Despertei com a cantoria de Julia no andar de baixo, minha irmã sabia como ser profundamente irritante.
Levantei, entrei em baixo do chuveiro e deixei que todo o cansaço dos últimos dois dias fosse relaxando sob a água quente. Julia e eu havíamos aberto todas as caixas, colocado a maior parte das coisas no lugar e hoje iriamos para o centro da cidade a procura de uma televisão e um microondas.
"De todas as coisas que eu não consegui aguentar na minha vida a comida e a o falatório dela eram as piores".
Fechei o chuveiro e me enrolei na toalha.
"Era estranho estar apenas a dois dias nessa nova casa, mas já estar sentindo falta da antiga. O apartamento onde vivíamos não era muito grande, mas eu ainda assim tinha um quarto só meu... Claro. Bem menor que esse, mas era meu."
Vesti um shorts jeans e uma blusinha branca básica e segui a passos lentos até a cozinha.
— Já levantou? — perguntou assim que me viu entrar pela porta enquanto desligava o fogo e colocando os ovos mexidos no prato.
— Com o seu show fica difícil continuar dormindo.
— Já vi que alguém aqui acordou com o humor azedo. — falou se sentando na mesa — Café?
— Aceito.
Peguei a caneca rosa do escorredor e me sentei na mesa.
— Animada pra hoje?
— Pra hoje? — perguntei fingindo que não sabia que ela se referia as compras no centro.
— As compras Raquel! — falou fazendo bico.
As vezes eu desacreditava que essa mulher na minha frente tinha 26 anos, eu com meus 19 as vezes era mais adulta que ela.
— Eu lembro...
— Então depois se troque que temos que ir pra lá ainda de manhã. — disse enquanto mordia uma fatia de pão — Erick vem hoje a tarde ai eu vou com ele para ver onde iremos montar a loja.
Erick era o melhor amigo da minha irmã, eles haviam conseguido verba suficiente para montar uma loja de instrumentos musicais. O que era o maior sonho de ambos.
— Como estão as coisas da loja?
— Erick ficou de ver o dono do ponto onde iremos montar a loja pra pegar a chave.
— Faz bem em deixar essas coisas com ele porque se depender de você... — comentei apenas para cutuca-la e funcionou.
— Olha aqui sua garotinha mimad...
— Vou me trocar! — a interrompi rindo por dentro.
Voltando para o quarto liguei meu celular a caixinha de som e fui procurar uma roupa ao som de Wake Me Up que é uma das minhas músicas favoritas de Avicci.
Enquanto eu olhava o guarda roupa a procura do meu vestido verde comecei a cantar e me virei a tempo de notar que as cortinas da janela que ficava na direção da minha haviam se mexido rapidamente. Senti um arrepio passar por todo o meu corpo, nesses dois dias eu não havia visto nenhum sinal de vida vindo daquele quarto.
— Raquel? — falou Julia da porta — Não enrola não minha filha tenho muita coisa pra fazer ainda hoje.
Desviei o olhar das cortinas azuis da janela e a encarei ainda sobre o efeito do susto.
— Tudo bem? — perguntou num tom preocupada.
— Sim, claro. — afirmei tentando afastar a estranha sensação que havia me acertado.
— Tem quinze minutos então. — falou com humor na voz novamente.
Peguei a primeira calça jeans que achei e uma blusinha xadrez azul e branca de botões na frente, entrei no banheiro e as vesti.

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— De 18 ou 20 litros? — perguntou Julia impaciente — Raquel está me ouvindo?
— Claro que estou. — menti. Eu não estava conseguindo nem pensar nela por conta da sensação que aquela cortina havia me passado.
— Está nada! — disse ríspida — Tire essas porcarias do ouvido! — terminou puxando os fones do celular com força.
— Calma ai! — falei após um gritinjo de susto — Você está me perguntando sobre o microondas não está?
— 20 ou 18 litros? — indagou com um olhar acusador.
— De segunda a sexta seremos só nos duas e o Erick de vez em quando então acho q o de 18 seria melhor. — respondi impaciente.
— Vou levar o de 20 moça. — falou se virando para a vendedora.
"Ah?!... Porque perguntou então?" pensei revirando os olhos e fazendo uma pequena careta por conta da infantilidade.
Segundo pelos corredores da loja de departamento eu vi uma cortina creme curta, perfeita para a minha janela.
— Para ai! — disse puxando com força o braço de Julia, que me fuzilou com o olhar — Quero aquela cortina. — terminei apontando para o mostruário.
— Moça poderia? — perguntou em tom amistoso e bem falso para a vendedora.
— Ah sim. Claro! — disse a vendedora abrindo um sorriso tão falso quanto.
Depois da loja das compras voltamos direto para casa.
— Você esta bem estranha hoje. — comentou enquanto abria a caixa do microondas e o instalava no armário da cozinha — Normalmente você fala mais que a própria boca quando o assunto é compras.
— Estou cansada. — admiti enquanto sentava na cadeira.
Ela me encarou por um momento, mas logo voltou para o microondas.
Era muito evidente o quanto ela tentava ser compreensiva comigo, desde aquele incidente todos me tratavam com muito cuidado, mas ela era diferente. Ela preferia me tratar como se nada tivesse acontecido embora em momentos como esse ela preferisse apenas se calar.
— Pronto! — gritou de satisfação — Teremos lasanha congelada para o almoço. — terminou com um sorriso enorme.
"Então ela também não suportava a própria comida?"

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.