O significado da dor
21 Adeus
Ele chegou. É, é o fim. O que esta preso em minha goela e sufocando meu grito não é uma simples bala, é o mesmo desespero que me engole, o desespero de morrer... Ou seria o desespero de matar? Esse estorvo foge de meu peito e, quando possui vontade, escorre por entre meus dedos até a faca. Ele é vermelho e tem cheiro de sangue. Definitivamente, é o fim. Não só perdi a fé como ela deixou de existir em qualquer outro lugar fútil. A sorte parou de sorrir para mim, e tudo que sai da minha cabeça, enquanto o desespero transborda pela garganta, é só "é o fim". E os olhos que veem se cegam diante ao meu medo, fazendo companhia ao meu grito sufocado e o futuro cospe em mim "morra, morra, morra, sufoca-te e morra".
Estou imersa nas ilusões que esse mundo me causa, suas crenças antiquadas não me são mais convenientes. Não temos alma para vender para o diabo e a falta de sanidade ataca um por um. A loucura seria um dom hereditário que comprova que todos viemos do mesmo lugar sórdido. Onde moro os prédios são cinzas e as nuvens também. O dióxido de carbono mancha tudo ao seu redor, descolore tudo que toca. Chovem diamantes pontiagudos, do tamanho de morangos, e ambiciosos tentam a sorte se molhando nessa chuva e, simplesmente, morrem com seus crânios perfurados. Estou cansada de ser atacada pela ambição e me matar aos poucos, quero viver porra, não quero morrer um pouco em cada lugar que eu passo. Quero encontrar a minha salvação em algum Deus ou qualquer religião, quero culpar alguém pelo os meus atos doentios. Quero tudo e ainda acho pouco, quero morrer, mas morta não consigo fazer nada. A ambição me mata.
Apenas olho para ela e ela sabe que é o fim, com lágrimas ela pergunta "quando?" "agora" "só uma ultima coisa te peço: manda aquele detetive filho da puta ir mamar na teta da mãe do diabo. Matei a esposa dele sim, mas ela ja estava morta por dentro. Ele é um egoísta, ela amava ele, amava tanto que quando a carreira dele começou a entrar pelo buraco e eles não tinham dinheiro nem para comprar bala, ele sugeriu ela largar o sonho dela de ser atriz e ir se prostituir para pagar as coisas, ela cega de amor aceitou desistir do futuro dela para bancar o dele. Toda noite eu via ela chorando antes de dormir, fiz um favor para ambos, caso contrario ela se mataria" e com lágrimas nos olhos não estava pronta para a despedida. "Adeus" pensei, mas não conseguia dizer. Ela me via, me ria, me lia, mas agora acabou, acabou o lindo mundo de algodão doce azul que construímos. Dei sua carta de alforria e só assim lhe foi permitida o doce consolo da morte. "eu mentiria para você, mas estou morrendo de medo" "medo de que?" "morrer" "não deve ser tão ruim como dizem" "bom, adeus" "adeus".
