Naquele estranho momento antes do amanhecer, quando não é dia nem noite, Alex surgiu em um bosque nos arredores da cidade, percebendo que havia algo errado ali. Atentou, desconfiado, para perceber o mais absoluto e profundo silêncio. Não se escutava nem o farfalhar das folhas agitadas pela brisa ou os sons de pássaros despertando e insetos. O ar muito frio estava parado, estagnado, nada se movia. Era o prenuncio que algo extraordinário aconteceria ali, a qualquer momento, mas sabia que não faria parte desses fatos, seria só um mero espectador, então se escondeu e esperou. Não demorou muito tempo, o primeiro grupo surgiu na clareira mais adiante, composto por homens altos de barba e longos cabelos escuros, longas túnicas coloridas em tons fortes, recobertas por malhas de metal e capacetes em forma de cone, nas mãos traziam arcos pequenos e curvos, e espadas nas cinturas. No meio deles, reconheceu o seu avô paterno Anan, imponente em sua malha de metal dourado e seu capacete enfeitados por pedras preciosas. Eles olhavam ao redor, querendo explorar o desconhecido terreno, não perceberam o silêncio absoluto, o sinal que havia algo errado ali, apesar de estarem em alerta. Entretanto, tudo aconteceu muito rápido, um relâmpago ofuscante atingiu o solo junto a eles, seguido por um trovão ensurdecedor, a terra tremeu sobre seus pés, derrubando os homens, como pinos de boliches, antes que conseguissem se erguer, foram cercados pelos seus oponentes. Porém, apesar de estarem em desvantagens, os homens caídos foram rápidos, pois, eram fortes e valentes, assim começou uma luta feroz. As baixas aconteciam, os mortalmente feridos, simplesmente, desapareciam perdidos no limbo. Quando a derrota do povo que veio do Oriente parecia imprescindível, no meio da confusão da luta, Enki se aproximou do pai.

— O senhor deve fugir agora. Voltaremos para lutar depois – aconselhou.

— Fugir?! – O homem mais velho estava atordoado pela recepção inesperada.

— Sim. Deve ficar em segurança, para voltar e lutar outra vez. Vamos! – Enki solicitou, abrindo caminho entre os combatentes, até se afastarem do grupo, parando a alguns metros de onde Alex estava escondido. – Aqui estamos, senhor! – gritou, seu pai o olhou, sem entender.

— Obrigado, Enki! – A voz de Júpiter soou como um trovão, e ele surgiu. Pego desprevenido na armadilha do filho, Anan ainda tentou erguer sua espada, mas um brilho intenso o envolveu, cegando aquele que estavam a sua volta, e quando a visão retornou, no lugar do Senhor do Oriente, estava uma bela estátua dourada.

Está feito, pensou Alex.

— Cumpri minha parte no trato. Espero que cumpra a sua, senhor – Enki advertiu, no entanto, a resposta de Júpiter foi um sorriso irônico, e junto com a estátua, desapareceu. Mais adiante, os poucos soldados do Oriente que restaram, abandonados pelo seus lideres, debandaram, desaparecendo no ar. Logo em seguida, seus oponentes aos berros de vitória, também, desapareceram, ainda comemorarando. Cada grupo levou os seus feridos. Assim, em pouco tempo, o bosque voltou a normalidade, sem nenhum indicio evidente, que uma violenta batalha tivesse acabado de ocorrer ali.

Enki ficou parado no mesmo lugar, saboreando a vitória e o gosto do poder que desfrutaria, em breve, sobrepujando seus pai e irmão, tinha um sorriso de satisfação nos lábios.

— Como pode trair a sua família? – Alex gritou, não conseguindo conter a ira, saindo do seu esconderijo.

— Enlil! – Enki exclamou, surpreso, ao olhar o jovem de relance, mas reconheceu o erro. – Quem é você?

— Como pode entregar seu pai aos inimigos? – Alex deu um passo na direção do tio, sua espada azulada surgiu na sua mão.

— Não sei que é você, nem reconheço a sua espada – Enki declarou, se preparando para a luta. – Por que toma as dores de quem não conhece? Segue o seu caminho! – Tentou evitar a luta, contudo Alex não recuou, lembrando se dos ensinamentos do pai que deveria experimentar para conhecer o inimigo, atacou, as espadas se chocaram, com um som cristalino. Golpe após golpe, em uma luta feroz, Enki era um bom guerreiro, mas desconhecia aquele hábil e jovem lutador, poderia ficar ali por intermináveis horas. Em um momento de distração, Alex conseguiu ferir Enki, um grande corte no braço.

— Jovem guerreiro, deixaremos para lutar em outra hora – Enki declarou, com um sorriso maldosamente irônico nos lábios, e com um suave movimento desapareceu, deixando Alex frustrado para trás.

Nos seus aposentos, Jessica andava de um lado para outro, aflita, Nix ainda jazia dormindo pesado sobre o catre, quando Alex surgiu na sua frente.

— Alex! – exclamou, pulando no pescoço, quase o sufocando em um abraço apertado. — Por onde andou? Por que demorou?

— Calma! Está tudo bem – ele disse se livrando, delicadamente, dos braços dela, para olhá-la nos olhos. – Está feito. Anan é uma estátua, agora — Não parecia muito feliz ao relatar isso.

— Eu lamento, que não pode fazer nada para impedir, Alex – ela declarou com sinceridade, sustentando o olhar, por alguns instantes se viu perdida no fundo daqueles olhos, os corpos ainda enlaçados em um abraço, podia sentir o calor que emanava dele, seria tão fácil se aproximar e beijá-lo, mas tinha medo. Porém, Alex não teve o mesmo receio, a puxou para si e a beijou. Aquilo foi intenso, como se todo o mundo e os problemas desaparecessem ao seu redor, Jessica não conseguia raciocinar mais, queria apenas ficar ali nos braços dele. Felizmente, para sorte dela, Nix gemeu, se movendo no sono, assim se afastaram, ela ainda tonta, ofegante, lembrou-se do que as garotas falaram de transar com um imortal era viciante, de agora em diante, precisaria ficar muito atenta.

— O que faremos com ela? –Jessica quis saber, já pensando melhor.

— Tenho uma ideia – Alex respondeu. – Ajude-me a levantá-la.

Quando Nix acordou, sentada em um corredor, encostada na parede, não se lembrava absolutamente de nada do que havia acontecido e como foi parar ali, sem entender se levantou, ainda zonza, e rumou para onde se preparavam para a batalha.

— Onde estão todos? – perguntou a um servo que passava.

— Comemorando – ele avisou, a olhando de forma estranha.

— Comemorando? E a batalha? – ela questionou, confusa, o servo a olhou de modo estranho.

— Já houve a batalha. Nós ganhamos – o servo comunicou para Nix, que estava completamente atônita.