Ao chegar ao quarto, uma criada esperava por Jessica para ajudá-la a se despir e soltar os cabelos.

— É uma pena que o seu senhor não esteja aqui para desfrutar da sua aparência – a mulher comentou, gentilmente.

— Como assim? – Jessica retrucou, irritada com aquela história toda – Ele não é o meu senhor!

— Desculpe mais eu pensei.... Vocês estão sempre juntos, cochichando pelos cantos. Ele é um imortal e você é uma...

— Mera mortal – completou Jessica, sarcástica.

— Desculpe-me se eu a ofendi, mas os senhores do Oriente são tão belos e diferentes – a mulher continuou sonhadora, enquanto tirava os enfeites do cabelo de Jessica – Principalmente, o príncipe Enlil. Ele é tão bonito, altivo, magnânimo. Dizem que ele é tão antigo quando o mundo – Jessica ficou calada, esperava que a mulher, também, se calasse não tivesse resposta, mas isso não aconteceu e ela continuou falando: – Vai ser uma pena, quando o mandarem para o mundo inferior – Aí, a garota começou a ficar interessada.

— Como você sabe disso? – Jessica a instigou.

— Desculpe, eu não posso falar sobre isso, pois serei punida.

— Não será se ninguém souber que você falou.

— Bem, se é assim. Sabe, ninguém presta muita atenção em nós, os servos, então falam tudo na nossa frente, como se não tivéssemos ouvidos. Mas, há algum tempo, eu ouvi uma conversa entre os senhores, dizendo que o príncipe seria uma moeda de troca ou algo parecido, que ele seria mandado para o mundo inferior para algo relacionado mudança de poder no Oriente ou algo assim.

— Você sabe quando será isso?

— Não, exatamente. Mas eles falaram que seria em breve, no próximo solstício, pois o tempo estava correndo contra eles.

— Qual é seu nome?

— Agripa, senhora.

— Então, Agripa, não conte que me falou isso para ninguém.

— De jeito nenhum, senhora. Eu poderia ser morta por isso.

Jessica não conseguia dormir, esperando Alex voltar da ceia principal, desejando que ele não resolvesse aceitar o convite das duas mulheres, que encontrou mais cedo e fosse para cama com elas. Ficou deitada, no escuro, assim, acabou adormecendo, e acordou ao ouvir barulho no quarto ao lado.

— Alex! – ela o chamou, baixinho – Você demorou? Pensei que não ia dormir aqui hoje? – Não falou nada sobre as mulheres, pois não queria deixá-lo mais convencido ainda. Ele a olhou, surpreso.

— Só sai depois que acabou a apresentação das dançarinas peladas – ele explicou, ela arregalou os olhos.

— Sério?

— Não, só estou brincando. Dionísio fala muito, mas nada de útil. Sabe que, nem depois de dois mil anos, ele não vai mudar – Alex observou sobre o amigo, que conhecia no seu próprio tempo.

— Eu tenho novidades. Primeiro, eu me encontrei com seu pai no corredor, ele ficou intrigado por você o ter chamado de pai, dei uma desculpa, mas não sei se ele engoliu. Porém, esse é o nosso menor problema.

— E nós temos outro problema pior? – Alex não podia acreditar, pois já estava estagnado, ali, naquele palácio.

— Eu soube que vão prender seu pai no mundo inferior ou coisa parecida.

Alex franziu a testa preocupado.

— Isso é mal! Ele já fugiu de lá uma vez. A ex-mulher dele, Eres, é uma das governantes daquele lugar, junto com o filho deles, por isso deve querer meu pai de volta.

— Quer dizer seu irmão. Você tem um irmão, Alex? – Jessica estava surpresa com aquela novidade.

— Eu não tinha certeza, até meu pai confirmar. Não o conheço, nem quero, pois dizem por aí que ele é da pesada. Sua informante disse quando será que mandarão Enlil para lá.

— Ela não tem certeza, mas acha que será no próximo solstício. Alex, precisamos tirar seu pai daqui o mais rápido possível.

— Isso vai ser muito difícil.

— Alex, o que é, exatamente, esse mundo inferior? – Jessica questionou, intrigada.

— Não sei. Para os antigos era uma punição, mas para a sua ciência do nosso tempo, talvez, uma outra dimensão.

