Notas iniciais
1Já fazia um tempinho que isso estava guardado e como gostei de como ficou resolvi postar.

As luzes tentavam inutilmente iluminar a cidade em meio a nevasca. Aquele é o lugar onde as emoções eram descartadas para a razão sobrepor para derrotar seres sobrenaturais que antigamente sua existência não era considerada. Foi através da lógica que os humanos conseguiram ter uma capital livre de vampiros e seus servos. Mas a noite durava muito mais naquele local onde Kayn habitava, então medidas drásticas eram tomadas.

E mesmo tão novo, ele já estava preparado para enfrentar aquela guerra que já durava milênios, crescendo com a mentalidade de que vampiros são maus e cruéis e os humanos devem prevalecer a qualquer custo e apenas o poder é capaz de fazer eles chegarem até lá, uma utopia onde os vampiros sucumbem e a humanidade prevaleça.

Então, desde que se tornou uma capital, Noxus planeja um treinamento atroz com suas crianças, jogando-as em florestas mais distantes quando anoitecia. Um teste de aptidão. Matando-as se chegassem perto do muro por terem sido mordidas por vampiros ou apenas fugindo por medo.

Emoções atrapalham qualquer caçador, mas ser inteligente estava acima de tudo naquele momento crítico. Ao amanhecer, ele caminhou sem brilho nos olhos até o muro sendo recebido pelos adultos em comemoração pelo seu sucesso, ignorando uma raiva e ódio crescente dentro do pequeno ser humano de olhos dourados como o sol.

Todas as crianças que morreram naquele dia foram por mãos humanas, nenhum vampiro à vista.

Kayn, em seus 20 anos, atravessou os muros da capital com seu rifle em mãos e adagas na cintura, algo que não é usado para matar vampiros, mas para servos.

Os servos nada mais são do que humanos que escolheram estar ao lado dos vampiros. Independentemente dos motivos, eles devem ser eliminados como traidores, uma definição não questionada por ninguém e Kayn sempre fazia seu trabalho muito bem.

Ele nunca havia encontrado um vampiro antes, e nenhum colega voltou para contar como são, mas pelos livros e alguns boatos aqui e ali, Kayn soube que eles eram feitos de puro sangue e carne, usando magia proibida para elevar seus corpos a outro patamar, gigantes em sua natureza.

A única coisa conhecida que os matavam era o sol.

Por isso eles sempre atacavam ao amanhecer ou ao anoitecer, tentando aproveitar o pouco sol que tinham.

— Olha, lá em cima!

No meio da batalha, vários servos estavam caídos no chão após uma batalha árdua, mortos, enquanto o sol nascia e uma silhueta grande de chifres largos e recurvos se destacava.

Os olhos dourados de Kayn brilharam pela primeira vez desde que se entende por gente. Um vampiro que não queimava ou agonizava na luz do sol estava no horizonte, observando-os em seu sorriso eterno e olhos vermelhos intensos. Ele segurava uma foice pesada, porém mortal, girando para que os corpos humanos ao seu redor se partissem ao meio como se fossem troncos úmidos quebrando, expondo ossos enquanto o sangue era drenado pela arma.

Uma demonstração de poder assustadora.

E ainda assim, Kayn encarou o vampiro com audácia que observava os movimentos do humano com curiosidade mórbida.

O sol já estava no céu, mas tudo ao redor de Kayn estava vermelho. Ele encarou o ser maléfico sem medo, caminhando para trás lentamente quando o vampiro zombou.

Recuar? — A voz profunda ecoou pelo campo de batalha, provavelmente só havia Kayn e aquele monstro terrível vivos.

— Retirada estratégica. — Kayn respondeu, sua voz não tremeu.

O vampiro olhou com tédio cômico — Gosto mais quando minha comida corre.

Mais um passo para trás e Kayn parecia estar em uma distância mais segura, apesar de ter visto a velocidade de um relâmpago do vampiro, nenhuma distância é segura — Que pena pra você.

Os olhos da criatura brilharam sinistramente, parecia levemente interessada em Kayn, querendo ver cada decisão que ele tomava e na primeira errada ele iria comer aquele humano inteiro.

