O trato.

1 O trato. - Capítulo Único


Meu conto começa humildemente em uma pequena cabana de madeira no meio de uma cidade em que não se vale a pena citar o nome, imagine uma garotinha, alguém que não tivesse mais de uns 10 anos de idade brincando com sua boneca de pano perto da lareira. Alice era esse tipo de garota: alguém infantil e inocente, porém, era tão pura quanto curiosa. ‘’Um bom segredo poderia lhe ajudar tanto como um velho amigo. ’’ — era sua frase predileta, sempre querendo saber o porquê das coisas, e exatamente como aconteciam.

Mas ela não contava seus segredos a ninguém, não por que era boa para isso ou talvez por que tinha medo, ela simplesmente era egoísta o suficiente para se tornar um túmulo humano. Então, em um dia triste de inverno, – um dia comum, ouso dizer — quando os ventos frios batiam a janela, e os galhos das árvores se cobriam de neve, Alice se sentou frente à lareira e começou a brincar com o fogo que saia de modo tão magnifico, ela mexia a madeira e ia acompanhando o movimento da brasa com os olhos. Porém, Alice estava tão entretida com a maneira que o fogo parecia ter vida própria na lareira que nem ao menos notou a presença da pequena espectadora que se sentou e começou a fita-la repentinamente.

Ao perceber o que havia ao seu lado, Alice parou por um momento, e curiosa, observou meticulosamente os detalhes de sua estranha companheira até que soltou uma fina risadinha:

- Boneca! – ela exclamou alegre, porém, essa se manteve inerte e a única expressão que podiam ver em seu rostinho de pano era aquele que lhe fora costurado, aquele largo sorriso tão enganoso, você nunca saberia se era verdadeiro ou não, a boneca então, em toda sua simplicidade virou a cabeça e começou a olhar a lareira, Alice não podia negar: estava maravilhada e ao mesmo tempo curiosa. – Você... Pode falar? – ela perguntou na tentativa de dissolver o silêncio.

A boneca se levantou e mesmo sendo tão pequena parecia tão grande aos olhos de Alice, ela estendeu a mão e então disse com uma voz fraca, quase como um sussurro:

- Vamos Alice... Eu tenho algo que posso lhe mostrar. – agia como uma antiga amiga, o que de fato parecia.

Os pequeninos olhos de Alice se tornaram grandes e começaram a brilhar como duas bolinhas de gude, e não conseguia pensar em mais nada que não fosse se ouvir a boneca. Elas então se levantaram e a boneca começou a guia-la pela casa. Enquanto isso falava suavemente:

- Minha querida Alice, lhe acompanho há muito tempo e sei muito bem o quanto você gosta de segredos, pois então, dessa vez, permita-me contar-lhe o meu: O maior de todos eles, você ainda não sabe.

Alice levantou a cabeça com um ar pensativo e a encarou com uma pergunta em mente ‘E... Qual seria?’, a boneca deu um risinho e por apenas um momento ela desviou os olhos do caminho.

- Sempre curiosa... Pois bem, demorou a perguntar, saiba que para todas as perguntas você pode achar uma resposta, mas saiba também que essa é à exceção da regra, algo que nem mesmo você gostara de descobrir, meu doce... Você sabe o que as pessoas carregam no coração? – Alice se espantou e se admirou ao mesmo tempo, colocou as mãos na cintura e disse:

- Oque você quer dizer com isso? – não entendia mais nada.

- Aaaah sua essência, sua doce essência... – a boneca suspirava.

Alice ficou furiosa, porém, não sentia mais medo, só o que queria agora era descobrir a resposta:

- Mas... Você ao menos sabe? Então oque está esperando? Conte-me logo! – ela ordenou enquanto andava, a boneca, no entanto, continuava calma:

- Ah menina você não sabe oque pede e nem suas consequências, por que alguém tão jovem gostaria de sofrer tanto? Sua visão não será nada bonita...

- Pouco me importa!

- Sua morte também não...

- Oque você quer dizer? Afinal, você me apareceu por algum motivo não? Por que veio aqui senão para fazer isso?

- Você tem razão... Apostei a sua curiosidade e venci, mas mesmo que queira, não suportará viver depois de descobrir o lado negro que repousa no coração do homem. – Alice, porém tinha ouvidos, mas não ouvia, estava surda a qualquer resposta que não fosse à desejada.

Antes que percebesse, as duas tinham entrado em um pequeno quartinho com paredes e pisos de madeira, uma sala toda empoeirada, um cômodo abandonado na casa, as duas então se sentaram:

- É um caminho sem volta... – a voz da boneca soava amarga, e Alice a fitou com um sorriso de canto, com o sorriso de alguém não importasse o preço, conseguiria o que queria.

Então, talvez antes mesmo que pudesse responder uma dor insuportável se dispersou pelo seu corpo e tomou conta dele, em sua mente surgiram infinitas imagens. No começo as imagens eram sobre coisas que aconteciam no seu dia-a-dia sem que ela ao menos suspeitasse: seu pai traia sua mãe, o filho do padeiro era usuário de drogas, sua mãe era maníaca depressiva, o senhor da casa ao lado pensava todas as noites em vários modos de abusa-la, a mãe de um de seus colegas era ninfomaníaca, o rapaz que passava pela rua havia acabado de matar sua namorada e sua professora tinha passado por um aborto ilegal... E as imagens iam passando por toda sua vida até mudarem para as várias coisas que aconteceram antes dela ao menos nascer, as guerras, as várias crianças sendo assassinadas sem piedade, as várias pessoas que morriam de fome, montes, pilhas e até mesmo montanhas de corpos empilhados. Estupros, roubos, prostituição, casas sendo queimadas, pessoas sendo queimadas e então ela mesmo sendo queimada. Alguém que a visse poderia descrevê-la como uma criança encolhida num canto sozinha, nada que alguém daquele lugar fosse se importar realmente, porém, seu olhar era vazio, vazio por que o que via não estava somente a sua frente, a rodeava por todos os lados e a afogava em um mar de gritos pedindo por socorro, era algo com que ela convivia todos os dias mas simplesmente se recusava a acreditar, a sua dor, não era algo que ela somente via, ela sentia em seu corpo todas aquelas pessoas sofrendo e morrendo, todas aquelas interrupções em suas vidas, e por fim.. Por fim ela não sentia mais nada.

Alice estremeceu e de repente seus olhos não tinham mais brilho algum, pela primeira vez havia se arrependido do que havia feito, então... Então tudo simplesmente parou, por que esse era o trato.

E a boneca continuava sorrindo.

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