O senhor do tempo

28 O Mundo Inferior


O caminho parecia levar a lugar nenhum, um labirinto de estalagmites e estalactites, subidas e descidas sem fim. O ar ficava mais frio e uma estranha neblina densa começou a se formar, era um sinal que estava na direção certa, estava ficando esgotado, porém, não tinha tempo para descansar. No fim do túnel, um vulto surgiu e à medida que se aproximava, ele ficava cada vez maior, se mostrando enorme.

— O que quer aqui? – Sua voz era retumbante e tão assustadora quanto o seu tamanho.

— Eu preciso passar para chegar o mundo inferior — Alex disse sem rodeios.

— Eu sou o guardião do caminho. Não pode passar, volte por onde veio! – O gigante ordenou.

— Não! Eu preciso passar! – Alex rebateu, em reposta o gigante ergueu a mão que segurava uma enorme clava.

— Volte! – E mostrou a clava ameaçadora.

— Não! – Alex gritou, assim o gigante deu mais um passo na direção dele.

Pensando, rapidamente, calculou que precisaria chegar muito perto para usar a espada, mas o braço do seu atacante era mais comprido. Então Alex optou por seu arco, que apareceu, imediatamente, nas suas mãos. Assim, ele atirou a primeira flecha que foi rebatida com facilidade pela clava do gigante. Espantado com a façanha, o rapaz continuou atirando cada vez mais e mais rápido, mas o gigante continuava a andar na sua direção, rechaçando suas fechas como moscas, até ficarem frente a frente, a pouco passos de distância, o gigante não passava de uma sombra, sem feição, forma ou contornos, nada que pudesse identificá-lo, nem que demostrasse sua humanidade. Eram isso que se tornavam aqueles que passavam muito tempo no Mundo inferior, sem esperança e sem sentimentos, vagando por aquelas terras até perderem totalmente sua identidade, se tornando apenas sombras pronta para obedecer aos seus senhores.

— Quem é você? – o gigante indagou, parecendo perturbado. Alex ainda com seu arco pronto com a corda retesada, estranhou aquela mudança de atitude.

— Por que quer saber? – Alex questionou altivo, não podia passar insegurança diante do oponente.

— O arco. Conhecia alguém que tinha um arco como esse – O gigante revelou.

— Quem? – Alex ficou curioso.

— Eu não me lembro – O gigante declarou, confuso, tentando recordar da sua vida anterior. Alex viu aí uma oportunidade.

— Quem é você? – inquiriu, o gigante deu um passo para trás ainda mais cofuso.

— Eu?

— Sim, você. Quem é você?

— Eu não sei! – O gigante estava sofrendo com a falta de resposta, pela sua cabeça vazia, abaixou a guarda, poderia ser a oportunidade para atacá-lo. – Ártemis! – exclamou, finalmente, como se fosse um grande esforço.

Ao ouvir um dos nomes da sua mãe, Alex se surpreendeu, notando que a sombra gigantesca parecia levemente mais clara. – Ártemis! – ele repetiu, quase como um gemido.

— O que tem Ártemis? – Alex questionou, desconfiado, imaginando se o gigante seria algum desafeto de sua mãe. Talvez, ela o tivesse mandado para lá, por isso ficou mais atento.

— Não sei. Foi o nome que me veio à cabeça quando eu vi seu arco – O gigante afirmou ainda mais atordoado. – A linda mulher de cabelos ruivos, chamada Ártemis.

— Você a conheceu? – Alex quis saber.

— Sim. Eu suponho que sim — O gigante respondeu, vacilante. – Você a conhece?

— Vamos dizer que talvez a conheça? – Alex respondeu, evasivo, imaginando como aquela conversa toda poderia ajudá-lo, no entanto, era melhor que lutar com aquele gigante.

— Quem é ela? – O gigante ficou curioso.

— Ela é a dama da lua. A senhora da noite. A caçadora – repetiu os títulos conhecidos da sua mãe.

— A caçadora? Eu era um caçador – O gigante revelou e ficou mais claro, já deixando nítida algumas das suas feições, como o nariz reto e o queixo quadrado.

— Um caçador? – Foi como um estalo na cabeça de Alex, que se lembrou da história da constelação, do gigante que amava Ártemis e que morreu antes de eles se casarem. – Você é Órion, o caçador? – questionou o rapaz, e o gigante se quedou, surpreendido.