Mas Kayn não errou, não vacilou, saindo dali em passos firmes, porém silenciosos devido à neve, esgueirando-se em locais que seria fácil para um vampiro mata-lo, mas talvez aquele jogo em que Kayn escolheu jogar fosse o suficiente para sair como uma sombra que nunca esteve lá ou talvez o vampiro apenas o permitiu ir embora.


Noxus é uma capital onde o mais forte prevalecia, no caso, o mais forte é aquele que usou a inteligência para sobreviver mais um dia, principalmente quando se encara um ser tão formidável como um vampiro.

Mas um vampiro que sobrevive ao sol? Isso é preocupante. Kayn sentou-se no banco da praça para comer algo rápido, tentando ignorar o vulto vermelho na sua visão periférica apenas para ver que era uma bandeira vermelha de Noxus ou alguém grande trajado dessa cor.

Nada poderia se comparar a aquele vampiro.

Kayn sonhava com ele, encarando-o como naquele dia, os sonhos sempre terminavam de forma diferente. Ele morrendo, fugindo, em uma batalha quase eterna, ou como… companheiros. O último é recente, mas que causava um misto de sentimentos nos quais Kayn foi ensinado a não ter e que lhe deu ideias nada agradáveis.

— Kayn.

Ele foi acordado de seus pensamentos, o sanduíche já meio comido e seu suco ainda inteiro, ele levantou e terminou de mastigar enquanto pegava seu suco bebendo de uma vez, jogando fora o copo.

— Não teremos treino hoje. — O homem avisou, quem era ele mesmo?

— Treino? Por que você tá’ me avisando isso? Eu não preciso disso.

O homem bufou — Só por que você sobreviveu a um encontro mortal contra um vampiro mutante, não significa que é o mais forte.

Errado.

Em uma velocidade surpreendente que um caçador de vampiro deve ter, ele agarrou o pescoço do homem fortemente fazendo a pele enrugar-se pela pressão exercida enquanto o homem arregalava os olhos, tentando respirar, demonstrando algo quase pecaminoso para os padrões de Noxus até que um sorriso cruel surgisse no rosto de Kayn, maravilhado pelo medo que causou e comprovando algo incontestável: Kayn é o homem mais forte de Noxus.

E aquele vampiro é seu teste para isso.

A notícia se espalhou como fogo em palha, a urgência de averiguar a veracidade do relato de Kayn fizeram com que, ao anoitecer, um grupo de caçadores de vampiros bem equipados saíssem da capital para uma missão parecida com a de Kayn naquele dia: Caçar servos e uma oportunidade de relatar mais sobre o novo tipo de vampiro para combatê-lo.

Ele não estava designado para aquela missão, porém Kayn se esgueirou facilmente entre eles e rebeldemente saindo dos muros de Noxus e entrando em território inimigo com apenas uma espada e um sonho.

Encontrar aquele vampiro novamente.

E ele sabia que o encontraria, não importa onde estivesse, vampiros são orgulhosos e sempre prontos para uma revanche em busca de humilhar seu oponente. Quando a fina camada de gelo na grama vibrou, Kayn sabia que seu destino seria decidido naquele momento.

Um grito veio, sangue espirrou e a foice lançou vários caçadores para cima, esticando seus corpos meio moles e sendo devorados por dentes afiados.

Então o predador encarou aquela presa.

Sua presa favorita.

— Vampiro. — Kayn estava confiante, segurando uma espada afiada e pronto para lutar, encarando o ser com a estranha sensação de frio na barriga.

A criatura rosnou, irritado — Meu nome é Rhaast, sou muito mais do que qualquer vampiro que você vai encontrar na sua vida humana miserável.

Kayn arqueou a sobrancelha, levemente surpreso pela revelação do nome.

Rhaast sem hesitação caminhou até Kayn, deixando sua foice ser arrastada no chão para encará-lo olho por olho — Um Darkin.

