalos.
— Setecentos. – Ephyni respondeu quase num sussurro receosa da reação das mulheres.
As amazonas se entreolharam assustadas, via-se nitidamente o choque que a notícia causara. Mas Ephyni não podia esconder esse fato delas, como também não podia deixar que o medo desorganizasse a tribo. Precisava de cada amazona, de cada músculo disponível, de cada fibra de coragem.
Todas as mulheres estavam bem treinadas e algumas se destacavam em funções e armas diversas; todas corajosas guerreiras com total domínio de suas artes e cavalos. Mas seriam setecentos homens fortemente armados sedentos de sangue, com o único objetivo de exterminá-las.
Ephyni manda reunir todas as guerreiras em frente à cabana. O silêncio cai sobre o pátio. Por instantes tudo que se ouvia eram os pássaros e o vento balançando as folhas das árvores. Ephyni dá um suspiro pesado e do alto da escadaria da cabana real faz um breve discurso com a voz tensa de preocupação:
— Guerreiras..., tenho informações seguras que seremos atacadas pelo exército de Gasgar. Eles chegarão amanhã pela manhã. — E prossegue exultando a honra, a coragem e as habilidades das guerreiras; dizendo que o destino de uma rainha amazona não podia ser diferente do destino de seu povo, pois vieram todas da mesma raiz; que continuarão unidas até o fim; se orgulhava de ter convivido com todas elas, e que o orgulho da nação amazona não irá morrer, seja qual for o resultado da batalha iminente.
Todas as amazonas a ouvem em silêncio. Após alguns instantes o pesado silêncio é rompido por Eponin sugerindo que as crianças e mulheres mais velhas sejam retiradas da aldeia e mandadas para a tribo de Cyane.
— Concordo. Pois que partam imediatamente, quero todas elas protegidas longe daqui. – Ordena a rainha.
As ordens são dadas e as providências tomadas. No fundo de seu coração a rainha sabia que as que ficassem não teriam chance de sobreviver. A reunião foi encerrada, todas saíram cientes do fatal destino que as aguardavam.
Da janela da cabana Ephyni olhava o horizonte; uma suave brisa balançava as folhas. Sentindo a presença as suas costas a rainha vira-se e se depara comigo; sua fisionomia deixa clara a tensão e a tristeza. Conversamos sobre a batalha que irá acontecer. Ela me confidencia que não se importaria de morrer defendendo sua aldeia e sua terra, desde que fosse uma batalha justa. Somente com ajuda divina poderiam escapar do massacre.
— Você não é amazona, essa luta não é sua. Vá embora e leve Gabrielle com você e sejam felizes! – Ephyni diz emocionada.
— Não vou abandonar vocês e sei que Gabrielle também não vai querer sair daqui nesse momento. Temos que encontrar uma saída. – Respondo com o sentimento de culpa pesando nos ombros.
Ephyni não sabe que tudo isso está acontecendo por minha causa. Ares está certo. Carregarei durante toda minha vida o remorso pela morte dessas mulheres. Não posso deixar isso acontecer. Pela primeira vez me sinto impotente, não consigo ver uma solução. Se pelo menos tivesse mais tempo...
Arrisco uma sugestão embora sabendo qual será a resposta: — Abandonem a aldeia. No momento é o mais sensato a se fazer.
Ephyni me olha com severidade. Então responde: — Xena, eu vi muitas das minhas companheiras morrerem das formas mais terríveis que se possa imaginar no campo de batalha... Nós lutamos e sangramos por essa terra. Essa terra é o nosso legado, uma dádiva deixada por nossas ancestrais, como posso abandonar esse presente? Não existe justificativa para isso. Vai ferir o orgulho de todas elas. Como você acha que as amazonas irão me respeitar se me acovardar?!
Insisto: — Mas vocês irão sobreviver. Ephyni, vocês não tem a menor chance, eles são setecentos homens fortemente armados liderados por Ares!
— Ares? Mas eu pensei que fosse Gasgar! – A rainha exclama surpresa.
— Ele está usando o exército de Gasgar para se vingar..., olhe isso é uma longa história que não tenho tempo de contar agora. Por favor, pense..., saiam daqui, eles só deverão chegar amanhã. Vocês terão algum tempo para escapar! – Insisto.
— E você acha que eles não irão atrás de nós? Vão nos caçar como animais selvagens. Já que não temos saída, vamos morrer defendendo a nossa aldeia, a nossa terra, nossa tradição! – A rainha insiste com um brilho de coragem e orgulho nos olhos e continua: — Nossas crianças já estão a caminho da aldeia de Cyane, pelo menos elas estarão salvas para continuarem nosso legado.
