O senhor do tempo
3 O poder obscuro.
— Ainda não consigo entender como aquela onda fez aquilo, eu não me conformo com aquela total violação das leis da física, é impossível. Você entende, ela não poderia manter uma velocidade constantedaquele jeito – Jessica ainda comentava, inconformada, enquanto descia da moto de Alex, na frente da sua casa em um bairro afastado, no subúrbio da cidade.
— Pare com isso, Jessica! Foi só uma onda grande, que parecia maior do que era, realmente – Alex reetrucou, com dissimulada indiferença, parecendo tão seguro que Jessica começava a achar que estava certo, seria apenas uma ilusão de óptica, pois seria geograficamente impossível um tsunami, naquele litoral.
— Obrigada pela carona, mas não precisava me trazer em casa, pois, com certeza, você deve morar bem longe daqui – Jessica agradeceu, muito feliz por não ter que pegar uma condução lotada.
— Tudo bem. Era o mínimo que podia fazer. Além disso, eu nunca vim até aqui, antes – comentou, olhando em volta – É estranho, pois é sempre tão silencioso assim?
— Não. Na verdade, a essa hora, as ruas ainda deviam estar bem movimentadas, nunca é tão deserto desse jeito – Jessica respondeu, intrigada, também reparando ao redor.
Alex continuou observado a sua volta, franzindo a testa em sinal de preocupação, como pressentisse algo diferente no ar. Nesse momento, a temperatura caiu muito, abruptamente.
— Engraçado, esfriou tão de repente – Jessica comentou, se abraçando e esfregando os seus braços para se aquecer.
Porém, Alex permanecia atento, como um animal na floresta escutando sons estranhos, esperando que algo acontecesse.
— Olhe! Que estranho! As luzes da rua estão apagando em sequência! – Jessica reparou, olhando para o fim da rua, onde as lâmpadas se apagavam uma após a outra, com a escuridão profunda se aproximando deles, Alex olhou para o fenômeno bizarro e franziu a testa.
— Jessica, suba na moto agora! – Alex mandou, com urgência, enquanto já acelerava a moto.
— Mas... – Ela tentou retrucar.
— Agora, rápido! – Alex repetiu com veemência, ela não titubeou, subiu, novamente, na moto, segurando firme nele, que saiu em disparada.
Entretanto, como algo físico, a escuridão os perseguia veloz, e quanto mais rápido corriam, mais depressa o negrume tentava se aproximar deles, até finalmente alcançá-los. Aí, eles se viram envolto em uma atmosfera escura e densa, como se pudessem segurar com a mão, feito gelatina, os movimentos ficaram lentos e a respiração difícil, a moto rateou até parar, então, desceram dela. Jessica não conseguia respirar, colocou a mão na garganta.
— Estou sufocando! Estou sufocando! – avisou com o resto de ar nos seus pulmões e caiu no chão, como em câmera lenta, desacordada, mas antes de perder completamente os sentidos, ela podia jurar que viu uma espada reluzente surgir na mão de Alex.
— Quem é você? Apareça! – Alex exigiu para o vazio, com sua espada empunhada, pronto para a luta, pois pressentia a presença de algum poderoso ser invisível, que seria o responsável pela escuridão, que os perseguira, sabia que o que estava acontecendo era por ação de alguém da sua espécie.
— Alexandre, herdeiro do Oriente e do Ocidente! Meu mestre ordenou que eu o levasse até ele – Ouviu uma voz fantasmagórica, quase sussurrando, que vinha de todos os cantos. Alex virava-se de um lado para outro, brandindo sua espada, com Jessica caída aos seus pés, desacordada, com uma tênue respiração.
— Quem é você? Quem é seu mestre? – Alex insistia, ansioso, sem enxergar seu inimigo, mas em resposta ao ar ficou mais frio, denso e escuro, seus movimentos mais lentos, ele olhou para Jessica, que tossia e ofegava, sufocando.
Ela vai morrer! Pensou, então se abaixou, segurou a mão dela e os dois desapareceram.
— Por que a trouxe aqui, Alex? – Ainda de olhou fechados, a cabeça vazia, Jessica ouviu uma voz feminina perguntar.
— Ela estava desmaiada, sufocando, parecia que iria morrer, não sabia o que fazer – Agora, Jessica reconheceu a voz de Alex, enquanto, voltava a coincidência lentamente, mas não conseguia abrir os olhos, pois suas pálpebras pesavam muito, percebendo que falavam sobre ela.
— Ela estava com você durante os dois ataques? – a voz feminina inquiriu.
— Sim – Alex respondeu.
— Você acha que ela possa ter algo a ver com isso? – De novo, era a voz feminina. –Será ela a garota do meu sonho?
— Não sei. Mas, não parece que ela tenha algo a ver com os ataques, pode ter sido só coincidência – Alex respondeu, novamente.
— Em todo caso, acho melhor mantê-la por perto, enquanto, tentamos descobrir algo. Vou falar com seu pai – E quando escutou passos se afastando, Jessica finalmente conseguiu abrir os olhos, ainda a tempo de ver a mulher alta e cabelos avermelhados, saindo do quarto, e Alex olhou para ela, com um ar enigmático.