Kayn esperava que Rhaast revelasse mais sobre ele, mas parecia que o Darkin sabia das intenções reais daqueles que acabaram de morrer. O melhor jeito de não ser superado é manter os fracos ignorantes, pois conhecimento é poder, e com certeza Rhaast não quer ser superado por um mísero humano de jeito nenhum.

Um floco de neve caiu sobre os cílios de Kayn, uma visão delicada, apesar do olhar fervoroso de determinação — Hm, e? Sempre dá pra matar coisas que estão vivas.

Sim, sempre dá.

Rhaast estava claramente o ameaçando, mas curiosamente não estava avançando contra ele ou sequer em posição de ataque.

Um garoto sem família, sem batalhão, vindo escondido apenas para me ver. — O corpo de Rhaast podia ser visto claramente, aberto e fácil de acertar, mas Kayn dúvida que sua espada atravessaria aquele corpo blindado — Não tem nada a perder… — Ele deu uma pausa, zombando — O que você quer de mim, Shieda Kayn?

“Em algum momento eu disse o meu nome para ele?” Kayn tentava lembrar apenas para confirmar que ele nunca tinha dito seu nome para o Darkin, ou seu status familiar. Como ele sabia dessas informações? Ele não lembra de vampiros lerem mentes.

Mas Rhaast é um Darkin e Kayn sabia absolutamente nada sobre Darkins, ele nunca tinha visto um em primeiro lugar, nunca citado para ele. Seriam os Darkins alguma mutação vampírica? Kayn sentia que o ser a sua frente era além de qualquer coisa que já vira na vida, algo primordial cheio de desejos maldosos que sabia ver além do que lhe era apresentado.

— Tudo o que você pode me oferecer. — Kayn lembra desde sempre que tudo o que ele tinha é aquela cidade miserável, lutar contra vampiros e servos e os exterminar, sendo bom nisso, mas nunca reconhecido, e provavelmente nunca seria, como todas aquelas crianças mortas ao redor dos muros: Correndo por suas vidas pelo medo.

Mas Kayn não sente medo, ele aprendeu isso, encarando qualquer coisa que viesse — Eu sou muito mais do que pareço.

Rhaast riu, divertido, o fogo em seu peito brilhava como uma lareira — Você é bem petulante para um humano.

Kayn bufou.

Eu posso dar tudo o que você deseja, mas você é capaz de me dar o que eu quero?

O que Kayn poderia oferecer para um Darkin? Qual é o interesse de um Darkin afinal? Ele não está em uma posição boa aqui. Tudo o que vampiros desejam são servos como gado, mas Rhaast não parecia afetado naquele dia pelos servos mortos… Kayn sorriu, confiante, quase pegando o Darkin de surpresa.

— Eu sou tudo o que você deseja, senão por que outro motivo você está aqui conversando comigo? — Encarando Rhaast, Kayn queria pegar qualquer expressão dele, mesmo que seu rosto fosse uma carapaça, algo que indicasse sua vitória óbvia para apenas ver uma fumaça densa vermelha saindo de seu sorriso malicioso.

Aproximando-se mais, Rhaast por cima, seus olhos brilhando sinistramente — Então prove. Prove que você é digno de meu poder e interesse.

Parece que Kayn não está no controle da situação, mas ao mesmo tempo ele sentia segurança, complicada de entender, como se ele estivesse esperando por isso a milênios, seu destino.

Rhaast.

Eles praticamente se entendiam pelo olhar, Kayn sabia exatamente o que deveria fazer e Rhaast estava satisfeito com o que quer que estivesse acontecendo ali. Como se apenas Rhaast soubesse como isso terminaria.

Em sangue.



Os alarmes de Noxus soaram, os civis corriam para suas casas, achando ser um ataque de vampiros, na realidade é apenas um homem, portando uma foice maior que ele na qual fedia a sangue fresco e carvão queimado, a haste pulsando no mesmo ritmo de seu coração, juntos em uma colaboração quase harmoniosa.

Temporariamente, ele tomou a arma Darkin para si, um artefato poderoso capaz de conectar Kayn e Rhaast, não importando onde estivesse.