Percebo que não irá adiantar insistir nos argumentos para convencê-la. Apesar da teimosia, entendo perfeitamente sua atitude. Acima de tudo ela é uma amazona e uma rainha. Sua atitude heroica será lembrada por toda nação amazona.
Mesmo com toda minha experiência em batalhas, por mais que eu tente, não consigo pensar numa defensiva com sucesso com tanta desvantagem. Ironicamente me lembro das suas próprias palavras: “... desde que fosse uma batalha justa. Somente com ajuda divina poderemos escapar do massacre”. A frase estala em minha cabeça: JUSTIÇA! — É isso.
Como uma última tentativa desesperada de salvar todas as amazonas, penso numa estratégia louca que se der resultado poderá pelo menos temporariamente atrasar o ataque, e dará um tempo precioso para pedir reforços.
— Reúna suas guerreiras e se preparem. Enquanto isso, tentarei falar com Aphrodite.
Ephyni me olha espantada e confusa: – Xena, você enlouqueceu? Estamos prestes a ser massacradas e você vem falar de deusas? E Aphrodite vai ajudar em quê?
— Ephyni não temos tempo para pedir reforços nem guerreiras suficientes para enfrentar o exército de Gasgar. Ainda mais comandados por Ares. Não custa nada tentar uma ajuda divina, como você mesmo disse. É uma chance em mil, mas só vamos saber se tentar! – Digo, enquanto observo o olhar incrédulo de Ephyni. – Eu não abandonarei vocês. Eu voltarei. Confie em mim! – e corro para a cabana de cura onde está Gabrielle.
........ O confronto dos deuses.
Nenhum tom cinza ainda tinha surgido no céu. Está frio, mas isso não parece incomodar as sentinelas. Do alto da paliçada elas observam e aguardam. Uma faixa cinza começa a clarear o horizonte. Toda aldeia estava alerta, as amazonas em seus postos esperavam tensas em silêncio.
Era a hora. O cinza da borda do mundo clareou. O silêncio era assustador. Era como se ninguém morasse naquelas terras, os pássaros, os animais, o vento, tudo estava quieto.
— Está vendo aquilo? – Diz Syndia apontando para um ponto no horizonte.
Atalanta apertou os olhos. Havia realmente algo ao longe meio sem definição. Aos poucos, formas humanas às centenas, muitos a pé e outros três que pareciam serem os líderes a cavalo; cavalos estes com símbolos nas testeiras do exército de Gasgar. Uma linha imensa se formava na colina. Os homens brandiam seus escudos e de armas em punho urravam em honra de Ares sobre o que estavam prestes a fazer. Após avistarem a aldeia os homens pararam a marcha.
Berrando alto o alerta é dado pelas sentinelas amazonas.
— Arqueiras, tomem suas posições! – Eponin grita e corre com seu pelotão para os andaimes atrás da paliçada da entrada se posicionando nos espaços estreitos entre as toras de madeira, onde cabiam seus braços e arcos.
Genora corria com outra parte das guerreiras para posições estratégicas. Armadas com suas lanças se sentiam preparadas para a batalha, mas não totalmente convencidas de que teriam sucesso. A simples visão da linha de guerreiros enfraqueceu a coragem de muitas naquele instante.
De repente a frente de ataque silencia e se abre ao meio formando um gigantesco corredor humano, dando passagem ao mais perfeito corcel que as amazonas já tinham visto. Sua pelagem parecia resplandecer na luminosidade matinal. Um cavalo negro, imponente, maior que os outros. Parecia ter uma natureza feroz que nenhum ser humano seria capaz de montar, e no seu dorso o temido deus da guerra. O belo animal parou no topo da colina, raspou as patas no chão e relinchou.
Ares observava atentamente a aldeia, se deliciando com a visão antecipada do massacre. O deus fez o cavalo empinar demonstrando sua altivez e arrogância. Num repentino gesto ele desembainha a espada e ordena o ataque.
No alto da paliçada, com terror nos olhos Ephyni vê quando a primeira leva de guerreiros corre em direção ao portão grosso de madeira. As mulheres escoraram o portão a fim de impedir que se quebrasse. Do outro lado se ouviam os berros irados dos guerreiros usando o máximo de suas forças para atacar o portão com um aríete.
As flechas amazonas cruzavam o ar conseguindo derrubar muitos homens, mas não tinham flechas suficientes para todos que atacavam a paliçada. As baixas causadas pelas amazonas pareciam irritar ainda mais os guerreiros que tomados de fúria se lançavam com toda força contra o portão.
