Diante da majestosa fachada do palácio esculpido no paredão da montanha de cor ocre, com ricos e delicados detalhes de ornamentos, Alex ficou admirado e imaginou quem teria feito aquele trabalho, poderia perguntar ao seu pai quando voltasse, se voltasse, mas não queria cogitar essa hipótese.

O grupo parou diante do imenso portal de metal dourado, que se abriu imediatamente. Seguindo o mesmo ritmo lento e debilitado, aqueles homens e mulheres entraram no imponente recinto de paredes e piso de pedra polidas e lisas, iluminadas por piras e tochas de bronze e ferro, onde ardiam um fogo de cor azulada, que não emanava nenhum calor, deixando a sensação de frieza no lugar. Como se conhecesse o caminho, o grupo prosseguiu, mas Alex percebeu que era a hora de se separar, pois, não queria enfrentar Eres, cara a cara, precisaria de um plano e não tinha nenhum, naquele momento. Esgueirou-se junto as paredes de pedra, se escondendo pelas sombras do lugar, sem ideia de onde poderia encontrar seu irmão Namtar

— O que faz aqui? – uma sombra perguntou, surgindo do nada.

— Eu estou perdido – confessou meia verdade.

— Fique com os outros – ela ordenou.

Sabendo que não poderia cumprir está ordem, evocou a sua espada e investiu um golpe certeiro com a sombra. A lâmina passou através dela, mas nada aconteceu a sombra continuou parada ali, no mesmo lugar, que mesmo sem expressão ou emoção, nem parecia surpresa com o gesto. Então, Alex percebeu que não poderia mandá-la para o mundo inferior, porque eles já estavam ali. Sem saber o que fazer naquele momento, desejou desaparecer, foi o que aconteceu. Ressurgiu em um outro recinto na penumbra, que parecia vazio, e como em todo lugar naquele mundo, era frio e silencioso, transmitindo uma sensação de angústia e desilusão. A porta se abriu lentamente, Alex esperou por qualquer coisa, menos o que viu, um homem jovem alto, moreno com cabelos, barba e bigodes pretos, bem aparados, vestido um terno caro de uma famosa marca italiana, falando em um telefone celular.

— Albert, eu disse que aquela banda californiana faria sucesso. Como eu sei? Simplesmente, eu sei! —– o homem respondeu ao seu interlocutor, Alex ouvia aquela estranha conversa escondido atrás de uma pilastra. – Quem? Aquele cantor inglês? Não, ele só é problema! Livre-se dele! Não importa que os críticos dizem, ele não decola — Mas, como se percebesse algo diferente sua voz abaixo de tom. – Albert, preciso desligar agora. Até mais! – Encerrou a ligação e se virou diretamente para Alex. – Saia daí! – ordenou.

Alex vacilou, depois deu um passo em direção da luz, os dois homens se encararam, surpresos, podiam perceber a nítida semelhança entre eles, ambos altos, morenos de cabelos e olhos pretos, os dois se pareciam com o pai.

—Namtar? – Alex questionou, indeciso.

— Há muito tempo que não me chamam assim – afirmou o outro homem com um sorriso torto.

— Como devo chamá-lo?

— Mark. E você deve ser o meu meio irmão caçula Alexandre?

— Sim, mas me chamam de Alex.

— E que o traz aqui, no reino da minha mãe, irmãozinho? – Mark indagou irônico

— Não me chame de irmãozinho! – Alex solicitou, aborrecido.

— Tudo bem – Mark mantinha um sorriso sarcástico nos lábios, quando o seu telefone tocou, ele olhou para a tela displicente e recusou a chamada. – Mas o que o traz aqui, Alex? Suponho que não seja nenhuma visita familiar.

— Não. Só quero que pare de me perseguir! – Alex exigiu, com veemência, Mark o encarou, espantado, mas seu telefone tocou outra vez.

— Esse vou ter que atender. Só um minuto – declarou, assim que olhou para a tela. – E aí, Melissa, contratou a garota? Ótimo, porque tenho certeza que ela será a maior revelação das passarelas daqui alguns meses. Sim, eu sei que sou o máximo. A gente se fala depois, estou resolvendo um assunto de família. Sim, eu irei a festa da Hillary nos vemos lá. Beijos! – Desligou.

— Você controla a vida de todo mundo? – Alex não conseguiu conter a curiosidade.

— Para falar a verdade, não. Mas posso distingui quem tem um bom potencial de sucesso, e que poderá ter um destino brilhante, mas o resto fica por conta de cada um – respondeu com um sorriso maroto. Depois, encarou Alex e prosseguiu: — Que história é essa que eu estou perseguindo você?

— Alguém ou alguma coisa está me perseguindo, tive informações que era você?

— Eu? Por que perseguiria você? – Mark ficou espantado, quando seu telefone tocou de novo, recusou a ligação sem mesmo olhar quem era.

