Ao voltar aos seus aposentos, Alex teve uma surpresa, ao encontrar Jessica sentada ao lado de um rapaz alto, moreno, de cabelos encaracolados, sorridente, que derramava vinho em um cálice dourado que ela tinha em uma das mãos, os dois riam muito, pareciam se divertir, não notando a sua chegada, por isso, fez um barulho limpando a garganta.

— Alex, você voltou! – Jessica exclamou, alegre pelo vinho.

— Alex? – O rapaz interrogou, levantando a sobrancelha.

— Quero dizer Aleph – Jessica se corrigiu, rapidamente, percebendo a falha e emendando-se. – Este é Dionísio. – Alex sabia quem ele era, tinha se visto a pouco tempo no clube dele, Olimpios.

— Você não devia beber – disse Alex, de mal humor, tirando o cálice da mão dela.

— Não seja um estraga-prazeres, rapaz – Dionísio falou, com seu notório bom humor. – Estamos só nos conhecendo melhor. Jessica é muito engraçada.

— É mesmo? – Alex duvidou, com sarcasmo.

— Sim, muito engraçada e inteligente – ele confirmou, flertando descaradamente com ela, que agora tinha as bochechas rosadas pela timidez e pelo vinho. Os olhos de Alex faiscavam de raiva, mas ele se conteve.

— No que podemos ajudá-lo, senhor? – Alex perguntou, como cortesia.

— Na verdade, sou portador de um convite. Sabe estamos entediados, muito tempo disponível, nada para fazer, por isso, resolvemos fazer alguns joguinhos, umas lutas, para nos divertirmos. Vocês estão convidados.

— Obrigado, mas... – começou Alex.

— Não pode recusar, Aleph, pois seria uma desfeita para todos, principalmente, para o nosso senhor. Por isso, aguardamos vocês, na sala de jogos, antes da ceia. Até lá – Dionísio já saia, quando se voltou para Jessica. – Estou ansioso para encontrá-la novamente, Jessica. — Deu-lhe um sorriso maroto.

— Ele é tão gentil e engraçado – Jessica observou, assim que Dionísio saiu.

— Cuidado com ele, é um sedutor – Alex avisou, aborrecido.

Ela achou divertida a cara fechada de Alex, começou a rir, ele ia retrucar quando uma bela mulher entrou, sorridente, na sala onde eles estavam e Jessica reconheceu, imediatamente, a bela modelo internacionalmente conhecida, a mesma que vira no clube Olimpios, na noite que foram transportados para o passado. No mesmo instante, o ambiente se acalmou, uma doce sensação de bem-estar atingiu Jessica.

— Eu estava curiosa para conhecer vocês. Podem me chamar de Vênus – ela disse com uma voz melodiosa – Vocês e o príncipe Oriental são as grandes novidades dessa casa, há muito tempo, não acontece nada de original por aqui. – E continuou se estirando no divã, com movimentos naturalmente sensuais, estendendo a mão e pegando a taça de vinho a sua frente, tomou um gole. – Estou vendo que Dionísio já esteve aqui.

— Sim, ele esteve – confirmou Jessica, timidamente.

— Ele também está entediado, mas, pelo menos, hoje teremos alguma diversão – ela falou, tomando um outro gole do vinho. — Então, tive uma ideia. Jessica, vamos para os meus aposentos, eu vou arrumar você.

— Não, obrigada. Não é necessário – Jessica retrucou, mas Vênus se sentou rapidamente.

— Como não? – questionou, irritada.

— É claro que ela irá. Não é mesmo, Jessica? – Alex interveio

Jessica já ia abrindo a boca, porém, voltou atrás na resposta, ao ver o olhar reprovador de Alex, como se dissesse que não seria bom recusar o convite.

— É claro que eu irei – respondeu Jessica, prontamente.

— Então, venha comigo – Vênus levantou e saiu da sala, Jessica a seguiu.

Alex se largou, sentando no divã, mas mal fez isso outra pessoa apareceu, desta vez, era Diana.

— Onde está Jessica? – ela indagou, olhando em volta, sem cumprimentar Alex.

— Vênus a levou, estava entediada e queria fazer algo para se divertir, resolveu brincar de boneca com Jessica – Alex respondeu Diana, deu um leve sorriso.

— Então, nós veremos mais tarde durante os jogos – ela comunicou, já se retirando.

— Diana, você precisa conversar com o príncipe do Oriente, pois, até agora, só ele percebeu a verdadeira situação e o risco que nossa espécie corre.

— Quem é você para me dizer o que eu preciso fazer, rapaz? Como todos os homens querem dar ordens as mulheres! – replicou, zangada.