Havia tempos e tempos que eu estava decidindo como faria se esse momento chegasse, e ele chegou. Reuni coragem, álcool, perfumes um pouco de gasolina, isqueiros e qualquer coisa que parecesse inflamável. Comecei quebrando vidros de perfume, espalhando álcool nela, peguei o gravador e fui para a garagem fiz uma trilha de gasolina até o carro e espalhei dentro dele, para me certificar que tudo explodisse e não sobrasse nada, nenhum vestígio de vida ou sonhos, andando pela casa fui passando álcool, tomando cuidado para que o cheiro não impregnasse em mim, liguei a tv, peguei um livro dela, mas ela nem ia sentir falta dele lá no inferno; fui para o banheiro, liguei o secador e coloquei uma toalha em cima; fui para a cozinha, virei todas as bocas do fogão, abri a porta do forno, liguei o liquidificador e coloquei uma faca dentro, peguei um fósforo e tudo tomou um início naquele instante. Corri para o carro, me sentindo uma Roseanne Barr no filme ela é o diabo, e apenas troquei o sapato para um sujo de terra, quando voltei a casa explodiu, eu voei por mais de 3 metros. A visão estava cada vez mais fraca, os ouvidos estavam sangrando e eu não sentia o que estava acontecendo a minha volta, quando acordei e a visão voltava aos poucos junto com a audição, ouvia "ela tem sorte pra caralho, teve gente dizendo que viu ela correndo pedindo ajuda e quando tirou o celular para ligar para a ambulância a casa simplesmente buuuuum- disse um paramédico gesticulando uma explosão-, explodiu e ela voou uns 4 metros, é quase impossível ela não ter sofrido nada, nem um hematoma, nada." "ela esta bem?" perguntei, manipulando o teatrinho faz de conta da vida real "quem?" perguntou um dos paramédicos "a mulher que estava gritando" "que mulher? Acho que ela esta delirando, examine ela novamente" "não, eu ouvi uma mulher gritando e gritei por ajuda, já que a garagem estava trancada- e realmente estava, me certifiquei de trancar- como ela esta?" "sinto muito te dizer moça, mas nem a policia, nem ninguém encontrou nada que deu motivo para a casa pegar fogo e explodir ou encontrou alguém lá... Só havia pó" a noticia me dava um alivio por dentro e um desespero na expressão "mas, mas..." chegou um policial "moça nos conte tudo o que aconteceu" e eu comecei "eu estava passando por aqui perto, porque minha melhor amiga mora aqui perto- e o meu álibi estava cada vez mais forte- e eu acabei de voltar da praia, puta da vida, porque choveu durante todos os dias que eu fiquei lá e não queria ficar em casa por motivos pessoais e quando eu estava no caminho, vi a fumaça e vim ver o que era e ouvi gritos, mas pelo que parece não havia ninguém e bum, explodiu" "olha, moça, vou te ajudar, vai pra casa da sua amiga e eu digo pra imprensa que a casa explodiu porque vieram bandidos e para não deixar vestígios que roubaram a casa, simplesmente, a explodiram" enquanto ia para a casa dela de carro, queimava as passagens para a Suíça que comprei com o cartão da Wendy e em nome dela. Troquei a roupa e passei perfume.
Toc toc, a porta se abriu "Mel, quanto tempo, qual foi a ultima vez que a gente se viu?" "semana passada?" "tudo isso? Affu, sua puta" "ava na praia, pra ver se fujo um pouco do velório eterno que esta na minha casa, mas choveu naquela caralha" "entra logo, fiz bolinhos" entrei "olha mel, eu sei que esta sendo difícil pra caralho e você quer passar uns meses aqui, até o luto passar?" "e não vou ficar de vela pra vc e aquele cuzão la que você chama de "mor" toda hora?" "nem, mandei ele ir a bosta" "vem comigo buscar umas roupas la em casa, quando sai deixei apenas um bilhete e sai com a roupa do corpo, comprei umas roupas e biquínis lá, só que nem usei , porque choveu e fiquei de pijama a vida toda. Então devolvi tudo e gastei o dinheiro com comida" "que vida bosta" "como se a sua fosse mais interessante" entramos no carro e passamos perto do cenário catastrófico que virou a casa do assassino vermelho "eita porra, que que aconteceu la?" "parece que uma casa explodiu, eu ouvi o barulho quando tava indo pra sua casa" "orra, alguém deve ter peidado em um isqueiro".
Chegávamos em casa quando eu vi os dois policiais e o detetive. "Olá Srta. Blake, como foi la na praia?" "choveu" eles olharam para a minha amiga e perguntaram "podemos falar pessoalmente com você?" "claro, espera um pouquinho aqui lulu" "vê se não demora muito, não sou arvore pra ficar décadas esperando" "ta" fomos os quatro para a cozinha " o que aconteceu?" perguntei "a Wendy, comprou uma passagem para viajar para a Suíça hoje as duas da tarde e logo em seguida a casa dela explode e não havia ninguém la. Fodeu, a guria sumiu no mundo"
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