— Alex, que sonho é esse? – Jessica parou repentinamente e perguntou, o encarando – Sua mãe sonhou com isso antes? Nós dois aqui na Roma antiga?

Alex sustentou o olhar, de um jeito sério.

— Primeiro deixe que eu esclareça algo para você. Minha mãe tem o dom dos sonhos, ela pode sonhar com o passado e com o futuro. Antes de contar esse sonho para você preciso dar algumas explicações. Vamos sentar ali. – Indicou um banco de pedra junto a um muro.

— Então pode começar – Logo que se sentaram, Jessica cruzou os braçosna frente do peito e olhou atentamente para ele.

— Como eu já falei, somos uma espécie muito antiga e imortal, alguns de nós tem cerca de dez mil anos, como meu pai, já minha mãe é mais nova, uns quatro mil anos – Alex revelou e o queixo dela caiu literalmente, mas ele continuou: — Todos têm a mesma origem, no oriente médio, mas acabaram se separando em dois grupos, o oriental do meu pai e o ocidental da minha mãe. Durante milênios, há uma disputa entre os dois grupos e, também, internamente, como em toda família. Meus avôs são os chefes desses grupos.

— Quer dizer que você é uma espécie de príncipe?

— Príncipe? Não! — Alex balançou a cabeça. — Mas, resumindo, há séculos atrás, meu pai conheceu minha mãe, quando foi capturado pelo o pai dela, mas ela o ajudou a fugir e foi punida pelo meu avô, passando muito tempo no Esquecimento.

— Esquecimento?

— Esquecimento. Limbo, mundo inferior ou sei lá como você chamaria, seria uma outra dimensão, então a mãe da minha mãe a tirou de lá. Enquanto, isso houve uma guerra feroz, e os antigos perderam parte do seu poder.

— Então, no nosso tempo, eles não são tão poderosos com são nesse agora? – Jessica prestava atenção.

— Não tão poderoso como da forma antiga, não há muita magia, mas seu poder vem de outras maneiras. Meus avós controlam boa parte do mercado financeiro mundial, mas são inimigos, porque meu avô materno manteve o meu avô paterno prisioneiro como uma estátua, por dois mil anos.

— As festas da sua família devem ser bem interessante – Jessica disse com sarcasmo.

— Não nos reunimos muito.

— Mas, e o sonho? – Jessica quis saber.

— Esse é o ponto, pois, no sonho da minha mãe, ela não conheceu o meu pai e, consequentemente, eu não nascerei.

— Como pode ser, já que você está aqui?

— Não sei. Porém, ela também sonhou com você, salvando a minha vida.

— Alex, talvez, a nossa volta ao passado faça parte da história, que tem que acontecer. No entanto, se você é imortal, como salvarei sua vida?

— Na verdade, não morremos da maneira que vocês mortais conhecem, contudo, vamos para uma outra dimensão, de onde é quase impossível voltar.

— O Esquecimento. Há muitas hipóteses sobre viagens no tempo, universos paralelos, realidades alternativas, mas não há nenhuma comprovação sobre isso, talvez, a sua espécie seja a respostas de todas estas teorias. Imagina poder estadar vocês – Jessica cogitou, entusiasmada.

— Era por isso que meu tio queria destruir a humanidade. — Alex revelou, um tanto irritado. — Nós seriamos como ratos de laboratórios. Não, muito obrigado. Por isso, nos mantemos incógnitos.

— Seu tio? — ela murmurou.

— Sim, Enki.

— O que faremos agora? – Jessica quis saber. Mudando de assunto.

— Procurar minha mãe – Alex respondeu, se levantando, mas sem querer esbarrou em um homem que caminhava na rua.

— Desculpe-me, senhor – Alex disse, virando-se para continuar seu caminho.

— Bárbaro insolente! – o homem gritou, segurando Alex pela jaqueta. – Como se atreve a me tratar assim, verme rastejante?

Mesmo pelo de surpresa, Alex conseguiu se livrar das mãos do agressor e se virou para enfrentá-lo.

— Eu já me desculpei, senhor! – repetiu, sem paciência, para o homem tão alto quando ele, porém mais forte e musculoso com cabeça raspada e várias cicatrizes espalhadas pelo corpo, além de estar visivelmente bêbado.

— Vou lhe dar uma lição para você aprender a respeitar um herói das arenas, seu pustula! — Então o homem se atirou na direção de Alex, no entanto, o rapaz foi mais rápido, se esquivando e a mão do agressor socou o ar. De novo, ainda mais irritado, o homem foi em direção de Alex, mas ele pulou para o lado como um gato, e o agressor caiu no chão, estatelado.

— Chega, Marcos! – gritou um dos acompanhantes do agressor. – Deixe o rapaz em paz! Você está bêbado e causando vergonha para nós gladiadores. – E ajudou o homem caído a se levantar.