Uma segunda leva de homens desceu a colina atacando pelo lado sul tentando escalar a paliçada. Genora e suas lanceiras que até então se mantinham abaixadas nos andaimes atrás da paliçada, surgem de repente, transpassando com suas lanças os peitos e gargantas de muitos guerreiros desprevenidos, fazendo-os cair como sacos de trigo na terra. Genora não queria acreditar no que via. Outra leva mais numerosa vinha em sua direção com uma fúria avassaladora. Elas não tinham lanças suficientes para todos que despontavam na colina.
As flechas cruzavam o ar causando baixas em ambos os lados. Ephyni encorajava as guerreiras do alto da paliçada se expondo perigosamente na batalha; notou que o deus sobre o cavalo negro, ordenou algo a Gasgar, apontando para os lados leste e oeste da aldeia, que eram os mais desprotegidos. Agora as forças de ataque sentiram seu ânimo renovado quando viram a paliçada sendo cercada e a catapulta sendo posicionada na direção da aldeia.
A catapulta é armada e abastecida com um barril com óleo. Ao comando de Gasgar o barril é lançado acertando a paliçada próxima ao portão, esparramando óleo; mais outro barril é arremessado, dessa vez atingindo o ponto da cerca onde estava Eponin e suas arqueiras. Outros barris foram lançados, mas propositalmente ultrapassavam a paliçada e caiam sobre as cabanas e o estábulo destruindo e esparramando óleo, deixando os animais agitados. As seguidas flechas incendiárias acabavam por acertar os alvos. Rolos de fumaça negra começavam a subir juntamente com as chamas.
As flechas incendiárias foram se cravando nas toras da paliçada encharcadas de óleo. A madeira começou a esquentar; o fogo e a fumaça criou uma neblina sufocante nos dois lados da paliçada. Ares avaliava a luta do alto da colina com um grande sorriso de satisfação.
Ephyni e Eponin sabiam que agora era apenas questão de tempo para que a aldeia fosse invadida, e seus destinos e de suas companheiras fossem selados. Tinham feito todo possível para defender sua terra. Mas apesar de estarem sentindo a morte pairando sobre a aldeia, continuariam lutando até a última amazona.
O barulho agora era ainda mais ensurdecedor. Os homens conseguiam berrar de maneira a intimidar e trazer pânico, o que começava a funcionar, aliado ao caos que se formou com os incêndios e os animais em pânico. Algumas mulheres começaram a tremer, com medo, mesmo sabendo que não deveriam fraquejar.
A catapulta é novamente armada e mais um barril é lançado. Mas para surpresa de todos, com um estrondoso barulho ele explode em pleno ar derramando o óleo sobre os guerreiros, assustando grande parte dos homens que correm para evitar contato com as chamas e serem queimados vivos.
Gasgar manda repetir a carga e nova explosão no ar. Os homens se entreolham confusos e se afastam correndo da paliçada. O pânico e o caos se instalam entre os homens. A fisionomia do deus da guerra se contrai. Com o olhar em brasa, ele olha em torno. Ele sente que não foi um acidente, algum poder provocou as explosões.
Gasgar e seus dois subcomandantes se entreolham confusos. Procurando uma explicação, o senhor da guerra questiona o deus: — Lord Ares, o que está acontecendo?
..................................................
— Piissss. – Com o dedo junto aos lábios faço sinal para Gabrielle pedindo silêncio. Sem falar nada, apontei na direção da aldeia que estava a certa distância. Da clareira no bosque, esgueirando-me entre as árvores, caminhei agachada, seguida por Gabrielle. Conforme nos aproximávamos podíamos ouvir mais nitidamente vozes de homens e mulheres misturadas numa confusão de gritos irados e explosões.
— Pelos deuses... Xena, elas estão sendo atacadas, nós temos q... – dizia Gabrielle quando a interrompi. – Quieta! – sussurei.
— Mas nós não podemos... – Gabrielle insiste.
— Veja, o reforço chegou! – Digo com entusiasmo.
Como surgidas do nada, dezenas..., centenas de guerreiras usando armaduras prateadas surgiam do bosque. Arqueiras, lanceiras e espadachins investiram com fúria e destreza impressionantes contra os apavorados homens de Gasgar, dispostas a produzir o maior número de baixas possível. Numa elevação do terreno junto à divisa do bosque surge uma mulher de porte altivo se destacando sobre todas as outras; com reluzente armadura dourada, empunhando lança e escudo. Usava uma placa peitoral que protegia seu busto onde se via marchetada com detalhes a coruja, símbolo de Atena. Embora o elmo protegesse sua cabeça, seu belo rosto, porte e armadura foram facilmente reconhecidos pelo deus da guerra.
