O trabalho
1 O trabalho dignifica o homem
Notas iniciais
1.
"Eu não... eu não quero morrer sozinho... você, você sabe como é ... solitário e frio aqui... eu queria minha família... meus amigos... eu não quero morrer sozinho..."
"Calma, calma, Sr. Kruger! Eu estou aqui! Eu estou aqui."
Caroline Ellis, enfermeira formada com experiência no cuidado de idosos, teve que usar de infinita paciência e doçura no trato daquele paciente. Senhor Kruger foi internado pela família naquela instituição de asilo de velhinhos. Eles depositavam dinheiro pontualmente, mas não se davam ao trabalho de visitar seus velhos, ao menos uma vez por mês. É claro, quando havia algum problema jurídico ou financeiro, eles apareciam semanalmente, acompanhados de advogados e assistentes sociais; mas tirando isso, eles eram praticamente abandonados ali como se fossem roupa velha ou um móvel quebrado.
"Notei uma luz que passava através de uma porta apenas encostada. Entrei. Penetrei num vestíbulo onde tudo era sombrio. Tropecei em alguma coisa e caí. Levantei-me coberto de cinzas e prossegui em direção à luz.Empurrei uma porta pesada e cem vultos negros voltaram-se para mim: era uma igreja negra. "¹
Ela lia essa história de tempos em tempos. Moby-Dick era uma história cheia de reviravoltas, onde o medo do desconhecido e exótico por vezes se igualava ao medo real da luta pela vida. O paciente, para o qual ela estava lendo o livro em voz alta, estava morrendo. Seu semblante era calmo, como quem descansa de uma longa jornada. Seu olhar era sonhador, como se ele estivesse no baleeiro caçando o enorme animal, tão perigoso quanto belo e majestoso. Lentamente o velhinho fechou os olhos e adormeceu. Para sempre.
Caroline, com um misto de tristeza e susto ainda tentou acordá-lo, mas a constatação, de que seu ouvinte não pertencia mais a este mundo, lhe deu um calafrio. Ela ainda procurou ajuda, avisou sua colega e seu superior no trabalho. Ninguém deu a mínima importância. Ninguém ligou ou se comoveu. Os pertences do pobre velhinho foram parar no lixo. Isso lhe partiu o coração.
"Que coisa incrível, não? Pra todo lugar que você olha, um mundo novo está em volta de você. É como nascer de novo, ou morrer. Eu não saberia dizer a diferença."²
Luke Marshall, um jovem e atraente advogado lhe ofereceu um emprego em uma casa de família, como cuidadora de um idoso com limitações físicas. Ela a princípio pensou em desistir, pois a matrona e esposa do paciente era muito rude e antipática, mas o salário era bom, e o velhinho quase não dava trabalho. A megera resolveu aceitá-la como enfermeira e até lhe deu uma chave mestra para a casa. Luke tinha razão, ela tinha que aproveitar a vida, e nada como um novo recomeço distante daquela instituição onde a morte era bem vinda.
A única coisa que Caroline achava estranha era a crença daquela comunidade em macumba. Tá certo, isso é uma manifestação cultural, e alguns até poderiam dizer que é uma religião, mas aquilo já estava passando dos limites e beirando o ridículo, mas... se ela precisava apelar para macumba para ajudar seu paciente a melhorar, ela o faria. E foi o que aconteceu. O que é a força da sugestão, não é verdade?
No fundo ela sabia que estava apenas tomando conta de seu próprio pai, que morrera solitário, vítima de uma doença obscura, sem que ela soubesse ou pudesse se despedir dele. Seu melhor amigo e único parente. Ela via o próprio pai no frágil Ben Devereaux, o velhinho paralítico e mudo, aterrorizado e totalmente dependente dos outros. Talvez por isso ela antipatizasse cada vez mais com Violet Devereaux, pois não via nela nenhum cuidado ou ternura no trato do pobre velhinho. Ela poderia até jurar que vira lampejos de desprezo e asco por parte de sua patroa.
"Minha vó e sua vó estavam sentadas perto do fogo. Minha vó contou pra tua vó 'eu vou por fogo na tua bandeira'. Falando nisso, olhe agora! Olhe agora! Olhe agora! Iko, Iko, un-day, Jock-ma-mofee-no ai na-ne, Jock-ma-mofee-no ai na-ne."³
A música de Nova Orleans era hipnotizante, como uma macumba. Uma mistura de cântico índio, reza africana e marchinha de carnaval. No fundo era tudo feito pra enfeitiçar os visitantes. Quando você menos esperava, já estava consultando velhas macumbeiras e derramando sal na soleira das portas. Tudo era mágico, sobrenatural e encantado. O tempo parecia ter parado naquela cidade. Você se arriscava a dobrar a esquina e dar de cara com Madame LaLaurie. Por falar nisso, Violet Devereaux não ficava devendo nada a La Laurie. O que uma tinha de cruel a outra tinha de implacável. Caroline chegava a suspeitar se Madame Devereaux não havia vindo direto do século XIX para o século XXI. Mas é claro, isso era impossível.
Caroline Ellis passou seus dias cuidando do pobre idoso, lhe dando banhos, triturando seus remédios e levando-o para tomar banho de sol. Este era um trabalho monótono e cansativo, que exigia dedicação, atenção e simpatia. Sem isso ela já teria pedido demissão e se afastado daquela mulher fria e perigosa. Era uma pena que seu marido ficaria entregue a própria sorte, e quem sabe qual seria seu destino, distante de tudo e sem poder ao menos pedir socorro? Não! Caroline faria tudo ao seu alcance para protegê-lo e zelar por sua vida. Inclusive apelar para macumba.
