O sonho dentro do sonho
2 O menino de preto - Ato Avulso
Notas iniciais
"Hey joe
onde é que você vai
com essa arma aí na mão?"
Hey Joe,O Rappa
Olhos extremamente vermelhos voaram por sobre sua cabeça, uma mão ensanguentada agarrou-lhe o jeans e suplicou por ajuda, foi respondida com um tiro no meio da testa. Morte, morte, morte, havia tantos estrilhaços de gente, que aquilo parecia mais um açougue de sucesso aberto em pleno domingo, e dos bons.
Os olhos era o que mais via: o tiro tinha sido muito forte e de perto, e foi quando ele notou o par ocular voar por cima de sua cabeça. Olhos com brilho, olhos sem brilho, simples assim. Cansado, mas eufórico, ele correu atrás das últimas pessoas, e fez sua metralhadora cantar born to die à popa.
Não era como no filmes, as pessoas demoravam morrer, gritos e angústias. Apesar de querer aquilo, estava um pouco assustado de como chegara naquele ponto, o ponto que mirava nas costas das pessoas para transformá-las em bonecos sem corda.
Um a um, elas tombavam, como folhas de outono, cascas vazias. Feitos de maneira tão complexa, mas se desmanchando de maneira tão simples, era o que ele pensava enquanto atirava com uma 9 mm. Na esquerda e uma submetralhadora na direita.
Antes que a polícia chegasse, ele queria se divertir o máximo possível. Tirou a faca de guerra que comprara tão facilmente naquele país, e se pôs a cortar a primeira pessoa que viu. Existia uma certa sinfonia de beethoven que ele não se recordava, mas soava em sua cabeça, cada corte, uma melodia.
Duas vozes brigavam em sua cabeça:
— não corte ali, é ali, você é um açougueiro? Não sabe o que é arte? Você está compondo, tem que agradar as pessoas.
-não torne mais difícil pra ele, depois de tanto sofrimento, a única coisa que precisa saber é que banhando-se em seu sangue, será purificado.
O fato das duas vozes não estarem brigando pela primeira vez o assustou, cortar aquela pessoa, no entanto, quase calava o grito em sua cabeça, o grito da sua alma.
Sabia que o que estava fazendo era errado, e chorava, entre lágrimas e risos.
Ele não era doente, ele não era doente, repetia a si mesmo, mas chegara naquele ponto por conta da loucura, sim, era por conta da loucura, a loucura.
— a loooucura- exclamou pelado, em cima do corpo, olhando para cima e abrindo os braços, deixando pingar o sangue na poça em baixo. A poça mais funda em que já estivera. Um vento forte soprou do além lhe chamando, bagunçando seus cabelos, trazendo o forte cheiro de ferro.
Os portões do inferno o chamavam, ele sabia.
Foi então que uma voz, até então nunca ouvida, sussurrou-lhe o ouvido, talvez fosse Deus:
— você está próximo, próximo de atingir o que deseja.
Ele continuava ouvindo o vento, de olhos fechados, sorrindo:
-sim, eu sei.
Ele estava vermelho como um vestido de gala, curiosa e artisticamente bordado.
El baile de los muertos, a morte, a escuridão, o mal, vários nomes, um significado, agora, ele era tudo, e nada.
O vento, as vozes, os gritos, estavam tão altos, que ele não ouviu as sirenes, e os grandes carros pretos que freavam naquela avenida. Rápida e habilmente, homens vestidos de preto dos pés a cabeça, desceram de furgões com grandes armas.
No meio daquela praça, próxima a uma avenida movimentada, estava um garoto montado em um corpo sem membros, pelado, banhado inteiramente com o sangue de suas vítimas, de braços abertos, olhando para o céu.
O que se sucedeu foi uma vaia a seu show, uma salva de balas. Metralhadoras potentes feitas para conter àqueles que se distanciavam da ordem, abriram fogo, desesperadas.
Enquanto seu peito explodia com tantas balas, que poderia abrir uma confeitaria, um só pensamento gritou em sua cabeça: o fim. O tão aguardado fim, aquele que o faria feliz. Agora sorria de verdade, um sorriso de ponta a ponta, um sorriso que mesmo com tantas caretas de dor, e com tanta convulsão de seu corpo, ele conseguia manter.
E o seu sangue, a mesma coisa que fizera com os outros, agora faziam com ele, morto como um porco abatido: que felicidade! Ele clamava punição com seus braços abertos.
“eu fui um garoto mal” pensou, e como desejou que pagasse por tudo aquilo, ele não se desviou de um tiro sequer, óbvio, enquanto pensava, nesses milésimos, ele não pôde perceber as lágrimas que chegaram depois do sorriso. Ele não queria tudo aquilo, e queria tudo aquilo, ele não queria tudo aquilo, e queria tudo aquilo, um último pensamento de sua mãe, e mesmo em seu último suspiro, ele não pôde determinar exatamente o que queria.
Mais um corpo caído no chão, dessa vez, o último da noite.
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