O tempo e as cinzas
3 Capítulo 3
No dia seguinte, eu tinha certeza que tudo daria errado. Percebi isso pelo simples fato de acordar atrasada e ter perdido o café da manhã. Resolvi comer um dos chocolates que havia comprado na noite anterior, tomei um banho rápido e saí. Minha aula começava as 7:15 e já que eu sai um pouco mais cedo, fiquei sentada em um dos bancos perto da sala de aula lendo um livro que minha mãe me deu de aniversário.
Confesso que eu estava apreensiva com o meu primeiro dia (impossível não ficar), mas eu tinha grandes esperanças de fazer novas amizades. Observei as pessoas que passavam e fiz um julgamento minucioso de quem parecia ser legal ou não, no final das contas não adiantou muito.
Quando o sinal tocou, muitas pessoas entraram na sala. Por um minuto achei que haveriam muito mais alunos. Tive duas impressões sobre nosso professor: ele era um gato e adorava ferrar os alunos, digo isso porque ele conseguiu passar um trabalho em dupla no primeiro dia de aula, mas agradeço porque foi minha única oportunidade de fazer um amigo. O nome dele era Gabriel, um gaúcho nato, de olhos verdes e cara de nerd. Ele não era bonito, mas era meigo, gentil e adorava ler livros de arquitetura. Tinha um sotaque engraçado (ele achava o mesmo do meu) e tinha uma voz bonita. Me disse que sonhava em ser músico, mas que seus pais nunca o apoiaram. Conversamos durante todo o dia e descobrimos coisas em comum. Depois da aula, ele foi para casa e eu fui para o restaurante almoçar. Confesso que demorei para me acostumar com as comidas gaúchas, apesar de que dificilmente serviam comidas típicas, mas logo comecei a gostar.
Peguei a comida e paguei. Percebi que já tinham muitos grupinhos dos anos anteriores e não haviam mais mesas vagas, então decidi comer do lado de fora.
– Ei! Ei! Menina do chocolate!
Era o garoto do mercado. Agora sim pude perceber como ele era, nada de diferente. Tinha apenas olhos e cabelos castanhos (apesar de que os cabelos dele me encantaram) e era de porte médio. Ele me chamou e eu fui.
– Senta aqui com a gente.
– Obrigada.
Me sentei ao lado dele e na frente de mais três garotos. Descobri que eles eram estudantes do segundo ano de engenharia mecânica.
– Esqueci de perguntar o seu nome. — Disse o garoto da noite anterior.
– Me chamo Bianca, e o seu nome qual é?
– Eu sou Pedro. Estes são Marcos, Lucas e André.
– Prazer em conhecê-los.
Foi assim que fiquei amiga de Pedro e dos outros garotos. Eles também moravam no ceu* e isso facilitou muito nossa convivência. Pedro era ótimo em cálculo e sempre me ajudava a fazer os trabalhos que eu tinha. Eu por outro lado era ótima em desenho, o que fazia Pedro sempre me pedir socorro quando não conseguia fazer alguma coisa. E a semana foi assim: saindo da aula e fazendo trabalhos juntos.
Ainda me pergunto porque ele resolveu me chamar aquele dia, ele não precisava de nada disso. Durante o resto do ano, não vi ele sendo tão legal com ninguém, então acredito que tenha sido somente comigo, mas porque?
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