O som que me chama
3 Transições
Meus olhos se abriram num rompante.
No momento seguinte, eu literalmente tinha pulado da cama, ao passo que tentei recuperar o fôlego, meus pulmões se assustando com o esforço repentino. E nesse momento percebi que os mesmos estavam normais, respirando com a dificuldade de sempre. Não estavam como na noite passada, onde sua performance fora perfeita, uma respiração impecável.
A noite passada.
Em meio a um infinito de perguntas, a pergunta mais óbvia: havia sido real?
A primeira resposta: era um sonho. Mas então a incerteza... Eu não poderia ter sonhado com toda aquela gente, os rostos sólidos das pessoas. Com todas aquelas pessoas esbarrando em mim. Sinceramente, minha mente não era tão inventiva assim. E... Katsuo. Como eu poderia tê-lo criado das profundezas da minha mente absurda? Ele tinha suas características, que eram decididamente únicas e leves.
Mas aquilo não poderia existir, não na vida real. Aquelas coisas não aconteciam. E mesmo que se houvesse a possibilidade de eu admitir, só por um momento, que existiam, seria contrariar tudo o que eu sabia, tudo o que eu havia vivido em meus dezesseis curtos anos de vida.
Eu não conseguia pensar direito. Meus pensamentos rodopiavam em minha mente, como se eu não pudesse agarrá-los, rápidos demais, mas devagar em sua essência. Resolvi que precisava conseguir respostas, ou alguma coisa que fizesse qualquer tipo de sentido. Me vesti rapidamente, e parti até a casa da senhora Madelane.
Caminhando pela estrada de terra, pensei nela. A senhora Madelane, na noite passada, muito mais jovem.
Na casa, o silêncio predominava. Chamei algumas vezes por ela, mas ninguém respondeu. Era claro que não havia ninguém na casa. Então me dirigi até a única pessoa que eu conhecia além dela: o dono do mercado. Meus recursos de pesquisa eram deploráveis.
— Bom dia, senhor Jeb – chamei receosa, assim que cheguei à propriedade.
Jeb apareceu, sorridente.
— Como vai hoje, Kiki? Está gostando da região?
— É, bem... sim. Senhor, preciso lhe perguntar uma coisa.
— Fale então menina.
— Senhor, ontem à noite eu tive um sonho. Mas não foi como um sonho, parecia muito real. Quero dizer, eu não sei se aconteceu de verdade ou eu apenas... quero dizer, eu senti...
Tentei desesperadamente forçar as palavras para fora, mas elas não saíam. A testa de Jeb estava tão franzida que a pele parecia querer sair. Quem podia culpa-lo? Obviamente, ele não estava entendendo nada.
— Então, no sonho ou no... acontecimento, as ruínas ali atrás estavam novas e uma feira estava acontecendo, haviam globos de luzes iluminando o lugar... e todo mundo da cidade estava comendo e conversando e... a senhora.... senhorita Madelane estava jovem e tinha uma filha.
— Mas menina – Jeb estava pasmo – você acabou de descrever a feira de vendas como era antigamente. Você disse que Madelane era jovem?
— Sim, eu só... como eu poderia ter sonhado com isso? Eu tenho certeza que nunca vi esta feira antes para ter tantas memórias... o senhor sabe onde está a senhora Madelane?
— Madelane foi visitar a filha, ela faz isso nessa época do ano — ele pareceu nervoso — você disse que sonhou com a filha também? Mas você não poderia tê-la conhecido.
Eu rapidamente tentei desviar o olhar para que ele não me visse lacrimejando. Mas ele percebeu o meu desespero.
— Menina, escute — ele colocou as grandes mãos em meus ombros — isso é muito simples, não precisa quebrar a cabeça por causa do sonho, foi só isso, você, de algum jeito, ficou impressionada com as ruínas e isto retornou para você à noite. E quanto a Madelane, é fácil de imaginar aquela mulher como uma jovem, não se preocupe.
Era fácil ver que ele não estava preocupado, que pensava ter sido um sonho comum. Eu já não era tão otimista.
Retornei até minha casa, cada vez mais certa de que tinha sido real. Eu estava tão absorta naquela história maluca que tropecei diversas vezes pelo caminho, inclusive arrancando risadas de um garoto em certo momento.
É, parece que viajar no tempo me deixou cada vez mais apresentável para a sociedade. Provavelmente parecia uma doida soltando umas palavras ininteligíveis para quem me olhasse como "maluquice" ou "Katsuo".
Passei a maior parte da tarde limpando a minha casa — e meus pensamentos. Tinha certeza de que tudo seria esclarecido à noite.
Mas quando ela chegou, eu já não estava tão otimista.
Às 23h da noite me preparei para voltar às ruínas. Apesar da natureza estar ajudando meus problemas de respiração, tive que ir devagar para compensar a agitação dos últimos dias.
