As portas brancas do meio do corredor do hospital se fecharam levando o médico com seus enfermeiros .... e Pedro entubado para longe, longe de Letícia.

Em pleno estado de choque, Letícia andou lentamente até se agarrar nos braços do banco duro de madeira na igreja do hospital sentindo o perfume familiar das velas se derretendo lentamente como se fosse as vidas de todos os pacientes daquele local, pressionando o seu peito de angustia e ansiedade. Sentiu um arrepio nas costas e na nuca e um nó sufocante na garganta. O pânico tomou conta dela.

“O que foi que você viu em mim, Pedro, para se apaixonar por mim? Por que tive que causar tanta dor para você?”

Infelizmente a resposta não veio. Ele não estava ao seu lado para responder a sua pergunta por culpa dela. Sim, a garota acreditava que a culpa fora toda dela.

Por não ter declarado seus sentimentos, Pedro, agora, estava entre a vida e a morte.

Ela ainda sentia a sensação da mão quente dele se encaixando na dela , a sensação do coração palpitando ; enquanto acompanhava-o até a sala de cirurgia.

“Quanto tempo o coração leva pra saber
Que o sinônimo de amar é sofrer?”

Ao ouvir esse trecho da música de Zé Ramalho, uma das músicas preferidas dele, sem conseguir se conter seu rosto foi tomado pelas lágrimas cheias de tristeza e culpa.

Letícia chorou até ouvir passos de um senhor de idade, Seu Elias colocando sua mão, fazendo com que o seu poder de tranquilidade percorresse sob ombro dela. E Letícia sentiu as boas vibrações do bondoso senhor penetrando em seu corpo, e começou a respirar calmamente.

E assim que se acalmou, o cumprimentou.

—Minha filha...parece estar exausta. Está tudo bem?

—Não, não senhor. Eu estou perdendo o homem que abriu meus olhos para o amor, e que me amou de verdade!

—E você o ama tanto assim? Você corresponderia aos sentimentos dele?

— Sim, eu amo, amo de todo o coração. E eu te juro que faria qualquer coisa para trazer a cura em seu corpo machucado pelo tiro.

—Filha, se é assim que está sentindo então vamos rezar, juntos, para que Deus dê ao Pedro, o homem que você tanto ama para que ele tenha uma segunda chance ?!

—Sim, meu bondoso senhor.

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Alberto atendeu o telefone. Era Felipe dizendo que seu irmão Pedro Santarém, filho da Zilda e melhor amiga da senhora Vitória estava no hospital, em estado grave.

Vitoria chegou ao seu lado, preocupada com seu estado de tristeza.

E seu marido relatou tudo o que aconteceu. Vitoria permaneceu o tempo todo em choque, sentada na poltrona da sala de estar enquanto ouvia o seu marido relatar a tentativa de Melissa assassinar a sua neta Lívia, que foi impedida por Pedro que se lançou para levar o tiro no lugar de Lívia.

Tomada por ódio e raiva, Vitoria se levantou e gritou completamente exaltada:

—De que inferno aquela víbora da Melissa saiu? Nenhum monstro seria capaz de tentar matar a minha neta!

Alberto se aproximou de sua amada esposa e abraçou.

—Vitoria, precisamos entrar em contato com a Zilda e dar um ombro amigo para ela, e também a família de Letícia. E precisamos ir ao hospital ficar ao lado dela ...aquela pobre moça perdeu a sua avó e ... talvez perca o Pedro também. Precisa de nós. Do apoio dos amigos.

—Sim, vamos ajudar a Letícia.

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Felipe saiu correndo de seu carro e entrou na residência do seu querido irmão. A imagem dele deitado sob o chão, ensanguentado não saia de sua cabeça. Ele sentia tanta tristeza que resolveu fazer o que prometeu de achar o diário dele.

E Lívia correu em seu encalço.

A tristeza preencheu as suas almas de angustia ao pensarem em como ficaria vazio aqueles cômodos da casa sem a presença de Pedro. Assim como a vida deles.

Pacientemente, eles procuraram em cada canto. Abrindo em todas as gavetas do escritório até dos quartos. Graças ao anjo Cícero, que esteve ao lado do rapaz, Felipe encontrou um caderno de couro, o diário do irmão, debaixo da cama.

—Lívia, achei!

Felipe abriu o caderno e começou a ler as primeiras palavras cheias de tristeza e solidão do seu irmão, mas conforme virava as páginas recentes, Felipe viu o como o seu irmão preencheu –as de amor e a felicidade por estar amando Letícia. Até que chegou na página que seu irmão havia marcado para que ele lesse para Lívia.

—“Fui vitima da pior das calunias . No dia do noivado do meu irmão, Melissa foi capaz de me acusar como um lunático possessivo e que faria de tudo para separar a Lívia dele , para que não sejamos mais amigos.. . e irmãos. Me chantageou e contou essas mentiras para a Lívia. Eu sou inocente, eu amo o meu irmão e vou fazer de tudo para proteger a sua família porque eu quero o perdão deles .Nem que seja a ultima coisa que eu faça na vida.” E foi a ultima coisa o que ele fez, Lívia , porque ele correu para salvar você do tiro que ia te acertar.

—Não... – exclamou Lívia chorando e sentindo culpada pelo seu julgamento equivocado sobre o Pedro.

—Agora eu entendo porque ele pedia perdão para o nosso filho Alex ...porque ele sabia que iria ter que morrer para ter o seu perdão nas últimas horas , nos últimos instantes de vida dele . Ele falou que amava a Letícia, que se sentia um monstro por sentir isso por ela , no diário , porque sabia que à avó dela jamais permitiria ... Agora eu entendo todos os sentimentos dele.

Lívia se refugiou nos braços de Felipe.

—Felipe...me perdoa por ter acreditado na...

—Por favor ...não peça perdão a mim, Lívia ...acho que você se deixou ser enganada profundamente. Será que não está na hora de você o perdoá-lo? Para curá-lo?!

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—Então Pedro está em coma, doutora? – perguntou Letícia preocupada e com o rosto angustiado e lagrimas que não paravam de cair.

—Letícia, fique calma! Seu namorado está se recuperando muito bem. A respiração dele está melhor. A pressão está estabilizada. Ele só não acordou ainda. Mas em breve,ele poderá voltar para casa assim que seu quadro de saúde melhorar .

Mais tarde naquele dia...

Letícia foi ver o Pedro na UTI no horário de visitas. Não foi nada fácil. Uma burocracia para conseguir entrar. Crachás. Preencher papeladas. Havia stress, tristeza e nervosismo no ar onde passava. Ela detestava o cheiro de hospital, fazia brotar ânsias de vômito.

Assim que abriu a porta do quarto, Letícia se sentiu emocionada ao ver o seu amor deitado respirando com ajuda de aparelhos com aquele incessante barulho de bipe .

— Escute essas palavras! Por favor , Pedro...volte. Volte para mim.