O segredo dos seus olhos
4 Dinossauro
Notas iniciais
Depois do expediente, Pedro ia voltando para casa em seu lindo fusca , com seus óculos escuros tranqüilo escutando Cazuza e cantando junto.
E as vezes cumprimentando as pessoas que via passar.
“Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado...”
E de repente o rádio desligou sozinho. E Pedro , desesperado e sem sua trilha sonora começou a apertar todos os botões distraído sem prestar atenção no que acontecia à sua frente.
Até na moça que estava na bicicleta à sua frente.
Quando sua atenção voltou para a estrada , ele manobrou o seu carro para à esquerda , buzinando para tentar evitar de machucar a moça .
Enquanto a Letícia que descia a estrada caiu jogada na grama , mas não foi um acidente grave, considerando o que poderia ter acontecido. Sua bicicleta não ficou amassada , estava em excelente estado.
E quanto ao Pedro ; ele queria ter abrido a porta do carro e socorrer a moça, mas parecia que a porta estava quebrada por qualquer esforço que ele fazia para abri-lá.
Letícia gemeu de dor pela queda que sofreu. Ela limpou a sujeira que havia acumulado em seu vestido.
Mas a raiva tomou posse de suas atitudes e sua face depois que se levantou sozinha sem a ajuda do próprio motorista que ainda estava parado sem ação alguma no rosto.
—Você é cego! Eu acho um absurdo aprovarem motoristas como você, seu dinossauro.- E levantou a bicicleta sozinha amaldiçoando até a terceira geração da família dele e grunhiu esbravejada enquanto pedalava de volta à estrada.
Quando Pedro perdeu a Letícia, a garota da bicicleta de vista , sua ficha caiu , caiu completamente. E ele começou a rir de si, da situação em que ficou até começar a chorar da solidão em que se encontrou ali.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto e ele pensou que só poderia estar sonhando com aquela estranha coincidência de ter visto Letícia uma vez mais , parecia até que estivesse em um sonho acordado. Ele ainda estava sentado no banco do motorista , paralisado , com o rádio ainda desligado ao seu lado. Nos últimos dias , o tempo parecia passar sem que ele se desce conta das horas nem mesmo da data ou do mês em que estava. Parecia
que ele estava vivendo fora do corpo , amortecido para tudo.
Não parecia ser justo.
Porque não era justo ele sentir –se sozinho , morto por dentro, sem um AMOR. Nem por ele mesmo .
Ele sempre teve que reunir forças para aguentar em não sentir o seu ódio , ciúme em ver Lívia e Felipe juntos , principalmente do casamento deles.
Havia surpreendido os seus pais com a sua força e determinação de viver e ser o padrinho do casamento dos dois. Pedro não foi embora do casamento sem lutar com ele próprio . Manteve o seu singelo sorriso até o fim .
Os dias após o casamento eram apenas uma vaga lembrança para ele. Ocupara-se com os preparativos da abertura de sua casa de bolos. Mantivera-se firme e calmo ao longo de todo esse tempo porque finalmente ele poderia viver uma vida com clareza.
Sentiu- se grato pelo fim de tantos anos de sofrimento . Não pensou em sentir amargura e nem raiva por Lívia naquele momento em que seus débitos de sua vida passada lhe havia sido pagas .
E no banco do passageiro , o livro estava quieto como se estivesse esperando impaciente para reencontrar a sua dona .
Quando Pedro voltou a si , melhor depois daquele maremoto , deu a partida o motor do carro, o rádio voltou a funcionar. Mas a música que começou a tocar fez ele se sentir pior. Era o Porto Solidão na versão do cantor pernambucano Fagner.
“Rimas de ventos e velas
Vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando contra o caís
Me arremessando contra o caís...”
E seguiu a estrada com essa música tocando.
Chegando em casa, Pedro jogou as chaves na bancada e colocou as sacolas com suas pequenas compras do supermercado na mesa da cozinha.
Era um lindo chalé pintado de azul claro no lado de fora , e com a cor creme nas paredes da sala com duas janelas , que dão uma linda visão para as montanhas lindas de Belarrosa. Principalmente à noite.
Sua mãe havia deixado uma comidinha pronta para ele.
Mas ainda não sentia fome.
Ele atravessou a sala e foi direto no banheiro com um cansaço visível em seus olhos. Foi um dia puxado.
Ele abriu a torneira do chuveiro e se deixou levar pela água fria que fez escorrer todo o cansaço de seus ombros.
Seus pensamentos o levaram até à tarde , com a garota japonesa chamada Letícia que tinha mexido com o seu olhar de cor castanho doce como mel e marcante .
Letícia ... uma menina com rosto tão frágil , tão autêntica que ele não conseguia decifrar o seu mundo inteiro de pensamentos.
Seus cabelos castanhos – escuros ondulados que fugiam da nova tendência da moda chamada de chapinha. Com o seu sorriso radiante como uma menina inocente e seus lábios que ...
“Click”...
Seu coração começou a bater mais forte em seu peito ao se lembrar do toque de seda dos dedos dela sobre os seus dedos.
Pedro começou a sentir- se zonzo em pensar nela assim.
Não querendo prolongar o seu sofrimento , saiu debaixo do chuveiro e enxugou o seu corpo rápido indo para o quarto .
Colocou uma roupa seca e confortável e se preparava para comer a sua janta.
Assim que chega na cozinha desprevenido , seu celular toca.
“ Como diria o Machado de Assis – O coração é a região do inesperado.”
—Meu irmão ! – sussurra quando lê na tela do celular. Ele agarra o celular e aperta o botão , preocupado. – Oi , Felipe! Como está , meu velho?
Fale com o autor