— Você é bom rapaz! – disse outro dos acompanhantes. – Se um dia quiser ter uma carreira nas arenas, procure por Antonil de Pompéia. – Depois eles apoiando o amigo bêbado, se afastaram.

— Nossa! Você já pode ter um emprego aqui! – Jessica gracejou com ironia, Alex a respondeu com um olhar irritado.

Eles não perceberam, mas passaram a ser observados por um homem que assistiu toda à cena e, curioso, os seguiu pelas ruas, mantendo uma boa distância para não ser notado.

Enquanto, continuavam andando pela cidade, percebiam que quanto mais se afastavam da periferia, mais bonita os arredores ficavam, com grandes prédio e construções sustentadas por enormes colunas em mármore, fontes e jardim bem cuidados, homens com ar arrogante usando togas de tecidos preciosos e joias de ouros circulavam por ali, ainda se via alguns servos e escravos, contudo, quase não havia mulheres por ali.

— Aqui é a sede do poder, o Foro Romano – Alex explicou.

— Como vamos encontrar sua mãe aqui?

— Não sei, mas estou com fome.

— Eu também – Jessica concordou e procuraram um lugar para comer.

No momento em que eram servidos em uma pequena taberna, um lugar simples onde os moradores com um pouco mais de dinheiro, podiam ter uma refeição quente, cujo cardápio era sopa de cevada, legumes, queijo e pão, regado a hidromel, uma mistura de água e mel, o homem que os seguia sentou-se em uma mesa perto deles.

— Há outro imortal aqui – Alex sussurrou no ouvido de Jessica, no momento que comiam. – Posso sentir sua presença.

Jessica olhou ao redor discretamente, o lugar estava cheio, já passava das quatro horas da tarde, e os romanos faziam a cena, a última e mais completa refeição do dia, porém ela não conseguiu notar nenhuma pessoa diferente ali, Alex permaneceu atento, como um cão farejando uma caça.

— Será que ele também teve a mesma sensação que você, Alex?

— Acho que sim. Está vendo aquele homem sentado ali, eu o conheço no nosso tempo.

— Você pode falar com ele, pedir ajuda – Jessica estimulou, ansiosa para ter algum caminho a seguir.

— Só tem um pequeno detalhe, eu o conheço, mas ele não me conhece, só nos conheceremos no futuro. Acho melhor não me expor, por enquanto, pois viagens no tempo não é uma habilidade comum, nem mesmo para nós.

— Mas, ele não para de olhar para nós — Jessica observou.

— Vamos ver se ele se aproximará da gente. Agora, temos que encontrar Diana, ela é a deusa da caça e da lua.

A mulher que recolhia os pratos e pegava as moedas que Alex lhe entregava, deu uma gargalhada, quando ouviu que o rapaz acabara de falar, e Jessica percebeu que lhe faltavam vários dentes na sua boca, eles a olharam sem entender.

— Vocês querem encontrar a deusa Diana, bárbaros? Que ousadia! Primeiro que ela mataria você, meu rapaz, porque nunca aceitaria um homem lhe dirigindo a palavra. Depois, os deuses não andam pela cidade, se fazem isso, estão disfarçados. E além do mais, a deusa está no bosque, quando não está no Olimpo.

Alex e Jessica se entreolharam, a mulher tinha razão, não era na cidade que encontrariam Diana.

— Vamos para o bosque que circunda a cidade – Alex refletiu, assim que saíram para a rua, outra vez.

— Alex, eu estou exausta. Viajar no tempo é muito cansativo, e lembre-se, eu sou apenas uma simples mortal.

— Vamos procurar um local para passar a noite. Deve haver alguma hospedaria aqui por perto.

As ruas ainda estavam movimentadas naquela hora, porém, o número de pessoas já era bem menor, a cidade dormia cedo, pois ao raiar do dia recomeçava a vida e o trabalho. Por indicação, caminharam por uma viela vazia a procura de uma hospedaria, que a dona da taberna indicara, quando Alex se virou de repente, e para completa surpresa de Jessica, ele tinha nas mãos um arco com uma flecha, pronto para disparar.

— O que quer? Por que está nos seguindo – Alex gritou para o homem que vinha logo atrás deles.

— Só curiosidade – declarou o homem mantendo sua voz calma, os mirando, fixamente, com seus olhos escuros. – Queria saber por que um filho do meu povo está fazendo na capital do Ocidente e, agora, com uma arma estrangeira nas mãos?

— Isso não é da sua conta – Alex disse com insolência, queria que o homem fosse embora, sem mais perguntas.

— Acalme-se, jovem guerreiro, não vou fazer nenhum mal a vocês. Eu apenas quero conversar – o homem disse e mostrou as mãos desarmadas.