— Porque você odeia a nosso pai e a mim.

— Tenho que confessar que nosso pai não é minha pessoa favorita. Quanto você, não me importo. Na verdade, não tenho tempo de perseguir ninguém.

— Então, quem seria? – Alex indagou, abismado.

— Não, sei. Talvez, minha mãe. Ela é um tanto rancorosa, ficou um pouco perturbada desde que Enlil foi embora. Eu também estava ficando assim, meio maluco. É o que esse lugar faz com você, então resolvi ir embora daqui, mas, de vez em quando, tenho que voltar para manter o equilíbrio de minha mãe, acalmá-la, para que não faça nenhuma besteira, como começar uma guerra ou algo parecido.

— Então, você vive no nosso mundo?

— Sim, há muito tempo. Só uma espécie de caça-talentos, um empresário, alguns dos maiores astros da atualidade e do passado foram descobertos por mim. Afinal, sou o Senhor do destino.

— Eu não entendo. Recebi informações que você era o meu perseguidor, por isso estou aqui para enfrentá-lo.

— Olha, irmãozinho, não tenho nenhuma intenção de lutar com você. Mas, acho que quem fez isso quer a discórdia entre nós e as nossas famílias. Há alguém por aí se passando por mim, para atrai-lo até aqui.

— Quem seria?

— Tenho uma ideia de quem poderia ser.

— Sua mãe?

— Sim, ela tem uma ideia fixa em Enlil, em castigá-lo. Ela não consegue superar a separação, mesmo depois de tanto tempo, acho que da maneira dela ainda amá-lo. Mas, depois que sai daqui, até entendi o porquê Enlil fez isso. Esse lugar é horrível, porém, esse é o destino da minha mãe, ela o escolheu – Mark revelou com pesar. – Mas, vou conversar com ela, não quero que me envolva com essa vingança maluca.

— Eu acho que ela já deve saber, pois eu mandei um dos guardiães de volta – Alex se lembrou da mulher que o atacou na caverna.

— Isso é mal! Mas, primeiro, tenho que tirar você daqui, antes que ela saiba da sua presença? Pois, Eres é a senhora desse mundo, é ela quem faz as leis, poderá decretar sua prisão eterna como invasor e acho que era isso que deseja. Venha, eu tenho um plano.

— Como saberei se posso confiar em você? – Alex indagou.

— Não poderá – afirmou Mark, olhando nos seus olhos.

Mesmo inseguro, Alex seguiu o irmão, atrás dos enormes e frios salões desprovidos de cor, até chegarem a uma porta.

— Meus aposentos – anunciou Mark, abrindo a porta, convidando Alex.

Como todo palácio o enorme quarto era cavado na pedra nua, frio e sem vida, Alex imaginou o irmão vivendo ali por toda sua existência.

— Eu sei que é um tanto lúgubre – Mark respondeu, como se tivesse lido seus pensamentos. — Um lugar desse deixa a gente meio maluco, cheio de pensamentos ruins. Por muito tempo, fiquei ao lado da minha mãe, compartilhei suas ideias. Um dia fiquei curioso, quis ver como era o outro mundo e gostei. Aprecio as luzes, as cores e as festas, pessoas bonitas e alegres, então fiquei por lá – explicava, enquanto abria um enorme armário trabalhando em madeira escura, tirando de lá algumas vestes em tons vermelhos e dourados, entregando a Alex. — Minhas roupas. Use-as, somos parecidos, assim você passará por mim.

— Por que você nunca procurou por ele? — Alex perguntou, enquanto mudava de roupa, colocando a roupa de estilo oriental, finalizando com uma rica e comprida capa dourada com um capuz.

— Pelo nosso pai? Ele nunca quis saber de mim. Quando ele foi embora minha mãe estava grávida – respondeu, com falsa indiferença.

— Mas, ele só queria sair daqui, imagino que ele era muito jovem e impulsivo, tinha medo desse lugar como eu e você.

— Eu sei disso. Antes não entendia, porque só conhecia esse mundo. Agora, que eu conheço o outro, eu entendo. Mas, Eres nunca entendeu, por isso eu volto de tempo em tempo, para que ela não se sinta abandonada outra vez. Agora, você precisa ir embora daqui.

— Mas, se eu não descobri que está me atacando, minha viagem terá sido em vão – disse Alex, depois de uma pequena pausa, prosseguiu. – Pelo menos, conheci você – Deu ao irmão um sorriso torto, Mark lhe devolveu um sorriso semelhante em troca.

— Por aqui, Alex. Saia e volte por onde veio – Mark lhe apontou a saída.

— Obrigado, irmão – disse Alex, com sinceridade, estendo a mão para o irmão, que surpreso, ficou parado por alguns instantes, sem saber o que fazer.

— Por nada, irmãozinho – respondeu, apertando a mão estendida na sua frente.