2.
"O que há na casa que tanto me amedronta? Por que esse clima de perigo, de mal pairando no ar? Do que afinal Ben tem tanto medo?"
"Ele tem medo dos fantasmas."
"Fantasmas?"
"Sim. Os fantasmas das pessoas que já viveram nessa casa. Que cresceram, se casaram e viveram suas vidas entre essas paredes. Aqui amaram, odiaram, fizeram o bem, e também espalharam o mal entre seus convivas e agregados."
"Você conhece essas estórias dessas pessoas?"
"Antes de mim haviam dois irmãos, Grace e Martin Thorpe. Eles me venderam a casa em 1962. Pouco depois sofreram derrame e morreram. Antes a casa pertencera aos pais deles, Madeleine e Robertson Thorpe. Devido à quebra da bolsa em 29, o marido faliu. Descontrolado ele matou a esposa e se suicidou. Mas isso ainda não é o pior."
"E o que é pior?"
"Eles tinham criados negros. Alguns deles eram muito respeitados na comunidade, por serem conceituados macumbeiros: Papa Justify e sua esposa, Mama Cecile."
"Como alguém pode se tornar conceituado apenas por fazer macumba?"
"Eles puniam os maus e favoreciam os amigos. A comunidade os temia. Mas não seu patrão. Então durante uma festa, para entreter os convidados, ele acusou seus empregados de molestarem seus filhos. Não procuraram a polícia. Não procuraram ouvir suas versões do fato. Não procuraram sequer ouvir as crianças. Eles simplesmente os enforcaram e incendiaram seus corpos que ainda estavam nos estertores finais."
Caroline fez silêncio. Ela tinha uma ideia do que era viver em um ambiente, com fantasmas de vítimas de uma morte tão cruel. Logo ali, naquela enorme e velha casa. Ela podia jurar que já se sentira observada, que teve uma mecha de seu cabelo cortado. E que Ben Devereaux morria de pavor de espelhos. Não só ele, pois Violet também não se atrevia a encarar um.
A situação se precipitou quando Ben resolveu fugir de casa, se arrastando pelo chão e se jogando da janela do segundo andar. O pobre homem chegou a escrever no próprio lençol com sujeira "me ajude". Caroline ficou condoída. Ela não gostava de Violet e Ben também não. Ele tinha pavor daquela mulher.
"Eu vou levar Ben a um hospital."
"Você não vai a lugar nenhum com o meu marido."
"Você não pode mantê-lo preso aqui. Existem leis contra isso."
"Pois procure a lei. Não tenho medo delas."
"Eu não te entendo. Você não gosta dele. Ele é só um estorvo pra você. Por que não o deixa ir? Ele lhe tem verdadeiro pavor."
"Ele é meu marido. Nós iremos juntos para o túmulo. Um dia você me entenderá."
Violet Devereaux baixou os olhos num arremedo de humildade. Então os ergueu novamente, com uma expressão amistosa.
"Acredito que tenhamos começado muito mal nosso relacionamento. Afinal você me ajuda a tomar conta do homem que eu amo. Deveríamos ser amigas. Que tal uma trégua?"
"Está bem."
Não obstante sua trégua e os modos gentis de Violet, Caroline decidiu procurar ajuda para Ben. Ela procurou o advogado Luke Marshall. Ele lhe pediu provas dos maus tratos a que Ben era submetido. Essa seria uma tarefa perigosa, pois Caroline teria que revirar a casa de ponta cabeça, procurando por detalhes escabrosos e coisas escondidas. Ela precisaria descobrir o 'esqueleto no armário' de Violet. Talvez ela tivesse sucesso, mas de antemão, já podia sentir que esta tarefa era quase impossível. Embora a lei lhe amparasse quanto ao bem estar de Ben, a mesma seria impiedosa se ela fosse acusada de invasão de domicílio e de roubo de bens alheios. Mas Ben valia o risco.
De ossos humanos, a animais conservados em álcool, dentro de frascos de vidro. Discos de vinil do início do século XX, e álbuns de fotos de pessoas que já haviam morrido. ela encontrou até bonecas de estopa com olhos e boca costurados. E como em velhos filmes fantásticos da TV, ela encontrou inclusive um livro de bruxaria, com esquemas, feitiços e receitas de poções. O sótão da mansão Devereaux era um verdadeiro museu de bruxaria e macumba. Caroline decidiu levar um daqueles artefatos para provar que Violet submetia o próprio marido a bruxaria. Talvez desse certo.
O que ela não previra foi o desenvolvimento daquele drama. Violet estivera brincando o tempo todo de 'gato e rato'. Luke no final se revelou seu comparsa. E até os pobres fantasmas que habitavam aquela casa, não eram outros senão os antigos moradores que foram prejudicados e usados por Violet e Luke. Caroline enfim encontrou o seu destino, enclausurada no corpo velho de Violet, vítima de um feitiço paralisante, que a impedia de falar, andar ou tentar alguma forma de comunicação, como o pobre Ben. Afinal ambos foram removidos para um asilo de velhos, onde passaram o resto de seus dias dependentes da bondade de enfermeiros.
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