— Desculpe-me. Não quero dar ordem a senhora. Só estou apenas sugerindo que faça isso – Diana o encarou, contudo, não respondeu nada apenas saiu.

— Isso vai ser dureza – Alex falou para si mesmo.

Diana estava muito intrigada com a insistência daquele rapaz e da sua história, que estariam todos em perigo, e que o mundo como conheciam estavam preste a acabar, como ele previra no seu sonho. Ela podia ser uma caçadora, viver de modo rústico, mas era inteligente e sensível o bastante em relação ao mundo a sua volta. Às vezes, o rapaz parecia muito convincente, como se soubesse do que estava falando, em outras, parecia completamente louco. Ela já ouviu histórias sobre homens do Oriente, que se autoproclamavam profetas, alguns falavam sobre um deus único vingador, outros que o fim dos tempos estaria próximo, que um novo deus se aproximava. Seria algum inimigo desconhecido? Diana tinha conhecimento, que na cidade, por baixo da terra, escondidos entre os mortos, nas catacumbas, mais e mais seguidores desse novo deus se reuniam, falando de um profeta das terras do Oriente, no entanto, seus pares não se importavam muito com aquilo. Também, chegavam notícias, que ao norte, terras que pertenciam a eles, já estavam sendo invadidas e perdidas, que os bárbaros começavam a avançar na direção da sua cidade, de maneira feroz e indomável. Sendo assim, seria melhor saber mais, para isso, rumou para o outro lado da casa do seu pai, onde o príncipe do Oriente estava sendo mantido prisioneiro.

Diana entrou com cautela nos aposentos dele, não porque estava com medo, ela não temia a ninguém, principalmente, a um homem. No entanto, aquele ser era muito poderoso, mais antigo que seu próprio pai, foi um dos primeiros a surgir, estava ligado diretamente ligado a suas origens, seja elas quais forem.

— Senhor! – Ela o chamou mantendo a formalidade exigida entre os povos, ele estava sentando olhando o horizonte, não se voltou para ela. – Senhor! – tentou outra vez, desta vez ele virou, quando a viu, levantou-se, lentamente.

— Senhora! O que deseja? – ele a cumprimentou com uma leve inclinação da cabeça. Sabia quem ela era, já ouvira falar da filha do Ocidente, indomável e selvagem, mas nunca imaginaria que fosse tão bonita com seus cabelos vermelhos e seus intensos olhos verdes.

Diana se admirou, ele era alto, maior do que os outros homens que conhecera, seus olhos eram escuros e profundos, como se escondesse todos os segredos do mundo, tinha um porte altivo, movimentos suaves e seguros. Então, ela se lembrou que apesar de ser muito antiga, ele teria mais que o dobro da sua idade. Em toda sua existência, só houve um homem que a impressionara assim, mas, o fim da sua história bastante foi tragica, e a fez sofrer muito.

— Vim conversar. O rapaz do Oriente insistiu muito nisso.

— O rapaz? Ele é muito estranho! Você o conhece?

— Sim, ele é realmente muito estranho. Eu o conheci há pouco tempo. Ele insiste que conversássemos, algo sobre o fim dos tempos e de uma guerra que estar por vim.

— Eu lamento informá-la, mas acho que ele está certo. A ganância do seu pai, o fez invadir nossa terra. Meu pai não está satisfeito e, junto com o povo do Norte, prepara-se para avançar sobre a terras de vocês. Eu vim aqui, como um mensageiro, a fim de tentar evitar tudo isso.

— Mas meu pai não ouviu — ela admitiu.

— Não, assim como o meu. Entretanto, o nosso maior inimigo não está entre nós, ele não é visível, se infiltra lentamente como a água mina a terra, até que ela perder a estabilidade e desabar, provocando uma avalanche, que poderá destruir a todos nós.

— Suas palavras são muito pessimistas, senhor!

— Nós brincamos por muito tempo de deuses com os humanos. Eles não são uma raça conformada, sua curta vida os fazem querer respostas, por isso, eu sei que mudanças estão por vim. Preste atenção nos pequenos detalhes a sua volta, senhora.

— E se o senhor estiver mentindo? E se for apenas um espião do seu pai para nos enganar?

— Pense o que quiser, senhora. Já que minha presença aqui, contra a minha vontade, só piorará a situação. Meu pai já deve ter sido informado que sou prisioneiro, pois minha mãe é uma vidente poderosa, minha prisão poderá ser o estopim do conflito – Enlil a encarou e ela sustentou o olhar, mergulhando naqueles olhos tão escuros e profundos, como nada antes de tudo.

— Preciso pensar nas suas palavras e me informar sobre esses fatos, senhor. Nós nos encontraremos mais tarde, na sala de jogos.