— Até que fim, você acordou! Como se sente? – ele perguntou, gentilmente.
— Bem, só um pouco zonza. Aonde estamos? – Jessica quis saber, se apoiando nos cotovelos, mas sua visão embaralhou um pouco, mas logo melhorou e ela pode ver melhor o quarto com móveis e acessórios modernos, com fotografias de carros e motos em preto e branco nas paredes.
— No meu quarto – Alex respondeu de forma natural.
— No seu quarto?!
— Você desmaiou, não sabia o que fazer, então a trouxe para minha casa.
— Preciso ir para casa! Minha avó deve estar preocupada! – falou, levantando-se, rapidamente, mas, ficou tonta e sentou-se, outra vez, na cama.
— Não se preocupe. Minha mãe está avisando sua família, que você ficará conosco por um tempo.
— Não! Meu pai nunca aceitará isso! Eu não posso ficar aqui, na casa de completo estranhos! – Jessica negou com vigor.
— Não se preocupe com sua família. Minha mãe pode ser muito persuasiva. Ela consegue convencer qualquer pessoa de qualquer coisa – Alex replicou, displicente.
— Então, estou sendo sequestrada? – Jessica estava apavorada.
— Não, você só ficará hospedada aqui por algum tempo.
— Por quê?
— Para a sua segurança — ele revelou, de forma sucinta, sem mais detalhes.
— Isso parece mais um sequestro para mim? — Jessica rebateu com raiva.
— Você não tem ideia do que estamos lidando. Na verdade, nem nós temos, por isso, você deve ficar aqui até que os fatos se esclareçam. Enquanto isso, você pode tomar um banho. O banheiro e logo ali, tem toalhas limpas e minha mãe trouxe algumas roupas você para trocar.
Jessica se sentiu desnorteada, achando que tivesse caído no meio de um bando de loucos, mas como não tinha saída, resolveu aceitar a sugestão pois ainda trazia a areia da praia e a sujeira do asfalto de quando desfaleceu.
Foi para o banheiro, decidida que esperaria uma oportunidade para fugir ou pedir socorro a alguém. Após o banho, encontrou roupas, que ela nunca sonharia em poder comprar, um calça jeans, uma blusa e até mesmo uma bota e jaqueta, além de roupas íntimas, tudo de muito bom gosto e de jeito caro, e que, espantosamente, lhe serviram muito bem. E quando retornou ao quarto, encontrou uma bela mulher alta, atlética e de cabelos avermelhados a esperando.
— Olá, Jessica. Como se sente? — Ela perguntou de uma maneira simpática.
— Bem — a garota murmurou.
— Eu sou Diana, a mãe de Alex. – A garota se surpreendeu, pois, ela parecia uma irmã um pouco mais velha de Alex. – Não se preocupe, falei com seu pai e ele compreendeu, perfeitamente, a situação e concordou que você ficasse conosco.
— Meu pai entendeu que eu vou ficar na casa de vocês, assim de repente, sem mais nem menos? – Jessica sabia que aquilo só poderia ser uma tremenda mentira.
— Se quiser pode falar com ele? – Diana estendeu a mão e lhe entregou um celular para Jessica ligar para casa e acrescentou: – No entanto, acho que será mais seguro para sua família, se você ficar aqui conosco. – A garota compreendeu o recado, aquilo era uma ameaça.
— Pai, é Jessica. Você já sabe que não vou para casa hoje? – perguntou, insegura.
— Oi, minha filha. Claro que sei! Diana nos explicou tudo. Ela é muito simpática, parece ser uma pessoa muito boa. Eu e sua avó ficamos tranquilos por você estar com pessoas de confiança.
— Mas, pai ...
— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Boa noite, minha filha. Sua avó está mandando um beijo. – A voz do seu pai soava estranhamente calma e gentil, bem diferente da maneira seca como ele sempre falava.
— Boa noite, pai.
Desligou, resignada, sem acreditar nos seus ouvidos, Jessica olhou para o telefone completamente chocada, pois aquele homem não parecia com o seu pai protetor e ciumento, que nunca havia deixado ela dormir na casa de nenhuma amiga e, atônita, encarou Diana, que lhe retribuiu um olhar tranquilo, aquilo a deixou mais serena.
— Viu, Jessica, está tudo certo. Se quiser que eu fale com mais alguém, para explicar a situação. Um professor ou alguém parecido? – Diana se ofereceu.
— Sim – ela falou, sem emoção na voz – O responsável pela monitoria na universidade, o professor Raj.
— Claro!
Diana virou e já ia saindo, quando Jessica perguntou:
— Precisa do número do telefone?
— Não é necessário – Diana se voltou e respondeu, dando um sorriso confiante.
Jessica caiu sentada na cama e ficou se questionou, o que estava acontecendo afinal, nunca tivera um dia tão louco como esse, em toda sua vida.
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