O vazio que habita em mim
4 3.Ultima Parada
Lá estávamos nós rumo a uma cidade desconhecida, cheio de pessoas desconhecidas, apenas com as roupas do corpo e alguns trocados dentro de um ursinho de pelúcia. Nós não tínhamos mais ninguém, mamãe sendo filha única e meus avós já falecidos, nós não tínhamos quem nos ajudasse.
A viagem durou cerca de cinco dias, fazíamos paradas esporádicas para a higiene pessoal e refeições. Na maioria das vezes ou se fazia uma coisa ou outra as duas não era possível ou corríamos o risco de ficar na estrada. No caminho compramos algumas roupas simples, toalhas e produtos de higiene pessoal.
Ao desembarcarmos na rodoviária mamãe ficou um tempo parada diante daquele novo mundo, varias pessoas andavam de um lado para outro, vendendo coisas, carregando bagagens, chegando e saindo da estação, vários ônibus enfileirados em busca de passageiros para poderem seguir viagem.
Ficamos sentados por um tempo em um dos inúmeros bancos lotados de passageiros. A estação era parecida com todas as outras nas quais paramos no caminho. Um grande vão coberto de frente a uma bonita praça, era rodeada de quiosques e lojinhas oferecendo uma infinidade de coisas as pessoas desinteressadas que passavam.
Sem conhecer nada, mamãe parou em um dos quiosques próximos ao nosso banco. Era um espaço bem apertado, onde cabiam duas ou três pessoas dentro, um expositor de vidro exibia diversos produtos refrigerados prontos para o consumo. Guloseimas estavam penduradas na parte de traz, seguida por inúmeras prateleiras, em cima do balcão, uma estufa mantinha quente uma variedade de salgados de festa acompanhadas de tortas salgadas e bolos.
Atrás do balcão a atendente sorria.
— Gostaria de alguma coisa moça?
— Quanto tá o salgado e o suco? — mamãe perguntou atenta ao cardápio.
— R$ 3,00. — A moça respondeu pegando um guardanapo embaixo do balcão.
— Dois salgados e um suco por favor.
Recebendo o pedido, mamãe e eu nos sentamos para saborear nossa refeição. Enquanto comíamos sentados ao balcão a mulher nos observava sentada em um banquinho próximo.
— De onde vocês são? — ela perguntou curiosa.
— Somos do interior de São Paulo. — mamãe respondeu sem tirar os olhos de mim.
Eu estava todo sujo com o molho que escorria da coxinha que eu comia.
— Ah sim... vocês vem a passeio?
— Não senhora. Viemos para ficar.
— Hum... aqui é um lugar muito bom sabe, sem violência, assaltos ou mortes como tem pras bandas de lá. super tranquilo, vocês vão gostar.
— Eu espero que sim. A senhora sabe de algum lugar baratinho onde nós possamos ficar por uns dias?
— Sei sim minha filha. Logo ali depois daquela ladeira ali em frente virando a direita tem uma pousada baratinha, você pode se informar melhor lá.
— Muito obrigada.
Mamãe pagou a conta e me pegando no colo junto com a nossa pouca bagagem, caminhou pela rua central observando o movimento. As casas e lojas foram mudando de formas e tamanhos.
Não demoramos muito para chegar ao lugar indicado pela mulher, era um lugar simples porem aconchegante, um prédio de dois andares cujo letreiro exibia quase apagado “POUSADA” em letras garrafais vermelhas. A frente uma churrasqueira aberta crepitava, assando dois frangos inteiros, o chehiro vindo deles atraia a atenção dos cachorros de rua.
O hall de entrada exibiam duas portas metálicas abertas, dando passagem para um grande salão que servia simultaneamente como restaurante (com mesas e cadeiras brancas dispostas em uma ordem milimétrica) e mais ao fundo a recepção onde uma senhora de meia idade aguardava a nossa chegada.
— Bem vindos! – Disse ela cordialmente.
— Tem algum quarto disponível?
— Temos sim.
— Qual o valor dos quartos?
— São duas diárias, tudo muito simples, R$ 10,00 o quarto com uma cama de casal e ventilador e R$ 15,00 com TV, qual a senhora deseja?
— O quarto com TV. — Mamãe respondeu olhando para mim.
Voltando-se para traz a mulher procurou num quadro improvisado de chaves, procurou por uma que tinha o chaveiro em formato de sandália em E.V.A. saindo detrás do balcão veio até nós pegou uma de nossas sacolas e fez um gesto para que a seguíssemos. Ela nos levou até a parte lateral do restaurante, onde uma escadaria levava dava para o andar superior.
O andar superior era basicamente um extenso corredor cheio de portas de ambos os lados, caminhamos até o primeiro quarto do andar, uma plaquinha decorativa em E.V.A indicava o número 12.
— São duas chaves, — Ela disse abrindo a porta do quarto. — Essa abre o portão da escada e essa abre a porta do quarto.
Ao adentrarmos nos deparamos com um cômodo simples e sem janelas, uma cama de casal encostada na parede próxima a porta, o colchão de espuma forrado com um lençol fino, o ventilador branco desligado em cima de uma cadeira de plástico e a cima das nossas cabeças uma TV antiga pendia em hastes de ferro.
Em frente a cama uma outra abertura sem porta nos indicava o banheiro, que assim como o quarto era bem minimalista, o vaso sanitário, a pia e o chuveiro dispostos em um cubículo num piso de cimento molhado.
— O almoço é servido das 11:00 as 13:00 h, lá em baixo no restaurante, o jantar das 18:00 as 20:00 h. R$ 10,00 por pessoa. Não servimos café da manhã, mas há uma padaria aqui logo em frente, onde você pode comprar quase tudo.
— Obrigada.
Entregando as chaves a mamãe a mulher sorriu enquanto deixa-nos a sós. Por alguns instantes ficamos ali, olhando o interior do quarto. Depois de um tempo mamãe pôs para o lado nossas coisas, me chamou para perto e me abraçou como se nada mais importasse a não ser aquele momento.
— Tudo ficará bem a partir de agora. — Ela disse num sussurro audível. E pela primeira vez naquela semana mamãe se permitiu chorar. — Amanha começamos uma vida nova!
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