Quando cheguei no local, tudo estava um breu e nada se via além da mesma cena triste e abandonada. Frustrada, decidi não deixar o lugar até que cansasse ou alguma coisa sobrenatural acontecesse, afinal, se alguém me dissesse que alienígenas pousariam ali, eu acreditaria. E ficaria grata.
O tempo passou e nada significou para mim, eu não o senti. De repente, tamanho era o silêncio que pude escutar as batidas de meu coração. Meu corpo começou a ficar sonolento, mas eu não estava realmente com sono. Algo estava obrigando meus sentidos a enfraquecerem... eu fechei os olhos por um momento... a sensação sumiu e eu os abri novamente.
Ali estava. A luz quase cegou os meus olhos, e quando focalizaram, meu peito se encheu de alívio e emoção. Ali estava a feira, exatamente como ontem, os passos de centenas de pessoas e suas conversas me reconfortaram. Eu não estava maluca. Só estava vivendo algo surreal e inexplicável, e isso era mais assustador ainda. Mas reconfortante.
— Ah – saí correndo, aliviada. Fui até o único lugar que conhecia ali. E, sinceramente, o local em que eu mais gostaria de ir — boa noite – cantarolei. A vendedora cumprimentou-me sorrindo. Mais uma vez adentrei a pequena casinha, caminhando com agitação pelo corredor.
— Oi – eu disse, a voz trêmula, infelizmente.
Ele me olhou e imediatamente sorriu, com os olhos e com a boca.
— Kiki! – Katsuo imediatamente se levantou e correu para mim, me surpreendendo com um abraço. No momento seguinte, ambos estávamos embaraços. Eu: pelas sensações que ele tinha sobre mim. Ele: pelo ato claramente impulsivo que teve.
— Então, garota da cidade, você resolveu voltar para nós – ele disse, ainda um pouco tímido.
— Vocês me encantaram – respondi, e era verdade.
— Então, o que vamos fazer hoje à noite? – ele perguntou, minha pulsação aumentou um pouquinho.
— Bem, você podia me apresentar todos os lugares da feira, se não se importar.
— Ótimo, uma exploração! – seus olhos brilharam – primeiro, vamos ao...
— Katsuo! – a vendedora entrou na pequena sala, esbaforida – Fitzwilliam está aqui!
Imediatamente, a expressão alegre de Katsuo desmoronou e ele estava decepcionado, com um toque de... medo.
Ele pegou minha mão, como no outro dia, e me levou para fora da sala. Me concentrei, sentindo melhor a sensação que aquilo me causava. Sua mão era forte na minha, quente e firme.
Quando estávamos a luz do luar, estranhei o repentino silêncio no lugar, até que chegamos às mesas de madeira no centro da feira, onde tudo foi explicado. Todos estavam ali, silenciosos, parecendo um pouco aterrorizados.
Um homem corpulento se destacava, uma grande barba loira escura tapava grande parte de seu rosto e ele tinha no rosto uma expressão feia e desagradável.
— Vocês gostam de passar dos limites, não é? Acredito que já havia deixado claro... Bem, vamos todos arcar com as consequências, não é? – seu tom era de ordem e ele parecia se divertir que estivesse no poder – em breve eu definirei todos os preços dos produtos...
— Mas senhor, e quanto a...
— Quieto, Benjamin, você não decide nada. Eu decido.
O modo como gritara com Benjamin me assustou. O homem era quase colérico. Sua voz era de trovão e nenhum barulho a atravessava. Todos pareciam infelizes. Logo, ele os deixou retornar às compras. De ali em diante, o falatório e o movimento recomeçou, porém muito menos barulhento e mais cauteloso. Eu não gostei. O homem continuou parado, observando minuciosamente o lugar.
Katsuo o olhava com um desprezo que não combinava com o seu rosto. Ele analisou meu olhar de confusão.
— Este é meu pai. Eu sei – acrescentou ele, ao meu olhar de descrença.
Olhei do homem para o garoto, em nada eles se pareciam. Talvez apenas na cor do cabelo, apesar de o de Katsuo ser estranhamente único, se conseguia ver a semelhança.
As feições delicadas de Katsuo não eram encontradas nas do homem e eu podia entender o desprezo do garoto por ele.
— Eu explico melhor depois, só vamos sair daqui – ele me puxou novamente e começamos a descer o morro, nos afastando da feira.
— Onde vamos? – perguntei, ansiosa. O vento estava tão agradável, quase me fazia suspirar de satisfação.
— Você verá – ele sorriu, parecendo mais aliviado assim que estava longe do pai.
Sua alegria, que sempre surgia de repente, me inundava como uma onda suave e eu sorria incontrolavelmente contra o vento.
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