— Uma outra dimensão? – Jessica ficou empolgada, com a possibilidade. – Isso é incrível! Vocês podem ir até lá?

— Não, Jessica. Há portais determinados, momentos específicos, porém não os conheço. Mas, nesse momento, preciso evitar que meu pai seja mandado de volta para lá.

— O pior é que teremos que fazer seus pais se apaixonarem, antes disso, pois se ele não a encontrar no futuro, você não irá existir – Jessica finalizou.

— Você tem alguma ideia? – Alex perguntou esperançoso.

— Não! Mas não podemos ficar aqui parados, somente, esperando.

— E o que você sugere, Jessica?

— Vá conversar com seu futuro pai e eu vou falar com sua futura mãe!

— Agora? – Alex quis saber.

— Sim, agora, pois não temos tempo a perder — Jessica decidiu. – Aliás, onde eu posso encontrar sua mãe?

— Eu a levarei até ela, depois irei até o meu pai – ele planejou.

— Senhora! – Jessica chamou, por de trás da cortina.

— Entre! – Recebeu a ordem, assim passou pela porta. Diana estava sentada em um divã, os cabelos ruivos, cacheados, soltos, como sempre sem maquiagem, havia retirado a armadura e usava uma túnica simples, parecendo quase uma moça comum. — O que deseja, Jessica? – interrogou, assim que a garota parou diante dela e fez uma leve reverência.

— Foi uma bela luta a de hoje, senhora. – Começou por subterfúgios até chegar ao assunto principal.

— Mas, eu perdi – Diana suspirou, conformada.

— No entanto, a senhora lutou muito bem!

— O príncipe Enlil lutou melhor. Ele não esmoreceu, porque sou uma mulher – ela declarou, com um certo respeito.

— Disse que ele é muito antigo, tem muita experiência em lutas, além de ser muito bonito – Jessica tateou por um tema perigoso.

— Eu não reparo nos homens, eles não me interessam, só pensam em oprimir as mulheres e torná-las escravas das suas vontades e desejos – Nesse momento, Jessica percebeu que estava diante de uma das primeiras feminista da história, porém tinha que continuar tentando.

— Isso é verdade, levará milhares de anos até que as coisas melhorem para nós mulheres – revelou, espontaneamente.

— Como você sabe disso? – Diana a encarou, abismada.

— Só uma intuição – justificou.

— Agora, eu descobri a verdade! – Diana exclamou. – Agora entendo porque você e o jovem Aleph estão juntos!

— Entende? – Era Jessica que não entendia.

— Você é um oráculo, uma vidente!

— Quem eu? Um oráculo? – Jessica foi pega de surpresa.

— Sua intuição. Foi assim que o jovem Aleph soube da guerra e você sabe o que acontecerá com as mulheres daqui a milhares de anos

— Sim, eu sou um oráculo. A senhora descobriu o meu segredo. – Aproveitou a deixa, respondendo de forma resignada. – Por isso, fui enviada para aqui, a fim de evitar a guerra.

— Enviada por quem? – Diana quis saber.

— Por um povo muito distante de terras que vocês nem sabem que existem – Jessica fantasiou a realidade futura, Diana a encarou, desconfiada.

— Como você faz suas adivinhações? Com água? Entranhas de animais mortos? Fogo? – A mulher a testou, ainda incerta, Jessica olhou em volta em busca de uma resposta.

— Vinho! Na taça de vinho! – concluiu ao ver uma taça sobre a mesa.

— Então, faça uma previsão – Diana ordenou, desafiadora, derramando vinho de uma ânfora na taça e entregando a ela.

Jessica segurou a taça com as duas mãos, a balançou, falou algumas palavras em inglês, tomou um gole, colocou a mão na cabeça e fechou os olhos.

— Estou vendo que seu pai pretende mandar o príncipe do Oriente para o mundo inferior, em troca de alguns favores – revelou, abrindo os olhos, para encarar Diana a fitando, chocada.

— Isso é verdade? – ela quis saber.

— Sim, senhora – Jessica confirmou, com segurança.

— Preciso falar com meu pai.

— Por favor, senhora, ele não pode saber que fui eu que a avisei – pediu.

— Ele não saberá. A propósito, que estranha língua foi essa que recitou?

— Uma língua muito poderosa de uma terra muito distante — declarou.