— Sim, eu sou Órion – disse, vacilante. – Eu sou Órion, o caçador! – repetiu, mais confiante. – Após aquelas palavras se seguiu um brilho intenso, que quando cessou, revelou a figura de um homem muito grande e musculoso de cabelos rebeldes e olhos castanhos, Alex deu um passo para trás assustado com a transformação.

Orion sorriu satisfeito pela recuperação da sua consciência.

— Quem é você, jovem guerreiro? E por que quer tanto ir para o mundo inferior? Sabe que lá correrá muitos perigos.

— Meu nome é Alex. Sim, eu sei, porém, preciso ir – reafirmou.

— Sabe que para regressar deverá pagar com um sacrifício? – Orion o orientou.

— Sei, mas qual?

— Você só saberá no momento exato – Órion profetizou. — Então, se está disposto a fazer o pagamento, pode passar. Logo adiante, o caminho se bifurca, vá para o leste, assim encontrará o reino de Eres.

— E você o que fará, Órion?

— Eu não sei – respondeu o gigante, cabisbaixo.

— Aguarde o meu retorno, Órion. Eu o levarei de volta para o meu mundo – Alex disse, mesmo imaginando o choque dele ao descobrir que Ártemis era sua mãe.

O gigante Órion saiu da frente e Alex prosseguiu o seu caminho.

— Alex! — Órion o chamou, ele se voltou – Como está Ártemis?

— Muito bem – respondeu Alex, depois continuou sua jornada.

A um certo momento, o caminho se bifurcou, com Órion havia dito, Alex pegou a estrada para o leste, a caminho do Oriente, antes deu uma olhada na ampulheta, ainda tinha muito tempo.

A cada passo que dava a neblina ficava mais densa, o ar mais rarefeito e frio, como se subisse uma montanha muito alta, mal conseguia enxergar um palmo na frente do seu nariz, então achou que estivesse perdido. Começou ouviu sons estranhos, que não identificou a princípio, no entanto, à medida que avançava, começou a entender. Esses eram os lamentos, as súplicas e o choro, os sons dos que sofrem. Os últimos requícios de sentimentos daqueles que entram naquele lugar para toda enternidade.

Entretanto, subitamente, tudo clareou e Alex pode ver a paisagem ao seu redor. Um lugar árido, desértico, o chão seco recoberto por seixos e areia em um tom de ferrugem, a única vegetação era pequenas moitas ressecadas, espalhadas, mais adiante, havia um lago de águas escuras e, mais além, altas montanhas subiam retas como um paredão. O ar era frio e seco e o céu tinha um tom pálido de um dia nublado. Sem saber o caminho certo, Alex pegou sua bússola para averiguar a direção da saída, andou no sentido oposto, para as montanhas. Assim quando mais andava, mais sentia-se desanimado, desesperançoso, triste, como se toda a sua vontade de viver fosse esvanecendo, por isso, sabia que não poderia demorar muito tempo naquele lugar. Alcançou uma estrada de terra batida, ainda em dúvida se aquele era o caminho certo, quando avistou um grupo de pessoas, homens e mulheres jovens e velhos, que andavam lentamente, arrastando os pés e cabisbaixo, em direção ao seu destino.

— Para onde estão indo? – perguntou a um homem de cabelos brancos, que vestia um terno caro, mas esfarrapado e sujo.

— Estamos indo nos apresentar a senhora – respondeu o homem, sem emoção na voz.

— A senhora? – repetiu, imaginando estar no caminho certo. – Onde ela está?

— No palácio – O homem disse, dirigindo o olhar para as montanhas bem em frente.

A princípio, Alex não percebeu, mas depois notou as linhas da fachada da construção magnífica escavada na pedra, que se confundia com a própria montanha. Tomou a decisão de permanecer junto ao grupo, para tentar passar despercebido.

À medida que se aproximavam do palácio, a densidade demográfica aumentava, haviam muitos homens, mulheres e até crianças vagando, com o olhar perdido, alguns deles já perderam a nitidez, outros eram somente sombras. O silêncio do lugar era sepulcral, não se ouvia um único ruído, nem mesmo o som dos passos no chão, não se sentia nenhuma brisa, só o ar frio e denso, o que aumentava mais a tristeza no peito de Alex.