Aos seus pés, corpos sem sangue absorvidos pela arma, colhendo a força vital e se tornando mais forte. A corrupção em seu corpo, algo próximo do que Kayn viu de Rhaast, cobria seu peito de forma protetora, urgente e possessiva. Nenhuma bala conseguiu machucar Kayn, nem sequer o impacto era sentido, fazendo a chacina desenfreada dele se tornar ridiculamente fácil.

Tanto poder nas mãos dele, satisfatório o suficiente para se viciar.

Ele chegou facilmente no centro de comando, o prédio estava um caos e Kayn continuou avançando sem medo, rápido pela adrenalina, sorrindo pela satisfação de cortar corpos em dois com uma lâmina belamente afiada.

Olhando em volta em busca de mais inimigos, ele viu o maquinário complexo repleto de energia arcana. Kayn não é bobo, sabia que aquilo é o motivo de Noxus continuar de pé depois de tantos séculos de opressão vampírica, o que dava energia, calor e o que fazia os humanos ali continuarem a viver na sobrevivência eterna.

Caminhando até o maquinário, olhou para a foice que brilhava em vermelho quase cegamente, contrastando a energia vital.

Destrua.

Uma ordem clara, em um tom severo que prometia algo maior.

As pessoas tremeram quando os canos das casas e prédios centrar que corria a energia se foi, a capital se tornou um breu e a neve que parecia inofensiva começou a congelar ao toque prolongado enquanto gritos ecoavam por todo lugar.

Desespero, temor, um presságio da morte iminente criou caos.

A energia foi absorvida por Rhaast facilmente, seu corpo se formando a partir da foice, músculos e tendões se juntando anatomicamente, sangue fluindo ao redor em pele e carapaça, um corpo blindado que emanava energia sombria e uma risada perversa.

O mal encarnado surgiu diante de Kayn.

Isso… — A força ígnea dentro de Rhaast pulsou fortemente, sua grande mão com garras pressionando a de Kayn sobre a foice sem pretensão de soltar, o frio que deveria estar queimando Kayn é espantado pelo sol que é o corpo do Darkin, um calor doentio, mas que servia a seu propósito.

Rhaast se virou para Kayn, olhos fumegantes vermelhos que saiam brasas, as mãos agora serpenteando o corpo do humano que parecia tão pequeno em comparação, claramente satisfeito por tudo o que Kayn fez até agora.

Meu para consumir, meu para ter, meu para ser seu. Shieda, você fez um bom trabalho. — Sua garra cravou superficialmente na pele de Kayn, que grunhiu, segurando o dedo para longe em irritação enquanto o filete de sangue que escorria como serpente rúbria pelo peitoral bonito, ao mesmo tempo que seu rosto queimava, um elogio intenso que fez seus músculos tremerem por mais.

— Eu não serei seu servo. — Kayn não gosta de ser controlado, por mais que ele tenha feito tudo o que fez por Rhaast, ele não abriria mão de sua independência. Apenas seguindo o que ele considerou seu destino verdadeiro.

O Darkin riu — Você não serve para isso. — Ele levantou o humano em suas mãos sem dificuldade, enquanto sombras o rodeavam e seu cabelo se soltava como uma cachoeira negra, cobrindo seu corpo — Mas trará a diversão que eu busco.

Kayn sentia um poder tocá-lo, correndo pela epiderme em tons de azul e as sombras daquele lugar sorriam para ele, adentrando em sua boca, nariz e ouvido, preenchendo-o com um novo poder inacreditável, que só ele é capaz de carregá-lo, e, aos poucos, seu corpo se tornou uma névoa escura em uma explosão controlada, envolvendo as mãos de Rhaast em um segurar de mãos estranho, mas que deixava ambas as entidades felizes.

Rhaast pegou sua foice enquanto a sombra de olhos azuis serpenteava em seu pulso — Que tal testarmos seu novo poder, pequena sombra? Há muitos espécimes por aqui.

A névoa subiu para o pescoço do Darkin, em uma risada má, concordando com a sugestão feita, agarrando-se enquanto o calor continuava a fazer seu papel.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.