O senhor do tempo

9 O próximo passo


Alex não conseguia dormir, pois nunca precisou de muito sono, por isso ficou olhando o teto iluminado pela luz do pequeno candeeiro. Ao contrário do que aparece nos filmes, os quartos romanos eram pequenos e simples, havia uma cama com colchão de penas, um baú para guardar os pertences, uma cadeira e candeeiros para iluminação, dando ao ambiente um cheiro de fumaça e azeite, as janelas e portas eram bloqueadas por cortinas de linho tingidas de vermelho.

— Alex, está acordado? – Ouviu Jessica chamá-lo, baixinho, do outro lado da cortina na entrada do quarto.

— Estou, pode entrar – respondeu, sentando-se na cama, e se cobrindo com o fino lençol de linho branco, pois está só de cueca.

— Estava sem sono – ela explicou assim que entrou, vestindo uma túnica simples de linho amarrada na cintura com um cordão de cânhamo, estava com os cabelos preso em uma trança caindo pelas costas.

—Sente-se – convidou, mas a cadeira estava com as roupas dele, então ela se sentou na beira da cama.

— Você também não conseguiu dormir?

— Não, estava pensando sobre tudo que está acontecendo e o que acontecerá e se eu poderia fazer algo para evitar isso – ele revelou, com tristeza.

— Não podemos interferir. Temos que fazer que tudo ocorra como deve acontecer. Não podemos mudar nada.

— Mas eu posso impedir que meu pai seja preso, minha mãe e meu avô não fiquem prisioneiros por milhares de anos e até que nossa civilização não seja destruída.

— Então você não nasceria!

— Provavelmente, mas acho que eu estou sendo egoísta, não ajudando quem eu amo.

— Não! Quero ser uma cientista, é sei que cada fase de um experimento deve obedecer a regras rígidas, pois, senão os resultados não serão os mesmos, mudar o passado pode ser catastrófico, poderia mudar toda a história da humanidade, destruir o mundo como o conhecemos.

— Talvez o mundo poderia ser melhor, do que o que nós conhecemos –argumentou, dando de ombros.

— Não sabemos, e o preço a pagar pode ser muito alto e irreversível. Poderemos destruir tudo ou tornar os humanos escravos eternos, reprimir sua criatividade e sua sede de conhecimento. Mudanças são necessárias, mesmo que, às vezes, elas machuquem ou que possamos perder algo por isso.

Alex olhava para Jessica, surpreendido pela sua firmeza, ela sabia o que estava falando. O preço da mudança do futuro poderia ser muito alto.

— Então – ela acrescentou –, qual será o nosso próximo passo?

A noite já ia longe, as ruas estavam quase vazias, havia um bêbado dormindo encostado em uma parede, uma prostituta com ar cansado enrola em um velho manto voltando para casa, quando a porta dos fundos da casa de Isinu se abriu para deixar passar uma figura envolto em uma capa de tecido rústico, surrada pelo uso, e com a cabeça coberta pelo capuz, andava rápido, encoberto pela escuridão das ruas. Olhou com atenção para os lados, entrando em um beco escuro, lá outro homem o aguardava, também encoberto por uma capa, mas está feita de pura lã tingida de vermelho escuro, demonstrando sua rica origem.

— Tem alguma novidade para me chamar, Arus? – indagou o homem com a capa vermelha.

— Sim, meu senhor. O príncipe Enlil chegou hoje à noite, disfarçado, irá falar com o Senhor do Ocidente, amanhã.

— Boas notícias, Arus. Nossos planos estão fluindo como o esperado. Tome! – O homem desconhecido entregou um saco contendo moedas para servo. – Você mereceu – assim, dizendo virou-se e andou alguns passos, desaparecendo se dissolvendo na escuridão do beco, sem mostrar o rosto. Arus abriu o saco e derramou o seu conteúdo na mão, lá estavam sete moedas de prata.

Haviam discutido quase à noite todo sobre o que deveriam fazer, Jessica acabara por adormecer, sentada na cama, encostada na parede do quarto, então Alex a deitou delicadamente, não estava acostumado a cuidar de ninguém assim, seus pais, sua avó mortal, seus empregados e guardiões sempre cuidaram dele. Ele a cobriu com o lençol de linho e se deitou ao lado dela, dormindo logo em seguida.

Jessica acordou com a primeira claridade do dia, que entrava pela janela apesar da cortina, que voava com uma leve brisa, sem saber onde estava, abriu os olhos examinando o ambiente, as paredes pintadas com figuras de pássaros, o cheiro de azeite queimado. Não conseguia se mexer, bloqueada por um corpo ao seu lado que emanava um estranho calor, virou a cabeça devagar, se admirou ao ver Alex, ainda de olhos fechados, dormindo com uma expressão suave, seu perfil parecia ter sido esculpido de tão perfeito, o nariz reto, as mandíbulas quadradas, os cílios longos e a boca bem desenhada, o peito nu com seus braços cruzados sobre ele, tinham músculos marcados sobre a pele levemente dourada, e os cabelos negros caiam sobre a testa, nunca ela havia acordado ao lado de um homem, principalmente, um tão bonito assim, erguendo a mão tocou sutilmente o braço dele com as pontas dos dedos, sentindo a pele quente e macia. Foi quando ele começou a fazer leves movimentos, que demonstrava que estava despertando, ela fechou rapidamente os olhos e fingiu que ainda dormia, não queria que ele a visse o contemplando.

Alex abriu os olhos, percebendo Jessica ainda dormindo ao seu lado, ele nunca havia acordado ao lado de uma mulher com quem apenas dormira. Ela parecia tão frágil e indefesa, teve um imenso desejo de protegê-la.

— Ei! Acorde, Jessica! – sussurrou para ela, que abriu os olhos, bocejando, fingindo que estava acordando naquele momento.

— Bom dia – ela o cumprimentou, tentando demonstrar que aquela situação era natural, depois pensou se estaria com mal hálito.

— Bom dia. Dormiu bem?

— Sim, dormir.

— Vamos, precisamos tentar saber o que está acontecendo – Alex jogou o lençol para o lado e levantou-se, estava de cueca tipo ”boxer”, começou a se vestir, Jessica achava que deveria ou virar se para o outro lado ou fechar os olhos, mas não fez nada disso, ficou admirando quando ele colocava a túnica que tinha sido deixada no quarto. Ele sabia que estava sendo observado, contudo não se importava, ciente de seus atrativos, achava tudo engraçado, assim voltou-se para ela ainda deitada e que tentava disfarçar seu interesse.

— Você não vem? – indagou, dando um sorrisinho maroto.