Notas iniciais
Narrado em terceira pessoa.
Boa leitura!

A chuva mansa tornou-se uma tempestade do lado de fora. Cecília batucava as unhas na mesa do restaurante beira de estrada praticamente deserto. Esperava há exatamente uma hora e cinquenta e dois minutos. Onde o garoto se enfiou? Ela prometeu a si mesma que buscaria um novo aliado, que de preferência cumpra o horário estipulado, já estava cansada de lidar com irresponsáveis. Um trovão fez as luzes piscarem e o sinal da pequena TV em cima do balcão parou de funcionar, o celular se encontrava fora de área — que se dane o Leandro — pensou. Pagou a conta de pelo menos cinco latinhas de cerveja e saiu dali. O vento gelado atingiu seu rosto, fazendo com que os cabelos castanhos voassem para trás. Antes que se molhasse mais, acelerou o passo na direção do seu carro.

Havia algo de errado, o banco estava mais para frente que o normal e o cheiro... Um perfume desconhecido e um tanto recente. No banco ao lado havia um jornal velho com a manchete que a perturbou por anos: "Jovem desaparece após viagem com amigos" e em letras miúdas uma mensagem: "Eu sei onde ele está!". O clima esfriou. Como seria possível? Se aquilo fosse mais uma das brincadeiras insanas do Leandro ele pagaria caro!

O caminho para casa foi torturante. Cecília pensou em tudo, no jornal, na mensagem, em Leandro e nele. Estava cansada e fazia o que podia para encontra-lo, porém sozinha. Onde estava os amigos citados no jornal? Aqueles que fizeram questão de dar entrevista e confortar aquela família? Três anos se passaram e a única mudança foi o esquecimento. A polícia, a família e os amigos o esqueceram. Menos Cecília, a esperança dela ainda estava ali, desgastada mas estava. E agora que alguém supostamente sabe de algo além, as coisas realmente poderiam mudar.

A noite foi longa, revirou-se na cama sem conseguir pregar os olhos. Ela queria saber mais sobre o dono do bilhete e o que ele sabia. Mandou mensagem para o inútil do Leandro, era a mesma coisa que nada. Não seria bom colocar outra pessoa no meio dessa confusão, mas ao mesmo tempo estava com medo de segui-la sozinha. Pensando nisso acabou dormindo.

~

Coçou os olhos antes de finalmente abri-los e deparou-se com Leandro ao pé da sua cama, com um sorriso sacana como se fosse normal invadir seu quarto e observa-la dormir.

- Bom dia.

- Só se for pra você!

Retrucou tentando arrumar os cabelos rebeldes da melhor forma possível. Levantou-se da cama e lhe deu um soco no ombro em vão, fazendo o garoto rir.

- Desculpa, ontem o mundo quase acabou e você queria que eu saísse de casa?

- Custava avisar que não ia? E já disse que não pode ficar vindo aqui, por isso marquei de te ver ontem onde ninguém saberia.

Respirou fundo antes que perdesse a cabeça, é claro que ele se divertiu imaginando-a com cara de idiota no meio do nada o esperando, assim como estava se divertindo naquele momento.

- Queria que você levasse a sério e queria poder confiar em você, Leandro.

- Cissa, isso já faz três anos. Acha mesmo que ele esteja vivo?

Ela não acreditou no que acabara de ouvir, Leandro e Henrique são mais que primos. Quantas vezes Cecília passou horas ouvindo o namorado falar sobre ele? De como estava feliz em estarem dividindo a casa, era como nos velhos tempos em que um dormia na casa do outro. Depois de tudo que Henrique fez por ele é assim que o retribui? Era um absurdo. O sangue subiu à cabeça dela e mesmo não confiando no garoto decidiu contar o ocorrido.

- Alguém sabe onde ele está. Deixaram isso no meu carro.

Apontou para o jornal em cima do criado mudo, observando o silêncio que pairou. Não soube interpretar a reação dele. Surpreso talvez seja a melhor maneira de descrever.

- Como sabe que não é falso?

- Eu não sei.

Era compreensível a frustração de Leandro, depois de tanto tempo alguém dizer que sabe onde o primo está, alguém que nem sequer eles sabem quem é. Poderia ser uma farsa? É claro que poderia. Aquele bilhete acendeu mais ainda a esperança de Cecília, a garota estava tão determinada a encontra-lo, não tanto quanto Leandro, que não acreditava nem um pouco naquela história, porém jamais a deixaria sozinha. Devia isso ao seu primo. Talvez devesse aquilo mais para si mesmo. O que ele poderia fazer? Ela era linda. Gostou dela desde que seu primo os apresentaram e só depois descobriu a relação entre os dois, era tarde demais para desencantar. Mesmo com o desaparecimento de Henrique era óbvio que não conseguiria ultrapassar a barreira construída. Ela não o suportava. Não era para menos, seu hobby era irritar Cecília mesmo com jeito da garota, estressada e exigente, irritá-la era um meio de fazer parte de sua vida e ser lembrado, apesar de não serem lembranças agradáveis.

- O que vamos fazer afinal? Ficarmos aqui esperando outro bilhete?

Abandonou o jornal em cima da cama, visivelmente indignado.

- Não há muito o que fazer.

Deu de ombros, envergonhada.

~

Passaram-se semanas e nenhum outro bilhete foi encontrado. Cecília continuava determinada, afinal, largou tudo para encontra-lo. Perdeu contato com os pais quando descobriram que a garota desistiu da faculdade. Daí em diante as coisas só pioraram. Perdeu o emprego após ser pega invadindo o sistema da polícia pelo computador do escritório de advocacia. Isso tudo faz três anos. Hoje, costuma clonar cartões de crédito para sobreviver.

O romance de Henrique e Cecília parecia ter saído de um conto de fadas. Se conheceram em uma festa, após serem apresentados por alguns amigos em comum e desde então não se desgrudaram mais. Estudavam na Universidade de São Paulo, ela cursava direito enquanto ele, medicina. Uma advogada e um médico. Não poderia ser mais perfeito. O amor entre os dois era visível por todos. Henrique fazia de tudo por ela. Ação recíproca. As famílias se conheciam e os dois planejavam casamento após a conclusão do curso, mas então ele decidiu viajar.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.