Uma intensa chuva de flechas atingia os fugitivos de volta a colina sem piedade, não havia lugar para se abrigarem, Todos os homens da força de ataque se dispersam ignorando as ordens de seus comandantes. Os homens iam caindo tropeçando nos cadáveres de seus companheiros.
Ares volta-se para os três homens com o olhar faiscando de ódio e sem dizer nenhuma palavra, numa explosão de fúria com uma agilidade assustadora, girando a espada no ar decepa a cabeça de um dos subcomandantes que cai pesadamente no chão se debatendo e ensopando a terra de sangue.
Gasgar e o outro olham estupefatos a cena e cada vez mais confusos. O poderoso berro de Ares estremece as entranhas dos dois homens. – SEUS IMBECIS, VOCÊS NÃO SÃO CAPAZES DE ACABAR COM ESSAS MISERÁVEIS?
Gasgar faz o cavalo retroceder alguns passos e gaguejando, temeroso de ser a próxima vítima da fúria do deus disse: — Ma... mas Lord Ares, estava tudo indo bem e de repente..., aconteceu tudo aquilo. Não entendemos o que aconteceu!
A deusa de olhos cinza penetrantes encarou Ares, que mesmo à distância sentiu o poder daquele olhar. Com a fisionomia apreensiva Ares sinaliza para a deusa uma trégua.
Atena por sua vez erguendo a lança, gesto que é obedecido quase imediatamente pelas guerreiras, suspende o ataque. Os ânimos de ambos os lados se acalmam. Ares desce a colina galopando.
..................................................
— Olha mana, não é por nada, mas pode me explicar o que você está fazendo aqui? Pelo que sei Ártemis é que protege as amazonas e não você. — Ares pergunta com seu tom sarcástico habitual.
O olhar penetrante de Atena deixa o deus da guerra desconcertado. Alguns instantes se passam antes que a deusa responda: — Você está querendo exterminar essas mulheres para satisfazer um capricho tolo; para vingar seu orgulho ferido. Isso eu não vou permitir.
A fisionomia de Ares se transforma numa máscara de raiva. – ISSO NÃO É ASSUNTO SEU! – Ele exclama rispidamente.
Sem se alterar a deusa responde: — Engano seu. É assunto meu a partir do momento em que você quer matar injustamente todas essas mulheres.
Ares tenta a todo custo conter a fúria que revira seu ser. Seus olhos viram duas brasas vivas. Ele cerra os punhos com tal força que minúsculas chamas escapam entre seus dedos. Sem qualquer alteração Atena o observa soberana de seu poder, sabendo que ele não se atreverá a enfrentá-la.
E arrogante ela ordena: — Retire o exército e seu Senhor da Guerra daqui e as deixe em paz.
Ares inconformado com a situação, ainda arrisca um argumento: — Eu vim aqui buscar uma coisa que me pertence, que foi roubado de meu templo!
— Você está usando o velocino como desculpa para sua vingança. Só que essas mulheres não vão pagar pelos seus problemas pessoais mal resolvidos. – Responde a deusa e continua: — E além do mais o velocino não lhe pertence mais, ele me foi oferecido.
A notícia atingiu Ares como um raio enviado por Zeus. Instantaneamente compreendeu que novamente ele foi enganado por uma mortal, mas não uma mortal qualquer, uma princesa guerreira.
Ares olha na direção do bosque, como procurando alguém que estivesse escondido na escuridão, observando sua derrota. Aos poucos o rosto do deus dá lugar a um sorriso de lado, como se estivesse debochando de si mesmo.
Ele monta no corcel negro e retorna para a colina onde os sobreviventes e Gasgar o aguardavam. O deus ordena que abandonem o ataque. E voltando-se para a aldeia num imenso clarão ofuscante ele e o cavalo desaparecem.
A batalha está encerrada. Atena ordena que as mulheres feridas sejam levadas ao seu templo para que sejam tratadas. Com o velocino as curas se tornarão mais fáceis e rápidas, e as que foram mortas na batalha, após serem homenageadas, que seus corpos fossem queimados numa pira. E assim foi feito.
..................................................
As amazonas observam atordoadas o encontro dos deuses. Quando tudo parecia perdido Atena surge e se pôs a defendê-las. Mas por quê? O que a deusa da sabedoria estava fazendo ali? — Ephyni se questionava.
