O segredo dos seus olhos
19 When I Look At You
Notas iniciais
Letícia sentiu um doce cheiro de cravo da índia . Ela adorava aquele condimento no beijinho doce de coco e no arroz doce . Seus olhos se abriram , e ela descobriu de onde vinha aquele cheiro do condimento. Do rosto do Pedro. Seu nariz havia se encostado-se ao rosto dele. Estava próxima o suficiente para beijar os lábios dele.
Letícia estava em choque .A mulher selvagem que havia dentro de si queria sentir os lábios daquele homem , mas a outra parte a punia por pensar em agir assim. Era errado. Porque ele era o seu melhor amigo.
Não um amigo colorido como o pessoal moderno das cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro .
Pedro sentiu que a energia do ar havia mudado. Abriu os olhos e se sobressaltou com o que viu.
Mas a parte racional de Letícia agiu. Ela se afastou do rapaz. Sentiu pela ultima vez a sensação que sentiu quando amassou os cachos de uvas sobre seus pés enquanto dançava com Pedro, e saiu.
Ela não sabia que havia prendido a respiração até aquele momento em que calçou os sapatos e correu para longe.
Não era para ter feito aquilo com o Pedro. Ela havia ido na festa só por causa dele.
— Senhorita Letícia, aceita um copo de água? – disse um rapaz com os cabelos ruivos e olhos azuis. Tinha barba com o mesmo tom dos cabelos. Seu nome era Cícero.
—Obrigada.
—Você está tão pálida .... – Tocou na testa dela. Estava fria.
Letícia sentiu um formigamento quando sentiu a mão daquele estranho .
—Está tudo bem com ela , Cícero? – chegou um outro rapaz .
Letícia achou que os dois eram irmãos.
— Sim, eu estou bem. – disse com a voz fraca. – Só queria beber um pouco de água e tomar um fôlego antes de voltar ao agito.
— Você ouviu , Ariel?!
—Então vou procurar o Pedro e informá-lo de que você está aqui. E veio em busca de um pouco de ar. Com licença . – disse sorrindo para o outro.
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Dorotéia estava conversando com sua amiga , Euclídes no celular pelo dispositivo WhatsApp sobre a festa da cidade , quando recebe uma foto tirada de um lindo casal dançando. E o casal não era ninguém mais , ninguém menos que Letícia e o Pedro.
Primeiro seu rosto fica em choque. Depois de um tempo olhando a foto, Dorotéia sente a química de amor entre os dois amigos ou pombinhos.
E chega até soltar um suspiro romântico .
Mas surge em suas costas a sua amada filha Melissa que solta um berro de horror ao ver sua querida melhor amiga nos braços de seu pior inimigo.
A verdade não poderia ter caído em pior momento. Tudo começou a fazer sentido para a Melissa. O olhar distraído de Letícia quando passava na loja de bolos, o modo como ela escolhia o chocolate no supermercado e o modo como se emocionava com um livro.
Letícia havia escondido o seu amor pelo Pedro dela. A sua melhor amiga, assim pensava Melissa, e que estava saindo silenciosamente com o Pedro quando ninguém estava olhando.
—Eu mato ele. Juro, mamãe , que agora eu mato esse , esse pobretão!
—Melissa , calma. É só uma dança.
Mas tudo o que a boba Dorotéia viu foi a porta batendo na sua cara.
Melissa estava correndo em direção a casa da avó doente de Letícia , Emaci. A única que entenderia e ajudaria à fazer Letícia ter razão. O seu plano para acabar com todos aqueles que estavam interferindo começou. E Emaci seria a sua ajudante contra eles.E ao mesmo tempo, uma das vitimas.
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Quando Pedro chegou ao local aonde a sua amiga Letícia estava , resolveu levá-la longe da multidão para poder respirar um pouco de ar gelado. Levou-a até o riacho.
Como a cidade inteira estava na festa , o riacho estava deserto e calmo. O casal atravessa a rua , e Pedro sente a brisa leve do vento soprar fazendo voar algumas mechas de cabelo sobre as bochechas de Letícia. Gostava quando ela usava o cabelo solto, deixando selvagem e ondulado. E aquele vestido vermelho...
Seus olhos cintilavam como se estivessem sonhando com aquela moça que parecia ter saído dos contos de fadas. Ou de seus sonhos.
Os dois se sentam na grama orvalhada vendo as estrelas sob o céu de noite.
—Pedro... você já leu um poema de Pablo Neruda chamado Ruas de Outono? –perguntou depois de se sentarem no chão sentindo num longo silêncio.
— Não.
—Esse poema virou uma canção da Ana Carolina com o mesmo nome, mas eu gosto da interpretação da Gal Costa. Já ouviu essa musica?
—A musica , sim. Qual é a sua parte favorita da música ?
—Não, eu não poderia . Para isso eu precisaria cantar.
—Então cante. Aposto que sua voz é linda... cante para eu dormir aqui nessa noite , Letícia.
—“Nas ruas de outono, os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia, vai passar
As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar...
Pedro dedilhou a sua voz clara e cheia de vitalidade como um músico tocando um instrumento ou um confeiteiro acrescentando a cobertura de chocolate no bolo de cenoura para seduzir os olhos de quem visse o doce ou no caso seduzir os ouvidos e o coração de Letícia.
—Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto.... — Pedro ficou tão envolvido com a música que se esqueceu de chamar a Letícia para continuar a cantar .
Sua voz se expandiu como se tocasse o corpo de Letícia com alegria e doçura na luz clara da noite enluarada . Claro que não foi intenção dele exibir um dos seus dons como cantor.
Letícia aplaudiu diante do lindo show que aquele homem que parecia ser sido um príncipe dos mares .
—Nossa ...foi tão bom te ouvir cantar.Finalmente , eu encontrei alguém ... que não me faz me sentir sozinha. Caramba! Que voz linda você tem!
—Você é surda? Porque só pode estar brincando comigo. Minha voz é de um cantor sertanejo muito ruim.
—Não, não. Sertanejo , não . Você tem voz parecida com o Frejat , lindo.
Ele olhou em direção à árvore, envergonhado . Estava quase amanhecendo.
—Obrigado, querida.
—Por quê ?
—Por tudo , por tudo o que passamos juntos. Você é um grande mulher .
—Te agradeço pelos elogios que fez para mim, meu amigo.Mas , eu estou falando sério . Você é um guerreiro. Muito forte!É e tão engraçado, eu me vejo em seus olhos , sabia? Sinto essa coragem de enfrentar o mundo em nome de um sentimento, do amor , eu me lembro de ser assim quando era menina!
— Era isso que eu tava pensando dês do primeiro dia em que nos conhecemos .É esquisito ... eu vejo... eu vejo que meus dias serão celestiais e felizes se eu ver você como naquele dia . Tão tímida como um botão de flor. Seu sorriso vibrante como as asas da borboleta azul . Ouvir a sua voz tão doce ...
Ele tocou o rosto dela com ambas as mãos fazendo ela suspirar com o toque quente e delicado , e se aproximou dela bem devagar olhando aqueles lábios vermelhos como cerejas frescas . Naquele momento o amor acumulado e contido do fundo do coração dele falou mais alto do que a razão . As mãos dela seguraram firme em seu pescoço . E Pedro sem pensar mais , beija mais fundo aquela boca delicada , suave e leve fazendo ele se conectar à um sentimento que nunca chegou a sentir assim.
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