As amazonas vão aos poucos se agrupando no andaime da paliçada do portão. Com certo alívio elas assistem os guerreiros fugirem colina acima. Mas ainda não sabiam se deviam comemorar o fato.
Com a certeza que a luta terminara, Eponin e Genora começam a organizar grupos para socorrer as guerreiras feridas e recolher os corpos das companheiras mortas, enquanto Atalanta e Syndia junto com outras amazonas tentam combater o fogo que se espalhara.
........ Um plano, uma tentativa, um acordo.
Embora visivelmente mais recuperada, mas ainda sem se levantar, Gabrielle não deixa de perceber o alvoroço na aldeia, sem entender o que está acontecendo ela pergunta a Xamã, mas antes que a mulher possa responder, eu entro correndo na cabana.
— Vamos Gabrielle! – Digo enquanto enrolo apressadamente o velocino.
— Xena o que está acontecendo? – Gabrielle pergunta aflita.
— É preciso que você venha comigo! – Respondo apressadamente sem dar explicações.
Ela percebe minha aflição e repete a pergunta. Com certa relutância respondo: — A aldeia vai ser atacada pelo exército de Gasgar.
— O quê? E você quer que eu abandone essas mulheres? – Gabrielle me responde surpresa, tentando se erguer.
— Gabrielle não tenho tempo de explicar, é uma ideia louca, uma tentativa de evitar um massacre. Não quero correr o risco de te perder e preciso da sua ajuda. – Digo enquanto a ajudo a sentar-se na cama.
— Xena eu não vou embora, não vou abandonar minhas amigas! – Gabrielle diz com tom decidido.
Segurando-a pelos ombros, encaro seus olhos e digo: — Estamos perdendo tempo, não discuta, você vem comigo sim! No caminho eu explico. – E repito: — Preciso de sua ajuda.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A loira insiste: — Xena não estou te reconhecendo, você nunca fugiu de uma batalha, o que está acontecendo com você?
A frase dói no meu íntimo, tento não demonstrar meu desconforto, mas não quero expor os motivos da chacina que está para acontecer.
— Gabrielle, por favor, me ajude a tentar salvar essas mulheres! Precisamos falar com Aphrodite. – Respondo enquanto seguro suas mãos entre as minhas.
— APHRODITE?..., mas... — A loira exclama espantada, mas interrompendo a frase me encara pensativa; vejo a dúvida no seu olhar. — Pelos deuses Xena, espero que você saiba o que está fazendo.
Eu a ajudo a se levantar, agasalho seu corpo com uma manta e nos encaminhamos para o estábulo. Ephyni nos vê do alto da cabana real. Ela desce os degraus e nos encontra quando estávamos passando próximas a escadaria.
— Adeus amigas, sejam felizes! – A rainha diz com ar de desapontamento e os olhos marejados.
— Não será um adeus rainha! — Digo com firmeza.
Inexplicavelmente sentia uma centelha de esperança que meu plano desse certo. E com Gabrielle acomodada na garupa, puxo as rédeas conduzindo Argo para os portões da aldeia, e seguindo caminho a fora, nos embrenhamos no bosque.
Cavalgamos até a clareira no meio do bosque. Gabrielle olha admirada o lugar. Os raios de sol passavam por entre as folhas sacudidas pelo vento. Sentia o mesmo ambiente acolhedor quando fui pedir por Gabrielle.
— APHRODITE! – Chamo. Alguns instantes se passam sem resposta. Repito o chamado em tom mais alto e nada; se ouve apenas os pássaros e o canto do vento nas árvores.
Insisto, mas não tenho sinal de sua presença. – APHRODITE! – Agora é Gabrielle quem grita por ela. Esperamos por muitos minutos sem qualquer sinal da deusa. Insistimos mais algumas vezes, mas os deuses são imprevisíveis.
Olho para Gabrielle com certo desapontamento; minha tentativa falhara. Com o coração apertado abraço minha amada aconchegando sua cabeça em meu peito.
— Me perdoe, eu falhei com você e falhei com nossas amigas também. Eu vou voltar para a aldeia e ajudar no que for possível. Não quero que volte comigo. Salve-se! – Digo murmurando.
— Nunca! Não vou te abandonar! Xena, você é o meu caminho. Eu te amo. Se for para morrer, vou morrer do meu modo. Estarei sempre ao seu lado. – Gabrielle responde emocionada.
Olhando seu rosto vejo lágrimas escorrerem. – Obrigada Gabrielle! – Digo também emocionada.
— Por quê? – A loira pergunta.
— Por fazer parte da minha vida. Quando eu estive para desistir de tudo; desistir da vida, você apareceu iluminando meu caminho de volta. — Respondo.
Os gostos de nossas lágrimas se misturam nos nossos lábios que se encontram num profundo e apaixonado beijo.
— Ai que lindo! – A frase nos interrompe.
— APHRODITE, onde você estava? Estamos te chamando a horas! – Gabrielle exagera.
— Ah amiga, estava me divertindo um pouquinho. Afinal os deuses não são de ferro. – murmurando ela diz para Gabrielle: — Menina você tem que ver o novo sacerdote do meu templo em Pafos. Ui, chega dar falta de ar de tão lindo!
— APHRODITE, eu não acho que esse assunto interesse Gabrielle. Além do mais tem um assunto mais urgente e precisamos de sua ajuda. – Digo interrompendo a deusa.
— Aahh, Xena você é uma estraga prazer hein?! – A deusa reclama.
Gabrielle interfere. – Aphrodite, depois conversamos está bem? Por favor, escute o que Xena quer falar.
— Ai, ai. Está bem sou só ouvidos. – A linda deusa responde sentando-se sensualmente sobre uma pedra.
— Eu preciso falar com Atena urgente. – Digo firmemente.
— Atena? – A deusa pergunta surpresa. – Posso saber por quê?
— Eu tenho uma proposta para fazer e acredito que ela vai se interessar. Como não somos adoradoras dela, não seríamos atendidas em nossos chamados. Então estamos pedindo uma ajudinha de nossa deusa favorita. – Respondo instigando a vaidade da deusa.
Aphrodite me olha desconfiada, como querendo adivinhar meus pensamentos. Por fim ela diz: — Está bem, eu vou falar com ela, mas não garanto nada, ela tem um gênio muito difícil. – E numa névoa rósea brilhante a deusa some, deixando um agradável aroma de rosas no ar.
Ando impaciente de um lado para outro aguardando a resposta, as horas se passam, a demora me aflige. O sol começa a se por; as sombras do crepúsculo chegavam junto com os cantos dos animais noturnos. Até que numa intensa luz no centro da clareira surge Atena. Os olhos cinza da deusa me encaram com frieza.
— Aphrodite disse que você quer falar comigo. – A voz firme da deusa e seu porte imponente realmente impressionam e intimidam.
— Quero lhe fazer uma proposta. – Digo sem me deixar intimidar pelo seu olhar.
Ela olha Gabrielle que segura o velocino e que desconcertada pelo olhar penetrante de Atena, baixa os olhos. Sem maiores rodeios começo a explicar minha proposta. Percebo o brilho de interesse nos olhos da deusa. E o acordo é fechado.
........ Retornando à aldeia.
Paramos a uma distância segura o suficiente para assistir o momento em que os dois lados que guerreavam fizeram a trégua. Observando toda a movimentação até o momento em que Ares desapareceu.
Na colina e próximo à aldeia ainda se viam os corpos dos homens de Gasgar espalhados, quando retornamos. Aceno para a sentinela que me reconhecendo berra avisando a rainha.
— XENA..., É XENA E GABRIELLE, ABRAM O PORTÃO! – Ephyni ordena. – As amazonas correm para obedecer a ordem.
Após o ritual fúnebre das guerreiras amazonas, onde os cânticos de lamentação e as danças homenageiam as mortas e seus corpos são queimados em uma pira erguida em frente à cabana real, e com os incêndios já apagados, começava a avaliação dos estragos e a remoção dos escombros. Imediatamente Gabrielle se propôs a ajudar na cabana de cura e eu me ofereci para ajudar na reconstrução das cabanas.
Os trabalhos se estenderam até a claridade do sol não existir mais. Era hora da refeição, numa grande e improvisada mesa colocada no pátio da aldeia estavam servidos leite, mingau de aveia e frutas da estação. As mulheres comemoravam a derrota de Gasgar. Eu, Gabrielle, Ephyni e Eponin estávamos nos alimentando sentadas à mesa da cabana real. A tensão dos últimos dias tinha desaparecido. Inevitavelmente a conversa rumou para a batalha recém-travada.
— Agora que tudo passou, eu confesso a vocês que não acreditava que fossemos sobreviver. – Diz Eponin numa certa altura da conversa.
— E falando nisso, confesso que fiquei aliviada, mas não entendi por que Atena surgiu para nos defender. Nunca invocamos sua proteção, nem lhe fizemos oferendas. Sinceramente fiquei muito surpresa. – Diz Ephyni servindo-se de uma fruta.
Eu e Gabrielle trocamos um olhar de cumplicidade que foi percebido pelas duas amazonas.
— Vocês estão nos escondendo alguma coisa? – Questiona Ephyni desconfiada. – Xena, o que aconteceu?
Com rodeios sobre o assunto, pequenos sorrisos e olhares, Gabrielle e eu cada vez mais nos divertíamos instigando a curiosidade das duas mulheres. Por fim comecei a explicar:
— Ephyni, lembra-se que você falou que não se importaria de morrer defendendo sua aldeia, desde que fosse uma batalha justa e que somente com ajuda divina poderiam escapar do massacre? – Perguntei.
— Lembro sim. E você disse que ia falar com Aphrodite. Imagine só, o que a deusa do amor tinha haver com isso. – Ephyni responde ensaiando um sorriso irônico.
— Pois saiba que teve muito. Foi ela quem trouxe Atena até nós. – Respondo.
As amazonas se entreolharam surpresas e curiosas. – Como assim? – Eponin pergunta.
— Atena não é apenas deusa da sabedoria. – Gabrielle explica. – Ela também é conhecida como deusa da guerra, da estratégia em batalha, da justiça e da habilidade.
— Ela é imbatível na guerra, nem mesmo Ares é páreo para ela. O que seria mais justo que o deus da guerra ser enfrentado pela deusa da guerra. Então apelei para seu sentido de justiça. Contando o que ela precisava saber. – Digo completando a explicação de Gabrielle e continuo: — E também lhe propus um acordo. Em troca de sua ajuda, lhe daria o velocino.
As amazonas escutavam atentamente. – Agora tudo começa a fazer sentido. – Eponin exclama.
Por instantes Ephyni baixou os olhos pensativa e disse: – Você entregou o velocino para nos salvar.
— As vidas de todas vocês são mais importante para nós. Além do mais qualquer mortal que fique com o velocino, será constante alvo de Ares. – Diz Gabrielle segurando as mãos de Ephyni que emocionada agradece as duas mulheres.
........ A despedida.
Seguindo o ritmo do trabalho diário, nos empenhávamos na reconstrução da aldeia; até as amazonas feridas insistiam em ajudar nos trabalhos que lhes fosse possível. O berro de uma sentinela no alto da árvore desviou a minha atenção e de algumas mulheres de seus afazeres.
— RAINHA! – Chamou a sentinela.
— O que foi? — Respondeu Ephyni, olhando para o alto da árvore.
— Vejo pessoas se aproximando rapidamente! – Responde a sentinela.
— Consegue identificá-los? – Perguntou a rainha temerosa do retorno de Gasgar.
— Ainda não, senhora! – A amazona responde.
Contrariada com as informações vagas eu e Eponin subimos na árvore forçando a vista para o fundo escuro no fim do bosque. Conforme a visão se acostumava, vimos que a sentinela tinha razão, pessoas se aproximavam, mas não tinham a cadência de um exército.
Estreitando os olhos, Eponin reconheceu as vestes da tribo de Cyane. Grita por Ephyni e desce da árvore para recebê-las. Eram dezenas de mulheres.
— Sou a rainha Ephyni. Eu as saúdo irmãs. – Disse fazendo o gesto de saudação amazona.
Respondendo a saudação, a amazona se apresenta: – Sou Samsara, a segunda em comando na tribo da rainha Cyane. Ela manda sua saudação. Viemos oferecer nossa ajuda. Nossas batedoras nos informaram que sua aldeia tinha sido destruída. A partir de agora estamos sob seu comando, rainha Ephyni.
— Quantas vocês são? – Pergunta Ephyni ansiosa.
— Quarenta, minha rainha. – Responde a amazona.
— Nossas crianças estão bem? – Pergunta Genora ansiosa.
— Fiquem tranquilas, as mulheres e crianças estão todas bem. Retornarão a sua aldeia logo que a rainha desejar. — Responde Samsara, se dirigindo a Ephyni que sorri com alívio, agradecendo a valiosa ajuda.
As amazonas são calorosamente recebidas e após um breve descanso se colocam a trabalhar sob orientação de Eponin. A paliçada foi refeita e reforçada com novas toras; sólidas pedras formavam um segundo muro colado a ela. As cabanas, o estábulo tudo foi refeito. E assim, mais alguns meses se passaram de intensos trabalhos. Até que a reconstrução é dada por terminada.
..................................................
As amazonas se despedem retornando a sua tribo de origem. Também é chegada nossa hora de partir.
— Vocês têm certeza que não querem ficar conosco? – Ephyni nos pergunta.
— Obrigada amiga, mas essa vida não é para mim. Não chegou a hora de me assentar, ainda temos muito mundo a percorrer. – Respondo.
Me despeço com um abraço apertado na rainha e em Eponin. Monto e me inclino ligeiramente, segurando firme o braço de Gabrielle que sobe na garupa de Argo; acomodando-se, ela abraça minha cintura.
— Gabrielle..., você não quer um cavalo? — Eponin pergunta.
— Não obrigada, estou bem aqui! – Gabrielle responde com um alegre sorriso se agarrando com mais força a mim.
Todas sorrimos. Mexo nas rédeas conduzindo o cavalo para o portão; numa breve parada acenamos nos despedindo novamente. Cruzamos o arco e seguimos cavalgando tranquilamente pela estrada que nos levará a novas aventuras.
— Para onde vamos agora? – Gabrielle pergunta.
— Hum..., que tal irmos para Atenas, soube que Safo irá se apresentar por lá. O que acha? – Respondo sorrindo, pois já sei qual será a resposta.
Gabrielle solta um gritinho de alegria, e olhando por sobre o ombro vi naquele pequeno rosto surgir o mais lindo e perfeito sorriso que poderia existir. Agarrando-se mais ainda ao meu corpo, ela disse: — Xena te amo, te amo muito. Nunca imaginei que amaria alguém desse jeito. Nunca me deixe!
Senti meu coração prestes a explodir de felicidade de saber que meu amor era correspondido com a mesma intensidade. – Sua bobinha..., eu nunca te abandonarei, nem a morte irá nos separar, eu prometo! ... Mas mudando de assunto, que tal um banho de cachoeira antes de chegarmos à Atenas? Temos uma longa estrada pela frente, o dia está quente e você me parece já recuperada..., eu conheço uma próxima daqui, que tal?
Gabrielle percebe o brilho de desejo no meu olhar. — O que é isso? – exclamou fingindo indignação. – Controle-se!
— Eu não disse nada... – Digo com um sorriso malicioso.
— Humrum, sei... Mas sabe que você tem razão?! O dia está quente e eu já estou me sentindo bem, mas posso ficar melhor ainda. – Gabrielle responde se aconchegando de tal maneira que sinto seus seios pressionando nas minhas costas. Esse contato causa uma sensação muito agradável em nós duas.
— Argo! Lembra-se daquela cachoeira a menos de meia milha daqui? Pois você vai ganhar quatro maçãs se chegarmos lá antes do meio dia. – Digo brincando.
Gabrielle completa: — Argo, se você chegar lá antes do meio dia vai ganhar uma cesta de maçãs!
Não são necessárias mais palavras. Instigo meu amigo que dispara pela estrada. Chegando ao local uma deslumbrante cachoeira nos convida para um gostoso banho. Tiramos todas as roupas apressadamente e mergulhamos. A sensação da água fria na pele é ótima, mas sentir a pele de Gabrielle encostando-se em mim é indescritível.
Delicadamente minhas mãos deslizam para os seios de minha amada, apalpo-os sentindo os mamilos já rígidos. Mordo delicadamente seu pescoço; subindo até a orelha, enfio a língua quente e ávida na orelha dela, examinando os contornos. Gabrielle se arrepia e encolhe-se dengosamente, oferecendo seus lábios. Minha mão já deslizava pelo seu ventre examinando a cavidade de seu umbigo e já ia se aproximando dos pelos de seu sexo.
— Meninas, assim a água vai ferver. — A conhecida voz nos assusta provocando risos.
— Aphrodite, você pode nos dar licença? – Pergunta Gabrielle, um pouco embaraçada, mas num tom alegre.
— É..., por que você não vai visitar seu templo em Pafos? — Digo num tom mais sério.
— Ih, acho que cheguei na hora errada! – A deusa brinca.
— APHRODIIIITE! – Nos duas berramos simultaneamente.
— Está bem, está bem, vou saindo. Mas não me chamem nas próximas seis horas, estarei muuuiiiito ocupada. – A deusa se despede numa névoa rósea perfumada.
— Onde estávamos mesmo? – Pergunto voltando toda minha atenção para minha amada.
— Acho que vamos ter que começar tudo de novo. – Gabrielle responde com desejo no olhar e um sorriso malicioso.
Nos amamos com ardor, numa entrega total de corpos e almas se fundindo num só ser, sob o olhar de Argo enquanto pastava pacientemente esperando pela prometida cesta de maçãs.
FIM
Fale com o autor